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sexta-feira, julho 12, 2024

Eleições no México: O que esperar da primeira mulher presidenta?

A imprensa internacional destaca a conquista de, pela primeira vez na história, uma mulher ser eleita presidente num país devastado, entre outros males, por um elevado índice de feminicídios, desaparecimentos de mulheres e violência machista. Todos os dias no México são assassinadas entre 9 a 10 mulheres e uma média de 18 mulheres desaparecem por dia, sem que a maioria destes crimes seja punida devido ao machismo que prevalece em todas as instituições do Estado, na polícia, forças de segurança e no âmbito judicial.

Por: CST – México

Também houve artigos na imprensa local e em alguns outros países, particularmente na América Latina, que destacaram a trajetória de Claudia Sheinbam como feminista e de “esquerda”.

A recém-eleita presidenta foi ativista estudantil durante os tempos de universidade, entrou na carreira política ainda jovem ao lado do presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO), a quem sempre acompanhou em suas diferentes formações partidárias, ocupando cargos importantes quando governou a Cidade do México. (CDMX) ou fazendo parte da equipe que o apoiou em suas sucessivas campanhas eleitorais. Posteriormente, ela esteve à frente de Tlalpan, uma prefeitura da Cidade do México, tornando-se posteriormente Chefe de Governo da capital para agora chegar à presidência da nação.

Em todos esses cargos que ocupou, Sheinbaum se destacou pelo seu ativismo em favor dos direitos das mulheres?

Claudia Sheinbaum se define como feminista. O seu lema na abertura dos eventos de campanha foi “Não chego sozinha, chegamos todas” e no seu discurso sempre teve palavras para conquistar o apoio das mulheres para a sua candidatura.. “Não chegamos todas.”

Na Cidade do México, durante 5 anos de governo de Sheinbaum, os desaparecimentos de mulheres aumentaram 12 vezes. É a entidade que regista o maior número de casos de mulheres desaparecidas em todo o país. Houve 2.060 mulheres desaparecidas entre 2019 e 2023, número que representa um aumento de 1.567% em relação ao período anterior, segundo dados do RNPDNO (Registo Nacional de Pessoas Desaparecidas e Não Localizadas).

Mas atenção. Diante de estatísticas tão macabras e das “necessidades” eleitorais, AMLO ordenou a “revisão e atualização” do Registro. Através de uma autorização administrativa, passou de 110 mil para apenas 12 mil registros. Ou seja, o Poder Executivo, do qual Sheinbaum se considera sucessora, “desapareceu a desaparecidos”, entre eles, a milhares de mulheres.

Neste período de seis anos, em todo o país, o número de mulheres desaparecidas aumentou 161,6% a mais do que no sexênio anterior.

Omar García Harfuch, Secretário de Segurança Cidadã (polícia) da Cidade do México durante o governo Sheinbaum – agora eleito senador – e que Sheinbaum o nomeou para sucedê-la embora esse plano não tenha dado certo, apresentou cifras maquiadas para poder falar em redução de 41,5% dos feminicídios, para afiançar a campanha eleitoral de sua chefa. Esses “dados” constituem uma distorção grotesca da realidade, pois se considera que apenas 25% das mortes violentas de mulheres são investigadas com protocolos de feminicídio. Além disso, na cidade, durante os últimos 5 anos, o número total de mortes violentas de mulheres aumentou, assim como o número de mortes violentas de mulheres por causas indeterminadas (IND). É evidente que a diminuição dos casos de feminicídios é resultado da maquiagem estatística judicial.

Sheinbaum já anunciou que, em relação à proteção das mulheres, aplicará programa semelhante quando governar na esfera federal. Ou seja, continuará a disfarçar os dados e a abrir pastas por feminicídios para limpar a face machista da ideologia dominante na sociedade mexicana, protegida pelo seu governo, pelo seu partido e por AMLO que a proclamou como candidata.

Durante a sua campanha eleitoral e poucos dias depois de vencer as eleições, não faltaram queixas sobre o seu perfil enganoso quando finge apresentar-se como defensora dos direitos das mulheres. “Grupos feministas, jornalistas, escritoras e ativistas criticaram Claudia Sheinbaum Pardo, virtual presidente eleita do México, por relacioná-la ao militarismo e por suas ações como chefa do governo da Cidade do México diante dos feminicídios, dos desaparecimentos e da repressão de protestos feministas”, publicou a revista Proceso.

As ativistas denunciam que a política de Sheinbaum não cobre questões como feminicídios e desaparecimentos, nem violência contra as mulheres, especialmente no local de trabalho ou de estudo. Ela foi acusada de reprimir marchas feministas durante seu mandato como chefa de governo. Em momentos em que uma onda de feminicídios atravessava a cidade, preferiu reprimir a indignação das jovens que se manifestavam diante de tanta impunidade. Preferiu proteger os monumentos e a ordem ao serviço dos empresários da capital, em vez de proteger a vida e a segurança das mulheres. Respondeu com a tropa de choque à justa ira das jovens que reclamavam pelas suas amigas, filhas e mães assassinadas ou desaparecidas.

Durante seus mandatos sempre priorizou a atração de investimentos, sempre tentando mostrar um espaço seguro e ordenado para a exploração capitalista. Para o conseguir, não hesitou em facilitar a interferência privada e o investimento nas empresas e nos serviços públicos, em manter os salários baixos, em acordar e negociar com os históricos sindicatos burocráticos contra os interesses dos trabalhadores. Nomeou García Harfuch chefe da polícia municipal, quando está confirmada sua cumplicidade no desaparecimento dos 43 estudantes normalistas de Ayotzinapa. Para ela o importante nunca foi a escolha de gênero, para ela o fator determinante sempre foi o favorecimento da classe capitalista. E foi consistente nisso.

Sheinbaum e a mulher trabalhadora

No mesmo dia em que Sheinbaum assumiu a liderança da CDMX, nomeou sua amiga empresária Florencia Serranía como diretora do popular STC-Metro, rede de transporte mais importante da cidade, empresa pública dependente do governo. Florencia Serranía era sócia de uma empresa privada de transporte e prestadora de diversos serviços para sistemas de transporte. O primeiro “investimento” importante que Serranía fez no Metrô foi a instalação de máquinas de venda e recarga de cartões para pagamento de passagens de transporte público e outros serviços de mobilidade. Esta medida pressupôs o fechamento das bilheteiras. No Metro trabalham 2.200 pessoas nas bilheterias, a maioria – 99% – são mulheres, muitas delas mães “chefes de família”. Com esta medida, e até agora, essas trabalhadoras estão expostas a demissão, mudança de função, de horários e de local de trabalho. Dada esta situação, os seus salários não foram atualizados conforme o que correspondia ou tinham prometido. Ao longo do mandato de seis anos de Sheinbaum, as companheiras trabalhadoras da bilheteria do metrô tiveram seus direitos violados e foram abandonadas em situação de instabilidade permanente. Foram vítimas de discriminação e abuso no trabalho. Podemos também mencionar a questão da limpeza do Metro, realizada por milhares de trabalhadores precarizados, a maioria mulheres, sem segurança social. Sheinbaum ignorou as mulheres trabalhadoras e protegeu sua amiga empresária. Ela não a escolheu por causa do gênero, a escolheu por causa da classe que ela representa.

O caso das professoras do CDMX é outro exemplo da habilidade demonstrada por Sheinbaum em adiar o salário de outro setor majoritário de mulheres trabalhadoras. A indignação das/os professoras/es da capital, liderada pelas companheiras e pelas professoras/es mais jovens, irrompeu em dezembro passado com uma paralisação do trabalho e uma mobilização que comoveu a cidade. Pararam e marcharam, organizadas pela Coordenação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), enfrentando o Sindicato pelego (SNTE) com o qual Sheinbaum negociava salários miseráveis.

O despertar das/os professoras/es da CDMX somou-se à indignação generalizada do setor em todo o país devido ao engano de que foram vítimas durante os seis anos de governo de AMLO. A CNTE a nível nacional entrou em greve e organizou uma manifestação no Zócalo, no dia 15 de maio, desafiando a cerimônia de encerramento da campanha de Sheinbaum e o pequeno evento de celebração após a vitória eleitoral. Muitas professoras aderiram às ações, passaram dias e dias e ainda estão na manifestação gritando “Disseram na campanha que tudo iria mudar. Mentira, mentira, é a mesma porcaria.” Entre elas estava a Secretária Geral da Seção XXII da CNTE, de Oaxaca, que foi reprimida com gás e cassetetes pela polícia, junto com outros companheiros na saída do Palácio Nacional, após reunião com AMLO.

Tornar-se a primeira mulher presidente foi o resultado de décadas de lutas das mulheres mexicanas. E também as lutas das mulheres em todo o mundo, que obrigaram o pragmatismo eleitoral burguês a ceder candidatura a uma mulher. A frente de oposição de direita fez o mesmo, também nomeou outra mulher para a presidência. Ambos os partidos em conflito reconheceram a utilidade de empoderar uma mulher para obter votos.

Para chegar à presidência, Sheinbaum também se beneficiou do “dedo” de AMLO que a escolheu como sua candidata para sucedê-lo, por ser fiel, disciplinada, obediente e “quieta”. Porque os interesses supremos do grande capital assim o exigem. E ela confessou que não faltará com o compromisso. Garante que governará para dar continuidade ao trabalho do seu antecessor, que chegou em 2018 com o mandato expresso de “manter o tigre amarrado” (conter as massas, ndt.) e o cumpriu. Ela promete “continuar o trabalho” daquele que tornou os ricos ainda mais ricos do que durante os governos anteriores. Tarefa com a qual Sheinbaum colaborou como Chefa de Governo da capital.

É por isso que de Washington, das instituições do imperialismo mundial, das corporações financeiras e as empresas estrangeiras e nacionais – e entre eles, do cartel da droga – apostaram por apoiar à que AMLO escolheu como sucessora para continuar com a tarefa. Já está provado que quando ela tem que escolher, escolhe a classe dos poderosos, dos empresários, dos donos do dinheiro. A violência contra as mulheres, os povos indígenas, as pessoas LGBTI, as pessoas deslocadas, os imigrantes ou a proteção do meio ambiente não serão o centro das suas preocupações. Ela não enfrentará o machismo, a xenofobia, a misoginia, o racismo, a discriminação e o assédio, nem dentro do seu partido, nem a partir do seu governo. Já deu prova disso.

Não podemos ficar sentados de braços cruzados e esperar. Para acompanhar a experiência daqueles que nela confiaram, vamos exigir que ela cumpra as suas promessas eleitorais em relação aos direitos das mulheres, particularmente os direitos das mulheres trabalhadoras, indígenas e camponesas pobres. A luta pelas verdadeiras reivindicações das mulheres e de outros sectores oprimidos deve continuar. Para avançar nesta batalha, é necessário e urgente organizar-nos politicamente para lutar independentemente dos partidos do regime capitalista semicolonial mexicano. Para isso precisamos unir a classe trabalhadora, o que exigirá o combate ao machismo dentro das organizações sindicais e dos trabalhadores. Da CST – Corrente Socialista dos Trabalhadores, como parte da Liga Internacional dos Trabalhadores, convidamos você a participar desta importante tarefa.

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