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Estados Unidos

O imperialismo estadunidense está perdendo no Irã e perderá ainda mais

A resistência iraniana evidencia a fragilidade do imperialismo e a necessidade de uma luta popular contra a opressão capitalista.

Carlos Sapir

agosto 20, 2026

Meio ano depois que Trump iniciou a guerra contra o Irã, a República Islâmica não apenas sobreviveu, mas encontrou uma nova vantagem econômica e política em seu controle sobre o comércio marítimo, ao mesmo tempo em que parece ter mantido sua capacidade militar para continuar se defendendo dos ataques.

O balanço de Trump frente ao consenso imperialista bipartidário

Os objetivos públicos de Trump nesta guerra tiveram mudanças repetidas. As ameaças de uma mudança de regime foram esquecidas, já que os Estados Unidos agora lutam para recuperar a situação que existia antes da guerra.

O fracasso de Trump nesse sentido fica ressaltado diante dos esforços de seu predecessor, Barack Obama, que havia conseguido um pacto que trocava uma flexibilização das sanções contra o Irã por compromissos para fechar as vias para a produção de armas nucleares. Trump se retirou desse plano, já por si coercitivo, durante seu primeiro mandato. O fracasso da abordagem de Trump é evidente no fato de que foram propostos rascunhos para um cessar-fogo e uma possível paz com o Irã nos quais os Estados Unidos ofereceriam praticamente o mesmo alívio de sanções que havia prometido Obama, em troca não do acordo de Obama, mas de um retorno ao status quo anterior à guerra de livre comércio através do estreito de Ormuz.

Existe uma ironia adicional no fato de que os ataques dos Estados Unidos e de Israel, longe de garantir uma mudança de regime, parecem ter consolidado o regime. Ambos também o salvaram da maior ameaça à sua legitimidade em décadas (os protestos massivos de janeiro e fevereiro) e lhe permitiram eludir uma crise de sucessão relacionada com o falecimento do aiatolá Ali Jamenei.

Sob a proteção dos ataques aéreos imperialistas, o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana (CGRI) pôde consolidar rapidamente a sucessão de Mojtaba Jamenei, evitando as críticas públicas que provavelmente teriam acompanhado tal nomeação fora de tempos de guerra. Embora Mojtaba Jamenei tenha um vínculo dinástico com seu pai assassinado, seus laços políticos pessoais se baseiam muito mais no aparato militar-industrial do CGRI do que nas instituições religiosas que seu pai representava. A política emblemática de Ali Jamenei foi uma fatwa (proibição religiosa) contra o desenvolvimento de armas nucleares. Parece pouco provável que Mojtaba Jamenei compartilhe a opinião de seu pai sobre este assunto. Na medida em que os Estados Unidos têm realizado uma “mudança de regime”, parece que substituíram o regime por um ainda mais comprometido com as ambições nucleares e a confrontação militar com os Estados Unidos e Israel.

Trump se encontra, portanto, em uma encruzilhada. A guerra goza de uma impopularidade sem precedentes entre o público em geral, já que apenas um terço da população dos Estados Unidos a apoia. Espera-se que essa popularidade diminua ainda mais se ocorrer qualquer tipo de escalada que resulte em um número significativo de baixas americanas. No entanto, dentro do governo dos EUA e da classe capitalista, o governo de Trump se encontra agora encurralado pelos políticos que fizeram suas carreiras exigindo guerra com o Irã e pelos apoiadores de Israel (nem todos do partido Republicano) que se recusam a aceitar a derrota militar que o governo de Trump sofreu.

Irã ameaça reescrever as regras do comércio internacional

Embora Trump pareça encurralado e desesperado por encontrar uma solução, os sinais públicos do Irã até o momento sugerem que se sente bastante seguro de sua posição, apesar do dano econômico que sofreu. Ao longo de julho e no início de agosto, rejeitaram ofertas imparciais de Omã para a administração conjunta do estreito de Ormuz, e finalmente seguiram em frente com um acordo que parece ser um fortalecimento da autoridade do Irã sobre o estreito, com concessões menores para Omã e outros Estados do Golfo que se mostram de acordo.

As intervenções diretas do Irã contra o comércio marítimo, tanto no estreito de Ormuz quanto em áreas mais distantes —com forças aliadas que também ameaçam os navios vinculados à Arábia Saudita, Israel e Estados Unidos que atravessam o mar Vermelho—, desestabilizam as normas do livre comércio internacional que constituíram a maior conquista da ordem capitalista após a Segunda Guerra Mundial. A afirmação da autoridade do Irã sobre o estreito de Ormuz poderia levar outros Estados, como a Indonésia (onde se encontra o vital estreito de Malaca), a reconsiderar sua própria influência geopolítica, o que minaria ainda mais a economia capitalista mundial.

Trump conseguiu evitar algumas das piores repercussões econômicas derivadas das interrupções comerciais ao recorrer massivamente à reserva estratégica de petróleo que os Estados Unidos acumularam ao longo de décadas e exportar parte dela, o que preservou uma via vital de acesso ao petróleo para a economia mundial. No entanto, isso continua sendo uma solução provisória: quanto mais os Estados Unidos e outros pilares econômicos reduzirem suas reservas de combustível, menos flexibilidade terão para reagir a futuras crises de suprimento. Reduzir as reservas dá mais tempo antes que o suprimento se esgote, mas isso tem pouco significado a longo prazo se os Estados Unidos não conseguirem restabelecer o tráfego através do estreito de Ormuz.

O esgotamento militar dos EUA e as novas guerras do século XXI

Embora os primeiros dias da guerra tenham sido marcados por repetidos anúncios do governo Trump de que as munições iranianas haviam sido completamente destruídas, a realidade parece ser quase o oposto. Relatórios do início de agosto sugerem que os EUA esgotaram quase completamente seu suprimento tanto de mísseis interceptores defensivos quanto de mísseis de ataque de longo alcance. Em outras palavras, os Estados Unidos esgotaram quase completamente sua capacidade militar global contra o Irã e não têm nada a mostrar em troca. O Irã, por sua vez, parece disposto a continuar lançando mísseis através do Golfo.

Os Estados Unidos demonstraram que, apesar de toda a sua tecnologia e infraestrutura militar, já não é capaz de projetar seu poder de maneira decisiva no Oriente Médio, nem mesmo contra um Estado com um respaldo militar mínimo por parte das potências imperialistas. O cálculo geopolítico internacional que dava por certa a superioridade militar dos Estados Unidos em todo o mundo desmoronou, e as Forças Armadas dos Estados Unidos se verão sobrecarregadas na hora de responder aos desafios futuros, enquanto tentam superar a falta de munições que elas mesmas acabaram de gerar.

Esta evolução no Irã reflete uma situação semelhante na Ucrânia: o cálculo militar do final do século XX, que favorecia aviões a jato de elite e de última geração, assim como colunas de tanques, foi derrotado pela produção em massa de drones relativamente econômicos. As doutrinas militares de superioridade aérea em torno das quais se estruturaram as potências dos Estados Unidos, Israel e Rússia agora estão obsoletas. Os drones de fibra óptica que a Ucrânia utiliza para eludir os sistemas de radar russos agora também são empregados pelo Hezbolá para sobrevoar as defesas israelenses, enquanto a Rússia despliega drones Shahed de estilo iraniano contra os sistemas de defesa antimísseis de design americano da Ucrânia, embora já não tenha conseguido conquistar mais território ucraniano. A guerra mudou e ameaça o suposto poder e a autoridade de qualquer Estado que ainda não tenha se adaptado.

O final da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã ainda está por ser escrito. Mas, aconteça o que acontecer a seguir, o imperialismo estadunidense já sofreu golpes ao seu prestígio, autoridade e credibilidade dos quais talvez nunca se recupere. Neste momento de fraqueza, é vital continuar organizando manifestações e movimentos contra a guerra nos Estados Unidos, elevar os custos políticos do rearmamento e consolidar as massas populares que estão indignadas pelos crimes violentos do imperialismo e que estão tomando medidas contra a economia capitalista que o alimenta.

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