Ponchos Rojos: homens e mulheres na resistência indígena aymara
A luta dos Ponchos Rojos: resistência indígena e a busca pela emancipação frente ao imperialismo e ao capitalismo.
Os/As Ponchos Rojos são uma organização indígena e camponesa aymara originária principalmente da província Omasuyos, no departamento de La Paz. Embora sejam reconhecidos pelo característico poncho vermelho que vestem seus dirigentes e comunitários nas mobilizações, o movimento é integrado tanto por homens quanto por mulheres das comunidades aymaras, que participam ativamente na organização, nas lutas sociais e na defesa dos direitos dos povos indígenas. Graças à sua trajetória de resistência e mobilização, os/as Ponchos Rojos se tornaram um dos movimentos sociais mais emblemáticos e combativos da Bolívia. Sua identidade está profundamente ligada à defesa das comunidades indígenas, à autonomia dos povos originários e à preservação das formas tradicionais de organização coletiva.
Ao longo das últimas décadas, desempenharam um papel importante em diversos conflitos sociais e políticos do país, participando de mobilizações, bloqueios e marchas que consideram necessárias para defender os direitos das comunidades camponesas e indígenas. Na luta recente contra as políticas econômicas do Governo Rodrigo Paz, ocupam um lugar destacado nos protestos que sacodem o país.
Os/As Ponchos Rojos e o legado de Túpac Katari e Bartolina Sisa
Sua identidade política e cultural está estreitamente vinculada à memória das grandes rebeliões indígenas do século XVIII lideradas pelo líder aymara Túpac Katari e pela dirigente indígena Bartolina Sisa. Entre 1780 e 1781, ambos lideraram uma das maiores insurreições contra o domínio colonial espanhol no Alto Peru, mobilizando dezenas de milhares de indígenas que exigiam o fim da exploração, dos tributos abusivos e da opressão colonial.
O cerco à cidade de La Paz, liderado por Katari e Sisa, ocupa um lugar central na memória histórica do povo aymara. Durante vários meses, como parte de uma grande rebelião contra o domínio colonial espanhol, dezenas de milhares de indígenas bloquearam os caminhos de acesso à cidade, impedindo a entrada de alimentos, mercadorias e reforços militares, com o objetivo de pôr fim aos abusos contra os povos originários. Embora a rebelião tenha sido derrotada e seus principais dirigentes tenham sido executados/as pelas autoridades coloniais, sua luta se tornou um símbolo de resistência indígena que atravessou gerações. A célebre frase atribuída a Túpac Katari antes de sua morte, “Voltarei e serei milhões”, continua sendo uma referência para numerosos movimentos indígenas e populares da Bolívia.
Os/As Ponchos Rojos são considerados/as herdeiros/as dessa tradição de luta. Em suas mobilizações, costumam reivindicar a figura de Katari e Bartolina Sisa como símbolos da resistência frente à dominação externa, ao racismo e à exclusão social. A defesa da terra, a autodeterminação dos povos indígenas e a organização comunitária são apresentadas como uma continuidade histórica.
Por isso, para seus integrantes, não são apenas uma organização camponesa, mas a expressão atual de uma longa história de resistência indígena que conecta as lutas dos povos originários contra a colonização, com as lutas sociais e políticas da Bolívia de hoje contra o imperialismo e a exploração dos recursos naturais que se expressam nas políticas de Rodrigo Paz.
Tiveram um papel destacado durante a Guerra do Gás de 2003, quando milhares de camponeses/as de Omasuyos e Achacachi participaram das mobilizações que provocaram a queda do governo de Gonzalo Sánchez de Lozada.
As mulheres e o legado de Bartolina Sisa
Embora a imagem mais conhecida dos/da Ponchos Rojos costuma estar associada a homens vestidos com o característico poncho vermelho, as mulheres desempenharam um papel fundamental na história e nas lutas das comunidades aymaras de onde surge esta organização. Sua participação se expressa nas assembleias comunais, nas mobilizações, nos bloqueios de caminhos, nas organizações camponesas e nas tarefas de direção comunitária. A figura de Bartolina Sisa, que junto a Túpac Katari liderou a grande rebelião indígena de 1781, constitui uma referência central para muitas mulheres aymaras e simboliza a participação feminina na resistência contra a opressão colonial, a discriminação e a exploração.
Nas últimas décadas, as mulheres indígenas e camponesas conquistaram uma presença cada vez maior na direção das organizações sociais do altiplano, questionando estruturas tradicionalmente dominadas por homens e ampliando seu protagonismo político.
Nas mobilizações recentes, as mulheres das comunidades ligadas aos/às Ponchos Rojos têm participado ativamente na organização dos protestos, na defesa dos detidos e na preservação das formas comunitárias de luta. Sua ampla presença nos bloqueios de estradas, nas marchas, nas assembleias comunitárias e na linha de frente dos confrontos com as forças repressivas demonstra que a resistência dos povos aymaras não é apenas uma história de dirigentes masculinos. As mulheres desempenharam um papel decisivo na organização das mobilizações, no abastecimento de alimentos para os setores em luta, na defesa dos detidos e perseguidos, na coordenação entre comunidades e na condução de organizações camponesas e indígenas. Nos recentes protestos que agitam a Bolívia, muitas mulheres aymaras enfrentaram a repressão policial e militar com grande determinação e coragem, reafirmando uma longa tradição de luta que remonta a Bartolina Sisa. Seu protagonismo demonstra que a defesa da terra, da dignidade, dos recursos naturais e da autodeterminação das comunidades tem sido sustentada e fortalecida, geração após geração, pelas mulheres indígenas, cuja participação é indispensável para compreender a força e a continuidade das lutas populares na Bolívia.
As Bartolinas
Um papel fundamental na organização e mobilização das mulheres indígenas e camponesas da Bolívia é desempenhado pela Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas Originárias da Bolívia Bartolina Sisa, conhecida popularmente como as «Bartolinas». Fundada em 1980 e nomeada em homenagem à heroína aymara Bartolina Sisa, esta organização agrupa milhares de mulheres camponesas, indígenas e originárias de todo o país. Ao longo de sua história, tem lutado pelos direitos das mulheres rurais, o acesso à terra, a participação política, a defesa das culturas indígenas e a melhoria das condições de vida das comunidades. Em muitas regiões do altiplano, incluindo aquelas vinculadas aos/às Ponchos Rojos, as Bartolinas constituem uma das principais formas de organização das mulheres, complementando o trabalho dos sindicatos camponeses e as estruturas comunitárias. Seu crescimento tem contribuído para fortalecer o protagonismo político feminino dentro do movimento indígena e popular boliviano, reivindicando o legado de Bartolina Sisa como símbolo de resistência, liderança e luta pela emancipação dos povos originários.
Como se organizam os/as Ponchos Rojos?
A organização se estrutura a partir das comunidades camponesas e das formas tradicionais de autoridade indígena. Seus dirigentes são eleitos/as em assembleias, reuniões ampliadas e reuniões comunitárias onde participam as bases das comunidades.
A organização se apoia em princípios de decisão coletiva e rotação de responsabilidades. Muitos de seus membros são agricultores/as, comerciantes e comunitários/as que assumem temporariamente cargos de representação dentro de suas organizações territoriais. Esta estrutura descentralizada explica por que, em distintos momentos, têm agido com grande capacidade de mobilização sem depender de uma direção única e permanente.
Em períodos de conflito, as comunidades podem convocar marchas, bloqueios ou vigílias, mobilizando centenas ou milhares de pessoas em defesa de decisões tomadas coletivamente.
O que significam seus trajes?


A vestimenta dos/as Ponchos Rojos tem um profundo significado cultural e político. O poncho vermelho, que dá nome ao movimento, representa a disposição de defender as comunidades e simboliza a resistência dos povos indígenas do altiplano. Historicamente, tem sido considerado um símbolo de combate e dignidade coletiva.
Junto ao poncho, os homens costumam utilizar a chalina[1], o chullo[2], a chuspa[3], o chicote[4] e outros elementos tradicionais da cultura aymara. Em algumas mobilizações, também portam hondas (q’urawas)[5], instrumentos ancestrais utilizados historicamente para a defesa comunitária.
As mulheres costumam vestir roupas tradicionais aimaras que também possuem um profundo significado cultural e identitário. Entre elas destacam-se o chicote, a pollera, uma ampla saia de várias camadas; a manta ou aguayo, utilizada para transportar produtos, alimentos, ferramentas ou até mesmo crianças; a blusa bordada; o chapéu característico de cada região e as longas tranças que fazem parte da identidade feminina andina.
Mais que um uniforme, as vestimentas expressam a continuidade de uma identidade indígena que resistiu séculos de discriminação e exclusão social.
A resistência e valentia dos/as Ponchos Rojos
Para milhares de camponeses e indígenas do altiplano, os e as comunários/as eleitos/as representam uma tradição de resistência que remonta às rebeliões indígenas contra a colonização e continua nas lutas sociais atuais. Sua participação na Guerra do Gás, na defesa dos direitos indígenas e nos conflitos atuais consolidou sua reputação como uma das organizações mais firmes do movimento popular boliviano.
Nos recentes protestos contra as medidas econômicas governamentais de Rodrigo Paz, voltaram a ocupar a primeira linha das mobilizações, participando de marchas, bloqueios e concentrações massivas e continuam sendo uma expressão viva da organização comunitária aymara. Sua história reflete tanto as profundas desigualdades do país quanto a persistência dos povos indígenas na defesa de seus direitos, sua cultura e seu protagonismo político.
Evo Morales e os/as Ponchos Rojos
Embora os/ as Ponchos Rojos já tivessem adquirido notoriedade durante as grandes mobilizações sociais do início dos anos 2000, especialmente durante a Guerra do Gás de 2003, em nível institucional, durante o governo de Evo Morales, alcançaram uma visibilidade nacional e internacional.
A chegada de Evo Morales à presidência foi, principalmente, com o apoio dos movimentos sociais que haviam protagonizado as lutas contra o neoliberalismo e, com isso, começaram a ocupar espaços de representação no Estado.
Os/as dirigentes dos Ponchos Rojos foram convidados/as a atos oficiais, participaram de mobilizações de apoio ao chamado «Processo de Mudança» e foram reconhecidos/as publicamente como um dos setores que haviam contribuído para derrotar os governos neoliberais. Sua presença em cerimônias estatais, encontros internacionais e eventos políticos contribuiu para projetar uma imagem de orgulho indígena e fortalecimento da identidade aymara.
No entanto, a organização existia antes da chegada de Evo Morales ao governo e tinha raízes profundas nas comunidades aymaras de Omasuyos e Achacachi. O que ocorreu foi que o novo cenário político lhes concedeu uma visibilidade e uma legitimidade institucional que anteriormente não possuíam.
Durante os anos do Movimento ao Socialismo (MAS), as organizações camponesas e indígenas obtiveram uma presença muito maior nas estruturas estatais. Dirigentes provenientes de comunidades camponesas ocuparam cargos em municípios, governadorias, ministérios e na Assembleia Legislativa e, a nova Constituição Política do Estado de 2009 incorporou o reconhecimento dos povos indígenas, da justiça comunitária e de diversas formas de autonomia territorial, reivindicações históricas defendidas por setores aymaras.
Porém, embora a Constituição Política do Estado de 2009 tenha representado um avanço democrático ao reconhecer formalmente a existência das nações e povos indígenas, suas línguas, culturas e algumas formas de autogoverno, esses reconhecimentos ficaram limitados pela manutenção das estruturas fundamentais do Estado capitalista boliviano. Embora tenha sido proclamado o caráter plurinacional do país, o poder econômico continuou concentrado nas mãos da burguesia nacional e das empresas transnacionais vinculadas ao mercado mundial, preservando a dependência da Bolívia em relação ao imperialismo. Nesse sentido, as autonomias indígenas foram concebidas dentro dos limites de um Estado baseado na propriedade privada dos principais meios de produção, o que impediu uma verdadeira autodeterminação dos povos originários.
Essas contradições também se expressaram na relação entre os/as Ponchos Rojos e o governo de Evo Morales. Embora amplos setores da organização tenham apoiado e respaldado o governo frente aos tentativas de desestabilização impulsionadas pela direita e pelos setores pró-imperialistas, esse apoio nunca eliminou completamente as tensões. Diversos/as dirigentes questionaram decisões governamentais que consideravam subordinadas ao Estado capitalista e aos interesses de grupos empresariais. Sob essa perspectiva, as críticas surgiram não apenas diante de medidas que afetavam diretamente as comunidades, mas também frente à incapacidade do Estado Plurinacional para garantir uma verdadeira autonomia indígena.
Os/As Ponchos Rojos continuam sendo majoritariamente favoráveis a Evo Morales?
Em termos gerais, pode-se afirmar que grande parte das bases sociais históricas da organização Ponchos Rojos mantém uma avaliação positiva de Evo Morales. Entre muitos comunários persiste a percepção de que foi o presidente que concedeu maior reconhecimento aos povos indígenas e camponeses da Bolívia.
No entanto, o que aparenta na realidade é que não existe uma posição única nem uniforme. Nos últimos anos, surgiram diferenças políticas relacionadas com as disputas internas do MAS, a situação econômica do país e os debates sobre o futuro do movimento indígena e popular.
Ainda assim, em regiões historicamente vinculadas aos/as Ponchos Rojos, especialmente na província de Omasuyos e na área de Achacachi, Evo Morales continua conservando importantes níveis de apoio político. Para numerosos/as comunários/as, sua figura ainda está associada à recuperação da dignidade indígena, à ampliação de direitos e ao protagonismo político dos setores populares.
Autodeterminação indígena e os limites do Estado Plurinacional
A experiência dos governos de Evo Morales mostrou os limites de um projeto que buscou conciliar as demandas históricas dos povos originários com a preservação das estruturas fundamentais do capitalismo boliviano. Embora milhões de indígenas e camponeses tenham conquistado maiores espaços de participação política e obtido um reconhecimento institucional, a autodeterminação das nações originárias continuou subordinada a um Estado que seguiu dependendo da exportação de matérias-primas e de sua inserção subordinada no mercado mundial. Sob essa perspectiva, o reconhecimento constitucional dos direitos indígenas não foi acompanhado por uma transformação profunda das relações de propriedade e do poder econômico que condicionam a vida das comunidades.
A trajetória dos/as Ponchos Rojos expressa muitas dessas contradições. Por um lado, foram protagonistas do ascenso de um movimento indígena que conseguiu conquistar espaços no Estado e colocar no centro do debate nacional a questão da identidade, da dignidade e dos direitos dos povos originários. Por outro lado, refletem que a luta pela autodeterminação indígena não pode ser realizada plenamente enquanto as principais decisões econômicas e políticas continuarem condicionadas pelos interesses das elites nacionais, das empresas transnacionais e das pressões do imperialismo. A história e a luta dos/as Ponchos Rojos mostram que a emancipação dos povos indígenas continua sendo uma tarefa inconclusa, estreitamente ligada à luta para superar o sistema capitalista que reproduz a exploração, a dependência e o saque dos recursos naturais. Não é possível a autodeterminação indígena enquanto as principais decisões econômicas permanecerem nas mãos de grandes empresários, latifundiários, transnacionais e organismos vinculados ao imperialismo. A experiência histórica das comunidades aymaras, baseada na deliberação coletiva, na escolha de autoridades pelas bases e na defesa comunitária dos recursos, contém elementos de uma democracia muito mais profunda do que a oferecida pelas instituições do Estado capitalista. Nesse sentido, a luta pela autodeterminação dos povos originários se vincula à perspectiva de uma transformação socialista da sociedade, na qual as grandes riquezas do país estejam sob controle coletivo e democrático dos trabalhadores, camponeses e povos indígenas, e onde as decisões fundamentais sobre a economia, os territórios e o destino do país sejam tomadas pelas maiorias organizadas e não por uma minoria privilegiada.
[1] É uma echarpe ou faixa larga tecida que se coloca ao redor do pescoço ou sobre os ombros.
[2] É um gorro andino feito de lã, com orelhas para proteger do frio do altiplano.
[3] É uma pequena bolsa tecida que se usa pendurada no ombro ou cruzada sobre o peito. Tradicionalmente, é utilizada para transportar folhas de coca, pequenos alimentos ou objetos pessoais.
[4] O chicote é um chicote ou rebenque elaborado tradicionalmente com couro trançado e um cabo de madeira. Um símbolo de autoridade, comando e justiça comunitária.
[5] A q’urawa consiste em uma tira tecida de lã ou fibras vegetais, com uma pequena cavidade central onde se coloca uma pedra. Ao girá-la rapidamente e soltar uma de suas extremidades, a pedra é lançada a grande velocidade e a longa distância.




