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O “socialismo” da burocracia do Kremlin: da colaboração de classes à capitulação

Para comemorar o 40º aniversário da grande Revolução de Outubro, Khrushchev reuniu, entre 14 e 16 de novembro de 1957 em Moscou, representantes de partidos comunistas de doze Estados operários. Em uma declaração comum[1], afirmam que “mais de um terço da população mundial havia seguido o caminho do socialismo”. As semicolônias glacis, ocupadas no final da Segunda Guerra Mundial[2], assim como a China, o Vietnã, a Mongólia e a Coréia do Norte estiveram representadas.

Por: Jan Talpe

Confiando na “manifesta superioridade” do sistema socialista, os parlamentares defendem “o princípio leninista [sic!], atualizado no XX Congresso do PCUS, da coexistência pacífica dos dois sistemas”. Os dois sistemas são dois blocos de países: “os imperialistas” e “os povos amantes da paz“, em pacífica “competição“. A “coalizão de toda a classe operária contra a de toda a classe burguesa” desaparece.[3]

A euforia dos congregados esconde mal o fato de que os povos desses Estados não estavam tão entusiasmados. Eles já haviam manifestado com força em Berlim, em 1953, e em 1956, na Polônia e na Hungria.

Vejamos, então, a construção desse campo dos “Estados amantes da paz”. A lista inclui a Mongólia, um Estado operário nascido como bolchevique nos tempos de Lenin, e só mais tarde foi burocratizado sob o domínio de Stalin. Os outros são integrados após a Segunda Guerra Mundial.

Os novos Estados operários de “um terço da humanidade”

Stalin, o aliado de Hitler

A política do “socialismo em um só país” impediu Stalin de criar novos Estados operários. Na década de 1930, colaborou docilmente com os partidos capitalistas da frente popular na França. Porém seu apetite por pilhagem o forçará a mudar de ideia.

Em agosto de 1939, Stalin e Hitler concordaram com uma quarta repartição da Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. É que “uma revolução triunfante na Alemanha aumentaria muito a consciência de classe na URSS e tornaria a permanência da tirania de Moscou impossível. O Kremlin prefere o status quo, com Hitler como aliado.[4] Em 1º de setembro, Hitler ocupa uma parte, e em 17 de setembro Stalin ocupa a outra. E em 4 de abril de 1940, uma emenda ao art. 23 da Constituição da URSS incorpora os sete departamentos da Polônia a leste do Rio Bug como departamentos da Ucrânia. A França e o Reino Unido cumprem o ritual de declarar guerra ao invasor sem mover um soldado, e Hitler então tinha o caminho livre para ocupar a França. Mas “amigo e aliado de Stalin, enquanto consegue uma vitória na Frente Ocidental com a ajuda de Stalin, volta suas armas contra a URSS”.[5] E, em junho de 1941, Stalin não teve outra opção a não ser trocar de lado, o que Churchill aceitou de bom grado.

Assinatura do Pacto Hitler-Stalin, agosto de 1939

Em novembro de 1943, quando ainda nenhum soldado de seus novos aliados havia pisado em solo alemão, Stalin discute com eles a divisão do país. E imediatamente se empenha em “levar seu sistema tão longe quanto seu exército puder avançar”[6]. Nasce uma primeira semicolônia da URSS, com a criação, em 7 de outubro de 1949, da República Democrática Alemã (RDA), um estado capitalista.  A oeste fica a República Federal da Alemanha (RFA). Enquanto isso, Stalin também havia “introduzido seu sistema” em outros países do glacis.

As semi-colônias tornam-se Estados operários

Só que a própria necessidade de saquear uma semicolônia leva à imposição do regime econômico da URSS nesses países, como Trotsky já havia previsto às vésperas da agressão à Polônia. Em uma polêmica contra aqueles que viam na colaboração com Hitler como um perigo para o regime de Estado operário da URSS, ele respondeu que “Moscou tem mais probabilidade de expropriar os grandes proprietários de terras e de estatizar os meios de produção nos territórios ocupados”, já que Stalin “não deseja nem pode dividir o poder com as velhas classes dominantes dos territórios ocupados”.[7]

Em julho de 1952, Ulbricht da RDA anunciou a “construção planificada do socialismo“, reforçando o poder do Estado “segundo o exemplo soviético“.[8]

A rebelião dos colonizados

Na RDA, a anunciada “construção planificada do socialismo” não deu os resultados esperados e, em maio de 1953, Ulbricht impôe um aumento de 10% na cota de produção de cada trabalhador. O aumento é “voluntário”, mas quem não o consegue tem o seu salário reduzido.

Na quinta-feira, 16 de junho de 1953, os trabalhadores de duas grandes obras de construção civil entram em greve e marcham em direção à sede do governo. E quando no caminho um ministro sobe em uma mesa para tentar acalmar a multidão, um operário também sobe na mesa e empurra o ministro. Faz-se silêncio, e o operário diz: “Não estamos aqui só pelas cotas. Queremos que os grevistas não sejam punidos e os presos políticos libertados. Queremos eleições livres e a reunificação da Alemanha”.[9] Na sexta-feira, 40.000 trabalhadores protestam em Berlim Oriental, e protestos e algumas paralisações ocorrem em centros industriais em toda a RDA.

Tanque soviéticos em Berlim oriental, 1953

Ulbricht decide pela repressão, contando com o apoio de Khrushchev. No sábado, 8.000 soldados da Volkspolizei cercam os manifestantes em uma praça e 20.000 soldados do Exército Vermelho entram em Berlim com tanques, com um saldo de 51 mortos.

Khrushchev estava então competindo com Beria pela sucessão de Stalin (falecido em 5/3/1953). Ele culpa seu concorrente e permite que Ulbricht faça concessões; este restabelece as cotas antigas e pode importar alimentos maciçamente da URSS. O Kremlin acaba com a exigência de pagamentos por indenizações de guerra a partir de 1º de janeiro de 1954, e as últimas “sociedades anônimas” soviéticas tornaram-se propriedade da RDA. Uma primeira grande vitória do proletariado alemão. E apesar da burocracia, com o regime de Estado operário melhoram as condições de vida da população.

Na Polônia, as “cotas” também foram impostas. Em 23 de junho de 1956, uma delegação de cerca de trinta operários do centro industrial de Poznan foi a Varsóvia e voltou três dias depois com algumas promessas, que posteriormente não foram cumpridas. Os trabalhadores respondem com uma greve e vão para o centro da cidade, onde a manifestação rapidamente reúne cem mil trabalhadores sob o lema: “Queremos pão e liberdade”. Libertam os presos do cárcere e atacam as instalações do Partido Comunista. Os soldados estacionados em Poznan se recusam a reprimir e entram em conversações amigáveis ​​com os operários. No dia seguinte, 10.000 soldados e 400 tanques de outras regiões, comandados por oficiais russos, são enviados para “reprimir os provocadores alemães“. E com um saldo de 57 mortos e uma centena de feridos, conseguiram “pacificar” a cidade no dia 30 de junho.

Em 19 de outubro de 1956, Khrushchev se convida inesperadamente para uma sessão plenária do Partido Comunista Polonês, e Gomułka, o dirigente da luta secular do povo polonês contra “o urso russo”, faz uma reverência. O recebe dizendo que “a Polônia precisa da amizade da União Soviética, mais do que a União Soviética precisa da amizade da Polônia.”

No Encontro de Moscou de 1957, “Khrushchev repetiu duas vezes que se pode contar com Gomułka.”[10]

Enquanto isso, o levante de Poznan gerou entusiasmo na Hungria. Em 23 de outubro de 1956, milhares de manifestantes inundaram as ruas da capital, onde foram recebidos a balas pela polícia secreta. Mas eles conseguem armas de soldados húngaros e invadem o prédio da rádio para transmitir uma proclamação. À noite, já há 200.000 manifestantes em frente ao Parlamento, exigindo liberdade de imprensa e opinião, eleições livres e independência da URSS. E derrubam uma estátua de Stalin.

A rebelião se espalha por todo o país. Surgiram Comitês Revolucionários, “órgãos da insurreição, reunindo os delegados eleitos em fábricas, universidades, minas e unidades do exército, e órgãos de autogoverno popular, que gozavam da ampla confiança do povo armado”.[11]  Uma greve geral é decretada em todo o país. Em 25 de outubro, Kádár, um dirigente operário respeitado por sua trajetória sindical, faz mudanças formais no aparato do Partido Comunista da Hungria e permite que os demais partidos políticos, incluindo o FKgP, dos camponeses funcionem livremente. Mas Khrushchev não confia.

Em 4 de novembro de 1956, mais de 30.000 soldados e 1.130 tanques soviéticos invadiram o país e reconstituíram o “Governo dos operários e amponeses húngaros“, que Kádár concordou em dirigir. O FKgP volta a ser ilegal. E duas semanas depois triunfa “o sistema manifestamente superior”, com 2.500 húngaros e 720 russos mortos.

Revolução húngara de 1956

Na Reunião de Moscou de 1957, Mao Zedong explicou que o imperialismo “aproveitou alguns problemas em nosso campo – em particular o incidente hungaro – para nos desacreditar. […] Mas a contrarrevolução húngara foi eliminada.”[12]

Esse “imperialismo” deixou fazer. Coexistência pacífica. Posteriormente, Nixon dirá que “não podíamos, por um lado, culpar os soviéticos pela intervenção na Hungria e, por outro lado, aprovar que, naquele preciso momento, ingleses e franceses interviessem contra Gamal Abdel Nasser” [ na crise do Canal de Suez].[13]

Começa a “era Kádár”, um reinado ditatorial de 32 anos que vai restaurando aos poucos o capitalismo. A Hungria será admitida como membro do FMI em 6 de maio de 1982.

O vento sopra de Leste a Oeste

No final da Reunião de 1957, Mao Zedong assinalou em seu discurso já citado que “o vento sopra de Leste a Oeste.”

A Guerra da Coréia (25/06/1950 – 27/07/1953) criou outra oportunidade (ou necessidade) para a criação de um estado operário. No Norte, “o imperialismo, os latifundiários e o capitalismo foram expropriados”[14]. E Mao não teve escolha senão optar pelo campo de Stalin (Coréia do Norte), contra o imperialismo ianque (Coréia do Sul), e teve que adaptar o regime da China ao da URSS. “Assim, o país mais populoso da terra se transforma em um Estado Operário.”[15] Só a China representava 63% do “terço socialista”. E Mao apreciava a “liderança coletiva de Khrushchev“.

Em 1954, após a derrota da França em Dien Ben Phu, a República Democrática do Vietnã ficou dividida em um Norte, dirigido pelo Partido Comunista de Ho Chi Min, e um Sul apoiado por Washington. O grande dirigente da luta de libertação teve que contar com o apoio do Kremlin e adaptar o regime, criando um novo Estado operário. E no final da Guerra do Vietnã em 1975, o estado operário abrangerá todo o país.

Os últimos estados operários: na América e na África

Quando Khrushchev fez a conta em 1957, a conta para a Europa e a Ásia também foi encerrada.  Os continentes americano e africano permaneceram onde, então, não havia nenhum Estado operário.

Alguns anos depois, em Cuba, uma guerrilha enfrentou um regime ditatorial. E Washington foi imprudente em apoiar o ditador Batista, então Fidel Castro não teve escolha a não ser buscar o apoio de Khrushchev, enfrentado ao imperialismo estadunidense nos anos da guerra fria. E este ficou encantado por ter uma nova semicolônia: Cuba produzia açúcar e não precisava se industrializar (como queria o ministro da Economia, Che Guevara): bastava ter o COMECON.

Mas, dois anos depois, a coexistência pacífica prevaleceu novamente, quando Khrushchev retirou os mísseis que havia colocado na Ilha e Kennedy os seus da Turquia. Enquanto isso, Cuba continuou a ser membro do FMI. Apenas renunciou em 1964, mas continuou pagando suas dívidas por mais cinco anos.[16] Quando a luta de libertação nacional dos sandinistas contra o ditador Somoza triunfou na Nicarágua em julho de 1979, Washington aceitou o fato consumado, desde que a Revolução não se espalhasse para outro Estado no continente. E Fidel acatou a ordem de Carter, pôs fim ao seu apoio à luta em El Salvador e decretou que não deveria haver mais nenhum Estado operário na América. Os vários governos de “esquerda” vão concordar com essa coexistência pacífica nas negociações em Contadora quatro anos depois.

A dependência de Cuba do Kremlin, desde a sua conversão em um Estado operário, ficará evidente quando esse patrocinador deixa de ser, ele próprio, um Estado operário. A burocracia cubana não terá escolha a não ser trocar de senhores a fim de manter alguns de seus privilégios. Em 1993, Cuba convidou um representante do FMI para conversar em Havana[17] e, em 1994, seu ministro de Relações Exteriores garantiu “facilidade de importação de capital, garantia de poder reexportar os lucros. Os acordos de colaboração entre governos, de proteção e de promoção dos investimentos abrem cada dia, mais perspectiva. Pouco depois, quando uma “reestruturação” ameaça 800 mil empregos, o ministro do Trabalho confirma que “teremos que nos acostumar com a ideia do desemprego”.[18] Em 1996, “Fidel Castro inaugurou a ‘etapa especial’, ou seja, o retorno ao capitalismo à semelhança da burocracia de Pequim (que tem como modelo)”.[19]

No Norte da África, a coexistência pacífica exigia que o Kremlin respeitasse os interesses da França e do Reino Unido. Em 1962, Ben Bella vai a Cuba, onde conhece Che Guevara e Fidel Castro, e Cuba lhe agradece enviando equipes de assistência médica à Argélia. Mas não passa disso. O compromisso com a coexistência pacífica impediu Khrushchev de comprometer os interesses franceses na África. “Nem a guerra de libertação do Vietnã nem a da Argélia, as duas revoluções coloniais mais heróicas deste período pós-guerra dentro dos antigos impérios, tiveram um apoio incondicional e revolucionário do stalinismo e do movimento operário francês que este dirigia.”[20]

A Etiópia havia escapado das conquistas coloniais das grandes potências europeias, e o Kremlin tinha mais liberdade para intervir sem perturbar seus parceiros da coexistência pacífica. Este terá a oportunidade de criar uma semicolônia ali, mas sem futuro.

A burocracia entrega os países ao capitalismo

Trotsky dizia que se a classe operária não derrotasse a burocracia, abrindo caminho para o socialismo, “a burocracia, ao se tornar cada vez mais um instrumento da burguesia mundial no Estado operário, acabaria com as novas formas de propriedade e entregaria o país volta ao capitalismo”.[21]

Na década de 1980, “as burocracias estão mergulhando os Estados que governam no pântano sem fundo da crise capitalista mundial e em geral, tornando-os cada vez mais dependentes do capital imperialista”.[22]

Praga, 21 de junho de 1968: A Primavera da Traição

Na Tchecoslováquia, em 1960, “a construção do socialismo foi concluída“. Isso é o que dizia uma nova Constituição.[23] Mas, para os tchecoslovacos, segue o regime ditatorial herdado de Gottwald. Surgem movimentos de protesto, exigindo a libertação de presos políticos, liberdade de imprensa, etc. No início, Brezhnev deixa acontecer. Em 1968, Dubček iniciou um Programa de Ação. E se consegue uma relativa abertura do regime, saudada no mundo ocidental como a “Primavera de Praga”. Mas, para garantir, em junho de 1968, Khrushchev enviou tropas do Pacto de Varsóvia para o país. E em uma noite de agosto, 250.000 soldados e 200 tanques atacam.

Primavera de Praga, 1968

No dia 21 daquele mês, Dubček capitulou: ele assina um “Protocolo de Moscou” que restaura a censura, dissolve todos os grupos de oposição e expulsa alguns oficiais reformistas. E permanece no cargo de Primeiro Secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia.

Romênia, a porta de entrada do imperialismo para o “terço socialista”

No primeiro aniversário da rebelião de Praga, Nixon tinha interesse em  que o Kremlin continuasse um pouco mais a fazer sua parte para manter a “paz social” no mundo. Em agosto de 1969, ele visitou a Romênia, o país mais pobre do glacis, onde Ceaușescu já havia iniciado as negociações com o FMI no ano anterior. Em 6 de julho de 1971, o ditador fez um discurso com palavreado comunista para atacar dissidentes que ousassem criticar o regime. O proletariado romeno tinha uma grande tradição de luta e essa força agora era dirigida contra um ditador. Para Nixon, isso serviu de alavanca para impor o “outro sistema”. Em 15 de dezembro de 1972, a Romênia é aceita como membro do FMI, o primeiro dos Estados operários. Tornou-se uma semicolônia do imperialismo, por mais que Ceaușescu continuasse a reivindicar o “socialismo”. Somente em 21 de novembro de 1991, a República Popular da Romênia, criada em 1948, perderá seu adjetivo comunista.

A burocracia de Wałesa põe fim ao Estado operário polonês

A rebelião em Praga logo encontrou eco na Polônia. Pouco antes do Natal de 1970, Gomułka aumentou os preços das necessidades básicas em 38%. A reação dos trabalhadores foi imediata. No dia 17 de dezembro, a repressão causou 42 mortes e mais de mil feridos. Os operários do estaleiro de Gdansk formaram um comitê de greve liderado por Anna Walentynowicz, uma operadora de guindaste de 41 anos, e Lech Wałesa, um eletricista de 27 anos.

Brezhnev não queria comprometer a coexistência pacífica. “Não podemos permitir-nos tal espetáculo (da intervenção na Tchecoslováquia) a cada dois anos no cenário internacional.”[24] Mas pode contar com agentes locais.

Os trabalhadores tiveram um aumento salarial de 25%. E foi decidido sacrificar um bode expiatório. Em 20 de dezembro de 1970, Gomułka perdeu seu posto. Permanecerá uma ditadura de ferro imposta por Jaruzelski.

E o “outro sistema” não tem apenas Jaruzelski. Quando Wałęsa brutalmente  põe fim a uma greve, aceitando um aumento salarial apenas para um setor dos operários, Alina Pienkowska gritou na cara dele: “Traidor! Agora eles vão nos esmagar como moscas. ” Junto com Anna Walentynowicz conseguem reativar a luta e estendê-la solidariamente a todo o litoral.

O Kremlin pode se permitir que “não haverá tropas soviéticas na Polônia. […] Se a Polônia passar para o controle do Solidarność, azar. E se os países capitalistas agirem contra a URSS, […] seria muito doloroso para nós. Temos que nos preocupar em primeiro lugar com nosso próprio país.[25] A burguesia nacional não está satisfeita com esta capitulação e Jaruzelski usa fobias antirussas. Mas a Oposição contra a burocracia avisa: “Eles não gostariam de pensar no que aconteceria se os trabalhadores de ambos os lados do rio Bug marchassem juntos um dia e parassem de se odiar.”[26] Os tanques de Jaruzelski saem às ruas e Wałęsa é preso.

O golpe conseguiu triunfar graças à política do próprio Wałęsa que, […] depois do golpe, lutou com todas as forças para dissolver o Solidarność na clandestinidade, enquanto negociava da prisão com o Pinochet polaco.”[27]

Em 8 de outubro de 1982, o Solidarność foi declarado ilegal. Os 11.800 trabalhadores em Gdansk param de trabalhar e ocupam o estaleiro. O sindicato decreta a greve … para depois de um mês. Wałęsa implora a Jaruzelski para “buscar um acordo” e, como prova da sua “boa vontade”, afirma ter cancelado várias greves.

Greve na porta dos estaleiros Lênin, Polônia, 1980

Diante da traição de Wałęsa, surge uma corrente antiburocrática, a Oposição Operária, que afirma que “somente a classe operária derrubará a burocracia”. Será entusiasticamente apoiada por Anna e Alina, mas não terá tempo de se consolidar face à onda restauracionista que propõe “uma sociedade pluralista na Polônia graças ao papel considerável da Igreja e à existência de uma agricultura privada em que frente a um regime autoritário, os valores morais devem se opor a isso para evitar a explosão social”.[28] Já, nitidamente, o murmúrio de Gorbachev.

Em 1986, a Polônia é admitida como membro do FMI. Em 9 de dezembro de 1990, Walesa sucede Jaruzelski como Presidente da República.

Anos depois, Walesa reivindicará o título de restaurador do capitalismo, não apenas na Polônia, mas em todos os países orientais. Recorda que «é Solidarność [o] que, desde Gdansk, lançou o seu célebre apelo aos trabalhadores da Europa Central e Oriental», e acrescenta: «era a necessidade de adaptar ao capitalismo um enorme e grandioso movimento».[29]

O fim de uma ideia

Em 27 de maio de 1989, Bush concluiu que “estamos testemunhando o fim de uma ideia, estamos no final do capítulo da experiência comunista”.[30]

“A Concertação” de Gorbachev

Vimos como o capitalismo foi restaurado na Romênia desde os anos 1970 e na Hungria na era Kádár. Mas “o fim de uma ideia” virá com Gorbachev, no comando do PCUS desde 11 de março de 1985.

No 27º Congresso do PCUS, em fevereiro de 1986, o novo Secretário-Geral anunciou que para entrar no século 21 como uma grande potência, a URSS tinha um problema: “Houve um erro em não perceber claramente a necessidade de mudança em alguns aspectos das relações de produção [em não perceber a necessidade de superar] a estagnação conservadora das relações de produção soviéticas.”[31] E então anuncia uma política de Concertação (Glasnost). “Sem concertação não há e não pode haver democracia. Trata-se de que o acordo chegue a ser um sistema que funcione sem entraves”.

Faltava colocá-lo em prática. Mas não era apenas teoria. E Gorbachev não podia contar com o apoio do proletariado para impor sua “reestruturação das relações econômicas” (Perestroika), muito pelo contrário. Houve uma inflação galopante.[32] Em outubro, 500 trens com 25 mil vagões estavam parados em várias partes do país por falta de manutenção. No primeiro semestre de 1989, havia uma média de 15.000 operários em greve por dia e, em julho, uma greve na mineração obrigou a burocracia a ceder às reivindicações. Os Estados Bálticos (Estônia, Letônia, Lituânia) exigiram a independência. O Exército Vermelho foi derrotado no Afeganistão.[33]

Mas ele podia contar com “o outro sistema”. Em 2 de dezembro de 1989, Gorbachev encontra Bush em um porto na ilha de Malta. Em 16 de outubro de 1990, ele recebe o Prêmio Nobel da Paz “por seu importante papel nas mudanças positivas na relação entre o Oriente e o Ocidente”. Não era para menos. Ele havia respondido a um pedido específico feito já em julho de 1987 por Reagan: resolver o problema do Muro de Berlim.

Berlim, 9.11.1989 – 18:57 – A unificação do proletariado alemão

Após o esmagamento do levante de Berlim em 1953, nenhum movimento operário organizou lutas na RDA por três décadas. Em 3 de maio de 1971, Erich Honecker sucedeu a Ulbricht e iniciou um período de melhorias substanciais no padrão de vida da população graças ao regime de Estado operário, apesar da burocracia. Entre 1970 e 1987, o poder de compra da população aumentou 59%.

Em 21 de dezembro de 1972, foi formalizada a soberania da RDA e da RFA, dois estados que manterão boas relações de vizinhança, como iguais, e “se identificam com a Carta Magna da ONU“.

Honecker afirma cada vez mais “seu” estado (operário). Ele não teme em apelar à simpatia dos Estados capitalistas, mesmo da RFA, para obter independência de qualquer tutela do Kremlin, e as tensões vão aumentar quando Gorbachev suceder a Brejnev.

Em 18 de abril de 1986, o novo chefe do Kremlin veio pessoalmente explicar seus projetos no 11º Congresso do SED (o partido único, Sozialistische Einheitspartei Deutschlands). Chama a uma “autocrítica” e faz propostas para o desarmamento. Para Honecker, não deveria haver nenhum “compromisso”. Sabe que as tropas russas ainda estão em seu território, mas também sabe que pode contar com o imperialismo, ao qual a economia da RDA já está intimamente ligada, e que perdoa seu “socialismo” desde que mantenha a disciplina em seu país. .

Em 12 de junho de 1987, Reagan se faz convidar a RFA e em um discurso em frente ao histórico Portão de Brandemburgo, principal ponto de passagem entre os setores Leste / Oeste de Berlim, diante de uma imensa multidão de berlinenses ocidentais, nos quais as bandeiras ianques se misturam com as tricolores alemãs (que eram iguais nos dois lados do Muro), lança um apelo: “Sr. Gorbachev, abra essa porta, Sr. Gorbachev, derrube esse muro.” É aplaudido freneticamente pelas massas da RFA.

Entanto isso, a população da RDA começa a se rebelar contra o ditador. As marchas de protesto são organizadas e reprimidas indiscriminadamente. As organizações de oposição são estruturadas. Na segunda-feira, 2 de outubro de 1989, já havia 20 mil nas ruas de Leipzig, e começam as Montagsdemos (marchas de segunda-feira), com o slogan “Wir sind das Volk” (o povo, presente!). No dia seguinte, outra manifestação é reprimida e 1.320 manifestantes são presos.

Para Gorbachev, era hora de intervir. Por ocasião do 40º aniversário da fundação da RDA, é convidado a ir ao país. Na sexta-feira, 6 de outubro de 1989, foi aplaudido em entrevista coletiva por uma imensa multidão que compareceu às comemorações do aniversário, na esperança de encontrar um aliado em sua luta antiditatorial: “Gorbi, Gorbi, hilf uns!” (ajude-nos).

Egon Krenz, a segunda autoridade depois de Honecker, lembra-se da violenta repressão, quatro meses antes, de uma manifestação na Praça Tiananmen, na China, e teme tal rebelião na RDA, sabendo que não poderá contar com tropas do Exército Vermelho para “resolver a crise”. E em 18 de outubro, o bureau político do SED votou unanimemente para substituir Honecker por Krenz. Na segunda-feira seguinte, são 300.000 na Montagsdemo em Leipzig.

Honecker serviu de bode expiatório e Krenz reivindica uma Wende (uma mudança), aplaudido por Fidel Castro, Ceaușescu, Ramiz Alia da Albânia e Wu Shuging da China.[34] Mas a mudança é uma primeira vitória das massas.

Enquanto isso, a Alemanha estava dividida, mas o proletariado cuidará disso.

Em 4 de novembro de 1989, um festival legalmente autorizado e convocado por artistas reuniu um milhão de pessoas na Alexanderplatz, em Berlim Oriental. A multidão aproveitou a ocasião para exigir liberdade de opinião e de viagens. No dia 9, o CC do SED se reuniu, e um porta-voz comenta em entrevista coletiva que um novo regulamento havia sido elaborado para solicitar uma autorização de viagem privada à RFA. E quando um jornalista pergunta quando o regulamento entrará em vigor, ele responde: “Pelo que eu sei, seria agora”.

Eram 18h57. Uma multidão de pessoas que o ouviram na rádio correu para o Portão de Brandemburgo, o marco histórico que marcava a fronteira em Berlim, onde Reagan havia falado do outro lado dois anos antes. E os guardas não hesitam em abrir as portas, sem esperar ordens.

Queda do muro de Berlim, 1989

Naqueles dias, mais de dois milhões de alemães de ambos os “países” cruzaram a fronteira em ambas as direções. Foi o fim do “Muro de Berlim”. A reunificação do proletariado alemão. O “Wir sind das Volk” (o povo presente!) foi confirmado, mas na Montagsdemo de 13 de novembro em Leipzig, o slogan foi complementado com “Wir sind ein Volk” (somos um único povo).

Resta formalizar a reunificação. Tanto Gorbachev quanto todos os líderes do Ocidente querem manter a RDA como mais uma semicolônia, agora do amo do Ocidente. Mas a luta proletária era pela reunificação.

A essa altura, a burocracia da RDA já havia perdido todo o crédito que as melhorias iniciais do estado operário haviam lhe dado. A reunificação será capitalista. Foi rejeitada a proposta da Oposição feita em 12 de fevereiro de 1990 de criar um holding com ações distribuídas entre os habitantes da RDA. E em 1º de março de 1990, uma lei cria a Treuhandanstalt, uma secretaria para vender as Volkseigene Betriebe (empresas pertencentes ao povo) “de acordo com a economia social de mercado”. Trata-se de “garantir a competitividade das empresas e, quando isso não for possível, fechá-las”. (art.8)

Em 1º de julho de 1990, o Banco Federal da RFA absorveu o da RDA. O capitalismo é restaurado “por decreto”, como diria Moreno.[35]

A absorção foi acompanhada por greves e mobilizações, passando de 120 mil metalúrgicos em julho para 250 mil ferroviários em novembro[36]. E uma vitória foi obtida: a moeda da RDA é equiparada à da RFA, quando antes valia a metade.

O fim de uma União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Hoje não restam da URSS, nem os sovietes nem o socialismo e nem sequer todas as repúblicas. De União, nem se fala.[37]

Em Malta, em dezembro de 1989, foi selado o acordo para incorporar a URSS ao sistema capitalista imperialista. Mas como se faz isso?

Um acordo Gorbachev – Yeltsin, contra as massas.

O Pravda de 8/10/1990 informa que o Estado dispõe de um quarto de batatas e 43% de hortaliças para satisfazer a procura de alimentos. São 8 milhões de desempregados e uma inflação de 8% segundo dados oficiais, na verdade,  o triplo.

A solução? Em 1º de novembro de 1990, começou o Plano dos 500 dias: depois de um ano, 70% da indústria e quase todo o comércio e agricultura do país devem ser privatizados. Os mineiros, por sua vez, reunidos na bacia do Donetz em seu segundo Congresso de toda a URSS, cinco dias antes haviam decidido criar o primeiro sindicato independente de âmbito nacional.[38]

O aparato do partido resiste ao plano dos 500 dias porque significa o desaparecimento do emprego de centenas de milhares de servidores e uma redução drástica do complexo militar-industrial. E encontra uma orientação em Boris Yeltsin, presidente do Soviete Supremo da Rússia.

Yeltsin e Gorbachev

A “Revolução Cantada” mobilizou multidões nos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) a partir de 1987, exigindo a independência. Esses países foram conferidos a Stalin no acordo com Hitler em 1939 e incorporados à URSS no final da Segunda Guerra Mundial. Gorbachev tentou sufocar a rebelião por meio de concessões de certa autonomia. Em 11 de janeiro de 1991, as tropas soviéticas ocuparam a Lituânia. Imediatamente, as massas montaram barricadas de defesa na Letônia, provocando uma reação violenta da OMON (a polícia secreta russa presente no país). Na Estônia, se pode evitar que houvesse vítimas fatais.

Mas a ameaça mais séria veio dos mineiros russos. Em 10 de março de 1991, eles entram em greve. Uma manifestação massiva do povo em Moscou os apóia e exige a renúncia de Gorbachev. Os operários lituanos, gratos pelo apoio de seus camaradas russos contra a invasão das tropas do Kremlin em janeiro, enviam uma caravana de mais de 30 caminhões com alimentos.

O imperialismo, fortalecido por seu triunfo político e militar no Iraque,[39]  estava reunido em um G-7. Dois economistas, relacionados à Gorbachev e Ieltsin, respectivamente, enviam uma carta alertando sobre “uma série de problemas geopolíticos muito perigosos” e pedindo ajuda. E o G-7 convida Gorbachev para participar do encontro[40].  Gorbachev volta a Moscou, afiançado do “apoio” do FMI, mas sem receber um dólar. E diante do perigo “das massas”, a cúpula soviética se une.

Em agosto de 1991, Gorbachev renuncia e deixa Borís Yeltsin no comando. Em 6 de setembro de 1991, a URSS reconhece a independência das três repúblicas bálticas, que são admitidas na ONU dez dias depois. Em 25 de dezembro de 1991, a URSS deixa de existir e nasce a Federação Russa, reconhecida como tal na ONU, com Yeltsin como presidente. No Kremlin, a bandeira soviética é substituída pela tricolor da Rússia czarista.

Em 1º de junho de 1992, a Federação Russa torna-se membro do FMI. Todas as semicolônias do glacis já eram membros do representante da economia capitalista, exceto a RDA, porque havia deixado de existir graças a uma grande vitória: a reunificação do proletariado alemão, brutalmente separado por Stalin meio século atrás.

O cárcere dos Povos

O império czarista era uma enorme “prisão de povos” oprimidos, e uma das razões do triunfo bolchevique foi justamente a política leninista com relação às nacionalidades.[41] Em 1917, Lenin disse: “Dizem-nos que a Rússia será dividida, que se dividirá em repúblicas separadas, mas não há razão para que isso nos assuste. Não importa quantas repúblicas independentes existam, não teremos medo; o que é importante para nós não é por onde passa a fronteira do Estado, mas sim que a união dos trabalhadores de todas as nações seja preservada para a luta contra a burguesia de qualquer nação”.[42]

Em 25 de fevereiro de 1921, o Exército Vermelho entrou em Tbilisi para apoiar os bolcheviques georgianos contra seu governo burguês, e então a Geórgia declarou-se uma República Socialista Soviética e ingressou na URSS.[43] Stalin, georgiano, era então o Comissário do Povo para as Nacionalidades. E uma das primeiras medidas foi impor a russificação em seu país de origem. Em 1922, numa alusão apenas velada a Stalin, Lenin disse que o aparelho herdado do czarismo “é incapaz de defender os não-russos da investida desse homem verdadeiramente russo, o chauvinista gran russo, em essência esse canalha e opressor que é o burocrata russo típico. Não há dúvida de que os operários soviéticos e os sovietizados que constituem uma proporção ínfima, se afogarão nesse oceano da canalha gran russa chauvinista como uma mosca no leite”[44]

Stalin não se limita a reconstruir a prisão. Ele amplia, incluindo a outros povos, todo o glacis. Na Constituição de 1977 não se fala mais da soberania das Repúblicas da União. Todos os habitantes da URSS devem aprender russo desde o jardim de infância, como segunda língua materna.

A partir de 1987, manifestações massivas foram organizadas em Tbilisi para exigir a independência da Geórgia, e no 19º congresso do PCUS (28.6-2.7.1988) Gorbachev explica que “a liberdade dos povos e dos Estados” significa apenas “escolher seu sistema da sociedade”, enquanto suas tropas reprimiam violentamente as manifestações pela independência em Tbilisi, com um saldo de 20 mortos. O Pravda de 11 de abril de 1989 denuncia que “dirigentes impostores – extremistas e nacionalistas … […] hoje semeiam as sementes da discórdia na Geórgia”[45]. E em 19 de abril acontece outro massacre, com 19 mortos.

Com a restauração capitalista, os carcereiros vão mudar.

Os países do glacis passam do outro lado do muro da prisão. A eles se juntam os países bálticos. No final de 1991, os Estados capitalistas reconhecem a independência da Geórgia, que ingressa na ONU em 31 de junho de 1992. Mas, a partir de então, as línguas e escolas para minorias étnicas[46] foram abolidas no país, como nos velhos tempos de Stalin. E a Ucrânia e a Bielo-Rússia continuam em disputa, em eterna “instabilidade”. Sem falar na problemática fronteira com a Ásia, ao sul da Federação. Em 1994, Ieltsin lançou o exército da Federação Russa contra a Chechênia. Em jogo estavam o controle da produção de petróleo e o oleoduto de Baku.

A “União” era a solução leninista para o problema das nacionalidades em 1917; o seu fim não oferece nenhuma solução para a “paz” no mundo e, muito menos, para a unidade socialista dos povos. Apenas um consolo: o proletariado alemão foi reunido.

O veredicto: lucro para os capitalistas, um desastre para os povos

Depois da crise econômica mundial dos anos 1970, o imperialismo conseguiu certa recuperação no final do século, graças à pilhagem dos recursos acumulados como propriedade estatal nos estados operários. Uma espécie de acumulação primitiva particular.

Quando foi formalizada a incorporação da RDA pela RFA (1.7.1990), a Treuhandanstalt já havia adquirido 8.500 empresas (cerca de 45.000 fábricas), transformadas em 14.600 Sociedades Anônimas[47]. Dos 4,1 milhões de empregos naquela data, restavam apenas 1,24 milhão em abril de 1992. Apenas 5% das empresas estavam nas mãos de pessoas com origem na RDA, menos de 10% nas mãos de investidores internacionais e 85% nas mãos da burguesia da RFA. Depois de perder duas guerras mundiais, a Alemanha conseguiu ser mais uma vez a locomotiva do capitalismo europeu.

Enquanto isso, quando uma motorista de bonde saiu de Pankov na rede unificada de transporte, ao chegar à antiga fronteira com Berlim Ocidental teve que deixar seu veículo nas mãos de um colega do sexo masculino, pois, as mulheres eram consideradas inadequadas para este tipo de trabalho. A estrutura de governo na nova RFA é altamente descentralizada e continuou a distinção entre neue Länder (novos, absorvido da antiga RDA) e alte Länder (velhos). Os cidadãos dos neue Länder agora tinham que se acostumar a pagar por atendimento médico e educação. Em 1993, a equalização salarial foi prometida em 100% para 1994, mas em setembro de 2017 os salários nos “neue Länder” eram em média apenas 82% daqueles dos “alte Länder”. Antes da reunificação, Audi e Mercedes Benz, entre outros, tinham planos de investimento na RDA para aproveitar a “mão de obra barata”. Depois mudaram de ideia. Audi foi para a Hungria, Mercedes Benz para o México e Coreia do Sul, VW para a China, etc.

No Cazaquistão, a fábrica Karmet era uma das três siderúrgicas mais importantes da URSS, com mais de 100.000 trabalhadores. Em 1995, Noursoultan Nazarbaev, um ex-operário da Karmet, presidente do país e Secretário Geral do Partido Comunista, vendeu a empresa, as minas de carvão, a usina elétrica que alimentava a fábrica e a cidade, a empresa de bondes, o hotel e a estação de TV por 500 milhões de euros à Lakshmi Mittal, o terceiro homem mais rico do planeta[48], dono do poderoso conglomerado siderúrgico Arcelor-Mittal[49].

No momento da transação, Mittal prometeu não demitir ninguém. Em 2006, havia apenas 50.000 funcionários restantes, ganhando menos da metade de um mineiro russo do Kuzbass.

Em 2001, a Mittal adquiriu a Sidex, a gigante siderúrgica da Romênia, graças a uma carta de apresentação de Tony Blair ao primeiro-ministro romeno, após uma generosa contribuição para as finanças do Partido Trabalhista. Em outubro de 2003, adquiriu a PHS, o maior holding siderúrgico da Polônia. Em entrevista ao Euronews em 2 de fevereiro de 2006, Mittal disse que “o mais importante são os trabalhadores”. Na verdade, são eles que geram a mais-valia.

Enquanto isso, na URSS, o crescimento de 4,1% em 1986 caiu para 2,3% em 1987 e para um déficit de menos 4% em 1988. Com o capitalismo … o PIB cai 9% em 1991; 18,9% em 1992; 12% em 1993; e 16% em 1994. No início de 1994 havia 1,1% de desemprego e, um ano depois, o dobro. Sob o título significativo de “A transição para o capitalismo tem efeitos mortais?” o Banco Mundial informa que, entre 1990 e 1994, a expectativa de vida caiu de 64 para 58 anos para os homens e de 74 a 71 para as mulheres. Em 1997, a mortalidade de adultos na Rússia era 10% maior do que na Índia. Ou seja, “tantos mortos por restauração capitalista [quanto] pela Segunda Guerra Mundial.”¹

*  *  *

 “Mesmo que ocorra essa situação hipotética de uma virada de 180 graus [da burocracia] para o capitalismo, o trabalho da Oposição manteria toda sua vigência, porque defende a herança do partido revolucionário. Não se pode criar um partido com a ajuda do Estado soviético. Por outro lado, com a ajuda do partido revolucionário, sim se pode construir um segundo Estado soviético após o colapso do primeiro.”

Trotsky, Carta aos camaradas búlgaros, 04.10.1930

Notas:

 [1] https://www.marxists.org/history/international/comintern/sino-soviet-split/other/1957declaration.htm

[2] Não estava a Iugoslávia, expulsa oito anos antes do Cominform, mas estava a Albânia, que havia apoiado Moscou contra Tito

[3] K. Marx, Las luchas de clases en Francia de 1848 a 1850  (Neue Rheinische Zeitung, 1850).

[4] TROTSKY, León. Stalin, el comisario de Hitler (2.9.1939)

[5] Foi o que Trotsky tinha previsto em a URSS em Guerra (1939)

[6] Como Stalin afirmou em abril de 1945 em uma discussão com Milovan Djilas, um dissidente iugoslavo. http://www.maria-online.com/travel/article.php?lg=de&q=Berlin-Blockade

[7] TROTSKY, L. A URSS em guerra (1939)

[8] Segunda Conferência do SED, julho de 1952

[9] Relato na ocasião do 50º aniversário da rebelião, de Peter Bruhn que na época estudava em Berlim. http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/europe/2997736.stm

[10] Como Mao afirmou em um discurso no final do encontro http://digitalarchive.wilsoncenter.org/document/121559

[11] Relato de Peter Fryer, um jornalista do Daily Worker, o jornal do Partido Comunista na Inglaterra, que em seguida vai boicotar seus relatórios.

[12] O discurso já citado no final do encontro de Moscou

[13] https://en.wikipedia.org/wiki/Rollback#Eisenhower_and_Dulles

[14] MORENO, Nahuel. O marco da Revolução húngara (1957)

[15] MORENO, N. China e Indochina (1967)

[16] https://www.weforum.org/agenda/2015/01/will-cuba-rejoin-the-imf/

[17] Idem

[18] The New York Times, 13/04/95

[19] Ricardo Napuri, Le Che vivant, en Presse Internationale oct-nov 1996 (o jornal dos militantes da LIT-QI na Bélgica).

[20] MORENO, N. A revolução portuguesa (1975)

[21] TROTSKY, L. Programa de Transição (1938).

[22] Teses de Fundação da LIT-QI (janeiro de 1982), Teses III

[23] http://www.verfassungen.net/cssr/verf48-i.htm

[24] Peter und Crista Hübner, Sozialismus als soziale Frage – Sozialpolitik in der DDR und Polen 1968-1976 (2008).

[25] Uma decisão de 10 de dezembro de 1981.
<http://psi.ece.jhu.edu/~kaplan/IRUSS/BUK/GBARC/pdfs/poland/pl81-11b.pdf>
<https://en.wikipedia.org/wiki/Soviet_reaction_to_the_Polish_crisis_of_1980–81

[26] Declaração do Front Robotniczydel 12.8.1984 (publicada no Correio Internacional de julho de 1986)

[27] Manifesto da LIT-QI (1985), cap. IX.

[28] Bronislaw Gerenmek, um assessor de Wałesa, en Le Monde, 10/8/85

[29] Entrevista en Le Soir, 28/08/2005

[30] . Bush (padre), en una declaración del 27 de mayo de 1989 (citada em uma intervenção de Nguyen van Linh no Comitê Central do PC do Vietnã, em 28 de agosto de 1989).
<http://www.marx.be/fr/content/études-marxistes?action=get_doc&id=6&doc_id=346>

[31] SEWERYN, Bialer; AFFERICA, Joan. The Genesis of Gorbachev’s World, Foreign Affairs 64, n.° 3 (1985)
<https://www.foreignaffairs.com/articles/russia-fsu/1986-02-01/special-supplement-genesis-gorbachevs-world>

[32] Entre 1989 e 1998, o PIB caiu pela metade

[33] Correio Internacional, novembro 1989

[34] Etudes marxistes (a revista teórica do PTB belga) de agosto de 1990

[35] Fazemos uma analogia com o que Moreno disse sobre a expropriação: “O socialismo se faz por decreto. […] O que não pode ser feito por decreto é tomar o poder ”. N. Moreno, Escola de Pintura, Venezuela (1982).

[36] Correio Internacional, dezembro de 1990

[37] A reflexão é ilustrada com um cartoon publicado no The New York Times de 19/07/1991. Veja Correio Internacional de agosto de 1991

[38] Correio Internacional, dezembro 1990

[39] Veja a Resolução do CEI da LIT-QI de 3/3/1991 – correio Internacional de março de 1991.

[40] Veja Correio Internacional de agosto de 1991.

[41] ALEGRÍA, F. O marxismo revolucionário e a questão nacional, em: Correio Internacional, março 2013.

[42] Veja Correio Internacional de março de 1990

[43] Mais exatamente, na República Socialista Federativa Soviética Russa, criada pela Constituição de 07.10.1918, e que se tornou a URSS em 30.12.1922.

[44] LENIN, V. I. Sobre a questão das nacionalidades ou sobre a autonomização (12.30.1922).

[45] Citado em Correio Internacional de maio de 1989

[46]Le Soir 12.08.2008

[47] Para comparar: estima-se que entre 1980 e 1987 apenas 1.000 empresas foram privatizadas em todo o mundo. Veja: <https://de.wikipedia.org/wiki/Treuhandanstalt#Gr.C3.BCndung>

[48] Depois de Bill Gates e Warren Buffet

[49] Veja Presse Internationale de março de 2006. Mittal estava então concluindo sua fusão com a Arcelor, que juntas pesavam 18,6 bilhões de euros e mais de 11% do consumo mundial de aço.

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