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Mathius Rakosi foi encarregado pelo Partido Bolchevique de fazer uma resenha histórica dos Congressos da Internacional Comunista para ser publicada no Anuário do Trabalhador de 1923. A mesma, que reproduzimos aqui, foi escrita na véspera do IV Congresso. Foi reproduzida em 1934, na primeira edição dos Quatro Primeiros Congressos da Internacional Comunista, publicada na França pela Oposição de Esquerda Internacional e na primeira edição em espanhol, feita em 1973, em Buenos Aires, pela Editorial Pluma.

A III INTERNACIONAL COMUNISTA

A Segunda Internacional devia atuar em momentos da guerra imperialista e estava intelectualmente preparada para fazê-lo. De antemão, o caráter da guerra havia sido analisado com grande precisão. Em várias ocasiões, os congressos internacionais tinham decidido realizar uma luta mais enérgica e ao mesmo tempo exemplar contra a guerra: a greve geral internacional.

Por: Mathius Rakosi

Quando a guerra estourou, aconteceu o contrário. A II Internacional não conseguiu sequer fazer um protesto. Em vez de declarar a greve geral ou a luta contra a guerra imperialista, os líderes social-democratas correram para apoiar sua própria burguesia, sob o pretexto da defesa nacional. Todos foram devorados pelo oportunismo e pelo chauvinismo, devido aos seus mil laços com a burguesia.Naturalmente, a II Internacional não poderia se comportar de maneira diferente dos partidos que a compunham. As frases revolucionárias só conseguiam esconder a realidade, desde que não se exigisse coerência entre o que se dizia e o que se fazia.

Por isso que o início da guerra mundial marca o colapso da Segunda Internacional.Por causa disso, o movimento operário internacional esteve privado de sua direção precisamente no momento de maior confusão intelectual e moral. Os poucos homens que não perderam a cabeça, mesmo em meio à onda de oportunismo e chauvinismo, que em agosto de 1914, parecia ter se apoderado de todos os cérebros, imediatamente tentaram fazer com que os operários entendessem esse fato. Foram, sobretudo os bolcheviques russos os que, no curso de sua implacável luta contra o czarismo, em particular durante os anos de 1905-1906, já haviam aprendido a distinguir entre palavras e atos revolucionários e haviam constituído uma ala esquerda no seio da Segunda Internacional, cuja ação criticavam.

Na primeira edição de seu órgão central, publicado em 1º de novembro de 1914, o camarada Lênin escreveu:“A Segunda Internacional morreu, vencida pelo oportunismo. Abaixo o oportunismo e viva a III Internacional, liberta dos renegados e também dos oportunistas! “A Segunda Internacional realizou um trabalho útil de organização das massas proletárias durante o longo “período de paz” da pior escravidão capitalista durante o último terço do século XIX e o início do século XX. A tarefa da Terceira Internacional será preparar o proletariado para a luta revolucionária contra os governos capitalistas, para a guerra civil contra a burguesia de todos os países, em vista da tomada dos poderes públicos e da vitória do socialismo”.Algumas semanas depois, o camarada Zinoviev escreveu sobre “a consigna da social-democracia revolucionária”:

 “Precisamos levantar a bandeira da guerra civil. A Internacional adotará essa consigna e será digna de seu nome, ou vegetará miseravelmente. Nosso dever é nos preparar para batalhas futuras e habituar a nós mesmos e a todo o movimento operário a essa ideia. Ou morreremos ou ganharemos sob a bandeira da guerra civil”.

A difusão deste tipo de ideias enfrentava imensas dificuldades. A burguesia de todos os países, auxiliada por seus social- patriotas para esse fim, usava todos os meios para impedir que essas ideias penetrassem nas massas.A primeira tentativa de reconstituir uma Internacional revolucionária ocorreu no início de setembro de 1915 em Zimmerwald, na Suíça. Por iniciativa dos socialistas italianos, foram convidadas “todas as organizações operárias que permaneceram fiéis ao princípio da luta de classes e da solidariedade internacional”.

Delegados da Alemanha, França, Itália, Bálcãs, Suécia, Noruega, Polônia, Rússia, Holanda e Suíça estavam presentes. Todas as tendências estavam representadas, desde os reformistas pacifistas até os marxistas revolucionários. A Conferência adoptou um manifesto condenando a guerra imperialista e recomendando o exemplo de todos aqueles que foram perseguidos por terem tentado despertar o espírito revolucionário na classe operária. Embora confuso, esse manifesto marcou um grande passo a frente. O grupo chamado Esquerda de Zimmerwald emitiu uma resolução muito mais nítida.

Essa resolução continha a seguinte passagem: “Rejeição dos créditos de guerra, distanciamento dos ministros socialistas dos governos burgueses, necessidade de desmascarar o caráter imperialista da guerra na tribuna parlamentar, nas colunas da imprensa legal e, se necessário, ilegal, organização de manifestações contra os governos, propaganda nas trincheiras em favor da solidariedade internacional, proteção das greves econômicas tentando transformá-las em greves políticas, guerra civil e não paz social”.A rejeição desta resolução por parte da Conferência evidencia suficientemente o estado de espírito de seus participantes. A Conferência nomeou uma “Comissão Socialista Internacional”. Apesar da declaração formal da maioria da Conferência, no sentido de se recusar a criar uma Terceira Internacional, a Comissão se converteu, por sua oposição à Oficina Socialista Internacional (órgão executivo da Segunda Internacional), no ponto de reunião da oposição e da organização da nova Internacional.A Conferência de Zimmerwald foi seguida pela Conferência de Kienthal em abril de 1916.

O que caracterizou esta segunda conferência foi o fato de que a ideia da luta revolucionária internacional contra a guerra e, consequentemente, a necessidade de uma nova Internacional, ocuparam, cada vez mais, um primeiro plano. A influência da “esquerda zimmerwaldiana” aumentou. Trabalhou-se com esmero. Folhetos e panfletos foram impressos e enviados para diferentes países em meio às maiores dificuldades. Foram realizadas pequenas entrevistas e conferências que continuaram a espalhar a idéia da luta de classes revolucionária.

Quando a revolução eclodiu na Rússia, os elementos mais ativos da “esquerda zimmerwaldiana” retornaram ao país. É assim que o centro da luta pela Terceira Internacional se mudou para a Rússia. Zinoviev estava certo quando escrevia:“Desde seu nascimento, a III Internacional uniu seu destino ao da Revolução russa. Na medida em que triunfou, a consigna “Pela III Internacional” se impôs. E na medida em que a Revolução Russa foi se fortalecendo, o mesmo aconteceu com a situação da Internacional Comunista em todo o mundo”.Durante as manifestações de 1º de maio de 1917, uma das principais consignas das massas proletárias foi a organização da Internacional Comunista.

Esse desejo tornou-se mais imperativo quando o proletariado russo conquistou o poder e quando, na luta contra o imperialismo mundial, a Segunda Internacional – como no caso da guerra mundial – se colocou ao lado da burguesia. Alguns meses após a queda dos poderes centrais, o Partido Comunista da Rússia tomou a iniciativa de fundar a Terceira Internacional. As revoluções que se seguiram à guerra demonstraram a falência da teoria da “defesa nacional” e seus defensores, os social-democratas.

Uma poderosa onda revolucionária sacudiu a classe trabalhadora de todos os países. Na Europa Central aconteceram insurreições operárias em todos os lugares. O terreno não só estava maduro o bastante para a constituição da Internacional Comunista, como tinha se tornado uma necessidade para a preparação e organização das lutas revolucionárias.

O PRIMEIRO CONGRESSO. MARÇO DE 1919

Em 24 de janeiro de 1919, a Central do Partido Comunista da Rússia, assim como os departamentos de relações exteriores dos partidos comunistas polonês, húngaro, alemão, austríaco, letão e os comitês centrais do partido comunista finlandês, da federação socialista dos balcãs e do partido socialista operário norteamericano, lançaram o seguinte chamado:“Os partidos e organizações abaixo assinados consideram a reunião do primeiro congresso da nova Internacional revolucionária como uma necessidade imperiosa. Durante a guerra e a revolução, ficou evidente não só a falência total dos antigos partidos socialistas e social-democratas e com eles da Segunda Internacional, mas também a incapacidade dos elementos centristas da velha social democracia para a ação revolucionária.

Ao mesmo tempo, os contornos de uma verdadeira Internacional revolucionária são visivelmente delineados”.O chamado descreve em doze pontos o objetivo, a tática e o comportamento dos partidos “socialistas”. Considerando que a época atual significa a decomposição e o colapso do sistema capitalista, que por sua vez significa o colapso da cultura europeia, se não se acaba com o capitalismo, a tarefa do proletariado consiste na conquista imediata dos poderes públicos. Essa conquista do poder público implica a aniquilação do aparato estatal burguês e a organização do aparato do Estado proletário.

O novo aparato deve incorporar a ditadura da classe operária e servir de instrumento para a opressão sistemática e a expropriação da classe exploradora. O tipo de Estado proletário não é a democracia burguesa, essa máscara por trás da qual a dominação da oligarquia financeira está escondida, mas a democracia proletária na forma dos sovietes (Conselhos). Para garantir a expropriação da terra e dos meios de produção que devem passar para as mãos de todo o povo, será necessário desarmar a burguesia e armar a classe trabalhadora. O principal método de luta é a ação das massas revolucionárias até chegar à insurreição armada contra o Estado burguês.

Quanto à atitude dos socialistas, três grupos devem ser considerados. Contra os social-patriotas que lutam ao lado da burguesia, teremos que lutar sem piedade. Os elementos revolucionários de centro devem ser divididos e seus líderes criticados incessantemente e desmascarados. Num certo período de desenvolvimento, se impõe uma separação orgânica com os centristas. Um terceiro grupo composto de elementos revolucionários do movimento operário deve ser constituído. Em seguida, seguiu-se uma enumeração de trinta e nove partidos e organizações convidadas para o primeiro congresso.

A tarefa do congresso consiste na “criação de um organismo de combate encarregado de coordenar e dirigir o movimento da Internacional Comunista e de realizar a subordinação dos interesses do movimento dos diferentes países aos interesses gerais da Revolução internacional”. O primeiro congresso aconteceu em março de 1919. Nessa época a Rússia dos sovietes estava totalmente bloqueada, cercada por todos os lados pelas fronteiras militares, de modo que apenas um pequeno número de delegados chegou ao congresso, em meio às maiores dificuldades. No que diz respeito à constituição desse congresso, o camarada Zinoviev (em seu informe para o segundo congresso) escreve o seguinte:“O movimento comunista, nos diversos países da Europa e América, estava apenas começando.

A tarefa do primeiro Congresso foi levantar a bandeira comunista e proclamar a ideia da Internacional Comunista. Mas nem a situação geral dos partidos comunistas nos diferentes países, nem o número de delegados ao primeiro Congresso permitiram discutir em profundidade os problemas práticos da organização da Internacional Comunista”. O congresso ouviu os informes dos delegados sobre a situação do movimento em seu país, aprovou resoluções sobre as diretrizes da Internacional Comunista, sobre a democracia burguesa e a ditadura do proletariado, sobre a posição diante das correntes socialistas, sobre a situação internacional. Todos estavam escritas no mesmo tom da convocatória para a criação. A criação da Internacional Comunista foi decidida por unanimidade, exceto cinco abstenções. A tarefa da constituição definitiva ficou a cargo do Segundo Congresso, cuja direção foi confiada a um Comitê Executivo, no qual os partidos russo, alemão, húngaro, a Federação balcânica, suíço e escandinavo deveriam estar representados.

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No final do congresso, um manifesto foi escrito dirigido ao proletariado de todo o mundo.Durante o primeiro ano, o Comitê Executivo da Internacional Comunista teve que fazer um trabalho muito difícil. Quase totalmente isolado da Europa Ocidental, teve que permanecer meses sem jornais, privado da presença da maioria de seus membros que não podiam ir por causa do bloqueio. No entanto, não deixou de adotar uma posição em relação a todos os problemas importantes, precisamente no primeiro ano após a guerra, em que faltava tanta elucidação. Os apelos e escritos do Comitê Executivo tinham um valor muito grande.

A criação da Internacional Comunista deu um objetivo e uma direção às massas trabalhadoras que se opuseram à política da Segunda Internacional. Houve um afluxo real de operários revolucionários para a Internacional Comunista. Em março de 1919, o partido socialista italiano enviou sua adesão; em maio, o partido operário norueguês e o partido socialista búlgaro o fizeram; em junho o partido socialista de esquerda sueco, o partido socialista comunista húngaro, etc. Simultaneamente, a Segunda Internacional rapidamente perdia seus efetivos, porque os partidos mais importantes estavam abandonando-a. Embora no momento de sua fundação a Internacional Comunista fosse uma bandeira mais que um exército, no curso de seu primeiro ano de existência reuniu não apenas um exército em torno de sua bandeira, mas infligiu sérias derrotas a seu adversário.

O SEGUNDO CONGRESSO. JULHO DE 1920

Com o progresso da Internacional Comunista, surgiram novos problemas. Os partidos que acabavam de se juntar a ela não estavam suficientemente formados. Ainda não havia nitidez suficiente sobre o partido, o papel dos comunistas nos sindicatos e sua atitude em relação ao problema do parlamentarismo e outros problemas. A tarefa do II Congresso consistia em estabelecer as diretrizes.

Chegaram delegados de todos os países. O congresso foi inaugurado em Petrogrado em 17 de julho de 1920, em meio às aclamações dos operários russos e da atenção de todo o mundo proletário. Resoluções da Internacional Comunista foram adotadas, resoluções em que a noção da ditadura do proletariado e do poder dos soviets foi explicada com base na experiência prática, bem como as condições de execução dessa consigna nos diferentes países. Os meios de fortalecer o movimento comunista foram considerados. Resoluções também foram adotadas sobre o papel do partido na revolução proletária. O partido comunista deve constituir a vanguarda, o setor mais consciente e revolucionário da classe operária. Deve ser formado com base no princípio da centralização e constituir, em todas as organizações, núcleos sujeitos à disciplina partidária.

No que diz respeito aos sindicatos, “os comunistas devem entrar neles para transformá-los em formações de combate contra o capitalismo e escolas comunistas”. A saída dos comunistas dos sindicatos resultaria que as massas remanescentes ficariam nas mãos dos líderes oportunistas que colaboram com a burguesia. Outras resoluções foram aprovadas sobre o problema dos conselhos de operários e conselhos de fábrica, sobre o parlamentarismo, sobre a questão agrária e colonial. Finalmente, os estatutos da Internacional Comunista foram aprovados.Grandes debates foram realizados sobre o problema do papel do partido, sobre a atividade dos comunistas nos sindicatos e a participação nas eleições. Os oportunistas atacaram violentamente as 21 condições de adesão à Internacional Comunista.

O combate heroico do proletariado russo, a falência da burguesia e de sua aliada, a Segunda Internacional, as consignas e as convocatórias revolucionárias da Internacional Comunista arrastaram uma massa de dirigentes forçados a ceder à pressão das massas operárias. Eles permaneciam fiéis de corpo e alma à Segunda Internacional e só entraram na Internacional Comunista para não perder sua influência sobre as massas. Mesmo se a Internacional Comunista fosse uma organização já poderosa e experiente nesse momento, a entrada desses elementos oportunistas teria arriscado que penetrasse, dentro da Internacional Comunista, o espírito da Segunda Internacional.

Mas a Internacional Comunista, sendo composta de partidos ainda em processo de formação, tinha a necessidade urgente de se afastar desses elementos. Isto explica as 21 condições de adesão.Essas condições exigem de cada partido que deseje aderir à Internacional Comunista que toda sua propaganda e agitação tenham um caráter comunista. A imprensa deve ser totalmente submetida ao comitê central do partido. Os reformistas devem ser removidos de todas as posições de responsabilidade. O partido deve possuir um aparato ilegal e fazer uma propaganda sistemática no exército e no campo.Deve levar a cabo uma luta enérgica contra os reformistas e os centristas. Nos sindicatos, deve lutar contra a Internacional sindical de Amsterdã.

O partido deve ser severamente centralizado e adotar o nome de partido comunista (seção da Internacional Comunista). Todas os partidos que pertençam à Internacional Comunista ou que queiram entrar devem, dentro de um período de quatro meses após o Segundo Congresso, examinar essas condições em um congresso extraordinário e excluir do partido todos os membros que as rejeitarem.O congresso terminou em 7 de agosto. Em setembro, o Partido Social Democrata da Checoslováquia dividiu-se: uma esmagadora maioria adotou as 21 condições e tornou-se, pouco depois, um partido comunista. No mês de outubro, no congresso de La Haya, a maioria do Partido Social-Democrata Independente da Alemanha votou pela adesão à Internacional Comunista. Em dezembro, aconteceu a fusão da esquerda do partido independente e K.P.D. (Grupo espartaquista) e um grande partido comunista unificado da Alemanha surgiu dessa fusão. No final de dezembro, a grande maioria do Partido Socialista Francês aderiu à Internacional Comunista.

No mês de janeiro de 1921, houve uma divisão no partido socialista italiano, que aderiu à Internacional Comunista, mas cuja maioria reformista rejeitou as 21 condições. Em todos os países do mundo onde existiam organizações operárias, o mesmo processo aconteceu: os comunistas se separaram dos reformistas e se constituíram como uma seção da Internacional Comunista.Paralelamente ao progresso e fortalecimento da Internacional Comunista, ocorria a decomposição da Segunda Internacional. Toda uma série de partidos que surgiu da Segunda Internacional, mas se recusaram a entrar na Internacional Comunista, constituíram uma “União Internacional dos Partidos Socialistas”, comumente chamada de Internacional 2 e 1/2, porque, em todos os problemas, oscilava entre a II e a III Internacional.

O TERCEIRO CONGRESSO. JUNHO DE 1921

O Terceiro Congresso da Internacional Comunista, que se reuniu em junho de 1921, teve que resolver novas tarefas. Estas foram determinadas em parte pelo fato de que a Internacional Comunista já incluía mais de cinquenta seções, entre as quais havia grandes partidos de massa dos mais importantes países europeus, o que levou ao surgimento de problemas de tática e organização, mas, sobretudo devido ao fato de que o desenvolvimento da Revolução e o colapso do capitalismo sofriam certo atraso que não se havia podido prever na época do Primeiro e Segundo Congressos.

Após a derrubada dos governos da Europa central, a onda revolucionária era monstruosamente forte e se teve a impressão de que as revoluções burguesas seriam imediatamente seguidas pelas revoluções proletárias. Na Hungria e na Baviera, o proletariado conseguiu tomar o poder por algum tempo. Mesmo após a derrota das repúblicas soviéticas da Hungria e da Baviera, a esperança de uma vitória rápida da classe operária não havia desaparecido. Lembre-se do tempo em que o Exército Vermelho estava ante Varsóvia e todo o proletariado se preparava febrilmente para novas lutas.Mas a burguesia demonstrou uma maior capacidade de resistência do que se acreditava. Sua força consistia, acima de tudo, em que os social- traidores que durante a guerra lutaram tão heroicamente contra o proletariado se revelaram, mesmo depois da guerra, como os melhores defensores do capitalismo vacilante.

Em todos os países onde a burguesia não podia mais ser a dona da situação, passou o poder para os social-democratas. Foram “governos social-democratas”, com Noske e Elbert na Alemanha, Renner e Otto Bauer na Áustria, com Tusar na Tchecoslováquia, com Bohm e Garami na Hungria, que manejavam os assuntos da burguesia durante o período revolucionário e afogaram em sangue as tentativas de libertação do proletariado.A aparente prosperidade que se seguiu imediatamente à guerra, ao permitir que os capitalistas ocupassem os soldados desmobilizados, também constituía um obstáculo para a Revolução. A burguesia conseguiu acalmar os trabalhadores sem trabalho, fornecendo subsídios. A isto se acrescentou um importante fenômeno psicológico: o cansaço das grandes massas da classe operária que acabavam de sair dos sofrimentos e privações sofridas durante os quatro anos de guerra imperialista.

Além disso, os partidos comunistas a quem correspondia a tarefa de dirigir e coordenar a luta do proletariado ainda estavam em processo de formação e frequentemente adotavam falsos métodos de combate.Todas essas circunstâncias permitiram à burguesia reagrupar lentamente suas forças, conquistar sua segurança e retomar uma parte das posições perdidas. Quando a burguesia já não precisou mais deles, separou os socialistas do governo em todos os países em que participavam, e os capitalistas reassumiram a administração de seus negócios. Criaram organizações militares ilegais, armaram o setor consciente da burguesia e atacaram a classe trabalhadora.

Enquanto isso, a situação econômica também passou por profundas transformações. Na primavera de 1920, uma crise surgiu no Japão e na América do Norte, que gradualmente se espalhou para todas as nações industriais. O consumo diminuiu rapidamente, a produção diminuiu, milhões de trabalhadores foram demitidos. Os mercados declinaram rapidamente e se reduziu a produção. As lutas defensivas dos trabalhadores assumiram grandes dimensões, mas acabaram em derrotas, o que fortaleceu a situação da burguesia.Essa era a situação quando começou o III Congresso da Internacional Comunista. O Congresso examinou primeiro a situação da economia mundial e depois abordou o problema das táticas necessárias para a nova situação.

A burguesia se fortalecia, assim como seus servidores, os social-democratas. A era das vitórias fáceis conquistadas pela Internacional Comunista no decorrer dos anos imediatamente posteriores à guerra acabou. Enquanto novas batalhas revolucionárias eram esperadas, havia que reconstruir e fortalecer nossas organizações e conquistar as posições dos reformistas através de um trabalho tenaz dentro das organizações operárias. A ocupação de fábricas na Itália, a greve de dezembro na Checoslováquia, a insurreição de março na Alemanha, mostraram que os partidos comunistas, mesmo quando lutavam manifestamente pelos interesses de todo o proletariado, não podiam derrotar as forças unidas da burguesia e da social-democracia, quando não só não contavam com as simpatias das grandes massas, mas também não contavam com essas massas dentro de suas organizações, arrancando-as das outras organizações.

Por isso o Congresso lançou a seguinte consigna: “Ir às massas!”Na Europa Ocidental, os partidos comunistas devem fazer todo o possível para obrigar os sindicatos e os partidos que se apoiam na classe trabalhadora a uma ação conjunta a favor dos interesses imediatos da classe, preparando-a para a possibilidade de traição por parte dos partidos não comunistas.Imediatamente houve certa oposição “esquerdista” a essa tática. O KAPD (Partido Comunista dos Trabalhadores da Alemanha) acreditava que estava enfrentando um abandono da luta revolucionária e acusou a Internacional Comunista de tentar, no campo político, a mesma retração que o poder dos sovietes se viu forçado a fazer no campo econômico.

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Alguns bons camaradas não entenderam a princípio a necessidade dessa tática.Paralelamente aos problemas táticos, os problemas de organização foram os mais debatidos. Em vista da conquista dos sindicatos, o Birô sindical, organizado pelo Segundo Congresso, em colaboração com os sindicatos que se juntaram no intervalo dos dois congressos, constituiu a Internacional Sindical Vermelha. Também foi discutido o problema Internacional da Juventude e do movimento de mulheres, bem como o trabalho nas cooperativas e nas Uniões desportivas de trabalhadores.

O Congresso ouviu um relatório sobre a Rússia dos sovietes e aprovou por unanimidade a tática empregada.Grandes debates foram realizados sobre o relatório referente à atividade do Comitê Executivo. Alguns camaradas não aprovaram a política do Comitê Executivo no problema italiano, no caso Levi [1] e na questão do KAPD. Mas o Congresso aprovou em todos esses pontos a atividade do Comitê Executivo. Os eventos apenas confirmaram o acerto dessas decisões.

O Congresso terminou no dia 12 de agosto com a discussão da questão do Oriente. Os meses que se seguiram foram relativamente calmos e deram aos diferentes partidos comunistas a possibilidade de executar as decisões do Terceiro Congresso. As organizações foram submetidas a um exame rigoroso e melhoraram a relação entre as diferentes seções e o Comitê Executivo. Durante seus três anos de existência, a III Internacional tornou-se uma organização verdadeiramente global. A Segunda Internacional, por exemplo, não teve nenhum partido em países como França e Itália. Por outro lado, não havia praticamente nenhum país onde a fração mais consciente do proletariado, sem distinção de raça ou cor, não se tornasse um setor da Internacional Comunista. Esta compreende cerca de sessenta seções, com um total de cerca de três milhões de membros, que têm setecentos órgãos de imprensa.

A conquista de novas massas e novas posições continua com sucesso. O Congresso dos Trabalhadores do Extremo Oriente, que se reuniu em Moscou em janeiro de 1922, estabeleceu a vinculação entre a classe trabalhadora chinesa e japonesa com a Internacional Comunista.

A FRENTE ÚNICA

O III Congresso se reúne em um momento em que houve uma grande depressão no seio da classe operária. As derrotas sofridas desencorajavam o proletariado. Esta situação piorou ainda mais após o congresso. Na Inglaterra, na América, na Itália e em países neutros, os operários sofrem com o desemprego permanente. A classe perdeu as conquistas obtidas nos últimos anos. A jornada de trabalho foi prolongada, o padrão de vida dos operários caiu para um nível mais baixo do que antes da guerra.

Embora em países como Alemanha, Áustria, Polônia, o desemprego não seja tão grande, a miséria da classe não é menos severa, dada a constante diminuição dos salários reais causada pelo contínuo declínio no valor de compra do dinheiro, o que torna impossível aos trabalhadores satisfazer suas necessidades ainda mais elementares.Esta situação era intolerável. Sob a pressão da crescente miséria, as massas começaram a procurar um remédio para sua situação. Entenderam que os métodos antigos eram inadequados para obter alguma coisa. As greves fracassavam e, quando foram bem sucedidas, as vantagens obtidas logo eram anuladas pela desvalorização do dinheiro.

As massas observaram que a classe operária estava dividida em vários partidos que lutavam entre si, enquanto a classe capitalista se dedicava a uma ofensiva única contra ela. Em meio a essa situação, se impôs a solução de unificar as forças dispersas do proletariado para opor-se ao ataque do capitalismo.Como esta unificação das forças do proletariado devia ser realizada? As massas operárias não tinham uma ideia muito eficaz sobre isso. De qualquer forma, o fato de que em toda parte havia um movimento nessa direção era prova de sua profundidade e necessidade. Mostrava que as massas estavam inconscientemente se distanciando das políticas reformistas da Segunda Internacional e da International sindical em Amsterdã, e que depois de tantos erros e derrotas, estavam finalmente determinadas a seguir o caminho da unificação das forças do proletariado.

Isso significava, ao mesmo tempo, uma mudança na apreciação do papel dos partidos comunistas e da Internacional Comunista. Durante os anos de 1918 e 1919, o proletariado foi derrotado porque sua vanguarda, o partido comunista, representava mais uma tendência do que uma organização capaz de assumir a liderança da luta de classes. A experiência da derrota obrigou os comunistas a criar, por meio de divisões e a formação de partidos independentes, as organizações de combate necessárias.Esse período de divisões coincidiu com o momento em que a grande onda revolucionária estava em processo de retração e a contraofensiva do capitalismo começou.

Ainda que os social-democratas não tivessem sido capazes de usar habilmente essa circunstância, o descontentamento contra os “divisionistas” dentro das massas, que não compreendiam a necessidade de tal tática, teria sido o mesmo. As massas também não haviam entendido bem a tentativa de revolta dos comunistas quando estes, diante de toda a classe trabalhadora, justamente por serem sua fração mais lúcida, exigiram o uso de métodos de combate mais enérgicos. A greve de dezembro na Checoslováquia e a ação de março na Alemanha deviam fracassar, mesmo que tivessem sido melhor conduzidas, porque as grandes massas não entendiam a necessidade de tal método de combate. Mas a pressão da miséria logo fez com que se visse a necessidade do que antes consideravam como putschs. O trabalho que os comunistas, na época da depressão, haviam feito sozinhos, ao preço de imensos sacrifícios, começava a dar frutos.Além disso, deve-se acrescentar o fato de que, na luta, os operários não levam mais em conta as fronteiras partidárias através das quais os social-democratas tentam distanciá-los dos comunistas.

Os partidários de Amsterdã, os da Segunda Internacional e da Internacional 2 e 1/2 tentam explorar a nova corrente provocando um movimento em favor da unidade, contra os comunistas. Mas já havia passado o tempo quando tais manobras eram possíveis porque os social-democratas tinham em suas mãos todas as organizações de trabalhadores e toda a imprensa operária. O Comitê Executivo da Internacional Comunista desmascarou esse plano e iniciou uma campanha “pela unidade do proletariado mundial, contra a união com os social- traidores”. No que diz respeito ao problema de ajudar os necessitados e os trabalhadores iugoslavos e espanhóis, abordou a Internacional de Amsterdã, no início, sem qualquer sucesso.

Mas quando os contornos da nova onda se tornaram mais entendíveis e visíveis, o Comitê Executivo, após longas discussões, adotou uma posição sobre o problema.Nas “Resoluções sobre a frente única dos operários e sobre as relações com os operários pertencentes à II Internacional, à Internacional 2 e 1/2, à Internacional sindical de Amsterdã e às organizações anarcossindicalistas”, analisou a situação e forneceu um objetivo preciso para os esforços elementares, a fim de alcançar a organização da frente única.“A frente única não é senão a união de todos os operários determinados a lutar contra o capitalismo.” Os comunistas devem apoiar essa consigna da maior unidade possível de todas as organizações de trabalhadores em todas as ações contra o capitalismo.

Os líderes da Segunda Internacional, como os da Internacional 2 e 1/2 e da Internacional sindical de Amsterdã, traíram as massas operárias em todos os problemas práticos da luta contra o capitalismo. Desta vez eles também preferirão unidade com a burguesia em vez de unidade com o proletariado. O dever da Internacional Comunista e suas diferentes seções é persuadir as massas operárias sobre a hipocrisia dos social-traidores, que se revelam como destruidores da unidade da classe operária. Com esse objetivo, a independência absoluta, a plena liberdade de crítica são as condições essenciais dos partidos comunistas.

As resoluções também insistem nos perigos que podem surgir durante a execução dessa tática em lugares onde os partidos comunistas ainda não têm a necessária transparência ideológica e a indispensável homogeneidade.As resoluções foram adotadas em meados de dezembro. Para alcançar a decisão final, uma sessão ampliada do Comitê Executivo foi convocada em Moscou no início de fevereiro. Em uma convocatória de 1º de janeiro de 1922 sobre a frente única proletária, o Comitê Executivo demonstrou a necessidade de uma luta comum em relação à conferência de Washington e a ofensiva geral do capitalismo contra a classe operária. As resoluções e a convocação do Comitê Executivo foram rapidamente divulgados em todos os países, provocaram longas discussões dos comunistas e seus adversários e ajudaram a explicar o problema da frente única.

Os social traidores reagiram, entendendo que estavam diante de um problema que os forçaria a se desmascarar. Mas a sua indignação perante esta “nova manobra comunista” não conseguiu anular nas massas a impressão de que os comunistas, até então chamados “divisores”, eram, na realidade, os verdadeiros partidários da unidade do proletariado. A sessão do Comitê Executivo ampliado, logo se reuniu, devido à greve dos ferroviários alemães, no final de fevereiro. Na verdade, foi um pequeno congresso composto por mais de cem delegados representando trinta e seis países. A ordem do dia foi bastante densa: incluía as relações dos partidos dos países mais importantes, as tarefas dos comunistas nos sindicatos, o problema da luta contra os perigos da guerra, o problema da nova política econômica da Rússia dos sovietes, e da luta contra a miséria da juventude operária.

Mas o principal problema era o da frente única e o da participação na conferência conjunta proposta pela International 2 e 1/2.Os camaradas franceses e italianos pronunciaram-se contra a unidade tal como era apresentada pelas resoluções do Comitê Executivo. Os camaradas franceses expressaram o receio de que as massas trabalhadoras francesas não compreendessem o significado de uma ação comum dos comunistas com os dissidentes. Declararam-se a favor da frente única dos operários revolucionários e declararam que a atividade dos comunistas na França tendia a realizar, em torno dos problemas da jornada de oito horas e do imposto sobre salários, o bloco de operários revolucionários. O partido francês ainda era muito jovem e incapaz de manobrar, e não se sentia capaz de realizar uma ação conjunta com os socialistas dissidentes e os sindicatos reformistas de onde acabava de se separar.Os delegados italianos declararam-se a favor da unidade sindical, mas se opuseram à unidade política com os socialistas.

Expressaram seu temor de que as massas não entendessem o significado de uma ação comum dos diferentes partidos operários e que o verdadeiro campo onde a frente única seria possível era o sindicato, onde os comunistas e os socialistas estão unidos.Todos os outros delegados presentes na conferência expressaram um temor diferente. Apesar das inúmeras traições, os líderes reformistas conseguiram manter sua influência sobre a maioria das organizações operárias até agora. Nunca teremos sucesso em ganhar os operários se continuarmos repetindo que eles são traidores. Agora, em um momento em que a vontade de lutar reina nas massas, é uma questão de demonstrar a eles que os social-democratas não querem lutar não apenas pelo socialismo, mas também pelas demandas mais imediatas da classe trabalhadora.

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Até agora não conseguimos desmascará-los, em primeiro lugar, porque não contávamos com os meios necessários para fazê-lo e também porque a situação psicológica não existe, a atmosfera graças à qual os trabalhadores entendem as traições a que estão sujeitos. Finalmente, também não temos oportunidade de desmascará-las. Portanto, recusando-se a lutar com os reformistas, uma vez que nunca enfrentarão seriamente a burguesia de que são seus servidores, teremos a aprovação dos camaradas que já conhecem esse problema, mas não convenceremos um só dos operários que ainda continuam fiéis aos reformistas. Pelo contrário, recusando-se a realizar uma luta comum, num momento em que as massas trabalhadoras o desejam, os comunistas dão aos social-traidores a possibilidade de apresentá-los como sabotadores da unidade do proletariado. Mas se participarmos da luta, as massas logo poderão distinguir aqueles que realmente defendem a luta contra a burguesia e aqueles que não a querem.

Nossos camaradas, que no início observarão com desagrado como nos sentamos à mesma mesa com os reformistas, compreenderão, no decorrer das negociações, que aí também realizamos um trabalho revolucionário.Depois que o Comitê Executivo ampliado aprovou por unanimidade de votos – exceto os dos camaradas franceses, italianos e espanhóis – as diretrizes contidas nas resoluções, as três delegações adversárias da frente única prepararam uma declaração prometendo cumpri-la.

O Comitê Executivo ampliado decidiu aceitar o convite da Internacional de Viena para participar de uma conferência internacional, propondo convidar não apenas a Internacional Comunista, mas também a Internacional Vermelha, a Internacional sindical de Amsterdã, às organizações anarco-sindicalistas e as organizações sindicais independentes, para colocar na ordem do dia da conferência, junto à luta contra a ofensiva do capitalismo e contra a reação, o problema da luta contra as novas guerras imperialistas, o da restauração da Rússia dos sovietes, o das reparações do Tratado de Versalhes.Depois de ter tratado também outros problemas (o da imprensa comunista, o da oposição dos trabalhadores do Partido Comunista Russo, etc.), e tendo elegido o presidente do Comitê Executivo, a conferência terminou em 4 de março.

A CONFERÊNCIA PRELIMINAR DAS TRÊS INTERNACIONAIS

Em 2 de abril, realizou-se a primeira sessão das delegações das três Internacionais, compostas cada uma com dez membros. Os representantes da Segunda Internacional imediatamente tentaram sabotar a conferência e destruir o germe da frente única. Colocaram condições para a Internacional Comunista, exigiram “garantias” contra as táticas dos “núcleos” e discutiram o problema da Geórgia e dos social-revolucionários. Dessa atitude resultou uma situação tal que se temia que a conferência terminasse ali mesmo. Graças à atitude firme dos delegados da Internacional Comunista, que exigiram a frente única sem condições, os delegados da Internacional de Viena adotaram sua posição, forçando os delegados da Segunda Internacional a recuar. Após quatro dias de negociações, decidiu-se convocar, o mais breve possível, uma conferência geral.

Uma comissão composta por três membros de cada Comitê Executivo foi nomeada, encarregada de sua preparação.Enquanto esperava-se a reunião desta conferência geral, se decidiu organizar manifestações comuns de todos os partidos que aderiram às três Internacionais no dia 20 de abril seguinte e nos locais onde não fosse tecnicamente possível, no dia 1º de maio, com as seguintes consignas: Pela jornada de oito horas; pela luta contra o desemprego, causada pela política de reparações das potências capitalistas; pela ação unida do proletariado contra a ofensiva capitalista; pela Revolução Russa, pela Rússia que tem fome, pela retomada das relações políticas e econômicas com a Rússia; pelo restabelecimento da frente única proletária nacional e internacional.

A comissão organizadora foi encarregada de mediar entre os representantes da Internacional sindical de Amsterdã e os da Internacional Vermelha. Os delegados da Internacional Comunista divulgaram uma declaração na qual afirmava que o processo aos social- revolucionários se faria publicamente e que sentenças de morte não seriam proferidas.A resolução também afirmou que a conferência geral não poderia ser realizada em abril porque a Segunda Internacional a rejeitou sob diferentes pretextos. Esta última também se recusou a inscrever o problema do Tratado de Versalhes e sua revisão na agenda da conferência.

As manifestações de 20 de abril e 1 do maio seguinte, nas quais grandes massas operárias participaram, demonstraram que o proletariado estava determinado a lutar em comum pelas consignas que haviam sido lançadas. A Segunda Internacional e seus partidos tratam, hoje como ontem, de sabotar a frente única por todos os meios. Recusam-se a organizar manifestações comuns, atrasam a execução das decisões tomadas e, assim, contribuem para serem desmascarados diante das massas.A tarefa da Internacional Comunista e de suas seções nacionais é demonstrar por sua ação que a luta contra a ofensiva capitalista e contra o capitalismo em geral só pode ter sucesso sob a direção da Internacional Comunista.Como esperado, a Segunda Internacional e a Internacional de Viena boicotaram a Comissão dos Nove. Depois que conseguiram impedir a reunião da Comissão durante a conferência de Gênova para que a burguesia não fosse perturbada em suas deliberações contra a Rússia dos sovietes, realizou-se a primeira sessão, que também foi a última, 23 de maio em Berlim.

Em 21 de maio, houve uma reunião do partido trabalhista britânico, do partido operário belga e do partido socialista francês, durante o qual foi decidido convocar uma conferência geral de todos os partidos socialistas, com exceção dos comunistas. Era evidente que a Segunda Internacional e a 2 e 1/2 tinham voltado ao seu projeto de uma frente única contra os comunistas. Apesar disso, a Internacional Comunista fez todo o possível para permitir a reunião de um congresso internacional de todos os países socialistas. Para alcançar os objetivos da unidade, isto é, a luta contra a ofensiva do capital, contra os baixos salários e contra o desemprego, declarou-se disposto a eliminar da agenda do Congresso o problema da ajuda à Rússia dos sovietes, já adotada na plataforma comum.

Pelo contrário, exigiu uma resposta precisa ao problema de saber se a Segunda Internacional aceitava ou não o congresso operário mundial. Confrontada dessa maneira, a Segunda Internacional revelou-se como adversária da frente única, bem como sua benevolente auxiliar, a Internacional de Viena. A Comissão dos Nove se dissolveu.A Internacional Comunista convocou então uma nova sessão do Comitê Executivo ampliado, que se reuniu em 7 de junho, com a participação de sessenta delegados representando 27 países. A conferência discutiu o problema da tática a ser seguida, após os ensinamentos da primeira etapa da luta em favor da frente única, e a tática dos partidos cuja política não correspondia com a política geral da Internacional Comunista, e finalmente a posição da Internacional Comunista no que diz respeito ao processo dos social- revolucionários e a convocatória do congresso mundial.

No que diz respeito à tática da frente única, a conferência observou que, apesar do fracasso da Comissão dos Nove, os postulados políticos e econômicos da tática da frente única subsistiam como antes e que, como consequência, a tática das várias seções da Internacional Comunista deveria consistir em estabelecer a unidade da frente contra a ofensiva do capital. A conferência discutiu em detalhes a situação dos partidos francês, italiano e norueguês que não haviam executado a tática da frente única ou o fizeram parcialmente e com hesitação e expressou o desejo de que essa tática fosse aplicada igualmente nesses países. No que diz respeito ao partido francês, dado que a existência de uma importante direita oportunista dificultou sua atividade e seu desenvolvimento, o Comitê Executivo declarou que a melhor maneira de remediar a situação era promover a união do centro e da esquerda contra a direita.

A conferência também analisou a situação do Partido Comunista da Checoslováquia em que os sintomas de uma crise próxima eram evidentes. Concluiu-se que os motivos eram certa passividade da direção do partido e instruções foram dadas para fazê-los desaparecer. No que diz respeito ao processo dos social- revolucionários, constatou-se que a Segunda Internacional e a Internacional de Viena tinham lançado uma campanha contra a Internacional Comunista e a Rússia dos Sovietes e que se tratava de um assunto que interessava à Rússia dos sovietes, prelúdio da Revolução Mundial, e à Internacional Comunista, já que esta última devia participar ativamente no processo, enviando acusadores, defensores, testemunhas e especialistas.

O QUARTO CONGRESSO. NOVEMBRO DE 1922

O Quarto Congresso Mundial foi realizado em 7 de novembro de 1922, o quinto aniversário da revolução proletária, com a seguinte agenda:1.Informe do Executivo; 2. Tática da Internacional Comunista; 3. Programa da Internacional Comunista e das seções alemã, francesa, italiana, checoslovaca, búlgara, norueguesa, norte-americana e japonesa; 4. Questão Agrária; 5. Questão sindical; 6. Educação; 7. questão juvenil; 8. A questão do Oriente.O principal trabalho do IV Congresso se concentrará no ponto 3. Em vista da preparação de um programa da Internacional Comunista, uma comissão foi imediatamente nomeada e também foi encarregada de colaborar na elaboração dos programas das diferentes seções.

A conferência demonstrou o desenvolvimento e fortalecimento do movimento comunista em todos os países. Um dos melhores sintomas foi o crescente nervosismo dos partidários de Amsterdã, que observavam com medo o progresso da influência dos comunistas nos sindicatos. Muitos sinais indicam que, no momento, eles estão dispostos a remover os comunistas dos sindicatos de todos os países e que, para conseguir isso, não recuarão mesmo diante da divisão do movimento sindical. Portanto, a principal tarefa da Internacional Comunista nos sindicatos será desmascarar essa manobra e se opor a que os partidários de Amsterdã enfraqueçam o proletariado, destruindo os sindicatos.

Nota:

[1] O Congresso considerou que a tática da Carta Aberta (primeiro antecessor da Frente Única Operária), conduzida por Levi e abandonada pelo partido alemão, estava correta. Mas ele aprovou a expulsão de Levi por ter atacado publicamente o partido.

Tradução: Nea Vieira