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Bolívia

LIT-QI/ Especial 30 anos – Lora – Solón: polêmica chave na Bolívia

agosto 7, 2012
Há poucas semanas se realizou nas proximidades da cidade de Cochabamba, Bolívia, um debate público entre Guillermo Lora, líder e fundador do Partido Operário Revolucionário (POR), e Pablo Sólon (*), maior dirigente do Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), organização boliviana ligada às posições da LIT-QI.
 
Na primeira intervenção do companheiro Lora e a consequente resposta de Pablo Solón se delinearam os temas chaves para a revolução boliviana e de grande importância para o movimento trotskista mundial.
 
Guillermo Lora começou sua intervenção sustentando que a Central Operária Boliviana (COB) foi em distintas etapas um verdadeiro soviet, “a COB, órgão de poder”. Em seguida, fez referência à crise econômica que vive a Bolívia e, que afirmou, é parte da crise mundial. Denunciou a dívida externa como causa das privatizações a que é submetido o povo boliviano. Denunciou, também, a manutenção do elevado orçamento militar para a repressão das lutas do povo boliviano. Lora referiu-se, depois, à crise mundial do estanho e explicou que para solucioná-la a burguesia boliviana apelava para o aumento da exploração dos trabalhadores. Denunciou o caso de dirigentes sindicais que chamavam os trabalhadores a trabalhar mais intensamente para que a extração do mineral boliviano voltasse a ser competitiva no mercado mundial. Finalmente colocou que a saída para essa situação que aflige os trabalhadores e o povo boliviano é combater este governo de maneira revolucionária, “com os métodos da classe operária, a ação direta e as mobilizações”. A saída para esta crise é expropriar a grande propriedade burguesa. Afirmou, também, que é necessário unir todo o povo da Bolívia sob a direção política da classe operária “e nos orientando na luta diária para tomar o poder político”. Finalizou dizendo que nesta luta irão surgindo organismos das massas, que se converterão em órgãos de duplo poder e que são os que disputarão o poder da burguesia.
 
Pablo Solón concordou com Guillermo Lora na tese de que não há solução a nenhum problema do país se não se resolve a questão da tomada do poder político. Disse que a greve geral por tempo indeterminado coloca o problema do poder e, por conseguinte, se faz necessária uma direção que esteja disposta a lutar pelo poder. Por não tê-la em março de 1985, segundo Solón, se perdeu a possibilidade da COB tomar o poder na Bolívia. Manifestou que ao lançar uma greve por tempo indeterminado deveria se formar um comando político que aglutinasse a COB, os comitês de defesa da educação, da nacionalização do minério e a esquerda revolucionária.
 
Discordou de Guillermo Lora quanto à postura frente ao fechamento das minas pelo governo. Considerou que a proposta do dirigente do POR de “revolução proletária” resultava numa verdade geral para o futuro, não uma resposta concreta para o trabalhador ameaçado pelo fechamento das minas. Colocou que era necessário créditos para investimentos e que os trabalhadores deveriam exigi-los do governo para colocar as minas para funcionar. Também criticou a posição dos militantes do POR, que propunham ocupar as minas, apontando que isso equivale a liberar o governo da obrigação de proporcionar os fundos para fazê-las funcionarem. Finalmente afirmou que a grande tragédia dos trotskistas na Bolívia é que em 1952 não viram que a COB era um órgão de poder, que havia uma dualidade de poderes entre a COB e o MNR, que não colocaram que a COB tomasse o poder.
 
Apresentamos a seguir a segunda intervenção de Guillermo Lora e a resposta de Pablo Solón com a qual se encerrou o debate.
 
Intervenção de Guillermo Lora
 
Eu sou obrigado a fazer um breve comentário sobre o que disse o companheiro. Em primeiro lugar não entramos em polêmica com ele. É a primeira vez que estou trocando ideias. Em segundo lugar, quando dizemos que se deve manter as minas abertas, conseguir que sejam rentáveis, baixar os custos, aumentar a produtividade, renovar a tecnologia, estamos indicando que isto só pode ser feito se a classe operária for dona das {module Propaganda 30 anos}minas, se tomá-las. Agora, para fazê-las funcionar, que é seu objetivo, necessita-se de um capital de operações para pagar os salários, suprir os mercados (armazéns subvencionados nos acampamentos mineiros), melhorar as ferramentas, o maquinário, etc. De onde tirar o dinheiro? O movimento mineiro tem que pressionar o governo, obrigá-lo, tem que se mobilizar, e não somente com os mineiros, mas com todo o país. E nesta luta prática, não abstrata, será encaminhada a expropriação do sistema financeiro, da mineração, não como uma conclusão simplesmente de uma palavra de ordem, mas para materializar o funcionamento da mineração, resolver seus problemas.
 
Nessa luta de massas se verão obrigadas a traçar a necessidade de tomar todo o poder. Porque senão, não podem fazer funcionar satisfatoriamente as minas. É, portanto, uma palavra de ordem transitória que pode permitir aos operários, partindo do que são agora, com seu atraso, com seus preconceitos, com seus desvios, chegar a amadurecer e dizer ou tomamos o poder ou nos esmagam, como uma necessidade inadiável. Agora, quem é o motor dessa atividade? O partido político que precisa dirigir politicamente o conjunto das massas, o conjunto dos explorados. Mas, além disso, vai criar os órgãos de poder. O que ele disse, com outro nome, é construir um Comando Político onde estejam representados os sindicatos, partidos políticos, as massas. Sim. Isso é o que se fez na Assembleia Popular (organismo surgido em 1970, sob o governo do general J.J. Torres, N.R.). A COB estava presente. Mas a COB não pode cumprir a missão de órgão de poder, foi parte integrante do órgão de poder. Isto é um esclarecimento.
 
Tudo o que dissemos está escrito em maiúsculo, os erros, as retificações e os acertos. Porque assim é a política. O outro problema é o ano de 52. Este é o grande debate boliviano ou mundial. Por que o POR não tomou o poder no ano de 52? Por uma razão; porque as massas estavam no MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário, força burguesa, nacionalista nos tempos da revolução de 1952, liderada por Victor Paz Estenssoro, que se tornaria logo agente dos Estados Unidos). Quantos aqui já escutaram que estiveram no MNR! As massas proletárias, as massas camponesas estavam dentro do MNR. Os militantes do POR, e inclusive os operários do MNR, lutamos arduamente para criar uma central proletária, dirigida pelo proletariado mineiro. O que agora é a COB. Durante seis anos, a COB não pode se materializar. Só foi possível em 1952, mas nasceu como um soviet, e quem fez isso? O POR, que imediatamente disse: “Este é um órgão de poder… aqui há uma dualidade de poderes entre a COB e o governo de Paz Estenssoro”.
 
Eu estava casualmente na Europa dessa vez, não poderia voltar, não tinha dinheiro para voltar. A dois ou três dias de 9 de abril de 1952 (dia da revolução, N.R.) me convidaram para uma conferência pública e eu disse: “A classe operária para poder chegar ao poder e libertar-se tem que passar pelo cadáver do MNR e do Sr. Lechín” (Juan Lechín, dirigente pró-burguês da COB). Muitas pessoas da esquerda não gostaram disso. Mas desde essa perspectiva abrangente, vamos educando lentamente as massas em sua experiência diária. Neste caso vivendo a experiência desse grande partido que era o MNR, que englobava operários e camponeses. E como se manifestou o conflito? Da forma mais estranha. Era possível perceber que os operários desconfiavam instintivamente da direção do MNR. Sentiam-se membros do MNR. Haviam lutado durante o ano conosco como parte do MNR, lado a lado, nos sindicatos, nas ruas, eram valentes operários, valiosos camponeses que acreditavam no MNR e que respeitavam e queriam o POR.
 
A COB nomeou ministros operários, o Sr. Lechín, o Sr.Tones, Ñuflo Chávez e Germán Butrón, o fabril. Era o conflito inicial. Era a esquerda do MNR que foi descoberta pelo POR. Nós dissemos por escrito, sem que Lechín se desse conta, aí está uma esquerda do MNR, é a expressão operária do MNR. O MNR dentro do movimento operário, que tinha uma maioria esmagadora na COB. O POR era minoria que ganhou muitos debates, como eu disse esta manhã na universidade, com o voto desses operários e camponeses que eram do MNR. Mas chegavam somente até ai. Porque eram incapazes de desmascarar a sua direção.
 
Lechín tinha um enorme prestígio de revolucionário. Ele havia sido inclusive militante do POR durante um tempo. Bom. Quando foram nomeados os ministros da COB, o POR disse “eles devem levar nossa resolução, não podem fazer o que lhes dá na cabeça, têm que estar submetidos ao controle da COB”. Não foi possível. Porque o PCB não só apoiou a esquerda do MNR como a Paz Estenssoro, contra o POR. O que lhes contei esta manhã e creio que o companheiro o escutou.
 
Como Lênin quando disse em 1917, “Todo poder aos sovietes”. Os sovietes estavam sendo dirigidos não pelos bolcheviques, não por leninistas, e sim por mencheviques e os socialistas revolucionários. Que queria Lênin? Que o poder passasse das mãos da burguesia para os mencheviques e socialistas revolucionários. Pensava que podia haver uma transição pacífica do poder, sem insurreição. O POR acreditava que se a esquerda do MNR, os seguidores de Lechín, os ministros operários deslocassem a ala de Paz Estenssoro esse processo poderia ocorrer, o poder poderia ficar na COB.
 
“Eu me recordo que uma vez visitei Lechín para conversar e lhe disse: “Nesta etapa – e o publiquei por escrito – corresponderia a que tua ala, que vocês, retirem Paz Estenssoro do poder”. Lechín me respondeu. É dos nossos. Não, ele não tinha meu pensamento, nem o dos militantes do POR. Ele estava representando um partido que expressava os interesses gerais da burguesia.
 
Agora, não se formulou que a COB tomasse o poder? Claro que sim, quando foi proposto que os ministros da COB tirassem à direita. Quem era então Ñuflo Chávez, representando os camponeses, Bútron, os fabris, Lechín, representando a COB e os mineiros? Era, pois, como se disséssemos que esta COB tome o poder. Quem, então, tomaria o poder? Lechín e seus colaboradores representando os setores proletários. Acontece que agora já não poderiam fazê-lo porque a COB voltou a ser um sindicato. Nessa época era um verdadeiro órgão de poder, como afirmou o POR.
 
Agora, logicamente, onde foi o erro? Onde o POR cometeu um erro e todo o trotskismo mundial? Porque a posição do POR, que eu representava, não os setores opositores dentro do POR, tinha uma resistência mundial, inclusive entre eles, do Sr Moreno, que é o chefe do companheiro. Eles na realidade queriam simplesmente um apoio ao governo do MNR. Nós também o dissemos, mas quando? Quando vinha uma investida do imperialismo e da rosca[1]. Não esqueçam os senhores que em 06 de fevereiro de 1953 explodiu o golpe pró-rosqueiro dentro do próprio MNR; movimento este dirigido por Peñaloza e alguns membros da falange da direita que entraram no MNR. Queriam cortar o pescoço de Lechín, que foi feito prisioneiro, creio que aqui, em Cochabamba. Então, logicamente, quando a reação vinculada com o inimigo ataca um governo, temos que defendê-lo. Não temos que derrubá-lo porque não podemos, não somos maioria na classe operária. Temos que defendê-lo. Isso dói feito na Rússia quando Kornilov se levantou em armas. Um russo branco se levantou em armas. Que disseram? Por acaso, Lênin disse “fora o governo provisório”, que era um governo burguês? Não, temos que defendê-lo, temos que esmagar Kornilov sem confundir as bandeiras, atacando-o. Não estamos na realidade defendendo a política desse governo, estamos defendendo o processo revolucionário da contrarrevolução direitista externa.
 
Eu me recordo quando Garcia Meza estava no poder e alguns esquerdistas pediam aos Estados Unidos que viesse aqui impor a democracia. Nós dissemos “Frente à investida do imperialismo vamos defender o governo boliviano, inclusive de Garcia Meza, para nos libertar do imperialismo”. Ali era a mesma coisa. Era uma tática estritamente bolchevique. O grande erro foi não poder dimensionar o ritmo da evolução do processo boliviano. Que em outubro de l952, a classe operária retrocede. Por quê? Porque se ordenou a nacionalização das minas.
 
Explicamos nas ruas, em nossos jornais: “Companheiros mineiros, estão pagando indenizações à burguesia mineira, isso não pode ser. Não estão dando o controle operário a toda a classe, e sim a alguns indivíduos que vão ser controlados pelo MNR”. Os operários nos diziam “Bem, vocês são muito intransigentes, já nos deram o controle operário, que mais vamos pedir”. E deixaram o MNR fazer tudo.
 
Nesse momento, a COB começou a ser controlada burocraticamente pelo MNR, aproveitando a figura de Lechín. E foi combatido enormemente pelo POR e encurralado. A COB, aos poucos, deixou de ser o órgão de poder e foi acentuando lentamente seus contornos de organização sindical burocratizada, até chegar ao ano de l954, seu primeiro Congresso, em que repudia as Teses de Pulacayo (teses da COB, inspiradas no “Programa de Transição” de Trotsky) e vota um programa de apoio total ideológico-prático ao MNR. Lechín declara Paz Estenssoro como libertador econômico. Essa é a verdadeira atuação do POR. Logicamente, nem tudo o que fez o POR foram acertos. Sim, houve muitos erros. Mas a linha geral é correta. Por isso o POR está vivo. Por isso é uma grande tendência política. Senão teria sido varrido do cenário, como o foram tantos outros grupos.
 
Por exemplo, o companheiro tem sua origem em uma oposição internacional, que é o morenismo. Uma vez quando eu estive em Buenos Aires, este senhor Moreno estava em uma conferência e começou a defender Evita Perón, que era a expressão mais atrasada do movimento operário argentino. Não para fazer política revolucionária; porém para defender o atraso do movimento operário argentino. O companheiro esteve no Partido Socialista Uno (PS-1; partido de esquerda centrista na década passada, cuja evolução foi se transformar em uma força reformista, NR) porque dizia que o programa de Quiroga Santa Cruz era o ideal do revolucionário, e ele saiu do PS-1, defendendo o programa de Quiroga Santa Cruz (dirigente fundador do PS-1), que nunca deixou de ser um crente e de ser um canal de expressão da política burguesa. Um elemento que vinha da burguesia boliviana que estava projetando-se em direção ao marxismo, mas não conseguiu chegar até lá. Porém, antes, seus antecessores haviam sido excluídos do POR pelo fato de manterem uma posição nacionalista de defesa dos governos nacionalistas como Ovando; de defender métodos organizativos guerrilheiristas. Quebraram com o POR, com uma política nacional de guerrilha. Bem, ele pode evoluir.
 
Porém é assim, um acúmulo de erros e equívocos. Temos que encontrar um bom caminho. Temos que superar esses erros. Mas temos que ver se esses erros comprometem ou não a linha programática, que no caso de um partido revolucionário tem que ser a estratégia do proletariado. Se é assim, se a compromete, mudou de conteúdo a classe. Esses são esclarecimentos às colocações que faz o companheiro que tem perfeito direito de discordar e de ter a opinião que quiser. Disso não há dúvida.
 
Eu fiz este esclarecimento por respeito a vocês, para que mais ou menos tenham elementos de avaliação; e porque me resta um brevíssimo tempo, pois estou convocado para uma reunião em Cochabamba, e por isso lamento muito não poder debater com vocês. Com certeza gostariam de fazer perguntas, mas são 08h50min. Então vão me desculpar, mas tenho que me deslocar até a cidade de Cochabamba. Muito obrigado.
 
Resposta de Pablo Solón
 
Ainda que gostasse muito que o companheiro Lora pudesse escutar a resposta a todas as suas colocações, vou fazê-lo, porque o mais importante é a presença de todos vocês aqui. Quero me referir a um problema fundamental que diz respeito aosprincípios.
 
É correto apoiar e defender incondicionalmente um governo burguês? Sim ou não? Guillermo Lora afirma que é possível apoiar e defender um governo burguês quando este é atacado por uma expressão da direita, ou quando o governo, como o de Garcia Meza, é agredido pelo imperialismo. “Nós inclusive defendemos esse governo”. Foram as palavras do companheiro Lora.
 
Para defender sua posição, ele utiliza a citação de Lênin quando se deu o golpe de Kornilov contra Kerensky. Para fazer uma analogia: o golpe de um fascista contra o que era o golpe da UDP. Felizmente tenho aqui, em meu poder, a citação de Lênin. Vou lê-la para que vejam que o que disse o companheiro Lora é totalmente falso. “Nem sequer agora devemos apoiar o governo de Kerensky. Seria faltar aos princípios. Por acaso não temos que combater Kornilov, se nos contestarem? Claro que sim, mas entre combater Kornilov e apoiar Kerensky contém uma diferença, existe um limite, e este limite o negociam alguns bolcheviques caindo na ‘conciliação’, nos deixando arrastar pela torrente dos acontecimentos”. Primeiro esclarecimento, quando um governo democrático burguês é agredido pelo fascismo, nem sequer nesse momento Lênin disse que temos que defendê-lo incondicionalmente ou apoiá-lo.
 
Vamos ao outro caso; quando um governo é atacado pelo imperialismo, Trotsky no “Programa de Transição”, afirma o seguinte, e eu gostaria que o companheiro Lora estivesse presente para desmentir Trotsky. “Ao defender, o país colonial em uma guerra (com o imperialismo) o proletariado não se solidariza no mais mínimo com o governo burguês do país colonial”. Nem mesmo no caso de uma guerra podemos defender o governo de Garcia Meza. Estamos radicalmente contra a intervenção ianque, mas não lhe damos nem um grama de confiança nem apoio ao regime de Garcia Meza. Este é um problema capital porque diz respeito aos princípios do que é o marxismo, o leninismo e o trotskismo. Lora rompe o princípio de independência de classe. O POR apoiou criticamente o governo do MNR que foi o coveiro da revolução de 1952, quando era possível que a COB tomasse o poder, palavras do próprio companheiro. Além disso, de que contrarrevolução ia se defender o governo do MNR, se a reação nasceu do próprio MNR, como explica Lora ao se referir ao movimento encabeçado por Peñaloza.
 
Vamos por esta via dos princípios responder aos outros argumentos do companheiro Lora. Ele afirma que esteve de acordo com o co-governo entre a COB e o MNR, só que com uma condição – que os ministros operários estivessem sob o mandato imperativo das massas. Isso é ir contra o leninismo e o trotskismo. Jamais eles (Lênin e Trotsky) estiveram de acordo com o governo entre os trabalhadores e a burguesia. Jamais eles aceitaram co-governar com a burguesia com a condição de que os ministros operários tivessem mandato imperativo dos trabalhadores. Isso seria enganar os trabalhadores, fazê-los crer que seus ministros podem defender efetivamente seus interesses dentro do gabinete burguês.
 
Lora nos estende uma armadilha. Disse-nos que determinar todo o poder à COB é o mesmo que pedir que os ministros operários transformem a direita do MNR do gabinete do MNR. O companheiro Lora quer nos fazer acreditar que lutar para que a esquerda do MNR, o lechinismo tome o poder, é o mesmo que lutar para que a COB tome o poder. Lênin, na revolução de 1917, esclareceu que ele não pedia aos mencheviques e aos socialistas revolucionários tomarem o governo à margem dos sovietes, senão que rompessem com a burguesia e instaurassem um governo dos sovietes. Por quê? Por que no primeiro caso, ainda que o governo fosse somente de partidos operários reformista, as instituições que eles tivessem gerenciando continuariam sendo burguesas. Ao contrário, se os sovietes tivessem tomado o poder, as instituições que governariam teriam sido operárias, ainda que suas direções fossem reformistas.
 
Sigamos adiante, ele disse “Por que o POR não tomou o poder em 1952? Porque as massas estavam no MNR”. Com esse argumento, Lênin também poderia dizer. “Na Rússia não tomamos o poder porque as massas estavam com o mencheviques e os socialistas revolucionários”. Porque durante os primeiros meses da revolução russa, em fevereiro e em março, as massas eram majoritariamente, assustadoramente, mencheviques e socialistas revolucionários, não eram bolcheviques. Lênin não atuou como Lora. Lênin se dotou de uma política para tirar as massas dos mencheviques e dos socialistas revolucionários e ganhá-las para a revolução. Qual foi essa política de Lênin? Nenhuma confiança no governo burguês de Kerensky, nenhum apoio, todo o poder através dos sovietes; Lênin incitou as direções mencheviques e dos socialistas revolucionários dos sovietes a que tomassem o poder através destas organizações para desmascará-las. Assim Lênin ganhou as massas.
 
Qual foi a política do POR, em 52 para ganhar as massas do MNR? Primeiro, defesa incondicional do governo Paz Estenssoro aplicando o critério da crítica para que cumprisse com os postulados da revolução. Se vocês dizem isso às massas, vão ganhá-las para o seu lado? Evidentemente não.
 
Em segundo lugar lhes disse, a esquerda do MNR pode ser a alternativa. Com essa política era natural que as massas seguissem o MNR. Lora em vez de exigir de Lechín que rompesse com o co-governo COB-MNR e impusesse o poder da COB, foi conversar com ele e sugeriu que ocupasse mais ministérios dentro do gabinete do MNR. Assim todos os ministros seriam “operários” e Paz Estenssoro desde a presidência, que é o eixo do governo, continuaria a defender os interesses da burguesia. A única alternativa era substituir o regime do MNR, com seu presidente Paz Estenssoro, pelo poder da COB.
 
O companheiro Lora disse que nós também apoiamos criticamente o governo do MNR. Aqui eu tenho um documento de 1953 da corrente internacional da qual fazemos parte. Nosso partido apenas tem dois anos de vida na Bolívia; vai completar em 26 de maio seus dois anos, mas somos parte de uma corrente internacional que o companheiro Nahuel Moreno dirigiu e que existe desde a década de 40. Que disse essa corrente internacional, que agora se denomina Liga Internacional dos Trabalhadores no ano de 1952? Exatamente o que o contrário do que disse Lora e o POR. Leio para vocês. “Se querem nacionalizar sem pagar pelas terras e pelas grandes empresas, e assim sair da miséria e da fome, têm uma única forma de consegui-lo: não ter nenhuma confiança em Paz Estenssoro, derrubá-lo o mais rápido possível e confiar somente em suas organizações.” Esta é a síntese de nosso programa. Nossa corrente internacional continuava dizendo “Por acaso é possível instaurar um governo operário através do apoio crítico ao MNR? As Teses de Pulacayo poderão ser implementadas mediante o apoio crítico ao MNR e ao governo? Por acaso este partido não reflete no governo os interesses da burguesia e do imperialismo? Sendo assim, podemos lhe dar um apoio crítico e lhe pedir que cumpra um programa revolucionário?” Essa foi nossa posição. Nenhum apoio crítico ao MNR, nada de lhe exigir que cumpra os postulados da revolução que só faz enganar e confundir as massas.
Em relação à Lechín, nossa posição foi desde janeiro de 1953 a seguinte: “Algum marxista apressado tiraria a conclusão de que dentro do MNR há uma ala de esquerda e outra de direita. Lechín refletiria a primeira e Paz Estenssoro e Siles Suazo, a segunda. Sem dúvida que dentro do MNR, como partido da pequena burguesia, existe uma enormidade de matizes. Nesse sentido se pode falar de setores de direita, de extrema direita, etc., já que estas alas não estão solidamente constituídas nem têm seus órgãos ou organizações específicas”. Quer dizer, que diferente de Lora que se vangloria de haver descoberto a ala esquerda do MNR, nós dizíamos que não se pode falar de uma ala esquerda solidamente constituída.
 
Mas continuemos: “A contradição fundamental na Bolívia não é entre a ala direita e a ala esquerda do MNR, e sim entre o MNR e a Central Operária Boliviana. Essa contradição fundamental é a chave do problema boliviano. Como a maior parte dos dirigentes da Central Operária pertence ao MNR, pode dar a impressão de que dentro desta há uma ala revolucionária. Nada mais equivocado”. E em outra parte disse: “Lechín é um centrista típico. É quem cumpre o papel de apaziguar os operários, ao mesmo tempo em que jura palavras de ordem revolucionárias. É ele quem dá fôlego ao governo de Paz Estenssoro para que possa respirar, já que sem ele as massas bolivianas teriam que cumprir seu programa revolucionário”. Nós propusemos superar a direção lechinista e levantamos a consigna de ‘Todo poder à COB’ e fomos contra ao apoio crítico.
 
Não quero cansá-los mais com a polêmica de 1952, ainda que se pudesse argumentar com uma série de elementos e documentos. Quero me referir às acusações lançadas pelo companheiro Lora ao final de sua intervenção.
 
Quando eu venho fazer um debate, faço-o seriamente, com documentos, com altivez, com respeito, sem adjetivos. O companheiro Lora vem e lança série de adjetivos para desqualificar o adversário sem apresentar prova alguma. Sustenta que o morenismo apoiou Eva Perón na Argentina. Lora vai ter que demonstrar com documentos essa afirmação, assim como nós mostramos que Lora defendeu Victor Paz e o lechinismo.
 
Por outro lado o PS-1. Vocês ouviram , Marcelo Quiroga era um padre que estava se aproximando do marxismo. Efetivamente, Quiroga Santa Cruz vem de uma posição de direita e evolui até a esquerda. Mas que fazemos nós quando alguém evolui até a esquerda? Começamos a esfregar-lhe seu passado na cara, como faz Lora, ou buscamos impulsionar as tendências progressivas que há em sua posição? No marxismo mundial existiu uma figura muito grande que veio da direita em direção à revolução, e Lênin dizia, diferente de Lora, ‘é criminoso que o julguemos por seu passado, temos que saudar porque o estamos ganhando e temos que impulsionar para que ele vá muito mais além’. O PS-1, lamentavelmente, não se desenvolve mais como uma opção que vá em direção ao socialismo revolucionário. Frustra-se. Interrompe-se. Alguns de nós tentamos desenvolver essa tendência, essas possibilidades revolucionárias. Fracassamos, é certo, mas não estivemos assistindo de camarote. Se amanhã surge uma corrente progressiva, revolucionária, ainda que não se diga trotskista, não por isso vamos dizer “como não se dizem trotskistas, não são revolucionários”. Não, temos que impulsionar esses fenômenos e ver como os empurramos mais além.
 
Por último, Lora disse que eu tinha posições nacionalistas. Quando? Onde? Assim é muito fácil desacreditar o adversário.
 
Companheiros, temos que discutir com documentos em mãos. Quando digo que Lora não levantou a palavra de ordem de “todo poder à COB”, trago as citações e as mostro. Agora, Lora escreveu muitas histórias de 1952. Alguém teria que comparar o que ele disse em 53, em 60, em 78 e em 84, e veria que em cada uma dessas interpretações há uma diferente explicação sobre o que o POR fez em 1952. Isso é grave.
 
(*) Pablo Solón, no momento desse debate, era o principal dirigente do PST (seção boliviana da LIT-QI). Na atualidade não faz mais parte de nossa Internacional.
 
Fonte: Correio Internacional no. 25, dezembro de 1986, e http://litci.org/especial/index.php/polemicas-2/bolivia-1952/bolivia-artigos/1878-lora-solon-polemica-chave-na-bolivia
 
Tradução:Valéria Lezziane
 
[1] Nome dado a burguesia pró-imperialista proprietária das minas de estanho antes da nacionalização.

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