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Bolívia: Fora Paz!

Lena Souza

maio 27, 2026

O contexto da atual levante

A profunda crise política e econômica e o levante popular que atualmente assolam a Bolívia não podem ser compreendidas sem analisar o ciclo histórico que começou há mais de duas décadas. As ruas, que hoje são novamente palco de enfrentamentos, herdaram as lições e contradições de processos revolucionários, como os de 2003 e 2005, que não transformaram na raiz a estrutura do sistema capitalista nem destruíram o Estado burguês, mas apenas significaram uma mudança na liderança política.

a) A insurreição de 2003 e a queda do governo Sánchez de Lozada

O ano de 2003 marcou o início de uma profunda crise de hegemonia para o modelo neoliberal implementado em 1985. O segundo mandato de Gonzalo Sánchez de Lozada (“Goni”) começou em meio a uma grave crise fiscal, altas taxas de desemprego e profundo descontentamento social herdado da privatização anterior de empresas públicas. O estopim da insurreição foi o projeto estatal de exportação de gás natural para os mercados dos Estados Unidos e do México através de portos chilenos. O objetivo era deter a pilhagem de recursos estratégicos por corporações transnacionais (como o consórcio Pacific LNG), que roubavam o Estado boliviano pagando royalties de 18%.

A população civil identificou a exportação de gás nessas condições como uma repetição da pilhagem histórica da prata e do estanho de Potosí no início do século XX. O lema unificador dos movimentos operário, camponês e comunitário tornou-se a defesa e a recuperação dos recursos naturais para a industrialização soberana do país.

A revolta popular adotou métodos de luta radicais e comunitários:

O cerco das cidades: As comunidades indígenas do Altiplano, lideradas por Felipe Quispe (“El Mallku”), cercaram os acessos à sede do governo, bloqueando estradas estratégicas e exigindo o cancelamento do projeto de gás e a libertação dos líderes detidos.

A revolta armada em El Alto: A cidade de El Alto, com sua população predominantemente migrante e aimará, tornou-se o epicentro da resistência. Organizados pela Federação Comunitária (FEJUVE) e pela Federação dos Trabalhadores de El Alto, milhares de moradores paralisaram a cidade com barricadas, trincheiras e comitês de vigilância comunitária para repelir o avanço de veículos blindados do exército.

A resposta do governo Sánchez de Lozada foi um confronto militar com os protestos, promulgando o “Decreto da Morte” (Decreto Supremo 27209), que concedia imunidade de processo aos militares que participassem da manutenção da ordem pública. Em outubro de 2003, a tentativa do exército de romper os bloqueios nos bairros de El Alto, utilizando comboios militares carregados de gasolina para abastecer La Paz, desencadeou o que ficou conhecido como o “Massacre de Outubro”. As tropas usaram armas de guerra e atiradores de elite contra civis desarmados.

A brutal repressão estatal deixou mais de 60 mortos e pelo menos 400 feridos. Mas, longe de quebrar a resistência, o massacre de civis gerou uma onda de indignação nacional que angariou o apoio ativo da classe média de La Paz, dos estudantes universitários e setores profissionais, que exigiram o julgamento do presidente. Com um gabinete fragmentado, sem apoio parlamentar e repudiado pela opinião pública internacional, Sánchez de Lozada fugiu de helicóptero para os Estados Unidos em 17 de outubro de 2003.

Após a fuga de Goni, a sucessão constitucional recaiu sobre o vice-presidente, historiador e jornalista Carlos Mesa. Nas ruas de La Paz e El Alto, as massas mobilizadas debateram se deveriam prosseguir com uma tomada direta do poder ou permitir uma transição institucional.

A Central Operária Boliviana (COB), liderada na época por figuras como Jaime Solares, adotou uma postura decisiva: decidiu suspender o bloqueio humano e o cerco militar-popular em torno do Palácio do Governo. Ao conceder uma trégua e facilitar a ascensão de Carlos Mesa ao poder, a liderança da COB conteve a força insurrecional da base. Isso deu à burguesia boliviana um respiro sob a promessa de Mesa de convocar uma Assembleia Constituinte e realizar um referendo sobre o gás, desviando a crise das ruas para os canais institucionais.

b) Desvio eleitoral do processo e a eleição de Evo Morales

A trégua de 2003 não resolveu as demandas estruturais. Em 2005, uma nova onda de protestos contra Carlos Mesa (que se recusava a nacionalizar os hidrocarbonetos) também forçou sua renúncia. O movimento popular exigia a nacionalização total sem indenização e uma Assembleia Constituinte soberana.

No entanto, a energia revolucionária que ameaçava dissolver o Estado burguês foi canalizada para o processo eleitoral. O Movimento ao Socialismo (MAS), liderado pelo líder dos produtores de coca, Evo Morales, apresentou-se como a única alternativa institucional. uma solução nacional viável para pacificar o país. Nas eleições de dezembro de 2005, Morales capitalizou o descontentamento e venceu com um histórico 53,7% dos votos. Essa vitória eleitoral serviu como um desvio do processo insurrecional: a luta pelo poder nas ruas foi transformada na gestão do aparato estatal existente.

c) O desvio do processo insurrecional

Uma vez no poder, o governo Evo Morales implementou reformas que respondiam à pressão da Agenda de Outubro de 2003, alcançando uma estabilidade econômica inédita na história do país.

Nacionalização das empresas de petróleo e mineração: Em maio de 2006, foi decretada a “nacionalização” dos hidrocarbonetos (Decreto Heróis do Chaco). Por meio da reestruturação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), o Estado obteve o controle sobre a propriedade dos recursos e exigiu a renegociação de contratos com empresas multinacionais, capturando até 82% das receitas petrolíferas nos maiores campos. De forma semelhante, a Corporação Boliviana de Mineração (COMIBOL) foi reativada e fundições estratégicas, como a de Vinto, foram recuperadas.

Distribuição da receita do petróleo: A enorme entrada de moeda estrangeira proveniente das exportações de gás (impulsionado pelo boom das commodities) foi parcialmente destinado a investimentos públicos e à criação de bônus sociais de bem-estar social. Programas como o Bônus Juancito Pinto (para reduzir as taxas de evasão escolar), o Bônus Juana Azurduy (para gestantes) e a Pensão Dignidade (uma pensão para idosos) tiraram milhões de bolivianos da extrema pobreza e estimularam o mercado interno.

Apesar da retórica anti-imperialista e da proclamação do “Estado Plurinacional”, o governo de Evo Morales atuou como um fator-chave de contenção social. Em vez de avançar rumo ao desmantelamento do Estado latifundiário e capitalista, o MAS, na prática, manteve a continuidade do capitalismo dependente e extrativista. O que o governo de Evo Morales fez foi aproveitar o boom das commodities para obter maiores lucros e conceder benefícios de bem-estar social às massas, conseguindo abafar a luta de classes sem afetar os lucros da oligarquia latifundiária ou das corporações transnacionais.

A mobilização independente de sindicatos e comunidades indígenas foi sistematicamente desencorajada ou cooptada. Sempre que a base tentava ultrapassar os limites da propriedade privada ou as leis vigentes, o governo usava seu prestígio revolucionário para apaziguar os conflitos, argumentando que “atacar o governo era fazer o jogo da direita”. Dessa forma, a participação dos trabalhadores foi subordinada à burocracia estatal.

d) Evo Morales proporcionou benefícios significativos aos latifundiários e ao setor bancário.

Por trás da retórica socialista, o governo do MAS consolidou a estrutura tradicional de poder econômico, forjando alianças com a oligarquia do leste da Bolívia (Santa Cruz) e o setor financeiro.

Aliança com o agronegócio: O governo freou a reforma agrária radical nas terras baixas. Leis como a Lei da Função Econômica e Social (FES) foram flexibilizadas e houve anistias para o desmatamento ilegal, garantindo a propriedade de grandes fazendeiros de gado e soja. O uso de transgênicos foi promovido e as fronteiras agrícolas foram expandidas por meio de decretos que permitiam queimadas controladas, beneficiando diretamente os proprietários de terras tradicionais em troca de paz política.

Lucros recordes para o setor bancário: O setor financeiro privado vivenciou seu maior período de prosperidade econômica. O governo garantiu a segurança jurídica dos bancos privados, que multiplicaram seus lucros ano após ano graças à liquidez da economia e ao consumo interno, sem jamais sofrer qualquer tentativa de nacionalização.

e) O ataque do governo MAS ao movimento contra a reforma da previdência de 2011 e a entrega de áreas de mineração a corporações transnacionais.

As contradições do modelo vieram à tona quando a classe trabalhadora se confrontou frontalmente com os interesses do governo e seus aliados corporativos.

Conflito previdenciário (2011-2013): Durante a implementação da nova Lei de Aposentadorias e Pensões, o COB (Central Operária Boliviana) e o setor de mineração foram às ruas exigindo aposentadorias/pensões equivalentes a 100% de seus últimos salários e a redução da idade de aposentadoria. O governo de Evo Morales classificou os protestos como “golpistas” e “egoístas”, mobilizando setores aliados para contrapor as marchas operárias.

Transferência da mineração para corporações transnacionais: Apesar da retórica de nacionalização, a Lei de Mineração e Metalurgia consolidou o controle de empresas estrangeiras (como a japonesa Sumitomo, na mina de San Cristóbal, ou a americana Coeur Mining) sobre os depósitos mais ricos do país. Além disso, enormes privilégios foram concedidos às cooperativas de mineração tradicionais — que operam sob a lógica da exploração privada do trabalho — em detrimento das empresas estatais de mineração e os direitos ambientais das comunidades locais.

f) Desgaste de Evo e ressurgimento da direita

No final da década de 2010, o modelo começou a mostrar sinais de desgaste devido à queda nos preços internacionais do gás. Ao mesmo tempo, a insistência obstinada de Evo Morales na reeleição indefinida levou a um grave desgaste político.

O desrespeito aos resultados do referendo de 21 de fevereiro de 2016 (21F), no qual a maioria votou contra um novo mandato, diminuiu sua legitimidade democrática e distanciou amplos setores da classe média urbana. Esse cenário de descontentamento foi habilmente capitalizado pelas forças tradicionais de direita e comitês cívicos empresariais, que reorganizaram suas forças, usando a bandeira da “defesa da democracia” para preparar uma tomada de poder.

g) Golpe de Estado em 2019

A crise política atingiu seu ponto de ruptura nas eleições de outubro de 2019. Na sequência das alegações de fraude eleitoral promovidas pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e da interrupção do sistema de contagem rápida de votos, a extrema-direita desencadeou violentas mobilizações urbanas.

A insurreição reacionária consolidou-se quando a Polícia Boliviana se amotinou e as Forças Armadas “sugeriram” a renúncia do presidente. Em 10 de novembro de 2019, Evo Morales renunciou e exilou-se no México (e posteriormente na Argentina). Dois dias depois, a senadora de direita Jeanine Áñez assumiu a presidência interina em uma sessão legislativa sem quórum, inaugurando um regime supervisionado pelos militares que perseguiu líderes sindicais e perpetrou massacres contra a resistência popular em Sacaba e Senkata.

h) A derrota do golpe e a ascensão de Luis Arce

O regime de Áñez entrou em colapso rapidamente devido à sua violenta repressão, aos escândalos de corrupção durante a pandemia e à desastrosa gestão econômica. A resistência da classe operária e da base indígena reorganizou-se de forma independente e, em agosto de 2020, por meio de um bloqueio nacional que paralisou o país, forçou o governo a marcar uma data para as eleições.

Em outubro de 2020, o MAS retornou ao poder por meio das urnas. Luis Arce Catacora, ex-ministro da Economia durante o governo de Evo Morales, venceu a eleição presidencial com 55,1% dos votos, refletindo a rejeição unânime do povo ao golpe de direita.

i) O Governo Luis Arce

O governo Luis Arce assumiu o poder com a promessa central de implementar a “reconstrução econômica”. Como ex-ministro da Economia e considerado o “arquiteto” do boom econômico anterior, sua estratégia baseava-se na injeção imediata de liquidez na população por meio do Bônus de Alívio à Fome e no lançamento do ambicioso modelo de Industrialização por Substituição de Importações (ISI). Este plano estatal previa a construção de mais de 150 plantas industriais públicas (usinas de biodiesel, fábricas de fertilizantes NPK, refinarias de zinco e fábricas de processamento de lítio e alimentos) com o objetivo de processar matérias-primas locais, reduzir a dependência da produção estrangeira e evitar a fuga de capitais.

No entanto, o ambicioso plano estatal de industrialização esbarrou de frente com as limitações estruturais e intransponíveis do modelo extrativista boliviano. A manutenção de todo o aparato estatal e os subsídios dependiam historicamente da exportação de gás natural para o Brasil e a Argentina. Décadas de falta de investimento na exploração de hidrocarbonetos levaram ao esgotamento crítico e ao declínio das reservas de gás. Esse declínio na principal fonte de renda do país desencadeou um efeito dominó catastrófico:

A crise da escassez de dólares: Com a drástica contração das exportações de gás, o fluxo de moeda estrangeira que alimentava as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) do Banco Central secou. Isso levou a uma escassez crônica de dólares americanos no mercado formal.

A escassez de combustível: Historicamente, a Bolívia subsidiava o preço da gasolina e do diesel no mercado interno para mantê-los baratos. Sem produzir petróleo bruto suficiente, o Estado foi forçado a importar volumes crescentes de combustível a preços internacionais. Sem dólares suficientes nos cofres públicos para pagar os fornecedores internacionais, a estatal YPFB começou a atrasar os pagamentos. Isso resultou em uma escassez crônica de diesel e gasolina, obrigando transportadores, produtores agrícolas e cidadãos a esperar em filas quilométricas por dias em postos de gasolina.

Ao final de seu mandato, seu governo se viu preso em um impasse de déficit fiscal e estagflação, deixando um cenário de profunda vulnerabilidade econômica e fratura social que pavimentou o caminho para o subsequente cenário político conflituoso.

j) Divisões dentro do MAS

O ciclo político do Movimento para o Socialismo (MAS) entrou em sua fase final devido a uma fratura interna irreversível. Uma acirrada disputa pela direção do partido entre a ala “Evista” (leal a Evo Morales) e a ala “Arce” (leal ao presidente Luis Arce) dividiu as principais organizações sociais do país.

Ambos os lados se enfrentaram nos tribunais, por meio de congressos paralelos e bloqueios de estradas para desqualificar um ao outro. A falta de consenso levou, na prática, à proscrição de suas candidaturas conjuntas ou a chamados à abstenção. Isso deixou a base operária e indígena fragmentada e sem uma opção política coesa.

k) As eleições de 2025

Em um cenário marcado pela profunda crise do MAS e por uma grave crise econômica, as eleições gerais foram realizadas em agosto de 2025. O processo eleitoral foi condicionado por uma recessão aberta que o país vinha vivenciando desde 2024, desencadeada pelo esgotamento das reservas internacionais, pela escassez crônica de combustível e por uma grave falta de dólares que disparou o mercado paralelo. Esse colapso demonstrou que o boom anterior não passou de um período sustentado pelo boom das commodities. Quando os altos preços internacionais se dissiparam, o modelo do MAS expôs a persistência do capitalismo dependente, extrativista e subordinado, que Morales e Arce foram responsáveis ​​por preservar.

Nesse contexto, o primeiro turno, em 17 de agosto, deu vantagem ao senador Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão (PDC), com 32,1% dos votos, seguido pelo ex-presidente conservador Jorge “Tuto” Quiroga, da Aliança Liberdade e Democracia (Libre), com 26,8%, consolidando uma guinada à direita tradicional como consequência do desvio e do fracasso histórico do reformismo governamental.

l) Vitória de Paz

O segundo turno da eleição presidencial foi realizado em 19 de outubro de 2025. Contrariando muitas previsões iniciais das pesquisas, Rodrigo Paz Pereira (filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora) e seu vice, Edmand Lara, venceram com 54,5% dos votos, contra 45,4% de Quiroga.

Paz conseguiu ganhar moderando sua retórica na campanha final para conquistar os votos do centro e dos progressistas desiludidos, apresentando-se como uma alternativa institucional à crise econômica.

A base histórica de apoio do MAS foi destruída. O eleitorado, castigado pela inflação, filas nos postos de gasolina e falta de dólares, puniu severamente o partido nas urnas. O partido oficial MAS-IPSP obteve um resultado histórico e marginal de 2,48% dos votos, passando de uma maioria de 96 deputados eleitos em 2020 para apenas um deputado no Parlamento após a contagem oficial de 2025.

m) Medidas de Paz

Sob o lema de abertura da economia e implementação do “capitalismo para todos”, o governo Rodrigo Paz rapidamente forjou alianças políticas com governos de extrema-direita internacionalmente, demonstrando apoio rápido e incondicional a Donald Trump ao adotar prontamente um pacote agressivo de reformas neoliberais em consonância com seu programa econômico:

Ajuste cambial e fiscal: Criação de um Fundo de Estabilização Cambial para unificar o mercado do dólar, acompanhada de uma liberalização total das exportações e importações, juntamente com uma reconfiguração tributária para reduzir os impostos para as empresas.

Abertura internacional: Uma mudança diplomática imediata para fortalecer os laços financeiros e políticos com os Estados Unidos e instituições financeiras internacionais.

Reformas estruturais: Propostas de reforma agrária de livre mercado em regiões produtivas e a proposta de reforma constitucional, que a oposição denunciou como o início da privatização de recursos naturais estratégicos.

Ofensiva judicial: O anúncio de uma profunda reestruturação do sistema judiciário com advertências diretas de que os líderes do governo anterior, especialmente Evo Morales, seriam processados.

n) Das lutas isoladas de 2025 à rebelião de janeiro de 2026: a primeira derrota de Paz

Durante 2025, a resistência das massas bolivianas à crise cambial e à recessão herdada de 2024 começou a se manifestar por meio de uma série de lutas isoladas, setoriais e fragmentadas em todo o país. Os protestos dos sindicatos contra a inflação, as greves dos motoristas devido à escassez de combustível, as greves dos professores por aumentos orçamentários e os bloqueios camponeses locais aconteceram inicialmente de forma dispersa. No entanto, esse cenário mudou radicalmente com a promulgação do violento pacote neoliberal do Decreto Supremo 5503, que eliminou os subsídios aos combustíveis, congelou os salários do setor público, cortou gastos estatais e desregulamentou a economia para abrir recursos estratégicos ao capital transnacional. O decreto atuou como o gatilho definitivo que unificou a raiva acumulada de todos os setores explorados. Rompendo o isolamento setorial e sobrepassando suas próprias direções, os diferentes setores em luta unificaram suas forças na grande mobilização nacional de janeiro de 2026, que levou mais de 500.000 pessoas às ruas e paralisou o país por meio de bloqueios e greves operárias. Essa colossal ação direta de massas representou a primeira grande derrota para o governo de Rodrigo Paz, forçando-o a revogar completamente o decreto.

o) O levante de maio de 2026

A fragmentação social chegou ao fim definitivamente em maio de 2026, culminando em uma explosão social massiva em todo o país. A persistente escassez de combustível, os baixos salários corroídos pela inflação e a retumbante rejeição à privatização velada dos recursos naturais uniram comitês cívicos populares, sindicatos independentes e comunidades agrárias.

As principais rodovias do país foram bloqueadas, paralisando o tráfego logístico e cortando importantes vias de acesso à cidade de La Paz. Enquanto o presidente Rodrigo Paz insiste publicamente que existem “grupos radicais que se recusam a dialogar” e criminaliza as marchas, a classe trabalhadora, os povos indígenas e os setores populares da Bolívia retomaram seus métodos históricos de ação direta, abrindo um novo capítulo de confrontos nas ruas, que remetem às insurreições de 2003 e colocam em xeque a estabilidade do novo regime capitalista.

FORA RODRIGO PAZ! CONSTRUIR UMA ALTERNATIVA REVOLUCIONÁRIA PARA O PAÍS!

O cenário de enfrentamentos que atualmente paralisa a Bolívia marca o esgotamento definitivo das ilusões reformistas. A experiência histórica demonstra que governos conciliadores, como os de Evo Morales e Luis Arce, constituíram uma estratégia de engano estratégico para a classe operária: mudar a liderança política do Estado burguês sem transformar fundamentalmente o sistema socioeconômico apenas serviu para fortalecer a burguesia latifundiária e as corporações transnacionais, facilitando o retorno de planos neoliberais brutais como o de Rodrigo Paz.

As lições acumuladas oferecem um ensinamento irrefutável para os setores em luta: as massas só triunfam quando unificam suas demandas dispersas nas ruas, superam as burocracias sindicais e confiam exclusivamente em sua própria força independente. Portanto, a tarefa diante do atual levante nacional não é negociar migalhas ou novos pactos institucionais, mas, como já afirmaram os lutadores/as, derrubar o governo de Paz, que está matando o povo de fome.

Ao mesmo tempo, é essencial a construção de uma alternativa revolucionária própria para que a classe trabalhadora, juntamente com os camponeses, os povos indígenas e os setores populares, possa assumir as rédeas do país, resolver as tarefas democráticas e institucionais pendentes e fundar, sobre as ruínas do Estado burguês, uma Bolívia socialista.

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