dom abr 21, 2024
domingo, abril 21, 2024

Israel: tudo se complica para Netanyahu

No mês passado, milhares de israelenses se mobilizaram em diversas cidades do país contra o governo de Benjamin Netanyahu[1]. Em Tel Aviv (capital de Israel), houve repressão quando os manifestantes tentaram ultrapassar uma barreira policial[2]

Por: Alejandro Iturbe

Nesta mobilização somaram-se duas exigências. Uma delas é reivindicada  pelos familiares dos israelenses retidos pelo Hamas em Gaza desde sua ação de 6 de outubro passado. Estes familiares já haviam se organizado e se instalaram em um local do centro de Tel Aviv que passou a ser chamado “praça dos reféns”[3] e recebiam cada vez mais apoio. Inicialmente, exigiam que o governo de Netanyahu“os trouxesse de volta para casa”.

A brutal ofensiva de Israel sobre a Faixa de Gaza (apesar de seus métodos genocidas) está atolada e Netanyahu não conseguiu libertar os reféns. Pior ainda, uma ação de resgate do exército israelense matou três desses reféns “por engano”[4] o que gerou uma grande indignação na população israelense. Nesse contexto, este setor começou a “exigir um cessar fogo de qualquer tipo (transitório ou permanente), como propõe o Hamas, para que sejam devolvidos aos entes queridos”[5].  Um acordo deste tipo significaria uma grande derrota para Netanyahu.

A segunda exigência é muito mais profunda: exige a renúncia imediata de Netanyahu e seu governo, a imediata convocação de eleições e a formação de um novo governo a partir de uma base política muito mais ampla que a atual como pediu Eyal Gur, líder da organização Casa Compartilhada[6].

Uma ofensiva atolada

A qeustão de fundo é que a ação militar israelense em Gaza está atolada, apesar dos quase 30.000 mortos que ocasionou, a destruição da infraestrutura e dos serviços, e o deslocamento forçado da metade da população palestina para o sul deste pequeno território.

Essa é uma avaliação dos analistas sionistas mais lúcidos, como Mario Sznajder, professor de Ciências Políticas da Universidade Hebraica de Jerusalém: “Netanyahu, com efeito, em quatro meses não alcançou nenhum dos dois objetivos que justificaram a pesadíssima ofensiva militar em Gaza: nem aniquilar o Hamas, nem a libertação dos reféns[7].

Sznajder não se refere a outro objetivo de Netanyahu: apropriar-se do norte da Faixa de Gaza (onde está sua principal cidade). Para isso, forçou o deslocamento de mais de um milhão de palestinos para o sul, para a passagem de Rafah (que se comunica com o Egipto). Lá sobrevivem em uma situação desesperadora.

Apesar disso, o exército israelense nem sequer conseguiu controlar totalmente o norte do território nem a cidade de Gaza (já quase destruída). Neste ponto, Sznajder aponta que “Apenas as tropas retrocedem de alguma parte supostamente limpa, os ‘terroristas’ reaparecem [dos] túneis subterrâneos que dizem que há em Gaza”.

A divisão na sociedade israelense é reaberta

Por isso, agora em um novo contexto, parece reabrir-se uma forte contradição na sociedade israelense que se manifestou no ano passado com as mobilizações contra a reforma judicial que o governo de Netanyahu[8] queria aplicar.

Israel é um enclave imperialista construído artificialmente com população transferida (judeus provenientes da Europa e outros países) em um território roubado do povo palestino e baseado na expulsão violenta dos palestinos de suas casas e propriedades. Esta é a essência do Estado sionista e de sua população e marca sua dinâmica política porque, consciente de que vive sobre a base deste roubo, está disposta a defender Israel contra o “inimigo palestino” que quer recuperar seu território.

Nesse marco, nas últimas décadas, houve mudanças profundas na economia israelense e muitas empresas privadas foram desenvolvidas, especialmente no setor da tecnologia de segurança, de software e sistemas em geral, e também em áreas como farmacologia e alimentos e bebidas. As exportações dessas empresas têm hoje um grande peso na economia de Israel.

Surgiu assim um novo setor da população (empresários e trabalhadores) que defende a usurpação que significou a criação de Israel mas, ao mesmo tempo, aspira a se transformar em algo semelhante a um pequeno país imperialista europeu (próspero, democrático e sem conflitos).

Por isso, veem a necessidade de abrir negociações com os palestinos e inclusive avançar para a existência dos “dois estados” que conceda aos palestinos um “mini estado” em Gaza e Cisjordânia e assim alcançar uma “paz permanente” com eles.

Estas aspirações se chocam com a política de “guerra permanente” de Netanyahu e seu governo porque provoca um crescente desprestígio de Israel no mundo e fortalece a campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), prejudicando as exportações israelenses e travando os possíveis investimentos estrangeiros que essas empresas buscam. Um choque que se expressou nas mobilizações de julho passado.

Netanyahu aproveitou o impacto da ação do Hamas de outubro passado e lançou sua nova ofensiva sobre Gaza. Inicialmente, neutralizou este processo já que obteve o apoio de uma maioria da população israelense e uma parte das organizações políticas convocantes entraram em seu governo.

Agora que a ofensiva atolou (inclusive, como vimos, alguns analistas do sionismo consideram que já fracassou em seus objetivos) só fica como saldo um grande repúdio internacional a Israel e um isolamento cada vez maior. Por isso, essa fenda foi reaberta como mostram as recentes manifestações.

Cada vez mais isolado

No plano internacional, a situação do governo de Netanyahu também piora. Isto é consequência do fato que sua ação em Gaza gerou um gigantesco repúdio nas massas e um forte crescimento de solidariedade e apoio aos palestinos, expressado em mobilizações massivas em muitos países, inclusive nos EUA (em última instância, o grande respaldo de Israel). Isto obrigou o governo de Joe Biden a propor a negociação de um “cessar fogo” que, como vimos, Netanyahu rejeita por princípio[9].

Na Inglaterra, houve uma expressão específica deste processo. George Galloway, principal dirigente do Workers Party (uma organização de esquerda radical) foi eleito deputado pelo distrito de Rochdale com uma “arrasadora vitória” sobre o candidato laborista (tradicional vencedor nesse distrito) e o candidato conservador[10]. A campanha de Galloway teve como ponto central o repúdio à ação israelense em Gaza, o respaldo à luta do povo palestino e a crítica aos partidos tradicionais devido ao seu apoio a Israel.

Este resultado teve tanto impacto nacional que “o primeiro ministro Rishi Sunakdio deu uma mensagem televisiva dizendo que a democracia britânica estava sendo ameaçada, exortando à unidade nacional e pedindo aos manifestantes que vem saindo às ruas todos os sábados nas principais cidades do reino que ‘não se deixem capturar por elementos extremistas’”.

Outro exemplo, são as declarações que Lula, presidente do Brasil, um tradicional aliado e apoiador de Israel, viu-se obrigado a fazer: em uma conferência de imprensa comparou a ação israelense em Gaza com o “genocídio nazi” dos judeus europeus. Ao mesmo tempo, Lula se alinhou com Biden ao solicitar um “cessar fogo”[11]. Mas foi uma expressão do que dissemos porque suas declarações geraram uma forte crise diplomática entre Israel e Brasil.[12]

Algumas conclusões

Afirmamos que a “essência” do estado de Israel não pode ser mudada “a partir de dentro” devido ao caráter do conjunto da população israelense que analisamos. Nesse marco, é muito bom que existam divisões e crises políticas em seu interior porque, no marco de sua ofensiva atolada em Gaza, isso o debilita ainda mais.

Ao mesmo tempo, é extraordinário o grande processo de grande repúdio internacional de massas a Israel e as massivas mobilizações em apoio aos palestinos. E que esse processo golpeie os governos que apoiam ou são aliados de Israel. Nesse marco, hoje é mais necessário do que nunca manter e aprofundar estas grandes mobilizações de massas.

Ao mesmo tempo, reafirmamos a proposta que a única solução de fundo para a situação na Palestina é a construção de uma Palestina Unida Democrática e Não Racista em todo território do que foi o Mandato Britânico da Palestina (do rio [Jordão] ao mar [Mediterrâneo] como dizem os palestinos). Isto implica imprescindivelmente derrotar militarmente Israel e destruir o estado sionista[13].


[1] Israel: miles de manifestantes piden la renuncia de Netanyahu | EL TERRITORIO noticias de Misiones

[2] https://www.youtube.com/watch?v=thjKXCCnRBs

[3] https://www.lanacion.com.ar/el-mundo/netanyahu-bajo-asedio-presion-de-los-familiares-por-los-rehenes-una-ofensiva-empantanada-y-reclamos-nid03022024/

[4] https://www.youtube.com/watch?v=R6jp-TouPfA   

[5] Ver referencia 3.

[6] Ver referencia 1.

[7]  Ver referencia 3.

[8] https://litci.org/es/74690-2/

[9] https://www.barrons.com/news/spanish/biden-dice-que-espera-un-alto-el-fuego-en-gaza-para-ramadan-e41d7485

[10] Como a guerra em Gaza mudou a política britânica | Um outsider pró palestino derrotou  laboristas e conservadores no norte da Inglaterra | Página|12 (pagina12.com.ar)

[11] Netanyahu reproduz o extermínio nazi sim! Lula tem que romper relações com o Estado genocida – Liga Internacional dos Trabalhadores (litci.org)

[12] Crise diplomática entre Israel e Brasil se agrava: declaram  Lula “persona non grata” por comentários sobre Gaza (msn.com)

[13] Para conhecer mais sobre as análises e posições da LIT-QI, recomendamos ler a revista Correio Internacional No 26 (Dezembro 2023) em Maquetación 2 (litci.org)

Tradução: Lílian Enck

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