Uma introdução ao sistema de castas 

Uma das características fundamentais da sociedade indiana é a existência de castas. O papel da casta tem sido uma questão de muito debate entre estudiosos e ativistas. É inquestionável que este sistema social originou-se há vários milênios. Há consenso de que, em algum momento após a queda do Império Romano, ele tornou-se rígido e adquiriu sua forma atual mais opressora.

Por: Adhiraj Bose – Mazdoor Inqilab/India

Em resumo, há quatro castas ligadas a quatro posições na hierarquia social:

Brâmane – A casta com mais privilégios; é a casta sacerdotal e daqueles destinados a carreiras intelectuais.

Xátria – Sua posição fica logo abaixo dos brâmanes, é a casta dos governantes e guerreiros.

Vaixá – A casta dos comerciantes, cuja posição fica abaixo da dos Xátria, apesar de sua riqueza. Permaneceram, portanto, abaixo da casta dos guerreiros.

Sudra (ou Dalit) – Os mais baixos na escala das castas, são os trabalhadores e operários que estão destinados a permanecer presos no atraso e na pobreza.

Nehru opinou em seu livro A Discovery of India (Uma descoberta da Índia) que o sistema de castas ajudou a organizar uma sociedade baseada na formação de um Estado após a vinda dos arianos. A divisão do trabalho criou as bases para o que era então um sistema produtivo e sofisticado. No entanto, não era inquestionável nem mesmo em seu tempo.

O budismo surgiu no século VI a.C. com uma mensagem igualitária que atingiu o sistema de castas. O budismo apelou para as castas inferiores, a Vaixá e a Sudra. Ele permitia oportunidades para progredir socialmente e ser respeitado, o que não teria sido possível na sociedade indiana. Nos tempos modernos, a mesma dinâmica pode ser vista com o ressurgimento do neobudismo após a independência.

Ao longo dos séculos, as castas superiores que ocuparam cargos administrativos, principalmente as castas Brâmane e Xátria, impuseram regras discriminatórias contra os Sudra para garantir que eles permanecessem subordinados às suas regras. Isto inclui leis proibindo o casamento com castas inferiores, para que ninguém pudesse se casar com um membro de uma família Sudra, e que nenhum Sudra tentasse se casar com um membro de casta superior, e tal casamento traria punição. Havia leis restringindo os Sudras de aprender os Vedas [1] e os rituais de encantamento que são reservados aos brâmanes. O texto principal que estabelece o sistema de castas é o Manusmriti (o Livro Hindu das Leis). Nele, pode-se encontrar uma coleção de algumas punições para as castas inferiores e versos que estabelecem discriminação contra os Dalits: https://velivada.com/2017/05/31/casteist-quotes-verses-manusmriti-law-book-hindus/

O ponto preciso da origem do sistema de castas na história da Índia continua sendo motivo de debate, mas há um consenso emergente de que o sistema de castas cresceu em sua forma rígida e reconhecidamente mais repressora em por volta do início da Idade Média da história indiana, entre os séculos 3 e 5 d.C. Alguns opinam que isso foi causado pela queda do Império Romano e pela perda do comércio.

A partir deste ponto, o sistema de castas permaneceu como um instrumento social opressor, preservando o atraso cultural da casta Sudra e, em menor grau, da casta Vaixá. Isto garantiu a hegemonia das castas Brâmane e Xátria sobre as duas inferiores, que formam a maioria da população indiana.

Casta e capitalismo

A dinâmica social fundamental do capitalismo é a exploração do proletariado para o enriquecimento de uma classe capitalista, a burguesia. Todas as outras divisões ficam subordinadas a esta divisão fundamental. As barreiras de raça e casta, pelo menos em teoria, não deveriam existir sob o capitalismo, mas existem.

No caso da Índia, devemos entender a trajetória do capitalismo para entender como a casta sobreviveu a isso. Os modos de produção pré-capitalistas anteriores, com suas hierarquias rígidas e métodos improdutivos, nunca poderiam destruir o sistema de castas. A oposição religiosa do budismo, e depois do islamismo e do cristianismo, ao sistema de castas, também não conseguiu abolir este sistema. O traço comum a cada transformação social ocorrida na Índia é a manutenção de um sistema hierárquico e explorador de divisão social, seja no modo asiático de produção, seja no sistema social exclusivamente indiano que evoluiu na era medieval após o Império Gupta (século IV a V d.C.).

O capitalismo também tem estas características; é um sistema hierárquico de divisão social onde a burguesia controla todo o poder político e econômico, enquanto a classe trabalhadora permanece pobre.

Apesar da igualdade formal perante a lei, a realidade da exploração capitalista nega tal igualdade formal. A evidência histórica de duzentos anos de capitalismo na Índia obriga-nos a tirar esta conclusão, de que o sistema capitalista não representa a abolição do racismo e do sistema de castas, mas se ajusta a eles. A burguesia norte-americana aboliu a escravidão, mas manteve um sistema jurídico e político racial que garantiu que a exploração dos afro-americanos permanecesse em níveis semelhantes. A burguesia indiana também aboliu o sistema de castas da lei, mas reteve o sistema social, e o utilizou para manter a hegemonia da casta superior sobre os Dalits.

No caso da Índia, temos que levar em conta não apenas a penetração do mercado mundial capitalista, mas a maneira como isso aconteceu. O colonialismo trouxe camadas adicionais de opressão e desigualdade que o tornaram particularmente explorador e destrutivo. Os regimes pré-coloniais da Índia, sob os impérios islâmicos ou os reinos hindus, nunca desafiaram seriamente as divisões de castas. Os impérios islâmicos, pelo contrário, toleraram o sistema de castas e as hierarquias de castas que existiam na época de sua chegada. A motivação esmagadora era prática, os brâmanes e a casta intermediária Kayastha eram necessários para a construção de uma administração eficiente na Índia. Em vez de criar obstáculos, os turcos e depois os mongóis os reteriam em seus respectivos papéis políticos e sociais.

A única perturbação ao sistema de castas seria a propagação do Islã pelos santos sufistas, o que permitiu à casta Sudra uma meio de escapar da indignidade da opressão de castas. Entretanto, o sistema permaneceu e logo surgiu um sistema de castas entre a população convertida, que separava os conquistadores (Ashraf) e os convertidos locais (Ajlaf), assim como a continuação do sistema de castas indiano.

Quando o capitalismo colonial chegou como uma grande força política, digamos, depois que a Companhia das Índias Orientais assumiu o controle do Nawab de Bengala [2] em 1757, existia um sistema de administração pronto, que optaram por não alterar totalmente. Muitos dos sistemas e papéis administrativos permaneceram em vigor. Assim, a casta superior que havia permanecido numa posição de privilégio nos Nawabs, permaneceu no poder sob o poder da empresa das Índias Orientais, apesar de seus ocasionais impulsos igualitários como a abertura de recrutamento para as castas inferiores Maars e Dalits no Exército de Bombaim [3]. A Companhia das Índias Orientais preferiu manter o status quo pré-capitalista, pois servia a seus interesses. A empresa introduziu o capitalismo em suas formas mais bestiais e opressoras, que era desprovido de todas as características progressistas do liberalismo burguês, mas com todas as suas qualidades exploradoras e destrutivas.

A Companhia das Índias Orientais

Os Dalits desempenharam um papel importante nas batalhas da Companhia das Índias Orientais contra os Maratha de Peshawar nas guerras Anglo-Maratha. A batalha de Bhima Koregaon, onde 500 soldados Dalits do exército da empresa venceram um exército Peshawar de milhares, assumiu uma dimensão lendária. A vitória é comemorada anualmente em Maarastra .

A Companhia das Índias Orientais também destruiu o poder político e econômico dos Nawabs e Rajas, tornando-os instrumentos subordinados do capitalismo, mas, ao fazê-lo, não procurou corrigir as piores características da sociedade indiana. As hierarquias de castas permaneceram, a opressão de castas permaneceu, mas agora subordinada aos interesses e direções do capitalismo. Por esta razão, Marx chamou a Companhia das Índias Orientais de um prodígio de destruição criativa, com características destrutivas superando as criativas.

Assim, quando o capitalismo indiano emergiu do ventre do capitalismo colonial, ele carregou toda sujeira da sociedade de castas. A camada social dos comerciantes na Índia tinha uma posição curiosa. Sendo da casta Vaixá, eles não podiam ser iguais aos Xátria ou Kayastha, nem competir com os brâmanes em privilégios sociais, mas sua riqueza os tornava influentes e às vezes bastante poderosos. Com o advento do capitalismo na Índia e a queda do feudalismo indiano sob o domínio da Companhia das Índias Orientais, este setor da sociedade cresceu em força, embora não pudessem melhorar sua posição social no mercado capitalista mundial. Daqui vieram algumas das mais proeminentes famílias capitalistas da Índia. Entretanto, em vez de procurar abolir o sistema de castas, eles procuraram melhorar sua posição dentro da escada de castas. A política de identidade indiana surgiu no final do século XIX e início do século XX a partir de duas correntes: os comerciantes Marwari e Gujarati [4] baseados em Calcutá e Bombaim, respectivamente, e a aristocracia proprietária de terras localizada ao redor de Calcutá. De modo geral, a casta Vaixá e a comunidade mercantil está impregnada de conservadorismo social e é hostil aos movimentos progressistas.

As desigualdades da sociedade de castas na Índia também influenciaram o crescimento do nacionalismo indiano. A casta superior da sociedade indiana, particularmente os Brâmanes, monopolizou posições administrativas e profissões que exigem talentos intelectuais, como o ensino, a advocacia e a profissão médica.

Desta camada surgiu a primeira liderança do moderno movimento de independência indiano, que pertencia esmagadoramente à casta superior e quase inteiramente hindu. Os Dalits nunca foram considerados parte deste movimento, e a liderança das castas superiores nunca abandonou seus privilégios de casta; ao contrário, eles a mantiveram como parte de sua posição social na sociedade indiana.

A trajetória das lutas dos Dalits

O que é notável sobre o sistema de castas é quanto tempo ele durou e como ele continua a durar, mesmo sem sanção legal. A instituição social é notavelmente resistente a quase todos os desafios que enfrentou. Ela deixa os analistas confusos quanto ao que a mantém em movimento, alguns intelectuais de esquerda até afirmam que o sistema de castas existirá de alguma forma sob o socialismo!

Na verdade, a história indiana passou por fases em que o papel das castas foi marginalizado ou quase desfeito. O efeito do budismo e sua disseminação foi um desses períodos. O budismo foi em muitos aspectos um ataque direto ao sistema de castas hinduísta, pois a religião pregava o igualitarismo e a negação dos deuses criadores. A luta entre budismo e hinduísmo assumiu um caráter político através do Império Maurya quando a religião se tornou a religião estatal da Índia. Além disso, o proselitismo agressivo fez com que a maioria dos indianos deixasse o hinduísmo para se juntar ao budismo. Entretanto, o budismo não era um movimento sociopolítico, ele proporcionou uma fuga do sistema de castas, mas não forneceu os meios para abolir as instituições sociais nem os meios políticos para fazê-lo. A queda do Império Maurya levou ao estabelecimento do domínio da Dinastia Sunga sobre Magadh (localizada nos atuais estados de Bihar e Jharkhand) e com o retorno do hinduísmo como religião estatal. Segundo muitos relatos, a dinastia Sunga impôs o retorno do sistema de castas como a ordem social dominante da Índia e começou a perseguir os budistas, embora os motivos por trás disso sejam discutíveis. Mas, isto mostra o conflito político ocorrido com base na questão das castas na Índia Antiga.

Tais lutas moldaram a sociedade indiana ao longo de sua história, com movimentos frequentemente influenciados pela teologia e pela religião, criticando o sistema de castas e proporcionando às castas oprimidas uma fuga da imposição de castas. Em quase todos os casos, os movimentos foram suprimidos ou incorporados ao domínio amorfo do hinduísmo, e deixaram de atacar o domínio social do sistema de castas. A regra da casta superior, Brâmane e Xátria sobre a sociedade indiana, foi assim garantida por uma combinação de coerção e assimilação.

A disputa entre hinduísmo e budismo foi resolvida com a vitória para o primeiro na época da dinastia Gupta (século III d.C. – século VI d.C.). A maioria dos historiadores concorda que o sistema de castas hindus se tornou “rígido” nesta dinastia, e cresceu em sua forma mais opressora com a qual estamos familiarizados hoje. Uma fase de uma luta de séculos entre a casta dos trabalhadores e camponeses (Sudras e Vaixás) e as castas dos reis e sacerdotes (Xátria e Brâmane) terminou com uma vitória para as castas dominantes. O budismo nessa época havia se corrompido e estava em declínio, os Mahants tornaram-se corruptos e exploradores, e a religião não mais forneceu uma fuga para as castas baixa e média dos Dalits e Vaixás. Os brâmanes haviam reforçado sua hegemonia e ela permaneceu ininterrupta até o advento do islamismo. O papel do islamismo não foi fundamentalmente diferente do do budismo, à medida que proporcionava uma fuga para as castas oprimidas.

Os governantes muçulmanos que vieram primeiro da Arábia, e depois dos turcos da Ásia Central, precisavam impor sua vontade política e econômica sobre a Índia, que era em grande parte hindu e sob a hegemonia das castas superiores. Como as castas superiores detinham um domínio absoluto das funções administrativas e da maioria das funções econômicas, tinham conhecimento da administração e das funções religiosas, o que mantinha sua relevância como intermediárias dos governantes muçulmanos, preservando assim sua posição em relação às castas inferiores. Mesmo que seu domínio fosse enfraquecido, o sistema de castas não era desfeito. A natureza da propriedade da terra também desempenha um papel na sua manutenção. Como propriedade comunitária ou do estado como propriedade do rei, não mudou nem um pouco sob os árabes ou turcos. A esfera rural ficou quase totalmente inalterada. Em vez de converter a sociedade indiana a seus termos, o islamismo adaptou-se às condições locais e, com o tempo, incorporou até mesmo um sistema de castas dentro de si mesmo.

Do fracasso do islamismo em abolir o sistema de castas, surgiram os sikhs, novamente um movimento religioso que combinava características do ascetismo hindu e princípios islâmicos como a crença em um só Deus. Tais movimentos sincréticos, frequentes na Índia, nunca emergiram como um poder do mesmo nível que o sikhismo.

No entanto, isto também se encaixa em um padrão de tais movimentos que não conseguem desfazer o sistema de castas. Durante toda a era medieval até a chegada da Companhia das Índias Orientais e a imposição do domínio capitalista no subcontinente, numerosos movimentos que criticavam o sistema de castas e procuravam desafiá-lo surgiram e caíram, mas nenhum conseguiu sequer terminá-lo como uma instituição formal. A tendência mudou com o surgimento do Iluminismo, quando a fase moderna do movimento de independência indiano estava começando em Bengala [5].

Na Índia ocidental, no atual estado de Maarastra, surgiu o que seria o precursor de um movimento Dalit moderno com o surgimento da Satyashodhak Samaj (Sociedade dos Perseguidores da Verdade).

A Satyashodhak Samaj foi formado em 1873 por Jyotirao Phule, que é indiscutivelmente o primeiro líder moderno da casta Dalit e estabeleceu o termo “Dalit”, que significa quebrado ou oprimido. Como muitos reformadores sociais de seu tempo, ele não se opôs à colonização britânica da Índia, mas procurou emancipar os Dalit através da instituição do império. Esta era uma suposição fundamentalmente errada, pois o império britânico não era uma força de progresso, mas a seu modo reforçou o sistema de castas, permitindo sua transição para o capitalismo. Apesar da abolição formal do sistema de castas da estrutura legal, ele permaneceu como uma força social e, em certos casos, como a devolução da propriedade, sucessão testamentária, casamento e assuntos religiosos ainda permaneceu dentro das leis religiosas e, portanto, dentro do âmbito das fronteiras das castas. Os britânicos pouco fizeram para mudar essas leis ou costumes. Entretanto, devemos reconhecer a contribuição de Jyotirao Phule como o pioneiro do movimento moderno Dalit. Pela primeira vez, a luta contra a casta assumiu uma expressão política clara e autoconsciente.

Jyotirao Phule recebeu o título de “Mahatma” por sua contribuição à causa da emancipação Dalit e seu papel no apoio à educação das mulheres junto com sua esposa Savitribai Phule. Seu trabalho com a Satyashodhak Samaj lançou as bases para a ascensão de B.R. Ambedkar e o movimento moderno para a aniquilação da casta. Por volta da mesma época, Erode Venkatappa Ramasamy, comumente conhecido como Periyar, construiu o movimento de ‘‘autorrespeito’’ no estado sulista de Madras, atual Tamil Nadu. Ele construiu o Dravid Kazhagam, que se tornaria o precursor dos dois modernos partidos burgueses regionais de Tamil Nadul.

Ambas as figuras se destacam entre os primeiros líderes modernos do movimento Dalit, e ambas proporcionaram liderança à comunidade Dalit naquele que foi o primeiro desafio sociopolítico ao sistema de castas. O crescimento e o impacto deste movimento não podem ser subestimados. No entanto, devemos reconhecer também seus defeitos. Tanto Periyar quanto Ambedkar buscaram soluções para a erradicação da casta no âmbito de um Estado capitalista, mas como a história mostra, a simples remoção formal das distinções de casta através do constitucionalismo e do estabelecimento de uma república não foi suficiente para erradicar a opressão de castas, ela requer uma mudança que está fundamentalmente enraizada na transformação revolucionária da sociedade.

Em tudo isso, o papel do partido do Congresso é revelador de como a burguesia indiana abordou a questão das castas. Gandhi foi duramente criticado durante seu tempo e mesmo agora, por suas desculpas em relação ao sistema de castas e por sua tépida defesa do mesmo. Ele nunca defendeu a erradicação da casta e viu o movimento de Ambedkar como “difamação do hinduísmo”. Gandhi enunciaria os ‘‘méritos’’ da casta enquanto defendia o sistema [6].

Ao mesmo tempo, o partido do Congresso não poderia virar as costas para os Dalits nem para a política dos Dalit. Ele desejava ter hegemonia sobre cada comunidade na Índia, mas não conseguiu superar seus próprios preconceitos. Ele não conseguiu conquistar os muçulmanos e acabou por não conquistar os Dalit. A relação contenciosa e instável com os Dalit e com Ambedkar, em particular, chegaria a um ponto alto em 1946, na véspera da partição [7].

Durante as primeiras celebrações do Dia da Constituição, em 26 de novembro de 2015, no Parlamento, a ignorância de alguns deputados de Bengala Ocidental sobre a eleição do Dr. B. R. Ambedkar para a Assembleia Constituinte em 1946 foi, no mínimo, deplorável. Sua eleição forma um capítulo memorável, marcado pela tensão, falta de lei e violência nas ruas de Calcutá, além do confinamento ilegal de um membro da Assembleia pelos opositores do Dr. Ambedkar. O Congresso Nacional indiano travou uma guerra de bastidores, fazendo com que toda a Índia fosse contra sua entrada na augusta casa que deveria redigir a Constituição da nova nação independente. Sardar Vallabhbhai Patel liderou a acusação contra Ambedkar, proclamando publicamente que, “além das portas, até mesmo as janelas da Assembleia Constituinte estão fechadas para o Dr. Ambedkar. Vamos ver como ele entra na Assembleia Constituinte” [8].

A eleição de Ambedkar pelo eleitorado de Jessore-Khulna garantiu sua presença na Assembleia, bem como seu posto na elaboração da constituição. Esta vitória também representou uma consolidação dos Dalits de Bengala, chamados de Namasudra. Como tal, foi uma ameaça terrível para a liderança da casta superior no Congresso, desafiando sua hegemonia. Tal ameaça seria completamente desfeita pela divisão de Bengala, bem como pela carnificina nas comunas que a precedeu, que levou a quase um milhão de mortes até 1947. Assim, embora o Partido do Congresso tivesse cedido algum terreno aos Dalits através de Ambedkar, ele também destruiu de forma astuciosa o poder organizado dos Dalits, bem como impediu a maré crescente de luta de classes que surgia na Índia, como visto nos eventos revolucionários de fevereiro de 1946, quando marinheiros se revoltaram, junto aos trabalhadores, estudantes e camponeses de todo o país.

Enquanto se fala dos Dalits de Bengala Oriental, é importante mencionar o que se seguiu à divisão, pois ela revela como as elites da Índia e do Paquistão trabalharam juntas para destruir um poderoso movimento social e manter a hegemonia das castas superiores. A maioria dos Namasudras permaneceu no Paquistão após a partição, principalmente devido à influência de Jogendra Nath Mondol. Com o tempo, a total crueldade do estado paquistanês seria revelada, pois o país, governado principalmente pelos Ashrafs baseados em Punjab, praticaria um verdadeiro genocídio contra os Dalits hindus no Paquistão Oriental (atual Bangladesh) para destruir o movimento linguístico nascente nos anos 50. Um massacre muito maior ocorreria nas décadas de 60 e 70, onde centenas de milhares de Dalit hindus, em sua maioria, seriam submetidos a massacres em larga escala e deslocamentos forçados. Como refugiados, os Dalit bengali não se sairiam bem, pois o estado indiano os trataria mal e os sujeitaria a massacres próprios, como o de Marichjhapi, no sul de Bengala Ocidental. Eles permaneceram à margem da sociedade bengali e permaneceram no exército industrial de reserva, uma fonte fácil de mão de obra barata e explorável para o capitalismo indiano. Assim, uma das comunidades Dalit mais avançadas politicamente foi abalada pela ação combinada das burguesias indiana e paquistanesa [9].

Após a independência e a divisão, o movimento Dalit tomou uma trajetória diferente. Ambedkar endossou formalmente o budismo como uma religião que poderia ajudar na emancipação da comunidade Dalit. Ele era conhecido por eventos profundamente simbólicos e por construir mobilizações em massa em torno deles, tais como a queima em massa dos Manusmriti, e a greve pelo acesso à água. Nos anos 50, desiludido pelo fracasso da nova república independente em aprovar o Projeto de Lei do Código Indiano, que pressionaria pela abolição da casta, Ambedkar buscou a conversão como meio de libertar os Dalits de sua escravidão ao sistema de castas hindu e escolheu o budismo como o caminho adequado. Foi realizada uma cerimônia de conversão em massa para centenas de Dalits, ecoando a dinâmica de esforços sociais passados contra a discriminação de castas.

No sul da Índia, o Partido da Justiça havia se reorganizado no Dravidar Kazhagam, sob a liderança de Thanthai Periyar. Cada vez mais, a luta pelo fim das castas foi unida a uma agenda regionalista contra a imposição do hindi como língua nacional. Ambos ainda buscavam soluções por dentro da estrutura da república capitalista, não reconhecendo o papel do capitalismo colonial na manutenção do sistema de castas, nem seu fracasso em erradicar a casta. Os modernos partidos burgueses ou pequeno-burgueses dos Dalits, tais como o Partido Bahujan Samaj, baseado em grande parte no norte da Índia, ou o falido partido Dalit Panthers (Panteras Dalits) na Índia Ocidental, não conseguiram realizar a transformação necessária da sociedade indiana. A partição apenas aguçou as divisões de castas e ajudou a manter a hegemonia das castas superiores, que têm domínio no Parlamento e em serviços profissionais como os Serviços Administrativos indianos, e no Parlamento, onde os Brâmanes contam 15% da legislatura, embora sejam 5% da população total. Os esforços para provocar mudanças através de ações afirmativas sofreram resistência feroz ou foram corrompidos, graças à dinâmica do capitalismo indiano.

Assim, em 2020 ainda encontramos crimes contra os Dalits cometidos com níveis feudais de barbárie, e somos forçados a lutar novamente as lutas das gerações passadas.

Conclusões 

A continuidade e a resiliência do sistema de castas na Índia devem ser entendidas no contexto do materialismo histórico. Ele foi o resultado do crescimento da sociedade de comunismo primitivo, para o despotismo asiático primitivo, embora com características exclusivamente indianas. A resiliência do sistema deve-se à capacidade da elite de castas de se adaptar a cada desafio lançado a ele, e à retenção dos fundamentos sociais do sistema que não tinham sido alterados em um nível fundamental por séculos. A vinda do capitalismo perturbou o status quo, mas mais uma vez não o derrubou, pois chegou à Índia em uma forma mais distorcida e reacionária através da Companhia das Índias Orientais.

Mesmo no setor empresarial privado, não é raro encontrar o recrutamento para funções de alta gerência reservado para a casta superior, enquanto o recrutamento para funções de baixa gerência é reservado para a casta inferior de Dalits e Vaixás. A influência das castas é ainda mais gritante quando se trata do sistema de casamento arranjado. Uma das características mais comuns dos anúncios matrimoniais na Índia é estabelecer preferências de castas quando se procura noivas ou noivos. Os casamentos entre castas, especialmente nos vilarejos, são frequentemente recebidos com hostilidade, o que às vezes pode se tornar mortal. Os membros das castas superiores de uma aldeia são conhecidos por responder com violência brutal para romper e punir os relacionamentos entre castas. Tudo isso, enquanto vivemos no século XXI!

De certa forma, o capitalismo apenas modificou a forma como a opressão dos Dalits funciona, mas não a modificou na essência. Devemos também reconhecer que ganhos reais foram obtidos nas décadas de luta sob a liderança de Ambedkar, Phule e Periyar, e outros como ele. Essas vitórias foram a aquisição de direitos iguais garantidos por uma constituição, a difusão da alfabetização em massa e, o mais importante, o estabelecimento de uma ferramenta política por meio dos partidos Dalit, para lutar pela mudança sociopolítica. Embora reconhecendo estas vitórias, não podemos negar os fracassos fundamentais que vêm de sua insistência em encontrar uma solução para a questão das castas nos limites do capitalismo, que é um sistema inerentemente desigual e explorador.

O caminho a seguir deve ser lutar por um sistema que seja verdadeiramente igual e justo, onde a exploração do homem pelo homem cesse. Isso só pode acontecer sob o socialismo. Nenhum sistema de castas pode sobreviver a isso.

Notas:

1 – Denominam-se Vedas as quatro obras, compostas em um idioma chamado “Sânscrito védico”, de onde se originou posteriormente o sânscrito clássico.

2 – Nawab era um governo autônomo de uma região, correspondente a um ducado na Europa medieval.

3 – O atual estado de Maarastra

4 – Marwari é uma comunidade mercantil do estado de Rajastão, especificamente da província de Marwar. Os comerciantes Gujarati provêm do estado de Gujarate, na Índia Ocidental.

5 – O fim do levante Sepoy e o início da revolta índigo em 1860 é comumente considerado o início do movimento de independência moderna na Índia. A revolta dos índigos foi liderada pela intelligentsia urbana de Calcutá, mas em acordo com agricultores índigos, que eram violentamente explorados por proprietários de plantações, a maioria dos quais era estrangeira. (https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Koregaon)

6 – https://thewire.in/history/mahatma-gandhi-jayanti-ambedkar-caste. Ao anunciar todos estes méritos das castas, Gandhi declara: “Sendo estes meus pontos de vista, sou contra todos aqueles que querem destruir o sistema de castas”.

7 – Partição: refere-se à divisão da Índia, patrocinada pelo Reino Unido, entre os atuais países da Índia, Paquistão e Bangladesh, quando ocorreu a independência da Índia em 1947.

8 – https://www.forwardpress.in/2016/11/how-the-bengali-chotalok-shaped-indias-destiny/.

9 – https://en.wikipedia.org/wiki/Namasudra#Post-independence.