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Burkina Faso

Burkina Faso: O império contra-ataca. Traoré para se defender, mais bonapartismo

Cesar Neto e G. Hata

setembro 7, 2026

Introdução

As importantes mobilizações dos trabalhadores e da juventude levaram à queda do governo de Roch Kaboré, em janeiro de 2022, por meio de um golpe de Estado liderado pelo tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba. O governo de Damiba durou oito meses, e no final de setembro do mesmo ano um novo golpe de Estado colocou no poder o Capitão Ibrahim Traoré. A justificativa para o segundo golpe foi a incapacidade de Damiba para enfrentar a insurgência jihadista no país. Traoré chegou ao governo propondo controlar os grupos jihadistas, convocar eleições em dois anos e seguir o legado de Thomas Sankara[1].

Quem foi Thomas Sankara, também conhecido como Che Guevara da África? 

Todo líder das lutas contra a exploração e a opressão que tenha sido assassinado deve ser tratado com respeito. Esse respeito não nos exime de uma análise minuciosa de seu programa, de sua origem social e acima de tudo de seus métodos de luta. Nesse sentido, queremos analisar a proposta de Governo Democrático e Popular (GDP) defendida por Thomas Sankara.

O simpático nome GDP esconde seus objetivos e seu conteúdo de classe. O GDP prioriza a democracia burguesa em detrimento do poder operário e seus métodos. Quanto ao conteúdo popular, não diz se é um governo dos trabalhadores, da pequena burguesia, dos camponeses ou da própria burguesia.

A bem da verdade, Sankara não propunha a participação da burguesia no governo, mesmo porque o país era eminentemente agrário e de desenvolvimento bastante rudimentar nos anos 80 do século passado. Havia uma burguesia comercial que mantinha estreitas relações de intercâmbio com o imperialismo, vendia caro as mercadorias no mercado interno, e por esse motivo era rechaçada pela população, bem como pelo próprio Sankara. 

O  GDP era um governo policlassista. De forma diversa, a Revolução Russa, de Lenin e Trotski, foi dirigida pelos trabalhadores (empregados ou não) e tinha os camponeses como aliados. Esta é a nossa primeira diferença com o GDP de Sankara.

Outra diferença está relacionada com o internacionalismo e a expansão do processo revolucionário. A maior conquista da Revolução Russa foi a criação da III Internacional, com o objetivo de expandir a revolução. Muitos na África dizem que Sankara é o Che Africano, porém, Che Guevara, é bom lembrar, defendia a criação de um, dois, três ou mais Vietnãs pelo mundo, lutou em Cuba, no Congo e foi assassinado na Bolívia. Sankara, por sua vez, não propôs a criação de uma nova Internacional, também não teve a postura de Che. Pelo contrário, seu governo participava do Movimento dos Países Não Alinhados, que foi, em seu auge, um movimento burguês que se opunha tanto aos EUA como à URSS, por palavras defendia as lutas da classe trabalhadora, porém colocando em prática um programa alinhado à perspectiva de seus dirigentes burgueses.

O programa do GDP foi explicado em uma conferência, no dia 02 de outubro de 1983. Seu objetivo seria construir uma nova sociedade, livre da injustiça social e da dominação imperialista. Nessa conferência, Sankara explicou que “A filosofia da transformação revolucionária já está atuando nos seguintes setores: 1. exército nacional; 2. políticas relativas às mulheres; 3. desenvolvimento econômico”.

O papel do Exército Nacional, de acordo com Sankara, seria “Treinar cada soldado como um militante revolucionário. Acabou-se o tempo em que o exército era declarado neutro e apolítico, quando na verdade servia como bastião da reação e guardião dos interesses imperialistas”. A ideia seria boa se houvesse uma organização dos soldados por fora da hierarquia militar e esses se subordinassem a alguma forma independente dos trabalhadores e do povo pobre, como foram os soviets na Revolução Russa. Porém, os CDRs (Comitês de Defesa da Revolução), criados pelo GDP, atuariam junto com o exército e respeitariam a hierarquia militar. Ou seja, não haveria, e não houve, independência dos soldados e cabos, como ocorreu na experiência dos sovietes na Revolução Russa.

No que diz respeito ao segundo eixo, ou seja, políticas relativas às mulheres, um setor extremamente marginalizado na sociedade – e reivindicamos que tenha sido um dos eixos programáticos –, o GDP tinha algumas políticas que buscavam reduzir a enorme subjugação das mulheres no país. Entre essas medidas estava o fim das práticas de mutilações genitais, recorrentes no Sahel. Também proibiu a poligamia e a prostituição, embora a proibição à prostituição penalizasse as mulheres e eximisse os homens. As mulheres foram convocadas a exercer importantes cargos, inclusive ministeriais. Havia guarnições militares só de mulheres. Essas práticas foram sim bastante progressivas, mas se restringiam ao campo da democracia burguesa. 

O terceiro eixo programático estava relacionado com a economia nacional, a qual Sankara defendia que deveria ser: independente, autossuficiente e planejada a serviço do GDP. As principais medidas econômicas foram: a) reforma agrária; b) reforma administrativa; c) reforma educacional; d) reforma das estruturas de produção e distribuição.

A reforma agrária, ponto fundamental do programa, tinha como eixo: a) aumento da produtividade a partir da melhor organização dos camponeses e introdução de modernas técnicas agrícolas; b) desenvolvimento da diversificação da agricultura; c) abolição dos grilhões que atavam os camponeses a estruturas opressivas; d) finalmente, fazer da agricultura a base do desenvolvimento da economia. Um programa burguês, muito longe do programa para o campo expresso por Lenin nas Teses de Abril e em vários outros documentos. 

A partir dos elementos acima expostos e das próprias palavras de Sankara – apesar de ser reivindicado como o Che Guevara Africano –, pode-se afirmar que o GDP desenvolvido em Burkina Faso foi eminentemente um governo burguês. Diferente dos padrões africanos da época, mas um governo burguês. Sankara disse: “Nossa Revolução é anti-imperialista, mas é uma revolução que tem que ser feita dentro da estrutura econômica e social burguesa já delineada”. E mais, para não deixar dúvidas: “Estas são as características e as limitações da Revolução que começou aqui em 4 de agosto de 1983. Entendendo-a claramente e definindo-a exatamente, podemos nos precaver contra os perigos de desvios e excessos que poderiam dificultar o sucesso da revolução”[2].

As promessas de Ibrahim Traoré

No dia 30 de setembro de 2022, Ibrahim Traoré foi um ativo participante do Golpe de Estado contra o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba. Alguns dias depois (6 de outubro), foi empossado como novo presidente de Burkina Faso.

O novo presidente, segundo suas declarações, tinha dois objetivos políticos. O primeiro seria o de enfrentar e derrotar a crescente violência instalada no país por meio das milícias jihadistas. Para que se tenha ideia da presença dessas milícias jihadistas em Burkina Faso, o primeiro-ministro burquinense, Jean Emmanuel Ouédraogo[3], em audiência na Assembleia Nacional, deu um informe bastante questionado de que as milícias ainda controlam 25% do território do país. Já o segundo objetivo seria o de restaurar o governo civil por meio da convocação de eleições em dois anos.

A presença das milícias jihadistas e a incapacidade dos governos em derrotá-las foram fator fundamental a provocar as mobilizações juvenis e populares que protestavam contra a violência e a usurpação de suas terras por parte dos milicianos. As mobilizações já haviam derrubado o governo de Damiba e de seu antecessor. Traoré sabia dessas dificuldades e, além de se comprometer a derrotar as milícias, tentou demonstrar uma cara progressista, associando-se à imagem de Thomas Sankara, que, sem dúvidas, ainda é reivindicado pelas massas de Burkina Faso.

Ibrahim Traoré e o bonapartismo

Ibrahim Traoré ganhou muita visibilidade mais por suas falas do que por suas atitudes. Essa visibilidade, aliada a uma boa campanha (deepfake nas mídias sociais, com apoio russo), esconde seu real rosto, de um governo bonapartista. Há vários exemplos das atitudes bonapartistas de seu governo, e vamos demonstrar alguns.

Repressão contra os estudantes da Université Joseph Ki Zerbo 

Em 2023, os estudantes se mobilizaram contra uma Lei que regula suas promoções e qualificações. Essa Lei enquadra as normativas universitárias do país aos padrões europeus. Promulgada em 2009, ainda durante a ditadura de Blaise Compaoré, ela nunca foi totalmente aplicada e, no governo de Ibrahim Traoré, os estudantes se organizaram para impedir sua aplicação total. Para se ter uma ideia da nocividade dessa Lei, dos 1.180 alunos matriculados no primeiro semestre do referido ano de 2023, 523 foram obrigados a abandonar os estudos. A ordem de aplicar a Lei veio diretamente do Ministro da Educação, que, vendo a mobilização crescer, autorizou a invasão do campus universitário pela Companhia Republicana de Segurança (CRS), que dispersou com gás lacrimogêneo alunos do Mestrado da Unidade de Formação e Investigação em Ciências da Vida e da Terra (UFR/SVT) que estavam em greve[4].

Burkina Faso tornou-seindependente da França no dia 5 de agosto de 1960. Dentre os acordos assinados entre França e as ex-colônias, inclusive Burkina Faso, havia acordos militares. Assim, dois meses após a independência, em 17 de outubro, foi criada a Compagnie Républicaine de Sécurité. Seu primeiro diretor foi um policial francês – mesmo após a independência –, e somente depois de estruturados e criados os métodos repressivos a serem utilizados pela Companhia é que sua direção foi assumida por um burquinabê. A França perdeu seu controle sobre Burkina Faso, mas suas raízes repressivas contra os trabalhadores e os jovens do país permanecem com as atividades da Compagnie Républicaine de Sécurité[5].

Emissora de rádio é suspensa por três meses por chamar o governo militar de junta militar

Uma postagem na página do Facebook da Rádio Omega, em 30 de julho de 2025, “foi considerada como contendo comentários maliciosos e descorteses contra as autoridades de Burkina Faso”. A postagem se referia a uma manifestação na capital de Burkina Faso, Ouagadougou, sobre um influenciador digital burquinense que morreu sob custódia na Costa do Marfim. Nessa postagem, afirmava-se que “a Costa do Marfim é regularmente acusada pela junta militar de Burkina Faso de abrigar opositores e fomentar conspirações”.

Jornalistas que escreveram materiais que desagradaram o governo foram presos e obrigados a se alistarem no exército para serem “reeducados”

Denúncia da Federação Internacional de Jornalistas relata que quatro jornalistas foram sequestrados entre junho e julho de 2024 e reapareceram na condição de alistados no exército. Em março de 2025, três outros reconhecidos jornalistas, que escreveram contra a restrição da liberdade de imprensa, foram presos e reapareceram dez dias depois com uniformes militares e incorporados compulsoriamente às frentes de batalha contra os jihadistas.

A ruptura com o imperialismo francês e a nova submissão, agora ao imperialismo russo

Passados mais de sessenta anos da independência, Burkina Faso e outros treze estados africanos seguiam estreitamente vinculados economicamente ao imperialismo francês. A própria dinâmica decadente do capitalismo em sua fase imperialista levou a França a aumentar suas imposições econômicas e políticas às ex-colônias. Assim, o nível de vida que já era ruim foi piorando cada vez mais, e paralelamente a isso aumentava o sentimento antifrancês na região. A queda de Kaboré em janeiro de 2022 foi comemorada nas ruas com palavras de ordem  como “Fora França” e com bandeiras da Rússia sendo agitadas.

O sucessor de Kaboré, Damiba, que ficou no poder por apenas oito meses, estabeleceu relações mais estreitas com a Rússia. Ibrahim Traoré, que liderou o golpe de Estado responsável pela queda de Damiba, intensificou ainda mais as relações com a Rússia, primeiro por meio do Grupo Wagner, e depois ganhando um salto de qualidade na Conferência Rússia-África, em 2023. Essa conferência ficou marcada pelo inflamado discurso anti-imperialista de Traoré, um discurso bastante limitado, na medida em que nomeia a Europa em geral como imperialista e se propõe a construir novas relações com o imperialismo russo.

O incremento da insurgência jihadista

Quando o coronel Assimi Goita, em agosto de 2020, liderou o golpe de Estado contra Ibrahim Boubacar Keïta, o Mali inaugurou um processo político que mistura nacionalização de parte da produção mineral do país, expulsão das tropas francesas, restrição aos direitos democráticos e expansão desses métodos para Burkina Faso e Níger.

Como resposta a esse processo, os jihadistas do autodenominado JNIM (Jamāʿat nuṣrat al-islām wal-muslimīn, Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos), afiliado da Al-Qaeda, e as tropas do Estado Islâmico do Grande Saara (ISGS), com o apoio do imperialismo europeu, em especial do francês, não pararam de avançar. O general nigerino Abdourahamane Tiani, que tomou o poder em um golpe de Estado em 2023, acusou o presidente francês Emmanuel Macron e os presidentes de Benin e Costa do Marfim, Patrice Talon e Alassane Ouattara, respectivamente, de envolvimento no ataque ao aeroporto de Niamei no último mês de janeiro.

Os três países do Sahel (Mali, Burkina Faso e Níger) têm dois terços de suas 135 unidades administrativas controlados pelas forças islâmicas. Como consequência, o número de mortos na região, em fins de junho de 2024, estava em 11.200 pessoas, um número três vezes maior que o de 2021. A restrição à liberdade de imprensa nos três países dificulta maiores informações e acesso a dados mais confiáveis.

Nos três países, há cinco milhões de pessoas deslocadas de suas área de vivência. Em Burkina Faso, 20% das unidades de saúde e 5.300 escolas estão fechadas; como resultado, 40% das crianças do país estão fora da escola. A fome se alastra pelos três países, sendo que em Burkina Faso 2,3 milhões de pessoas passam fome.

Pressionado pela insurgência jihadista, Traoré não apela à classe trabalhadora. Apela ao bonapartismo

A pressão do movimento jihadista vem encurralando o governo de Ibrahim Traoré. Os jihadistas, hoje, são muito diferentes dos jihadistas da época da queda de IBK no Mali, em 2020. Hoje, estão muito bem equipados, inclusive utilizando-se de drones, que, segundo o general Abdourahamane Tiani, são financiados pela França e pelo imperialismo europeu, com apoio logístico do Benin e da Costa do Marfim.

Além dos jihadistas, Traoré tem que lidar com a crise do capitalismo e seus efeitos para os países semicoloniais, em especial, com a redução de gastos do Programa Mundial de Alimentos da ONU, que servia para minorar a fome da imensa massa de famintos e deslocados pelas milícias na região.

Paralelo a esses dois problemas – avanço dos jihadistas e crise mundial do capitalismo –, a classe trabalhadora, os estudantes e setores populares de Burkina Faso, nos últimos cinco anos, derrubaram dois presidentes, seus problemas não foram resolvidos e, para piorar a situação do atual governo, não há um clima de derrota entre as massas. Desse modo, Ibrahim Traoré deve estar enfrentando noites mal dormidas.

Nesse curto espaço de tempo, para defender seu governo, Ibrahim Traoré atacou o movimento de oposição, conforme demonstramos (repressão aos estudantes, fechamento de rádios, prisão de jornalistas, etc.), e mais: nomeou para os principais cargos do governo seus irmãos, tios, primos, cunhados e militares muito próximos[6].

Após a insurreição militar que derrubou o governo do tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, o novo governo, encabeçado por Ibrahim Traoré, se comprometeu a convocar eleições em dois anos, além de devolver o governo aos civis.  Porém, em maio de 2024, quando já estava para vencer o prazo de dois anos, foi realizado um “dialogo nacional”, do qual “participaram  representantes da sociedade civil, das forças de segurança e defesa e parlamentares da assembleia nacional de transição. Porém, a maioria dos partidos políticos boicotou as conversas”[7].

Na reunião de diálogo nacional foi aprovado que a duração do mandato seria estendida por mais sessenta meses, segundo o presidente do Comitê Organizador do Diálogo Nacional, coronel Moussa Diallo. Além de estender o prazo em mais cinco anos, Traoré poderá concorrer nas próximas eleições. Ou seja, serão dois anos de mandato já cumpridos, mais cinco anos da extensão e mais cinco anos de um possível novo mandato, resultando em pelo menos 12 anos no poder. Na mesma reunião foi aprovado também que os assentos da assembleia de transição já não serão divididos entre os partidos tradicionais. Doravante os cargos serão definidos pelo “patriotismo”, que será o único critério para a escolha de deputados.

O coronel Moussa Diallo faz parte do círculo íntimo de Ibrahim Traoré e, segundo o Africa Report, “Moussa Diallo é o segundo dos ‘padrinhos da segurança’ de Traoré. Instrutor na academia militar, este oficial de artilharia do regimento Kaya ensinou a Traoré e a vários de seus camaradas a arte da artilharia. Foi, portanto, a essa figura paterna que o capitão naturalmente recorreu após seu golpe. Alçado ao comando das forças armadas em dezembro de 2024, o chefe do Estado-Maior recebeu a missão de reestruturar o exército, contando com o recrutamento em massa de milicianos para formar os Voluntários para a Defesa da Pátria”[8].

A última grande cartada do governo bonapartista de Traoré foi a dissolução de todos os partidos políticos, que já estavam proibidos de realizar eventos públicos. Para o atual governo, “a proliferação de partidos levou a abusos, alimentou divisões entre os cidadãos e enfraqueceu o tecido social”[9]. “Antes do golpe, o país tinha mais de cem partidos políticos registrados, dos quais quinze estavam representados no Parlamento após as eleições gerais de 2020”[10].

Por um programa anticapistalista e anti-imperialista

Para melhorar as condições de vida das massas é necessário nacionalizar a produção mineral. Os minerais têm que ser 100% nacionais e explorados por empresas estatais, sem burocratas, sem militares, mas controladas pelos trabalhadores. Traoré, em um arroubo de nacionalismo, propôs “a criação de uma empresa estatal de mineração, que passou a exigir de empresas estrangeiras uma participação de 15% em suas operações. Mesmo mineradoras russas, como a Nordgold, têm de cumprir essas regras”[11].

O jornal Brasil de Fato comemorou a decisão do governo de Burkina Faso pela criação de uma empresa estatal e sua exigência de 15% nas operações de empresas estrangeiras no seu território. Porém, isso é muito pouco, abaixo da participação exigida por Mali, que subiu de 20% para 30%, e bem mais abaixo do que recebiam as empresas mistas de Hugo Chávez, que exigiam 50%. Para piorar, o Brasil de Fato diz que as empresas russas “têm que cumprir a regra”. Na verdade, essa defesa envergonhada da Rússia tem a ver com a caracterização que fazem os setores reformistas, que até hoje não reconheceram que a Rússia e a China já se transformaram em imperialistas. Aliás, essa não caracterização da Rússia como imperialista leva o governo de Ibrahim Traoré a um erro gravíssimo, na medida em que simplesmente troca o imperialismo francês pelo russo.

Um programa impossível sem uma direção revolucionária

As massas de Burkina Faso já mostraram sua valentia. Desde 2020 derrubaram dois governos. Ao mesmo tempo, com poucas armas – e, diga-se de passagem, armas obsoletas, nestes tempos de uso de drones – resistem aos grupos jihadistas.

A disposição de luta existe, o problema é que o governo de Ibrahim Traoré, ao contrário do que dizem os reformistas, é um governo autoritário, que atropela seus opositores e, por esse motivo, não desperta a confiança das massas. De fato, o atual governo de Burkina Faso, não temos dúvidas, não será consequente na luta anti-imperialista, tendo inclusive encontrado um imperialismo “progressista” para chamar de seu..

Somente com a construção de uma organização revolucionária programaticamente sólida, que reivindique os postulados da III Internacional antes da burocratização estalinista e que atualize o marxismo a partir da IV Internacional de Trotsky, haverá a possibilidade de avançar na expropriação da burguesia nacional e estrangeira e avançar rumo ao socialismo com democracia operária.


[1] Burkina Faso: Three Years of Broken Promises. Disponível em: https://www.ipsnews.net/2025/11/burkina-faso-three-years-of-broken-promises/.

[2]Thomas Sankara. The “Political Orientation” of Burkina Faso. Review of African Political Economy, No. 32 (Apr., 1985), pp. 48-55. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/4005706.

[3] Burkina: «près de 74% du territoire reconquis». Disponível em: https://www.wakatsera.com/burkina-pres-de-74-du-territoire-reconquis/.

[4] Université Joseph Ki Zerbo: courses-poursuites entre policiers et étudiants en grève. Disponível em: https://www.wakatsera.com/universite-joseph-ki-zerbo-courses-poursuites-entre-policiers-et-etudiants-en-greve/.

[5] Burkina Faso: Students Mobilize and Police Storm University. Disponível em: https://litci.org/en/burkina-faso-students-mobilize-and-police-storm-university/?utm_source=copylink&utm_medium=browser.

[6] How Ibrahim Traoré has built his fiefdom in Burkina Faso. Disponível em: https://www.theafricareport.com/406559/how-ibrahim-traore-has-built-his-fiefdom-in-burkina-faso/#group_1.

[7] Burkina Faso extends military regime by five years after national consultations. Disponível em: https://www.france24.com/en/africa/20240525-burkina-faso-s-military-rule-extended-for-five-years.

[8]  How Ibrahim Traoré has built his fiefdom in Burkina Faso. Disponível em: https://www.theafricareport.com/406559/how-ibrahim-traore-has-built-his-fiefdom-in-burkina-faso/#group_1.

[9] Burkina Faso junta dissolves all political parties – https://www.dw.com/en/burkina-faso-junta-dissolves-all-political-parties/a-75720851

[10] AES : le Burkina Faso annonce la dissolution des partis politiques – https://fr.africanews.com/2026/01/30/burkina-faso-le-gouvernement-militaire-annonce-la-dissolution-des-partis-politiques/

[11] BRASIL DE FATO – A revolução de Ibrahim Traoré: o que está acontecendo em Burkina Faso? – https://www.brasildefato.com.br/2025/08/17/a-revolucao-de-ibrahim-traore-o-que-esta-acontecendo-em-burkina-faso/

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