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México

Polarização política no México

Construindo a luta dos trabalhadores por justiça social e independência nacional frente ao imperialismo e à exploração.

Corriente Socialista de los Trabajadores

dezembro 12, 2025

A pressão imperialista sobre o México se intensificou com as chantagens e ameaças de Trump, como a imposição de tarifas e a descarada ingerência militar em relação ao tratamento dos imigrantes, a extração de narcotraficantes e ataques a embarcações nas costas e até mesmo praias mexicanas. O governo de Claudia Sheinbaum –apesar de seu discurso “em defesa da soberania”– cede constantemente a essas pressões e as reproduz sobre os setores explorados da sociedade mexicana.

A sociedade mexicana acumulou durante muitas décadas uma tremenda desigualdade econômica e injustiça social. Ao longo de toda a nossa história houve enormes levantes, revoluções e resistência permanente. O mais recente ascenso iniciou-se em 2014: os povos do México novamente começaram a enfrentar essa injustiça. O detonante foi sem dúvida o crime de estado aos 43 de Ayotzinapa. A imensa onda de indignação e mobilizações produziu uma mudança radical na situação. A essas ações seguiram-se a Jornada magisterial de greves contra a “Reforma educacional” neoliberal em 2016 e nesse contexto o massacre de Nochixtlan. Um ponto culminante desse processo foi o massivo levantamento contra o “Gasolinazo” de 2017, quando aconteceram centenas de assembleias populares, rebeliões locais e nas ruas de todo o México centenas de milhares gritavam “¡Fora Peña!”.

Os grandes oligarcas –a quem López Obrador se referiu como “máfia do poder” ou a “minoria gananciosa”– se espantaram e decidiram “tirar alguns anéis para não perder os dedos”. E assim foi como apelaram ao próprio López Obrador, para encarnar a “esperança do México”. Deixaram arquivado que em 2006 o próprio AMLO havia sido estigmatizado como um “perigo para o México”. E caso ainda lhes restassem algumas dúvidas, AMLO explicou aos maiores banqueiros do México, reunidos no palaciano Hotel Prince de Acapulco, que se não fosse ele “Quem vai amarrar o tigre?”…

Assim foi, o “tigre” ficou não só amarrado, mas hipnotizado! Hoje, passado o sexênio e no “Segundo andar” da “Quarta Transformação”, os paliativos assistenciais aos setores mais mergulhados na miséria – que foram recebidos com alívio e bênçãos no início do sexênio passado – já não conseguem compensar o mal-estar de outros amplos setores de operários e explorados, que com extensas jornadas semanais geram enormes riquezas e não saem da precariedade. As bolsas e outras ajudas não resolveram a falta de perspectivas para um setor majoritário da juventude: com trabalhos informais, instabilidade laboral ou com contratos “lixo” que violam as leis e todos os direitos trabalhistas, sem seguro social nem benefícios, longas jornadas de trabalho sem respeito ao horário de término nem descansos, sem acesso à moradia própria e com dificuldades para assumir um aluguel devido aos baixos salários. E também a frustração daqueles que, com grandes sacrifícios para suas famílias, terminaram seus estudos e não encontram trabalho nem próximo à sua especialidade, mas apenas “bicos” precários.

Começam o mal-estar e a desconfiança

As expectativas de melhora que gerou o governo de AMLO começam a se transformar em decepção, incerteza e desconfiança. A “esperança” popular vai se tornando angústia e apatia e começa a dar lugar ao desgaste. Essa decepção ainda não gera ações massivas dos explorados pelo brutal freio da burocracia sindical, fiel ao poder de turno e também porque as massas desconfiam dessa direita antiquada que agora é “opositora raivosa”.

Por que isso acontece? Porque as mudanças foram de forma e superficiais, mas não em profundidade. Mudou o presidente e mudou o partido no governo, mas não mudou o regime, que estava e está a serviço dos oligarcas. Para esse serviço mantém-se uma relação privilegiada entre o governo e os velhos e novos burocratas sindicais. Se algo se destaca hoje no regime é a maior hierarquia que voltaram a ter as Forças Armadas com sua “nova estrela”: a Guarda Nacional. Para piorar, numerosos personagens odiados do PRI e do PAN saltaram como “chapulines” para se acomodar no oficialista Morena. Apesar do lema “Para o bem de todos, primeiro os pobres”, foram os grandes magnatas os primeiros a duplicar suas fortunas.

Também não mudou a subordinação semicolonial do país. A dívida externa cresceu para quase a metade (49,9%) do Produto Interno Bruto. O jugo do TLCAN assinado em 1992, que se mostrou um instrumento de saqueio das riquezas do país e a ruína do campesinato, foi reforçado com a assinatura do T-MEC em 2018. Por outro lado, continua crescendo a ingerência da DEA e do próprio Trump em relação ao seu suposto “combate ao narcotráfico”. E ao decadente magnata imperialista não faltam desculpas quando fica exposta a colusão do crime organizado com muitos governadores, prefeitos, deputados e senadores.

A marcha de 15 de novembro e a manipulação da TV Azteca e do PAN        

Alguns desses mesmos oligarcas que aumentaram suas fortunas com o sexênio de AMLO saem hoje com seus poderosos meios de difusão para manipular o justificado mal-estar popular e as manifestações da raiva de amplos setores de classes médias do campo e da cidade. Assim pode-se resumir a essência da marcha convocada sob uma suposta “Geração Z”. Tentaram manipular e dar um curso tão ultra reacionário quanto seus próprios interesses capitalistas. E que, na realidade, vão contra os interesses da maioria dos próprios manifestantes, embora não o saibam. É uma réplica do que aconteceu antes em outros países do continente: Argentina, Brasil, Venezuela, Equador… Diante do fracasso dos governos que se dizem “progressistas” ou até mesmo chamados de “esquerda”, também aqui os velhos setores políticos reacionários que governaram o México por mais de 80 anos, sentem que chegou “a hora de sua revanche”.

Não é objeto deste artigo descrever a composição da marcha, na qual a “Geração Z” não foi visível nem os motivos da ira do usurário dono do “Banco Azteca” e da rede comercial “Electra”, Ricardo Salinas Pliego, que se nega a pagar impostos devidos há longos anos, no valor de quase 3 bilhões de dólares. Justo Salinas Pliego foi um dos que apoiou na campanha eleitoral AMLO, pelo que seu banco recebeu o favor do poder no sexênio passado. Agora, em vez de pagar suas dívidas com o estado, prefere gastar milhões em manipulação midiática oposicionista. Também não nos deteremos demais nas “provas” apresentadas por Luisa María Alcalde, presidenta do Morena, sobre o contrato que o PAN assinou com um Jovem da “Geração Z”, convocador da marcha do sábado 15… Também não acreditamos que seja produtivo nos aprofundar na trama de tantas outras montagens e provocações. Porque são parte da “guerra suja” entre os próprios partidos do podre regime que servem aos oligarcas capitalistas e de nenhuma maneira “aos pobres”. Repudiamos essa briga entre exploradores na qual usam os explorados. Para nós, a verdadeira luta não é entre letras “4T ou Z”. ¡É a luta dos explorados e oprimidos contra todos os exploradores e opressores!  

As legítimas lutas de diversos setores sociais

Apoiamos com todas as nossas modestas forças as ações diretas de setores, como a greve e plantão dos mestres da CNTE pela falta de respostas às suas demandas –apoiadas pela maioria dos trabalhadores de diferentes setores – de revogação da neoliberal Lei do ISSTE 2007, por um sistema de aposentadoria solidário e maior orçamento para Educação, Saúde e Segurança Social. Têm um grande impacto econômico e social no México os bloqueios de milhares de agricultores em vários estados prejudicados pelo T-MEC e cansados do parasitismo dos cartéis que lhes impõem “o imposto criminal”. As organizações que o agrupam convocaram a um novo bloqueio de estradas e uma ação conjunta com os transportadores de carga. Lutam contra os grandes intermediários como “Maseca” e outras corporações em demanda de um preço de sustentação para o milho, cujo preço é definido na Bolsa de Chicago e que nos EUA está subsidiado.

Por outro lado, cresce a indignação por parte das centenas de milhares de moradores afetados pelas inundações em Veracruz e outros estados pelo abandono dos governos de todos os níveis e a incerteza dos trabalhadores da Pemex de Poza Rica diante da paralisia da planta produtiva em decorrência da destruição causada pela inundação. Destaca-se neste contexto de colapso ambiental a luta dos trabalhadores tecnólogos da água do SITIMTA, que resistem em defesa do direito humano à água contra os planos privatizadores do recurso hídrico a serviço das transnacionais, como as fabricantes de refrigerantes e cervejas, ou os grandes latifundiários e a crescente contaminação dos aquíferos por parte da Pemex e outras corporações extrativas.

Neste contexto de crescentes tensões, o estopim que inflamou as massas de Michoacán foi o assassinato à queima-roupa de Carlos Manzo, o presidente municipal de Uruapan enfrentado com os cartéis e também com o governador michoacano de Morena, Alfredo Ramírez Bedoya. Este prefeito surgido das fileiras de Morena, da qual foi deputado federal, rompeu, se postulou como candidato independente, ganhou e se perfilava para se candidatar a governador. Para se somar a fatores de indignação, surgem os escândalos de conspiração com o narcotráfico de alguns notórios personagens de Morena, como o Senador Adán Augusto – muito próximo a AMLO – e outros altos oficiais da Marinha, parentes do ex-Secretário de SEMAR implicados no “huachicol” fiscal e de hidrocarbonetos.

O governo não resolveu nenhuma dessas demandas, mas cumpre com as exigências do imperialismo e dos oligarcas locais que impõem planos para aprofundar a exploração e o saque do país. Todas essas falhas e agravos estão mudando a situação política dentro do país. Não pretendemos aqui dar uma opinião acabada de um processo inacabado e além disso incipiente. Mas algo é evidente: o “Segundo andar da 4T” apresenta fissuras.

Precisamos alcançar a independência política dos trabalhadores

O único caminho para alcançar a justiça social e a independência nacional e não voltar a cair em falsas alternativas nem ser usados como instrumentos involuntários das disputas pelo poder entre os donos do dinheiro grande, é construir uma alternativa política independente dos trabalhadores, que encabece as lutas de todos os explorados e aspire não só a reclamar do governo dos patrões uma porção da riqueza que produzimos, mas a estabelecer um governo operário, camponês e popular. Essa luta não pode e não deve ser só dos trabalhadores e do povo do México, mas uma luta internacional, construindo a solidariedade mútua dos trabalhadores de todo o continente americano para recuperar as soberanias nacionais diante das ameaças e chantagens de Trump. Nessa tarefa estamos empenhados os que nos agrupamos na Corrente Socialista dos Trabalhadores, que desde FORJA Socialista, os chamamos a pôr um grão de areia nessa construção.  

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