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VI Encontro Internacional dos Trabalhadores das Automotrizes

noviembre 7, 2009

Em outubro passado, realizou-se na Alemanha o 6º Encontro Internacional dos trabalhadores do setor automobilístico, convocado por uma corrente do sindicato metalúrgico alemão (IGMetal) opositora à condução burocrática legada ao partido social-democrata alemão (SPD). Na delegação do Brasil esteve presente Luiz Carlos Prates (Mancha), trabalhador da GM, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e dirigente do PSTU. Na sua volta, conversamos sobre o encontro e a atual situação na Alemanha e Europa, especialmente dentro da indústria automotiva.


 


Quais foram suas impressões da viagem?


 


Mancha: Vou iniciar abordando alguns aspectos da situação naquele país como: a crise econômica, setor automobilístico e eleições. Como já estamos discutindo a crise atinge diretamente a Alemanha com uma grande queda na produção industrial e nas exportações. Recentemente houve eleições no país e as empresas fizeram acordo com o governo de evitar medidas mais drásticas antes das eleições. Seguindo a receita aplicada pelos diversos países imperialistas foram injetados bilhões de euros para amenizar a crise. O governo alemão tem injetado bilhões na Opel, desde setembro do ano passado, quando se aprofundou a crise na matriz nos EUA (GM). Com o desmembramento a parte européia da GM é administrada por um consórcio e tem suas dívidas financiadas pelo governo alemão. Afinal o provável comprador da Opel, o grupo Magna (autopeças canadense), já foi garantido 7,6 bilhões de dólares para concretizar o negócio.


 


O setor automobilístico bem como o setor de máquinas e equipamentos tem um peso muito grande na economia alemã. Para se ter uma idéia apenas a Volks tem cerca de 150.000 operários, a Daimler tem um pouco menos. Para proteger a indústria o governo fez um investimento de 6,6 bilhões em um programa de renovação da frota. Carros com mais de 5 anos de uso são destruídos e o proprietário recebe até 2.500 euros de subsídio para adquirir um carro novo. Esta política garantiu o aumento das vendas de alguns modelos mais baratos e o aquecimento do mercado interno favorecendo principalmente a Volks. No entanto a produção ainda está em queda, pois grande parte desta, aproximadamente 40%, é voltada para a exportação. Houve também uma queda acentuada na produção de carros grandes, ônibus e caminhões. Isto faz com que em algumas fábricas tem que se trabalhar até no domingo (fato totalmente raro na Alemanha), outras trabalham apenas 2 dias por semana. A jornada reduzida tem sido utilizada de maneira generalizada no país assim como a redução salarial.


 


Estas medidas jogaram mais para frente o impacto mais forte da crise, ainda não houve demissões de grande porte o que deve acontecer agora na Opel com sua venda para a Magna. A burocracia sindical IGMetal tem um controle muito forte do movimento operário e vem há décadas ajudando a administrar as empresas com sua participação no Conselho de Administração. Agora a crise aprofunda este curso, mas tem mais contradições, pois as demissões estão eminentes e agora eles saíram do governo com o resultado da última eleição.


 


O movimento operário vem ensaiando alguma resistência, como o dia de luta ocorrido no fim do mês de setembro que reuniu 5.000 pessoas em Antuérpia na Bélgica (cuja fábrica da GM está ameaçada de fechamento). Porém, parte de décadas de «anestesiamento» pelos acordos da burocracia. Como comentou um operário que trabalha há 22 anos na Volks em Hannover e nunca participou de uma greve durante esse período. Com a crise o governo também aprofunda os ataques aos benefícios sociais e de proteção, conhecidos como «Estado do bem estar social». O auxílio desemprego agora esta reduzido a 300 euros mensais.


 


Que aconteceu nas últimas eleições?


 


Mancha: A Alemanha vinha sendo governada pela chamada «grande coalizão» dos sociais democratas (SPD) e a direita dos cristãos democratas (CDU) da primeira ministra Angela Merkel. Esta aliança que garantiu a governabilidade nos últimos 4 anos, mas com a supremacia dos «conservadores». O resultado das eleições foi uma grande derrota do SPD (social democracia) que teve uma queda de 11,2 em relação às eleições de 2005, e um crescimento dos liberais FDP em 4,7. O CDU manteve praticamente a mesma votação e garantiu a maioria, agora com uma nova aliança com a FDP. Assim se desfez a coalizão e o próximo governo será formado pelos cristãos democratas em coalizão com os liberais.


 


Resultado bastante expressivo obteve «Die Linke» (ou «A esquerda») que obteve 12% dos votos. Este partido é parte da chamada «esquerda anticapitalista», é novo, tinha apenas 2 deputados na eleição de 2001 quando nasceu e chegou a 55 nesta eleição tendo um crescimento de 3,2% em relação a 2005. É formado por uma fusão do antigo PDS da Alemanha Oriental (comunista, agora reciclado) e um racha do SPD encabeçada por La Fontarne, hoje principal figura pública do partido. Conseguiram 5.153.884 votos, superando os verdes que também tiveram crescimento. Die Linke é um agrupamento heterogêneo, com muitas correntes internas e uma base parlamentar. Mas com pouca influência no movimento sindical que é dirigido pela social democracia. A corrente trotskista ligada ao The Militant foi excluída do partido quando houve a fusão do grupo de La Fontarne (onde participavam) com o ex PDS e não tiveram participação nas eleições. Die Linke («A Esquerda») é parte da prefeitura de Berlim em coligação com o SPD . É o partido com maior votação em algumas regiões da ex Alemanha Oriental dirigindo algumas prefeituras.


 


Outro partido de esquerda o PMLD (maoísta) que impulsiona o encontro do setor automobilístico teve uma pequena votação obtendo 29.551 votos apesar de alguma influência sindical. O único partido trotskista a participar do pleito, o PSG, obteve 2.970 votos. Um dado curioso é que num emaranhado de mais de 30 organizações que participaram das eleições o outrora poderoso Partido Comunista Alemão conseguiu apenas 1.903 votos. A coalizão governista do CDU (cristãos democratas) e o FDP (liberais) teve 48% e governará com o apoio de agremiações menores como CSU (cristãos sociais) que teve 6.5%. Enquanto a social democracia, o Die Linke e os verdes tiveram cerca de 46% dos parlamentares.


 


Passadas as eleições o governo deve desencadear ataques aos trabalhadores. O representante dos liberais FDP, agora da coalizão governista, é conhecido por suas posições conservadoras em relação aos direitos dos trabalhadores (teria dito nos corredores que deveria ser retirado a maioria deles) e já está causando uma grande polêmica. Outra questão é que depois de décadas no governo aplicando o plano dos capitalistas a social democracia passe para a oposição, o que leva alguns sindicalistas a dizer que eles procurarão dar um pouco mais de combatividade ao movimento sindical.


 


Como foi o encontro dos trabalhadores do setor automobilístico?


 


Mancha: Esta é a segunda vez que participamos de um encontro desta natureza. Seus organizadores são na maioria da Alemanha e atuam dentro da IGMetal, o sindicato nacional dos metalúrgicos que é filiado a DGB (central sindical). O encontro teve cerca de 50 participantes, representando 18 países e uns 350 da Alemanha.


 


As delegações eram da Espanha (majoritariamente de CGT de Saragoza, e da GM e da Volks de Barcelona), Leste Europeu, Rússia, Ucrânia, Hungria e também da Ásia e Filipinas e um representante aposentado da UAW (EUA). Da América Latina se fizeram presentes Brasil, México e Venezuela. Em geral são grupos de oposição em fábricas ou sindicatos minoritários.


 


Nós participamos com 3 companheiros do sindicato metalúrgico de SJC. Os resultados do encontro foram bastante positivos. Na abertura foram apresentadas as delegações internacionais e falaram os partidos políticos da Alemanha: a prefeita de Hannover, uma deputada do Die Linke, um deputado do SPD (social democracia) e vereadores e representantes do MPLD (maoísta). Foi uma abertura animada.


 


No segundo dia foram apresentados e debatidos os informes regionais, em base aos dados previamente enviados. Em seguida os informes da América Latina, América do Norte, Ásia, Europa Ocidental e Europa do Leste. No informe da América Latina eles reivindicaram o papel e a luta da Conlutas na GM e nas empresas do setor automobilístico. Relataram, também, as principais lutas na Argentina (Mahle), na Venezuela e no México. Em geral era um documento bom na parte sindical. No entanto na análise política da América Latina faziam uma divisão entre os governos ditos «progressistas» (como Chávez, reivindicando as nacionalizações; Lugo no Paraguai e Correa no Equador) e os «conservadores» ou «reacionários» como Lula (Brasil) e Kirchner (Argentina). Nós polemizamos com esta caracterização em plenário e defendemos a total independência em relação aos governos. Nossa intervenção foi bem recebida e na declaração final não se falava em «governos progressistas».


 


Nos informes das diversas regiões ficou claro a situação de crise econômica, a queda na produção, as medidas semelhantes tomadas pelos diversos governos para garantir o mercado das montadoras. Também algumas lutas salariais como no Brasil, México, SEAT na Espanha, Coréia do Sul e Filipinas e contra os demitidos da Nissan/Espanha. As medidas como as demissões de trabalhadores temporários e imigrantes, bem como a implementação de jornada reduzida com redução salarial estão sendo amplamente aplicadas e diminuindo o impacto direto das demissões. Intervimos nesses informes contextualizando a crise e a necessidade de combater as burocracias sindicais, impulsionar a resistência dos trabalhadores e unificar as ações internacionalmente. Nos debates posteriores nos grupos, com diversos temas, polemizamos com a visão anarcosindicalista, defendendo a importância da tática de unidade de ação com a burocracia para avançar na mobilização ou desmascará-la.


 


No plenário nossa intervenção foi localizar a crise estrutural do capitalismo, seus reflexos no setor automobilístico, desmascarando a campanha do que «o pior já passou», que o peso da crise esta sendo descarregado nas costas dos trabalhadores e a necessidade de uma perspectiva estratégica para nossa luta com a estatização da produção de veículos, a reconversão da produção, com prioridade para o transporte de massa e o respeito ao meio ambiente e culminando com a necessidade do socialismo.


 


Depois houve reunião das fábricas da GM e da Volks, separadamente, onde saíram duas cartas de princípios e solidariedade a serem trabalhados nos países que tenham fábricas desta empresas.


 


No domingo realizou-se a plenária final onde foi apresentada, para debate, a resolução «Programa de Luta Internacional do movimento Combativo dos Operários das Automotrizes na Crise Econômica Mundial», uma resolução no geral progressiva que caracterizava a crise econômica mundial, a necessidade da luta internacional, do apoio da resistência e da solidariedade dos trabalhadores dos diversos países. E apresenta um programa contra as flexibilizações e as concessões feitas pela burocracia sindical, por aumento salarial, pela redução da jornada de trabalho, contra a repressão ao movimento sindical, por direitos políticos, contra a discriminação das mulheres e da juventude, pela superação do sistema capitalista. No marco de um acordo global foram feitas várias propostas de emenda, inclusive por nós, para melhorar o texto (ainda não temos a versão final).


 


Depois, foi o momento das moções, onde nós apresentamos 4 delas, que foram aprovadas quase unanimemente: moção de apoio a greve dos mineiros da Vale no Canadá; moção reivindicando a reintegração de um dirigente sindical da GM de SJC/Brasil; moção de repúdio ao golpe de Honduras e pela volta de Zelaya; moção pela retirada das tropas brasileiras e da ONU do Haiti e retirada das tropa alemãs e da ONU do Afeganistão.

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