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Neste dia 27 de janeiro completam 75 anos da libertação de Auschwitz, onde foram executados 1,3 milhão de pessoas, principalmente judeus. Ao lembrar as atrocidades do nazismo, das quais Auschwitz é apenas uma parte, queremos fazer duas homenagens: aos lutadores do levante no gueto de Varsóvia e a dois militantes da Quarta Internacional, e através deles lembrar todos – judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, dissidentes políticos – que perderam suas vidas na luta contra o nazismo.

Por:  Fábio Bosco, de São Paulo.

O levante do gueto de Varsóvia

“O maior de todos os confrontos entre judeus e alemães aconteceu no gueto de Varsóvia.”[1] Criado em outubro de 1940, reunia cerca de 380 mil habitantes. Era governado por um conselho judaico que operava sob as ordens dos nazistas[2]. Em 22 de julho de 1942, o chefe do conselho foi informado que todos os habitantes seriam deportados para o “leste”[3] na proporção de seis mil por dia. A polícia judaica estava encarregada de capturar as pessoas.

Após a deportação de 310 mil pessoas a operação foi suspensa. Cerca de 63 mil habitantes ainda permaneciam no gueto no final de setembro. Diferentes grupos políticos (sionistas de esquerda, comunistas e socialistas antissionistas do Bund) se associaram para formar a Organização de Luta Judaica (ZOB) enquanto a direita sionista revisionista formou a União Militar Nacional (ZZW). Ambos reuniram fundos e todo o pouco armamento que conseguiram, e construíram uma rede de abrigos subterrâneos conectados com a rede de esgotos. Tudo isso sem o apoio das organizações sionistas internacionais comprometidas apenas com a imigração para a Palestina.

Em 18 de janeiro de 1943, os nazistas retomaram as deportações mas encontraram resistência. Melhor preparados, os nazistas retornaram em 19 de abril de 1943 e foram recebidos a bala pelo ZOB. Começava a batalha. De um lado a resistência judaica contava com no máximo mil combatentes – homens e mulheres – portando armas de mão, coquetéis molotov, granadas e alguns fuzis e metralhadoras. De outro os nazistas contavam com vários batalhões fortemente armados, veículos blindados, canhões, lança-chamas e vários explosivos. Os nazistas atacavam de casa em casa, incendiavam os prédios e explodiam a rede de esgotos e abrigos subterrâneos.

No dia 16 de maio de 1943, após resistência heroica, a batalha estava encerrada. Treze mil habitantes do gueto perderam a vida e os demais foram deportados para os campos de extermínio de Treblinka e outros campos. Apesar da derrota, o levante entrou para a história como símbolo da luta de todos os povos contra o nazismo.

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A IV Internacional

Outra homenagem vai para dois militantes revolucionários: Abraham Leon e Martin Monath presos pela Gestapo e assassinados em 1944.

De origem judaica, eles procuravam uma saída para a “questão judaica” (leia-se a discriminação contra a população judia na Europa) às vésperas da segunda-guerra mundial e percorreram o mesmo trajeto.

Primeiro integraram uma organização sionista, a Hashomer Hatzair. No entanto perceberam que a discriminação contra os judeus na Europa, que já fora praticada pela nobreza e senhores feudais na idade média, foi retomada pelo capitalismo em decadência. Portanto a posição dos sionistas de construir um Estado judeu na Palestina ou qualquer outra parte do mundo não era uma solução. A única solução era liquidar o nazismo e o capitalismo. Para isso se uniram à IV Internacional já que rechaçaram o estalinismo devido aos processos de Moscou e ao pacto entre Hitler e Stálin em 1939.

Abraham Leon (nascido Abraham Weynstok) escreveu uma obra que se tornou referência no debate entre os marxistas sobre a questão judaica.[4] Ele investigou as razões da discriminação contra a população judia e de sua não-assimilação ao contrário de outros povos mediterrâneos. Sua conclusão é que isto não se deveu a fatores religiosos ou culturais mas ao papel cumprido pelos judeus na economia, de intermediação financeira, o que o levou a cunhar a categoria de povo-classe.

Em meio à segunda-guerra mundial ambos participaram dos esforços para reconstruir a seção Belga e o secretariado europeu da IV Internacional.

Em meio à ocupação nazista, a IV Internacional iniciou um trabalho de propaganda sobre as tropas nazistas estacionadas na França, em Paris e Brest. Esse trabalho foi liderado por Martin Monath cujo pseudônimo era Viktor. Ele organizou um boletim mimeografado chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado) no qual defendia seguir o exemplo do revolucionário alemão Karl Liebknecht em sua política denominada de derrotismo revolucionário: transformar a guerra imperialista em guerra civil através da união de operários e soldados em uma revolução socialista para derrubar o regime nazista e o capitalismo. Foram seis edições entre julho de 1943 e julho de 1944 quando Martin Monath foi preso pela Gestapo e assassinado.

Abraham Leon também foi preso pela Gestapo e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz onde perdeu a vida.

Na contramão da resistência

Ao contrário dos mártires do levante do gueto de Varsóvia, da IV Internacional e de muitos outros, houve ações que objetivamente fortaleceram a máquina de guerra nazista.

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Uma delas é o acordo de Haavara (transferência). Este acordo foi firmado entre o Ministério da Economia Nazista, a Federação Sionista Alemã e a Agência Judaica para a Palestina (através do Banco Anglo-Palestino) em 25 de agosto de 1933 para viabilizar a imigração judaica para a Palestina.

O governo nazista impunha limites ao patrimônio que imigrantes poderiam levar consigo para fora do país. Com o acordo de Haavara, aqueles judeus alemães que imigrassem para a Palestina poderiam transformar seus bens em produtos alemães de exportação para a Palestina pelos quais o Banco Anglo-Palestino ressarciria o imigrante em moeda local.

Esse acordo era muito importante para os nazistas devido ao boicote internacional contra produtos alemães promovido pela comunidade judaica em todo o mundo. Os nazistas acreditavam que o acordo enfraquecia o boicote e auxiliava a economia alemã em seu esforço de guerra.

Já os Sionistas fortaleceriam a imigração judia para a Palestina, evitando sua fuga para outros países entre os quais os Estados Unidos, o destino preferido pela maioria dos imigrantes judeus europeus. Cerca de 20 mil judeus alemães imigraram para a Palestina através do acordo de Haavara.

O acordo era impopular entre a população judia em todo o mundo que, instintivamente, boicotava os produtos alemães. No Congresso Mundial Judaico em Genebra em setembro de 1933, a delegação polonesa protestou contra o acordo. Demorou dois anos para que a liderança sionista assumisse a defesa pública do acordo. No 19º Congresso Sionista em setembro de 1935, o partido trabalhista impôs disciplina partidária para aprovar uma resolução em favor do acordo de Haavara. A defesa do acordo foi feito por Golda Meyerson[5] que desvalorizou o apelo internacional ao boicote dos produtos alemães comparando-o a “lamentos e protestos” ao passo que o acordo de transferência era a “possibilidade prática de fazer algo real para salvar dezenas de milhares de judeus”[6].

A questão do boicote emergiu novamente por ocasião da exportação de laranjas da Palestina para a Alemanha feito pela Histadrut[7] cujos líderes, após discussão, votaram por 5 a 1 para manter as exportações para a Alemanha nazista na contramão do boicote internacional.

Pactos, colaboração e omissão

O movimento sionista não foi o único a efetuar ações que objetivamente favoreceram a máquina de extermínio nazista.

A União Soviética liderada por Stálin assinou um pacto de não-agressão com Hitler em 1939, o que deu uma cobertura internacional ao nazismo por parte dos partidos comunistas em todo o mundo.

Durante a guerra, a França ocupada criou um governo colaboracionista em Vichy liderado pelo general Pétain.

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Os Estados Unidos, que bombardearam criminosamente a população civil de Dresden em fevereiro de 1945 matando 25 mil pessoas, no pós-guerra aliviaram as punições para vários dirigentes nazistas, em particular para os dirigentes das grandes corporações alemãs como a Krupp e a I.G. Farben, grandes patrocinadoras e beneficiárias do regime nazista.

A princípio Alfred Krupp e dois de seus sócios foram condenados a doze anos de prisão. Da I.G. Farben, cinco executivos pegaram entre seis e oito anos de prisão. No entanto, em 31 de janeiro de 1951, todos foram libertados, Krupp recuperou seu império industrial, e os executivos da I.G. Farben retornaram ao comando das empresas[8].

Liquidar o capitalismo para erradicar Holocaustos presentes e futuros

Em meio a uma nova onda decrescente da economia capitalista, velhos e novos monstros mostram sua cara.

O fortalecimento da extrema-direita parlamentar em vários países, as tentativas de renascer o nazismo, as políticas de limpeza étnica praticadas pelos israelenses na Palestina ocupada são sinais de que a manutenção do capitalismo, além de privações para milhões de seres humanos, cedo ou tarde prepara a emergência de ideologias nazistas, racistas, machistas, homofóbicas e xenófobas.

O diagnóstico de Abraham Leon e Martin Monath se provou correto: para acabar com o nazismo e a opressão é necessário liquidar o capitalismo.

[1] Hilberg, Raul, A destruição dos judeus europeus, Amarilys, Baruei-SP, 2016, página 594

[2] Entre as quais “transmissão de ordens e diretivas alemãs para a população judaica, o uso da polícia judaica (denominada de serviço de ordem) para cumprir as vontades dos alemães, a entrega de propriedade judaica, trabalho judeu e vidas de judeus para o inimigo alemão” Hilberg, Raul, A destruição dos judeus europeus, página 242.

[3] Eufemismo que significava a deportação para campos de extermínio.

[4] A questão judaica: uma interpretação marxista foi publicada em português pela Global Editora em 1981.

[5] Trata-se de Golda Meir, futura primeira-ministra israelense

[6] https://www.yadvashem.org/odot_pdf/Microsoft%20Word%20-%203231.pdf

[7] Central sindical que organizava apenas trabalhadores judeus, e rejeitava a filiação de trabalhadores árabes.

[8] Hilberg, Raul, A destruição dos judeus europeus, páginas 1346, 1348 e 1361