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Declarações

Crise existencial da UE e como enfrentar os ataques que estão por vir(Parte 1)

A União Europeia: um projeto imperialista em crise, subordinado aos interesses do capital global e à militarização.

PDAC, CORRIENTE ROJA, EM LUTA

junho 18, 2026

A União Europeia (UE), o dispositivo unitário do grande capital dos países europeus criado em um mundo onde a supremacia norte-americana era indiscutível, é filha de uma ordem mundial em crise, que não existe mais tal como a conhecíamos após a segunda guerra mundial. Neste quadro convulso, a UE entrou em uma crise existencial, com sua economia em decadência em relação aos EUA e à China e sentenciada pela nova política exterior de Trump, que se propõe explicitamente desmantelá-la.

A palavra que define a relação da UE com Trump é submissão. Uma postura que se manifestou em seu submetimento diante do genocídio sionista em Gaza e na Cisjordânia, a aceitação da imposição trumpista de tarifas, ou a cumplicidade com a intervenção norte-americana na Venezuela. A oposição apenas superficial dos principais governos europeus e da própria Comissão Europeia à agressão imperialista dos EUA e de Israel contra o Irã, é produto das consequências econômicas para a Europa dessa guerra e da rejeição das massas às políticas de Trump e do sionismo, mas não muda o caráter das relações estratégicas da UE com os EUA.

A UE vive uma crise existencial

A UE surgiu em 1993 após a restauração capitalista na Europa Oriental e a unificação alemã, sob a iniciativa do capitalismo germânico em aliança com o capitalismo francês. Ambos buscavam avançar na assimilação dos países do Leste, dar um salto na integração econômica do continente em torno de suas empresas monopolistas e se fortalecer como bloco imperialista a nível internacional, sem questionar o domínio estratégico dos Estados Unidos sobre o continente. A UE nunca buscou criar uma estrutura estatal unificada. Pelo contrário, as burguesias nacionais, aliadas mas competidoras entre si, em nenhum momento se propuseram a prescindir de seu próprio Estado nacional. Os organismos da UE, por sua vez, facilitavam o domínio do capitalismo alemão e francês sobre os demais.

A crise existencial que vive hoje a UE vem dada pelo entrelaçamento de dois fatores principais: a decadência econômica e geoestratégica da Alemanha e França em relação aos EUA e China por um lado, e a nova Estratégia de Segurança Nacional (ESN) de Trump, que inclui o desmantelamento da UE.

Trump quer reduzir a UE a uma mera zona de livre comércio, de maneira que suas relações com cada Estado europeu possam ser conduzidas separadamente, sem um artefato como a UE que interfira e possa aspirar a uma certa autonomia estratégica sustentada nos velhos imperialismos europeus.

Trump quer um espaço submisso, pagando tarifas aos EUA, mantendo suas bases militares e preservando o domínio sem barreiras de seus oligopólios tecnológicos, financeiros, armamentistas e energéticos. No documento oficial da ESN, a Administração Trump apoia de forma explícita a ultradireita europeia, os chamados partidos patrióticos antieuropeus, como o AfD alemão ou Vox no Estado espanhol. Na versão “não oficial” da ESN filtrada para a imprensa norte-americana, chegam a falar de promover o abandono da UE por parte da Hungria, Áustria, Polônia e Itália.  

Trump chegou a ameaçar se apropriar da Groenlândia, a grande ilha ártica anexada há três séculos pela Dinamarca, membro da UE e da OTAN. A retirada tática norte-americana de seus planos de anexação permitiu que as divisões internas da UE não tenham vindo à tona. Trump marginalizou totalmente a UE de suas negociações com Putin para pactuar o fim da guerra e dividir a Ucrânia. Da mesma forma, chegou a insinuar que poderia se desinteressar pelo apoio militar aos países europeus da OTAN em caso de sofrer uma intervenção russa, questionando a própria OTAN.

Trump forçou a declaração da OTAN para aumentar até 5% do PIB os orçamentos militares (3,5% diretamente em armamento e 1,5% em infraestruturas vinculadas), o que vai significar um verdadeiro negócio para as empresas norte-americanas de armamento e de tecnologias associadas à guerra, como Palantir.

A subordinação dos diferentes exércitos nacionais europeus em relação aos EUA através da OTAN e sua dependência das grandes corporações armamentistas norte-americanas é (com a exceção relativa da França) estrutural e colossal. O programa do futuro avião europeu de combate (FCAS) vive uma profunda crise devido à rivalidade industrial e estratégica entre França e Alemanha, que prefere depender militarmente dos EUA antes de se submeter à França. As compras do avião F-35 norte-americano e de sistemas como o dos mísseis Patriot por parte da Alemanha e de uma grande maioria de países da UE, implicam a dependência operativa-tecnológica dos EUA.

 Perspectivas

O projeto da UE, que já mostrou todos os seus limites após a crise da dívida em 2010-2011, em um mundo de conflito interimperialista, é um fracasso total. A rivalidade entre as três grandes potências imperialistas (EUA, China e Rússia) afeta os diferentes interesses dos países europeus, o que dificulta cada vez mais encontrar uma linha comum, e amplia por sua vez a brecha entre as potências europeias.

Mas é bom deixar claro que, apesar das múltiplas crises e desafios que enfrenta, interna e externamente, a UE tenta reverter total ou parcialmente o processo atual.

A UE não é uma pedra que rola em direção ao abismo, mas dispõe de poderosas forças vivas, sociais, econômicas e políticas, de um mercado interno poderoso, uma moeda forte, mão de obra qualificada, capital próprio e conserva um núcleo de grandes empresas. Tem também uma tradição militar e ferramentas para enfrentar a guerra econômica proposta por Trump, inclusive por meio de taxas impostas às empresas financeiras e à tecnologia americana.

Há uma tentativa das potências imperialistas europeias de superar a dependência dos EUA na produção bélica. Um exemplo é o projeto conjunto entre Reino Unido, Itália e Japão para desenvolver um caça de sexta geração para o ano de 2035 (que conta com a oposição da França, mas ao qual a Alemanha poderia se juntar) e o de um tanque que deveria ser produzido em uma empresa conjunta entre a alemã Rheinmetall e a italiana Leonardo, dois dos maiores produtores de armas do mundo.

Não podemos dizer agora qual vai ser o resultado deste processo. A UE pode permanecer como hoje, embora vários de seus países continuem sua descida como elo da hierarquia imperialista mundial, ou mesmo a UE pode explodir, com países como França e Alemanha que tentarão se reacomodar e frear sua descida. O que é certo é que a UE, assim como foi nos últimos quarenta anos, não pode garantir os interesses dos países imperialistas europeus como um todo.

A guerra na Ucrânia e a União Europeia

A crise da UE também se evidencia claramente na invasão imperialista russa da Ucrânia. Cabe recordar que nos primeiros dias desta, todos os governos europeus aconselharam Zelensky a abandonar Kiev, o que teria levado à anexação do Donbass à Rússia e à instauração de um governo afim a Putin no resto da Ucrânia. A União Europeia estava disposta a ceder diante dos interesses do imperialismo russo, fazendo com que as massas ucranianas pagassem as consequências. No entanto, o plano de Putin foi frustrado pela resistência popular na Ucrânia, que o obrigou a travar mais de quatro anos de guerra que estão minando os próprios alicerces de seu regime.

Os países da União Europeia foram obrigados —contra sua vontade— a apoiar o esforço bélico do governo de Zelensky para impedir que a resistência popular ucraniana escapasse do controle da burguesia. Limitaram-se a enviar algumas armas antigas para apoiar a Ucrânia, aproveitando a oportunidade para justificar aumentos no gasto militar que nada tinham a ver com o apoio à resistência. A intenção dos países imperialistas europeus, depois que Trump limitou significativamente o já insuficiente apoio à Ucrânia, era convencer o governo ucraniano a aceitar uma solução negociada para o conflito, cedendo essencialmente o Donbass e a Crimeia a Putin. Zelensky estaria aberto a essa solução, se não pusesse em grave perigo a ordem burguesa na Ucrânia devido à oposição de quem lutou com armas na mão contra as forças invasoras.

As seções europeias da LIT-CI apoiamos a resistência ucraniana e o direito da Ucrânia à independência, qualquer que seja seu governo no poder. Defendemos a derrota —sem se importar com desculpas— da invasão imperialista russa e nos opomos ao aumento do gasto militar nos países da UE. No entanto, advertimos as massas trabalhadoras e populares ucranianas que os países da UE não são seus aliados, uma vez que pretendem substituir a ocupação de Putin para impor  seu domínio econômico (inclusive através da reconstrução futura). E o governo de Zelensky está disposto a entregar a Ucrânia ao imperialismo ocidental.

Por tudo isso, os trabalhadores e a resistência ucraniana devem lutar contra a invasão russa ao mesmo tempo em que buscam desenvolver suas próprias organizações de classe, democráticas em seu funcionamento, e independentes do governo, nas quais estejam representadas todas as forças que lutam pela verdadeira independência da Ucrânia frente aos predadores imperialistas.

A UE e seus estados contra os trabalhadores e os povos

O problema do armamento é um claro reflexo do  problema de fundo que sofrem as potências europeias, isto é, as rivalidades nacionais, entre os principais imperialismos que compõem a UE, em particular entre a Alemanha e a França. Uma rivalidade de interesses que impede que possam ser aplicadas as medidas do famoso Relatório Draghi, destinadas a deter e reverter o acelerado declínio da UE como potência imperialista mundial, inevitável, segundo seu autor, se a UE não der um salto qualitativo em sua integração política, econômica e financeira.

Esta rivalidade de interesses torna muito difícil dar passos substanciais em direção a uma real unificação que só poderia ocorrer se houvesse avanços qualitativos em uma unificação estatal entre Alemanha e França que arrastasse, de passo, o resto dos países europeus. Somente convertidas em uma potência imperialista unificada, as potências europeias poderiam contar em uma ordem mundial marcada pela rivalidade entre o imperialismo norte-americano e chinês.

A pesar da propaganda da Europa democrática, ou das reivindicações do direito internacional, com o presidente espanhol, Pedro Sánchez à frente, a UE é uma agrupação de estados capitalistas, vários deles imperialistas, cujo fim é ter as melhores condições para explorar a classe trabalhadora europeia e  do resto do mundo.

A batalha por uma verdadeira Europa unida que a classe trabalhadora e os povos precisamos, só pode passar pela luta para alcançar os Estados Unidos Socialistas da Europa, baseados na destruição dos atuais estados imperialistas e na instauração de um poder socialista internacionalista e solidário.

Com a atual UE, só é possível esperar mais ataques, nos quais a resposta dos grandes oligopólios europeus e dos governos a seu serviço é a combinação de:

1/ uma ofensiva estratégica, com a Alemanha e a França na linha de frente, contra as conquistas econômicas e sociais da classe trabalhadora, em particular as identificadas com o Estado de bem-estar, como as aposentadorias públicas, a saúde, a educação ou a cobertura do desemprego, acompanhada de uma onda de dezenas de milhares de demissões.

2/ ataques aos direitos democráticos, recentemente evidenciados na repressão dos movimentos de protesto contra o genocídio israelense em Gaza e na Cisjordânia, com os Estados adotando características cada vez mais autoritárias.

3/ impulso desbocado ao rearme e à militarização dos países com a guerra da Ucrânia como pretexto, quando o certo é que os governos europeus nunca apoiaram militarmente a Ucrânia o suficiente para repelir eficazmente a invasão. Esses planos, que incluem a reintrodução do serviço militar com a Alemanha e a França à frente, são feitos em nome da segurança europeia e da busca por uma mentirosa autonomia estratégica e se apresentam, ao mesmo tempo, como o grande remédio para a modernização produtiva e frente à crise.

4/ agravamento substancial do tratamento à imigração, com a ultradireita arrastando a direita desde o próprio Parlamento europeu e nos países, aprovando cortes de cotas, períodos de detenção prorrogáveis ou centros de deportação extracomunitários em países tão “democráticos” como Egito ou Tunísia.

5/ marcha atrás nas escassas e limitadas restrições ambientais na Europa, ao mesmo tempo que acordos como o do Mercosul, que aumentam o saque e a destruição ambiental de outros países, enquanto se acelera a mudança climática sem precedentes que retroalimenta a crise.

PDAC – Seção da LIT na Itália

Corriente Roja-Seção da LIT na E.Espanhola

Em Luta-Seção da LIT em Portugal

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