Crisis existencial da UE e como enfrentar os ataques que estão por vir(Parte 2)
A crise da União Europeia e a luta da classe trabalhadora: um chamado à organização e à resistência.
Como explicamos na primeira parte deste artigo, a União Europeia (UE), o dispositivo unitário do grande capital dos países europeus criado em um mundo onde a supremacia norte-americana era indiscutível, é filha de uma ordem mundial em crise, que não existe mais tal como a conhecíamos após a segunda guerra mundial. Neste quadro convulso, a UE entrou em uma crise existencial, com sua economia em decadência em relação aos EUA e à China e sentenciada pela nova política exterior de Trump, que se propõe explicitamente a desmantelá-la.
Os efeitos da crise da UE nos regimes políticos dos países europeus. A classe trabalhadora entra em cena
A crise da UE em meio à crise da ordem mundial está tendo também um forte impacto nos regimes políticos de cada um dos diferentes governos europeus, onde vemos a dificuldade para formar governos estáveis, ou inclusive a queda de governos que aparentemente tinham todas as condições para assegurar estabilidade parlamentar. Esta instabilidade mostra o aumento da disputa entre os diferentes setores da burguesia, e um aprofundamento da polarização social e política e da luta de classes que demonstram que a classe trabalhadora tem capacidade para enfrentar os ataques.
Em 2025, vimos um ressurgir da solidariedade em apoio à Palestina e contra o genocídio sionista, que conseguiu impulsionar greves e mobilizações históricas em diferentes países que serviram para politizar toda uma geração de jovens. Itália viveu uma onda de mobilizações sem precedentes nas quais é necessário destacar as três greves gerais em 22 de setembro, 3 de outubro, 28 de novembro e a manifestação nacional de massa em 4 de outubro em Roma, unindo as reivindicações trabalhistas, a luta contra o rearmamento e a solidariedade com a Palestina.
Essas greves nas quais o governo de Giorgia Meloni enfrentou sua crise mais profunda desde que assumiu o poder, foram referências para a classe trabalhadora mundial e influenciaram o resultado do referendo dos dias 22 e 23 de março, no qual a reforma da justiça impulsionada por Meloni foi rejeitada nas urnas. Esta primeira derrota do governo Meloni no terreno eleitoral se tornou uma crise interna nos partidos de governo, expressão de uma fratura inicial entre o governo e a grande burguesia, e em um enfraquecimento do governo como um todo. Meloni pode se manter no governo apenas porque a oposição burguesa não está propondo sua queda. A Cgil, o principal sindicato ligado ao Partido Democrático, não quer fazer nem greves parciais porque sabe que a situação social pode explodir, como já foi em setembro/outubro. A participação massiva nas manifestações do dia 25 de abril, aniversário da vitória da Resistência sobre o fascismo, testemunha essa situação efervescente.
Na França, houve igualmente importantes mobilizações em setembro e outubro em resposta direta a Lecornú, contra os planos de austeridade e cortes orçamentários herdados de seu predecessor, François Bayrou. A consequência mais direta foi sua demissão em 6 de outubro e sua posterior renomeação por Emmanuel Macron quatro dias depois, criando um governo técnico ou de transição, com uma legitimidade muito questionada nas ruas. Após esses protestos, Lecornú propôs suspender a aplicação da reforma das aposentaodorias/pensões até 2027 para tentar acalmar a tensão social.
Portugal viveu uma jornada de luta histórica com greve e mobilizações contra o novo pacote de medidas do então primeiro-ministro Montenegro em 11 de dezembro de 2025. Foi a primeira mobilização desse tipo em 12 anos (a anterior datava de junho de 2013) e conseguiu paralisar grande parte do país. Essas mobilizações foram desviadas para o terreno eleitoral pela burocracia sindical e pela esquerda parlamentar, mas foram determinantes para configurar o cenário das eleições presidenciais de 2026, marcadas pela polarização social e política nas quais o eleitorado se mobilizou em torno do candidato do Partido Socialista para evitar o triunfo da ultradireita Chega que, pela primeira vez, conseguiu passar para o segundo turno presidencial.
A raiva continua contra as políticas do governo de Montenegro. As manifestações do dia 25 de Abril, em memória da revolução portuguesa, refletiram por sua dimensão e conteúdo, essa vontade de lutar. E há possibilidade de que se avance para a segunda greve geral.
No Estado Espanhol, por trás dos bons dados macroeconômicos, subjaz a consolidação de um novo padrão de exploração da classe trabalhadora onde, para garantir os lucros empresariais, a precariedade laboral se generaliza, os salários caem, há uma perda sustentada dos direitos trabalhistas e a juventude se vê sem futuro. Após anos de cortes, privatizações e falta de financiamento dos serviços públicos, os/as trabalhadores/as da saúde, da educação, da assistência social ou da limpeza, começaram 2026 convocando greves e mobilizações em todo o Estado.
Também na Bélgica ocorreram mobilizações importantes e várias greves gerais em 2025 e uma nova greve impulsionada pelos principais sindicatos do país em março deste ano contra as políticas de austeridade e as reformas do sistema de aposentadorias/pensões do governo liderado por Bart De Wever.
Portanto, o marco político nos países da UE é instável devido a essa crescente polarização social e a burguesia utiliza a alternância de governos de direita e de «esquerda» para frear essa polarização. A derrota eleitoral de Orbán, que contava com o apoio de Trump e Putin, demonstra que não existe um processo determinado de mudança autoritária na Europa, nem uma «onda de direita».
No contexto da crescente polarização, há um crescimento relativo de grupos de ultradireita. Esse crescimento é numericamente diferente em cada país e tem nuances diferentes. No caso da Itália, esses grupos foram utilizados como apoio eleitoral a Meloni e não tiveram nenhum peso em sua política de governo. O caso da Alemanha, com o crescimento eleitoral da AfD, deve ser, por outro lado, cuidadosamente observado.
Existe uma ofensiva ideológica da ultradireita em alguns setores da classe trabalhadora e da juventude, que precisamos enfrentar. Esta realidade obriga os ativistas a se organizarem frente a este setor e a organizar unitariamente a resposta massiva. Uma resposta que deve ser associada à luta pelas reivindicações sociais e democráticas, ancorada nos locais de estudo, trabalho e de vida e acompanhada com a organização da autodefesa.
Nossas tarefas e nosso programa
Analisamos a decadência dos imperialismos europeus e a ofensiva antioperária e antipopular em andamento, que é inseparável do movimento em direção a Estados e governos cada vez mais autoritários que futuros governos de ultradireita poderiam recrudescer. Mas também vimos o enfrentamento e a disposição das massas para lutar. O caminho passa então por dar continuidade a essas lutas, tentando organizar a classe trabalhadora, a juventude e os setores oprimidos com independência de classe, de todos os blocos burgueses.
Isso não tem nada a ver com a construção das chamadas Frentes antifascistas, que surgem em período eleitoral. Além de que é estéril limitar-se a combater a ofensiva da ultradireita no âmbito parlamentar, essas frentes eleitorais levam nossa classe a ficar subordinada a um pacto com organizações que respondem a distintos setores da burguesia, que defendem interesses contrários aos nossos.
Os partidos social-democratas há muito fazem parte do sistema do qual se apresentam como “o mal menor”. Quanto aos poucos partidos comunistas residuais que ainda persistem e à esquerda institucional que nesses anos apareceu como alternativa à social-democracia, seu objetivo tem sido levar ao redil institucional o importante processo de contestação que houve no continente após a crise de 2008. Depois de fazer parte dos distintos governos burgueses, esses partidos se encontram agora em um avançado processo de decomposição. A extrema direita que com sua demagogia consegue dividir e desorganizar nossa classe, se nutre da decepção que provoca e continua provocando a traição desses partidos.
A autoorganização da classe trabalhadora, da juventude e de todos os setores oprimidos implica desenvolver estruturas democráticas em nossos bairros, centros de trabalho e estudo para que todos os setores em luta possam se coordenar. E deve incluir sua autodefesa diante das possíveis agressões fascistas e da brutalidade policial dos Estados, que são quem detém o monopólio da violência, deixando de lado tanto as tendências pacifistas quanto as tendências individualistas e espontaneístas.
A propaganda e a luta ideológica contra a ultradireita, direcionada especialmente à juventude trabalhadora e estudantil, têm também uma importância capital. Nas lutas operárias, é urgente romper com o isolamento e a dispersão, superando as direções burocráticas. Outro aspecto relevante é a solidariedade internacional e a luta unificada por objetivos comuns em escala da UE. Uma solidariedade que diz respeito a uma Europa mais ampla do que a UE, abraçando a luta da resistência ucraniana, e que, por supuesto, deve se estender para fora de suas fronteiras imperialistas.
Um programa de câmbio real deve articular-se em torno de exigir:
- Uma reorganização geral da economia com base nas necessidades sociais e na sustentabilidade ambiental, expropriando os setores estratégicos da economia, colocando-os sob controle das e dos trabalhadores.
- Não ao plano de rearmamento da UE. Redução drástica do gasto militar, retirada de todos os destacamentos militares europeus da África, Líbano ou Ásia, dissolução da OTAN e desmantelamento das bases norte-americanas na Europa.
- Para garantir a defesa dos povos frente a possíveis agressões, propomos um exército baseado na instrução militar universal, sustentado no princípio democrático do povo armado e por ele controlado. Esta é nossa alternativa ao exército profissional e à sua casta de oficiais a serviço do capital
- Apoiamos as lutas de autodeterminação dos povos oprimidos que enfrentam as agressões imperialistas, como é a guerra de libertação nacional da resistência ucraniana frente à invasão russa. Isto, apesar de que a direção desta guerra seja hoje o governo burguês de Zelensky – ao qual não damos nenhum apoio político – e reiterando nossa oposição ao aumento do gasto militar nos países da UE. Apoiamos o direito da Ucrânia e de outros povos oprimidos a exigir e obter armas para defender-se e impulsamos iniciativas de solidariedade de classe que reforcem os setores mais conscientes dos movimentos de luta e resistência. .
- Abaixo o Pacto europeu de imigração, revogação de todas as leis de imigração, fechamento dos Centros de Internamento; reconhecimento dos direitos de nacionalidade aos imigrantes em solo europeu e pelo direito ao refúgio aos que fogem das guerras e da morte. Dissolução da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costas (Frontex). ¡Nativo ou estrangeiro, a mesma classe operária!
- Lutamos para que a classe trabalhadora tome em suas mãos a luta ambiental e exija medidas para proteger-nos das mudanças climáticas, por uma redução drástica no uso de combustíveis fósseis e por uma verdadeira transição energética que freie a catástrofe ambiental em marcha.
- Aliança entre as organizações da classe operária e os pequenos proprietários do meio rural para acabar com a PAC neoliberal e os tratados de livre comércio e em defesa de medidas de transição para uma agricultura e pecuária sustentáveis que garantam ingressos dignos, assim como uma alimentação saudável ao alcance da classe trabalhadora.
- Pelo retorno às mãos públicas de todos os serviços públicos privatizados (educação, saúde, atenção social, infraestrutura pública, cultura). Aumento drástico do orçamento para prevenção, atenção e proteção contra toda forma de violência aos setores mais oprimidos de nossa classe.
9. Um programa com essas características é incompatível com pertencer à UE. Neste mundo globalizado, não há solução em escala de um país. Frente à UE, defendemos os Estados Unidos Socialistas da Europa que unifiquem sobre bases livres e solidárias, a economia e os povos da Europa.
Construamos juntos um partido da classe trabalhadora, socialista, revolucionário e internacionalista no caminho da reconstrução da IV.
Lutar por essas medidas implica a construção de organizações socialistas revolucionárias em cada um dos países que tenham como horizonte, a construção de um partido mundial da revolução socialista.
Não falamos de partidos eleitoralistas e parlamentaristas, embora possamos e devamos participar das eleições, utilizando as instituições como tribuna revolucionária, mas sim de partidos para organizar as lutas e levar a classe trabalhadora ao poder, com o objetivo de mudar o mundo.
Sabemos que estamos ainda muito longe do partido que a humanidade precisa para o triunfo da revolução socialista. Mas estamos convencidos de que não há outro caminho, nem atalhos para chegar a ele e que esta é hoje a tarefa mais importante que temos pela frente as e os revolucionários. É por isso que convidamos a todas e todos os ativistas que dia a dia lutam nos diferentes âmbitos da luta social, a se somar às fileiras da LIT; uma organização internacional que tem como objetivo a reconstrução da Quarta Internacional, com todas aquelas organizações com as quais compartilhamos um programa e uma estratégia comum.
Firman: PDAC- Seção da LIT na Itália
Corrente Roja-Seção da LIT no Estado Espanhol
Em Luta-Seção da LIT em Portugal




