dom ago 14, 2022
domingo, agosto 14, 2022

Crônica de uma morte anunciada: A falência da COP 26 de Glasgow

A mídia deu grande ressonância à COP26 que ocorreu em Glasgow de 31 de outubro a 12 de novembro de 2021. Como no romance de Gabriel Garcia Marquez, ninguém faz nada antes do ato de violência que, desse modo, é inexoravelmente consumado. Os dias seguintes ao fechamento da Conferência, que viu a participação de cerca de 40 mil pessoas provenientes de 197 países pessoas nas atividades (um faz de conta plebiscitário?), foram caracterizados por valores opostos aos resultados obtidos e suas diversas matizes se alocaram em um intervalo que vai do “enorme passo avante” dos organizadores à “verdadeira falência” de Greta Thunberg.

Por: Giacomo Biancofiore

As mobilizações e as bandeiras de centenas de milhares de jovens, provenientes inclusive das populações indígenas da Amazônia e de outras regiões da América Latina, da Ásia e da África, são eloquentes sobre os reais resultados da COP26, assim como são paradoxais os argumentos utilizados para encher um copo que está longe inclusive de estar meio cheio.

Nenhuma mudança de ritmo

Quem, apesar da evidência, quer atribuir à Conferência uma mudança de ritmo que tantos esperavam, confiou substancialmente na “persistência” dos países em conseguir superar todos os obstáculos e colocar junto o assim chamado “Pacto climático” que, modificado, reorganizado e esvaziado consentiu em evitar, apenas formalmente, o desastre total. “A Conferência de Glasgow confirmou a emergência climática e reiterou sua prioridade global”, afirmam os que procuram o otimismo, sem lembrar-se das conferências anteriores e, sobretudo, dos constantes e cada vez mais pesados alarmes dos cientistas e das estruturas responsáveis por monitorar as alterações climáticas.

Absurda é a alegria pelo acordo que decreta o fim do desmatamento da Amazônia até 2030. O empenho dos Estados em dispor recursos para o desenvolvimento de economias sustentáveis da floresta viva e dar um apoio aos povos indígenas, além de não estar de modo algum vinculado, esbarra com a realidade: desde o início de 2021 foram abatidas mais de um milhão e meio de árvores, segundo o Instituto Nacional para a Pesquisa Espacial (INPE) o desmatamento legal na Amazônia, apenas em 2021, já está perto de 800.000 hectares (8.000 km²); o governo Bolsonaro desde sempre tem favorecido as invasões das terras habitadas por povos indígenas por parte de grupos criminosos que abriram o caminho para a pistolagem, sem escrúpulos; e garantiu o desenvolvimento e o financiamento de investimentos na construção de estradas, ferrovias e portos para aumentar a capacidade logística do transporte de produtos e matérias primas naturais e semiacabados, cuja exportação é a principal causa da destruição das florestas e dos ecossistemas. É uma espécie de autorização para cortar, depois veremos. Do pulmão verde do mundo, até 2030, restará muito pouco!

O verdadeiro objetivo da Cop26

A presença de centenas de representantes das principais multinacionais da área de energia na COP26 prefigura, sem sombra de dúvida, o cenário real da conferência de Glasgow e, mais em geral, das mãos nas quais é colocada a solução da crise climática. A COP26 foi exatamente o que havia pré-anunciado, em tempos não suspeitos, os jovens do movimento Fridays For Future: “a festa do poder na qual participa quem contribuiu para causar a crise climática”. Os representantes dos países que, até hoje, têm mais sofrido as consequências dessa crise, são – como já haviam antecipado em julho (1) – deixados de fora: o compromisso com base no qual os países ricos deveriam fornecer centenas de milhões de dólares por ano aos países em via de desenvolvimento para financiar a transição energética (compromisso tomado em 2009 e nunca respeitado) foi substituído pela promessa de mobilizar cerca de cinquenta milhões de dólares até 2025. Uma cifra, no entanto, insuficiente.

A COP26 deveria apenas aplacar a ânsia por justiça climática das classes subalternas com falsos planos adiados para 2030 e sistematizados em uma ampla operação de greenwhashing

(lavagem verde) político para entregar ao mercado e aos seus principais atores a gestão dos retoques, sem disturbar a corrida incontrolável por lucros, único motor do modelo capitalista.

Através do colapso ambiental

Os refletores apontados sobre o acordo alcançado ao final de mais de duas semanas de negociações e com pesadas sombras sobre sua credibilidade depois que a China e a Índia impuseram a modificação da passagem que exigia a eliminação do uso de carvão, substituindo com um mais genérico reduzi-lo, fizeram perder de vista o objetivo (não explícito) sobre a contenção da temperatura média global. Depois de Glasgow, o objetivo de manter, até o fim do século, as temperaturas globais abaixo de 1,5ºC resulta nada mais que outro fetiche; o que acontecerá em 2100 se encontra presumivelmente entre possíveis variações que vão de 1,8ºC, (cálculos da Agência Internacional de Energia) formulados a partir da hipótese de que todos os países se atenham aos planos para a redução das emissões de gás do efeito estufa que foram apresentados em Glasgow, aos 2,7ºC que, ao contrário, ameaçam as atuais políticas relativas ao aquecimento global.

Além dessas hipóteses, o que sabemos com certeza é que uma temperatura média de 2,4ºC comportará um clima extremo generalizado, com o aumento do nível do mar, secas, inundações, ondas de calor e tempestades violentas, que causarão devastação em todo o mundo, cujas vítimas se encontrarão nas camadas sociais mais desprotegidas. O que estamos vendo atualmente é apenas uma prévia ameaçadora.

O verdadeiro passo avante

Não se chegou a nada de bom do Scottish Event Campus, onde aconteceu a Conferência das Partes das Nações Unidas (COP26). No entanto, alguma coisa de útil pôde ser registrado registrado fora daqueles palácios e foi representado por jovens de vários países que invadiram as ruas de Glasgow com mobilizações e manifestações de protesto.

Escrevemos há anos que o caminho a ser tomado passa pelas manifestações, das mobilizações dos jovens (2) e das lutas que devem necessariamente ver os estudantes e os trabalhadores unidos: em especial aqueles das fábricas que, com o instrumento da greve, podem parar as produções e transformar o sistema capitalista. Os dramáticos eventos dos últimos anos, as condições de miséria sempre maior no mundo, representam a confirmação de que, por sua própria natureza, o capitalismo é incompatível com a tutela do ambiente e não pode ser os capitalistas ou os seus representantes a ocupar-se do planeta que eles mesmos destroem. A crise climática e o consequente colapso ambiental não encontrarão soluções no interior do sistema capitalista, portanto, nenhuma COP poderá consentir passos avante, pois está nas mãos da classe que desde sempre submete tudo à exploração e à opressão desse modelo econômico.

Um passo concreto avante poderá vir da consciência da classe operária mundial de que não pode existir futuro sem colocar fim ao capitalismo e que precisamos, o mais rápido possível, construir uma sociedade socialista, única sociedade a altura de planificar medidas para corrigir e prevenir o colapso ambiental.

Por esse motivo, em todo o mundo, as seções da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional se dirigem aos ativistas e aos jovens que se mobilizam sempre mais intensamente contra a crise climática: fazemos a eles um chamado para construir junto conosco esse instrumento, o partido revolucionário, sem o qual será impossível abater o capitalismo e defender a vida sobre esse planeta.

https://www.alternativacomunista.it/politica/nazionale/emergenza-climatica-la-cop26-di-glasgow-non-ci-restituira-il-futuro

https://www.alternativacomunista.it/politica/nazionale/24-settembre-fermiamoli-con-lo-sciopero

Tradução: Nívia Leão

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