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Angola

Inundação em Benguela: obra da natureza ou consequência da exploração capitalista?

Lilas Bernardo e Takbir Nvula

abril 25, 2026

Angola foi afectada por fortes chuvas nos últimos dias, tendo trazido alegria para alguns e forte tristeza para a grande maioria. No princípio desta semana,12 de Abril de 2026, a província de Benguela, localizada na região mais a sul da capital, Luanda, foi devastada por uma inundação fruto do rompimento do dique de protecção do rio Cavaco, tendo afectado 5 bairros periféricos, segundo o Novo Jornal, numa notícia publicada no dia posterior às enxurradas.

A inundação ceifou vidas humanas, propriedade, saúde física e mental das diversas famílias que foram atingidas pelas águas “desgovernadas”. Nesta senda, o Novo Jornal atestou, numa notícia publicada no dia 13 de Abril, que cerca de 4. 500 Famílias se encontram desalojadas, tendo perdido tudo, dados que contrastam com outros órgãos noticioso, onde a DW aponta para 8 000, o número de famílias que ficaram desalojadas e mais de 12 mortos.

A maior parte das informações vinculadas sobre a inundação apontam às intensas chuvas que se fazem sentir um pouco por toda Angola, onde apesar de ter sido Benguela quem mais sofre com isto, segundo a RTP, nos dados preliminares dos Serviços de Protecção e Bombeiros, avançados pela Lusa, a capital de Angola não foi poupada. As chuvas provocaram a inundação de 280 habitações, afectando 1400 pessoas, destruição de 55 árvores e dois deslizamentos de terras.

Para o caso de Benguela, menciona-se, circunscritamente, o rompimento do dique de protecção do rio Cavaco, fazendo teto com peneira, ao fato que segundo o Novo jornal “ a situação atual surge após as enxurradas que provocaram 27 mortes e destruíram 200 habitações, em várias partes de Benguela, sendo o Bairro Tchipiandalo o epicentro das ocorrências”.

Respostas paliativas estão sendo dadas e segundo o governador da Província, Manuel Nunes Júnior, citado pela DW, o problema não se limita ao ponto de ruptura e aponta para outras vulnerabilidades ao longo do rio e que, para resolução, entende que deve haver um trabalho completo. Nessa ordem, para acudir as famílias, criaram-se centros de acolhimento, onde as mais de 8 000 famílias se encontram, tendo sido movimentados médicos, equipes de tratamento de cóleras, cozinhas comunitárias e um conjunto de apoios advindos da sociedade civil. Apesar de tudo o que se está a fazer, pensamos que colocar o ónus na natureza é ilibar a ação humana consciente que se tem aproveitado da natureza desenfreadamente, desconsiderando qualquer consequência.

Muitos estudos já foram feitos sobre a situação de Benguela, tanto que não é a primeira vez que um mal dessa magnitude acomete essa comunidade pobre, composta pela classe trabalhadora, que anima a grande cidade, onde as águas das chuvas são motivos de felicidade e diversão, rasgando versos em papéis de oblação as chuvas. Já em Março de 2015, apenas para citar, inundações acometeram a Província de Benguela, resultando em mais de 100 mortos e 10.000 deslocados. Em Maço de 2019, na cidade de Catombela, em Benguela, causaram 17 mortes e a destruição de dezenas de residências. Logo se conclui que o fato não é novo e as mesmas medidas usadas no passado estão a ser usadas hoje, para remediar, enquanto se aguarda o pior, despreocupadamente, ou melhor é classe trabalhadora que morre, seus pobres postos de trabalho, num piscar de olhos, serão tomados por outros membros do exército de reserva industrial.

A Verdadeira Causa

Em Fevereiro de 2026, a LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional) publicou um texto sobre a “crise ambiental na África Oriental”, o texto aborda de forma concreta as causas da seca no Quénia, as inundações em Moçambique e de muitos outros fenómeno, ditos como “fenómenos naturais”, e suas consequências para a humanidade.

A exploração desmedida do sistema capitalista sobre a natureza, em busca de avultados lucros, é aqui apontada como a principal causa de tais fenômenos. A produção econômica industrial, que é a base sustentáculo do sistema capitalista, funciona pela exploração dos recursos naturais, o processo de produção industrial gera transformação na natureza, as indústrias libertam gases tóxicos para a atmosfera, estes gases libertados, sobretudo pelos combustíveis fósseis, geram um aumento do grau de aquecimento global (efeito estufa), este aquecimento faz com que a água da terra evapore num ritmo mais acelerado (ciclo hidrológico), causando o fenómeno da seca e das grandes descargas pluviométricas (chuvas intensas) que geram inundações e destruições.

Os efeitos da crise ambiental causadas pela exploração capitalista são globais, mas o seu impacto é diferente, a depender da sua localização geográfica e de que classe o indivíduo é parte. Dai surge a seguinte pergunta “por que razão os efeitos da crise ambiental têm maior impacto em países semicoloniais como Angola e o resto dos países do “Sul Global”?” A resposta é óbvia, é que os países semicoloniais são menos preparados em termos de recursos tecnológicos e financeiros para fazer face às grandes tragédias ambientais, ou seja, os países semicoloniais servem apenas como ponto de exploração e exportação dos recursos naturais para o abastecimento e funcionamento do sistema capitalista.

Constata-se que a China, União Europeia e os Estados Unidos da América são os maiores emissores de gases de efeito estufa, contribuindo com 42,6% das emissões globais. Os citados países, associados a Índia, Rússia, Japão, Brasil, Indonésia, Irã e Canadá, são responsáveis por 2/3 das emissões mundiais de gás de efeito estufa. Porém, das dez nações mais vulneráveis ao clima, no mundo, sete estão localizadas em África e a cada três mortes causadas por condições extremas ou stress hídricos, nos últimos 50 anos, uma ocorreu em África” (LIT-QI, 2026). A África é o continente que menos polui, mas é o que mais sofre com as consequências da poluição ambiental. A Província de Benguela e as demais partes de Angola e do mundo que sofrem, quer seja por chuvas torrenciais, quer seja pela seca e outras catástrofes naturais, são fruto desalinhamento entre as forças produtivas, onde a tecnologia está extremamente avançada, a natureza extremamente explorada e o homem extremamente marginalizado, vivendo a cada dia as consequência nefastas da egoísta exploração burguesa da natureza.

Nesse interregno entre o caos em quase todos os cantos do mundo e a necessidade de mudança, a questão que se levanta é “Quantos mais terão que morrer para abraçarmos a luta revolucionária contra o sistema capitalista?” A resposta tacitamente surge “ temos duas saídas, ou abraçarmos a luta socialista revolucionária internacional contra a exploração do sistema capitalista sobre a classe trabalhadora ou ficamos parados a assistir a morte da futura geração, a destruição do homem e da natureza, no final, a nossa destruição.

 Hoje foi em Benguela, onde será amanhã?

Lilas Bernardo e Pedro Calielie “Takbir Calielie”.

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