Um escândalo começou quando um jornal local de Gujarat noticiou que o número real de mortes no estado estava sendo oculto, e que provavelmente era muitas vezes maior que o oficialmente divulgado.[i] Muitos indianos suspeitavam que a verdadeira escala da pandemia estava sendo escondida, já que os hospitais, médicos e outros trabalhadores da linha de frente da saúde (como os ASHAs, semelhantes a agentes comunitários de saúde no Brasil) estavam sendo sobrecarregados com os números crescentes de mortes.

Por: Adhiraj Bose

Logo depois, vários especialistas começaram a desconfiar de uma taxa de mortalidade maior que a oficial, especialmente o Dr. Jha[ii], que estimou uma mortalidade diária de até 25.000 indianos. E agora, até o New York Times está relatando essa possibilidade; em sua edição de 25 de maio de 2021, o jornal causou um rebuliço ao noticiar que a contagem real de mortos pela Covid na Índia podem ultrapassar 4.2 milhões de pessoas! Isso seria muito mais do que a mortalidade global da pandemia até agora. O governo, naturalmente, nega, mas sem nenhuma prova substancial, nem nenhuma refutação dos dados de pesquisa que os estatísticos citados pelo NYT utilizaram. Eram dados de uma pesquisa do próprio governo.[iii]

Se houver algo de verdade nessa história, e tudo indica que há, esse será o pior e mais letal episódio da história do Sul da Ásia desde a guerra de libertação de Bangladesh, em que pelo menos 300.000 (e talvez até 3 milhões) de bengaleses foram assassinados pelo exército do Paquistão. A responsabilidade desse desastre é principalmente do governo atual. Narendra Modi dirige a “farmácia” do mundo, com a maior capacidade de pesquisa e produção de vacinas, um enorme exército de trabalhadores da saúde treinados, e um orçamento anual de mais de 300 bilhões de dólares[iv], e mesmo assim deixou o país no chão e causou um desastre humanitário.

O governo precisa ser responsabilizado por sua crueldade, incompetência e arrogância, pela forma como tratou os povos da Índia. Embora a segunda onda esteja começando a diminuir, com os casos relatados caindo para os níveis da primeira onda (62.226 novos casos e 1.470 mortes em 15 de junho, pelos dados oficiais), o dano infligido durante a primeira e segunda onda da pandemia está longe de ter sido desfeito. Infelizmente, o governo dirigido pelo BJP [partido de direita nacionalista que comanda o governo indiano] já começou a se gabar e fazer manobras para tentar se colocar como responsável por esse sucesso, que se deve inteiramente aos abnegados trabalhadores da saúde da Índia, e não aos desastrados e arrogantes governantes.

Mesmo usando os dados oficiais, 380.000 mortes aconteceram na Índia, das quais 200.000 foram só na segunda onda. Os lockdowns causaram um caos na economia e mergulharam o país na primeira recessão em 40 anos, com dezenas de milhões de demissões. Mas esse desastre não aconteceu de um dia para outro. O governo começou a errar já no início da primeira onda.

A primeira onda e os lockdowns

O enfrentamento à primeira onda foi catastrófico. Como descrevemos em um artigo anterior[v], apesar de saber do vírus desde dezembro e ter sido avisado de seu potencial de contaminação, o governo desprezou a ameaça e não impôs nenhuma restrição à entrada e saída do país até ser tarde demais. Não houve nenhuma preparação para um possível surto na Índia, e ao contrário, o governo organizou eventos enormes como o “Hello Trump” em Gujarat. Ninguém foi surpreendido quando Gujarat se tornou um dos estados mais afetados da Índia.

Quando o governo enfim agiu, sua falta de preparativos ficou evidente na pressa com a qual houve um lockdown nacional. Milhões de pessoas perderam o emprego, e trabalhadores migrantes e que vivem do que ganham no dia a dia ficaram sem ter como sobreviver. Não houve nenhum plano de contingência, nenhuma medida para minimizar seu sofrimento, e sim uma suspensão cruel e insensível da vida econômica que feriu profundamente a Índia por muitos e muitos meses. O lockdown foi suspenso quando se tornou insuportável para todos ver trabalhadores se arrastando pelas ruas e lambendo leite derramado para tentar enfrentar a fome. Só após revoltas dos trabalhadores em Gujarat e Maharashtra o governo começou a permitir que os trens funcionassem para que os migrantes voltassem para casa. O lockdown terminou logo depois, e a primeira onda aí mostrou sua face mais violenta, com dezenas de milhares de novos contaminados e mais de 1000 mortos por dia.

A primeira onda foi um desastre, mas não chegou nem perto da tragédia de erros que foi a forma como o governo Modi lidou com a segunda onda da pandemia, que ainda está nos atingindo. Depois de muito esforço, a primeira onda foi amenizada, com os casos novos caindo de cerca de 100.000 para menos de 9.000 por dia. Mas foi aí que tudo começou a dar errado. A pandemia havia diminuído, mas não acabado, e não só a quantidade de testes desabou como nada foi feito para fortalecer a já notoriamente precária infraestrutura de saúde pública indiana. O governo não estava sem dinheiro, já que bancou um novo prédio para o Parlamento e autorizou o projeto da Vista Central que custou 20,000 crore[vi]. Esse foi projeto monomaníaco narcisista desavergonhado, contra o qual toda a oposição se manifestou, mas o governo impôs mesmo assim. No entanto, a principal prioridade do governo era ganhar as eleições em Bengala Ocidental, Assam, Tamil Nadu, Kerala e Pondicherry.

Prelúdio à segunda onda

O BJP tem duas preocupações que sobrepõem todo o resto: chegar e se manter no poder, através dos meios que forem possíveis, e usar esse poder para implementar um programa neoliberal reacionário que legitime o Hindutva e destrua o setor público da Índia. Eles não se importam se a classe trabalhadora indiana vive ou morre, eles odeiam as minorias da Índia, e eles odeiam os dalits: se importam apenas com a casta superior e estão ficando mais e mais escancarados com seus preconceitos. Yogi Adityanath, o Ministro-Chefe de Uttar Pradesh, é o maior reflexo disso.[vii] Para a surpresa de absolutamente ninguém, durante a pandemia o estado dele, junto com Gujarat, Bihar e Madhya Pradesh, foram os com as piores taxas de mortalidade por Covid. Foi ainda menos surpreendente, então, que o BJP utilizasse os recursos e instituições do governo para ganhar nesses cinco estados, dos quais o mais importante era Bengala Ocidental, que tradicionalmente foi um bastião de oposição contra o governo central. A campanha eleitoral teve comícios enormes, grandes esforços de propaganda, nenhum distanciamento social, e nenhuma preocupação com a vírus se espalhar. Para melhorar as credenciais “Hindutva” do partido, o Ministro-Chefe de Uttarakhand, um estado governado pelo BJP, foi destituído e apontaram um mais direitista. E o motivo? O destituído queria impor restrições ao festival Kumbh, em que milhões se aglomeraram para um mergulho sagrado no Ganges.

O Kumbh é um festival anual de grande importância para os hinduístas, e para o BJP, naturalmente, era necessário que acontecesse para que não perdessem seu núcleo duro eleitoral nos cinco estados. A consequência dessa movimentação foi a criação do maior evento superespalhador de doença do mundo, já que milhões se juntaram para entrar no Ganges e foram expostos à infecção.[viii] As eleições foram a preocupação central do governo, e então, quando a segunda onda estava dando sinais no horizonte, o governo fingiu que estava tudo bem e continuou a campanha. A Índia nem sequer tinha se recuperado do desastroso lockdown da primeira onda, e das monumentais perdas de empregos que vieram junto, quando a segunda onda estourou com tudo.

Não demorou para que a pandemia saísse do controle. Os casos foram catapultados de 9000 para 400.000 por dia em menos de um mês, a mortalidade ultrapassou os 1.000 por dia e chegou a 4.000 em maio. E esses eram os números oficiais, mas a Índia é famosa por ter registros ruins e sistemas municipais separados, garantindo que a realidade ficasse oculta sob a burocracia e ineficiência. Os dados da pesquisa imunológica, junto com as mortes relatadas por crematórios sobrecarregados, sugerem uma imagem muito mais grave do que a oficial. Era comum encontrar crematórios e seus trabalhadores absolutamente soterrados com os novos cadáveres todos os dias. Crematórios improvisados surgiram em estacionamentos, e a imagem mais macabra veio de Uttar Pradesh, em que corpos flutuavam Ganges abaixo às dúzias, simplesmente abandonados ali para esconder a verdadeira escala da tragédia. O governo de Uttar Pradesh proibiu fotografias nos crematórios na época numa nítida tentativa de censura.

O sistema de saúde da Índia colapsou

No percurso dessa história de horror, insumos médicos básicos acabaram, especialmente oxigênio. O governo tinha abandonado a situação a essa altura, e Modi apareceu em rede nacional para dizer aos cidadãos, basicamente, que cuidassem de si próprios. Durante esses dias, muitos jovens em todo o país formaram comitês de ajuda através das redes sociais, enquanto jovens trabalhadores dos partidos comunistas ajudavam a localizar leitos para pacientes em hospitais. As redes sociais cumpriram um papel essencial em encontrar esses leitos, assim como em noticiar a falta de materiais nos hospitais. Em alguns casos o governo censurou tweets e ameaçou, com a polícia, quem divulga essas informações. O BJP estava mais preocupado com mancharem sua imagem do que com salvar vidas. Essa atitude também ficou óbvia na confusa política de vacinação do governo.

A Índia era, e ainda é, conhecida como a “farmácia do mundo”, em parte por causa da grande indústria de medicamentos genéricos exportados para todo o mundo. A África é particularmente dependente das exportações farmacêuticas da Índia. A alta capacidade de vacinação do país ajudou a enfrentar e erradicar a poliomielite no passado. Quando a primeira onda começou a diminuir, o governo, arrogantemente, decidiu que era uma boa hora para aumentar a influência da Índia no mundo e começou o que a mídia chama de “diplomacia da vacina”, em que grandes economias competem para vender vacinas para diversos países e ganhar influência e “boa vontade”. A China e a Rússia o fizeram com a Sinovac e a Sputnik, o Ocidente fez o mesmo com a Pfizer, e a Índia tentou participar. Infelizmente, o BJP não contava com a segunda onda ser tão mortífera quanto foi, talvez pelo orgulho ter cegado o governo quando este dizia que tinha “vencido” o vírus. O governo exportou 66 milhões de doses de vacinas como parte de um programa das Nações Unidas, que poderiam ter salvo vidas de indianos; ao invés disso, temos faltas críticas de imunizantes em nosso país.

A resposta do BJP foi criar sua própria versão de discriminação vacinal. Estados governados pelo partido receberam muito mais doses do que estados governados pela oposição. Isso foi exposto pelo estado de Maharashtra, e expôs a atuação duas caras do governo e sua obsessão monomaníaca de se manter no poder. [ix] A situação jamais foi resolvida e criou uma desigualdade entre estados com maiores ou menores taxas de vacinação. A situação piorou com um sistema de preços tríplice para as vacinas. Na maior parte do mundo foi implementada vacinação universal e gratuita, mas a Índia sob o BJP andou para trás e implementou um sistema de preços por níveis! Muitos trabalhadores dos setores médios, que já estavam às portas da pobreza, não conseguiriam arcar com os custos, e a falta de vacinas garantiu que muitos que poderiam tomar a vacina de graça não tivesse nenhuma dose disponível.

O resultado disso tudo é uma mortalidade que provavelmente é a maior do mundo, e, na melhor das hipóteses está no nível dos EUA, com no mínimo 600.000 mortes (o mesmo número citado pelo NYT).

Conclusões:

A pandemia, na Índia, foi um desastre humanitário de proporções épicas. Não encaramos uma crise de saúde desse nível desde o surto da gripe espanhola, que matou mais de 17 milhões. Os governantes capitalistas do país foram incapazes de criar uma infraestrutura de saúde que cuidasse de seus 1.3 bilhão de cidadãos, mesmo tendo potencial para isso. A “farmácia do mundo” não tem médicos por milhão, ou leitos por bilhão, em número suficiente para cuidar de seus doentes, nem em situações normais. A pandemia expôs a fragilidade de nosso sistema, que é um dos mais privatizados do mundo.

Os hospitais públicos são tratados com desdém, e qualquer um que possa pagar um hospital particular o faz, a grandes custos. O governo não sustenta nossos hospitais e, como resultado, não apenas falta o essencial e básico, como nossos trabalhadores da linha de frente, da enfermagem, residentes, e mesmo os médicos mais antigos, são sobrecarregados e mal pagos. Não é por nada que médicos e enfermeiros residentes frequentemente protestam contra o governo.

No decorrer da pandemia, cerca de 1.000 médicos já perderam suas vidas cuidado dos doentes, fazendo plantões de 24 horas em hospitais superlotados, trabalhando em um ambiente em que há ameaças muito reais às suas vidas por parte de parentes de pacientes desesperados. Ataques aos profissionais são coisa comum na Índia, mas o governo não move um palha para enfrentar esse problema, porque a saúde não é prioridade. Não era uma prioridade para o INC, e não é para o BJP. Nessa encruzilhada crítica, precisamos discutir um sistema de saúde público e universal, com financiamento e orçamento adequados, para garantir tratamento para toda a população. Não faltam trabalhadores da saúde comprometidos na Índia, e já temos um dos setores farmacêuticos mais produtivos do mundo, com recursos para aprimorá-lo. O que falta é vontade política por parte do governo. As lutas dos trabalhadores da saúde precisam sair de sua perspectiva imediata e evoluir para um movimento que conquiste um sistema socializado de saúde para todos.

O Reino Unido, onde o capitalismo nasceu e foi desenvolvido até o máximo, conseguiu construir um sistema nacional de saúde de altíssimo nível. Esse mesmo National Health Service [o sistema britânico de saúde) salvou o país do que poderia ter sido uma pandemia muito pior, em parte graças à direção de Boris Johnson. Apesar de todos os ataques que sofreu nos últimos anos, de Thatcher a Johnson, o NHS sobreviveu, porque a classe trabalhadora do Reino Unido lutou para defendê-lo. Se os britânicos conseguiram construir um sistema nacional de saúde, nós também podemos! E precisamos lutar por ele!

POR UM SISTEMA NACIONAL DE SAÚDE!

TODO APOIO AOS ASHAS!

TODO APOIO AOS TRABALHADORES E RESIDENTES DA SAÚDE!

ABAIXO O GOVERNO DE NARENDRA MODI!

ABAIXO A SAÚDE CAPITALISTA!

 [i]       https://scroll.in/latest/994906/gujarat-is-undercounting-covid-19-deaths-shows-divya-bhaskar-report

[ii]      https://www.thequint.com/coronavirus/you-cant-ignore-the-dead-dr-ashish-jha-on-covid-deaths-in-india

[iii]     https://www.nytimes.com/interactive/2021/05/25/world/asia/india-covid-death-estimates.html

[iv]   https://prsindia.org/budgets/parliament/union-budget-2019-20-analysis#:~:text=Total%20Expenditure%3A%20The%20government%20is,revised%20estimate%20of%202018%2D19. O gasto total chega a $379 bilhões

[v]     https://litci.org/en/the-lockdown-and-the-brutal-face-of-proletarianization-in-india/

[vi]    https://www.aljazeera.com/news/2021/5/17/central-vista-indias-modi-slammed-for-vanity-project-amid-covid 1 crore = 10 milhões, 20,000 crore é um pouco menos de $3 bilhões.

[vii]   Yogi Adityanath é um dos líderes mais reacionários do BJP na história recente. Ele está transformando Uttar Pradesh em um estado policial, em que a violência e discriminação contra muçulmanos e dalits é praticamente uma lei informal.

[viii]  https://www.theweek.in/news/india/2021/05/10/kumbh-mela-was-super-spreader-event-in-india-report.html

[ix]    https://economictimes.indiatimes.com/news/india/maha-alleges-discrimination-in-vax-supply/articleshow/81977039.cms?from=mdr

Tradução: Miki Sayoko