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Irã

Agressão imperialista completa seis meses sem sucesso

Fábio Bosco

setembro 7, 2026

A agressão imperialista para mudar o regime iraniano e subordinar o país aos Estados Unidos e a Israel, até agora, fracassou e pode se tornar na primeira derrota militar do governo Trump.

As poderosas máquinas militares estadunidense e israelense realizaram mais de 23 mil bombardeios eliminando os principais líderes iranianos, destruindo prédios públicos, indústrias, residências, escolas, hospitais e patrimônio histórico.

Preparado, o regime iraniano se renovou e se centralizou em torno da Guarda Revolucionária. Utilizando drones e mísseis, bloqueou o estreito de Ormuz e atacou as bases militares estadunidenses em vários países causando muito prejuízo e inviabilizando o funcionamento de várias delas.

O prolongamento da agressão reduziu qualitativamente os estoques imperialistas de interceptadores para a defesa antiaérea e de mísseis modernos, o que obrigou Trump a realocar equipamentos provocando crises diplomáticas e colocando em cheque as suas capacidades militares.

Além disso, o bloqueio do Estreito de Hormuz impactou toda a economia mundial e derrubou a popularidade de Trump dentro e fora dos Estados Unidos, o que tende a se refletir nas eleições de meio de mandato com eventual perda da maioria republicana na Câmara de Deputados.

Isso o levou a declarar um cessar-fogo no mês de abril, seguido do memorando de entendimento firmado em 17 de junho. Fiel à situação político-militar, o memorando de entendimento foi amplamente favorável ao Irã, garantindo de imediato:

1. O fim das sanções para as exportações de petróleo iraniano;

2. O fim do bloqueio aos portos iranianos;

3. A abertura do Estreito de Hormuz sob controle iraniano e omanita;

4. Um cessar-fogo regional que inclui o Líbano.

Após a assinatura do acordo, Donald Trump tentou reverter três pontos do memorando de entendimento:

1.Cessar-fogo no Líbano: Trump patrocinou um acordo neocolonial contra o Líbano, negociado com o governo libanês e o Estado de Israel. O acordo garante aos invasores sionistas a manutenção de tropas nos territórios ocupados e o recurso à ação militar quando julgarem necessário. Ao governo libanês, fica a tarefa de desarmar o Hezbollah, sem o qual Israel não se retira das terras libanesas. O governo libanês se comprometeu ainda a não recorrer aos fóruns internacionais para denunciar a ocupação e os crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelas forças israelenses.

2. Controle do Estreito de Hormuz: Donald Trump orientou três navios a cruzar o estreito por uma rota não autorizada pela Guarda Revolucionária Iraniana. Isso levou o Irã a lançar drones sobre as embarcações para obrigá-las a recuar, o que foi seguido por uma série de ataques militares estadunidenses contra áreas do litoral e, posteriormente, de outras partes do Irã, contra os quais o Irã reagiu militarmente.

3. Organizações do Eixo da Resistência: Este ponto não estava no memorando de entendimento. Donald Trump articulou com a Arábia Saudita para atacar organizações aliadas ao Irã no Iraque (as chamadas Hashd al-Shaabi) e no Iêmen (os Houthis do Ansar Allah). Isso levou os Houthis a declararem guerra contra a Arábia Saudita e afirmarem que navios originários de portos sauditas não podem passar pelo Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho.

Neste momento, ocorrem períodos intercalados de cessar-fogo e de ataques militares limitados na região do Golfo, em meio a negociações diretas ou intermediadas, mas os ataques militares sauditas no Iraque e no Iêmen continuam, além de agressões militares israelenses no Líbano, na Síria e na Palestina.

A questão palestina

O fracasso israelense na agressão ao Irã ainda não se refletiu na situação dos palestinos. Desde 7 de outubro de 2023, a resistência palestina teve duas conquistas:

1. A imensa onda de solidariedade internacional que, em particular nos países imperialistas ocidentais, ganhou corações e mentes, refletindo-se nas lutas, na situação política e nos processos eleitorais desses países.

2. O congelamento da normalização de relações entre os países árabes e Israel devido ao repúdio popular nesses países.

No entanto, o custo humano dessas conquistas é enorme, que se reflete na manutenção do genocídio em Gaza, na intensificação da limpeza étnica na Cisjordânia e em Al-Quds (Jerusalém), e na manutenção do regime de apartheid contra os palestinos nos territórios de 48.

A situação defensiva em Gaza levou o Hamas a declarar sua disposição de entregar o governo e suas armas para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza, previsto no acordo de paz de Trump, desde que as forças israelenses se retirem de Gaza, o que Netanyahu, de olho nas eleições israelenses, já rejeitou.

Já o Estado de Israel procura se recuperar do fracasso na agressão contra o Irã, impulsionando as agressões militares no Líbano, na Síria, em Gaza e na Cisjordânia, e forjando alianças regionais com os Emirados Árabes, Chipre, Grécia, Marrocos, além do Sheikh Hikmat al-Hijri (que se tornou o principal líder dos drusos na Síria após os massacres de 1.400 drusos em julho do ano passado).

No entanto o enfraquecimento de Israel se expressa no profundo desprestígio aos olhos das massas em todo o mundo, e nas crises internas: o êxodo de capitais e de trabalhadores especializados que antecedeu e que seguiu depois do 7 de outubro de 2023, a perda de credibilidade dos serviços de segurança, as dificuldades para manter o alistamento militar, a recusa da população Haredim de servir as forças armadas, a polarização eleitoral na qual nenhum bloco sionista deve ter maioria nas eleições de outubro, o que pode levar a uma sucessão de novas eleições sem maiorias estáveis.

Nova Configuração Regional

O fracasso da agressão israelense-estadunidense contra o Irã levou ao fim do sonho sionista de um “novo Oriente Médio” sob sua hegemonia. Além do Eixo da Resistência liderado pelo Irã, que se fortaleceu, a Arábia Saudita constituiu um novo pacto militar (Pacto de Meca) com a Turquia e o Paquistão, em alternativa à Israel e ao eixo da resistência liderado pelo Irã. Cada um desses três blocos mantém relações diretas com os países imperialistas.

Além desse pacto militar, a Arábia Saudita fez um acordo com os Estados Unidos para o desenvolvimento de usinas nucleares. Trump o fez antes que os sauditas firmassem o mesmo tipo de acordo com outros países interessados, como China, Rússia e França.

Outros países importantes na região procuram uma situação de equilíbrio entre esses três blocos, como é o caso do Iraque, do Catar e do Egito.

Tendências mundiais

As consequências mundiais desta agressão imperialista são profundas e seus primeiros aspectos já são visíveis:

1. Redução no crescimento da economia mundial. O Banco Mundial prevê uma redução para 2,5%, e ainda mais se o estreito de Ormuz não for reaberto. O impacto é maior nos países do golfo e na zona do Euro;

2. Fortalecimento relativo da China em sua disputa interimperialista com os Estados Unidos. Apesar de ser o principal importador mundial de petróleo, a China combinou a ampliação da importação do petróleo russo, o uso de suas gigantescas reservas de petróleo e a aceleração da diversificação de fontes energéticas (carvão e eletrificação) para evitar um impacto econômico significativo, e superar uma deficiência estratégica relacionada à dependência de fontes de energia do exterior. Além disso, fortaleceu qualitativamente sua narrativa de estabilidade nas relações internacionais ao condenar a agressão militar e defender uma ordem mundial multipolar baseada em regras. Uma outra iniciativa foi a fundação da WAICO (Organização Mundial para a Cooperação em Inteligência Artificial) em julho de 2026 com 29 países entre eles China, Rússia, Brasil e África do Sul para democratizar o acesso e controle da IA, uma resposta à Pax Sílica formada em dezembro de 2025 sob a liderança dos Estados Unidos com 24 países entre eles Alemanha, Itália, Holanda, Reino Unido, Israel, Japão e Coreia do Sul para estabelecer um monopólio sobre IA, chips avançados e cadeias de suprimentos que reduza a dependência de minerais estratégicos da China. Desta forma a China defende uma ordem mundial com regras que sigam favorecendo sua força industrial e comercial (já se tornou a principal parceira comercial da maioria dos países) em oposição aos tarifaços de Trump, o fortalecimento da “nova rota da seda” (BRI – Iniciativa do Cinturão e Rota) para integrar as economias nacionais de diversos países à economia chinesa, e organismos multilaterais como os BRICS, e a Organização de Cooperação de Shanghai (SCO) que une China, Rússia, Índia, Irã e outros países da Ásia central e que se reuniu no último dia 1 de setembro em Bishkek. A China adota uma diplomacia flexível, sempre exigindo o reconhecimento de seu direito à “reunificação” com Taiwan, e o silêncio à violação de DH em Xinjiang, Tibete e Hong Kong.

3. Decadência do imperialismo europeu e japonês. A agressão ao Irã impactou particularmente os países imperialistas dependentes de petróleo, e se combinou com processos anteriores – perda de competitividade industrial em relação à China, e no caso europeu perda de fontes de energia barata russa devido à guerra na Ucrânia, pressão de Trump para implodir a União Europeia e impor uma relação semi-colonial com os países europeus; (1)

4. Criação de alternativas ao Estreito de Hormuz: ampliação da produção de petróleo em países como o Brasil e Venezuela, novas rotas de exportação de petróleo e gás (oleodutos ligando os países do golfo ao mar vermelho e mar mediterrâneo), e a diversificação energética com ampliação do uso de carvão, energia nuclear e energias renováveis.

5. Aceleração da corrida armamentista. A agressão ao Irã expôs as fragilidades militares do imperialismo hegemônico, assim como a agressão russa à Ucrânia expôs as limitações militares da segunda maior potência militar. Por outro, essas agressões acentuaram as rivalidades interimperialistas e a necessidade de poder militar para competir na nova ordem mundial que está em construção. Todos os principais países estão ampliando seus orçamentos de guerra, em detrimento dos investimentos sociais em educação, saúde, moradia, previdência social e meio ambiente.

6. As ilusões de Zelenskyi no presidente Trump. O governo Zelenskyi bombardeou um navio comercial iraniano no Mar Cáspio em 25 de julho, às vésperas de uma reunião com Donald Trump, na esperança de conquistar o apoio estadunidense contra a agressão russa. No entanto, essa tentativa, a qual repudiamos, é errada e ilusória. Na visão de mundo estadunidense, expressa em sua Doutrina de Segurança Nacional, um dos objetivos dos Estados Unidos é dividir a Europa para melhor submetê-la, passando-a de sócio menor para a condição de subordinada. Esse objetivo é compartilhado com Putin. Por isso, a política dos Estados Unidos em relação à agressão russa à Ucrânia é premiar Putin com uma parte do território ucraniano, retirar-lhe as sanções e voltar a convidá-lo para integrar as reuniões do G7.

Nossa posição

Nossa política frente à agressão estadunidense e israelense a qualquer um dos países e povos da região (Irã, Líbano, Síria, palestinos ou Houthis) é de unidade militar com os países e povos agredidos, sem que isso implique em qualquer apoio político aos regimes e organizações que os lideram. Defendemos o direito dos países e povos agredidos a requerer e obter armas para sua autodefesa. Ao mesmo tempo:

– Defendemos o fim de todas as sanções contra o Irã e o descongelamento dos ativos iranianos no exterior;

– Exigimos do regime iraniano o fim das execuções e a libertação de todos os presos políticos. Desde o início da agressão em 28 de fevereiro, o regime iraniano já enforcou 24 manifestantes presos em janeiro;

– Defendemos o armamento geral da população iraniana para enfrentar uma eventual invasão terrestre de tropas americanas e israelenses;

– Apoiamos as manifestações operárias e populares em toda a região. Exemplos dessas manifestações incluem as redes de presença protetiva contra a violência dos colonos fascistas na Cisjordânia; os protestos de cidadãos iranianos contra a execução de dois manifestantes na cidade de Isfahan em 28 de julho; os protestos de professores iranianos por salários em 6 de setembro; os protestos em Beirute contra a normalização das relações com Israel; os protestos contra o assassinato de Mohammad Ghmeira sob custódia policial síria em Lataquia; as ações de autodefesa da população síria contra a ocupação israelense no sul do país; e as greves por salários e protestos por justiça contra os remanescentes do antigo regime sírio, ocorridos em várias cidades da Síria.

Por fim, fazemos, ainda, um chamado internacional pelo fortalecimento das ações de solidariedade à resistência palestina e contra a perseguição aos ativistas pró-Palestina em todo o mundo, na perspectiva de uma Palestina livre, do rio ao mar.

Notas:

(1)

https://litci.org/pt/2026/06/18/crise-existencial-da-ue-e-como-enfrentar-os-ataques-que-estao-por-virparte-1/?utm_source=copylink&utm_medium=browser
https://litci.org/pt/2026/06/30/crisis-existencial-da-ue-e-como-enfrentar-os-ataques-que-estao-por-virparte-2/

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