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Na última parte deste artigo, abordaremos a hipótese apresentada pelo trotskista argentino Nahuel Moreno: a Segunda Guerra significou também um conflito entre regimes políticos burgueses (democracia burguesa x fascismo) em nível internacional, e o debate que essa hipótese geral. 

Alejandro Iturbe

Essa hipótese foi formulada por Moreno na Escola de Quadros, realizada na Argentina, em 1984 [1]. Essas escolas eram espaços nos quais Moreno costumava testar e discutir ideias novas e ainda não elaboradas com total precisão. Ou seja, se tratava de uma hipótese a ser aprofundada, para ser reafirmada ou descartada. No entanto, o curso da discussão interna dentro do MAS argentino, no início dos anos 90, levou à publicação desses materiais em um livro (1992) e fez com que fosse tomada como uma posição já definida.

Naquela época, começaram as duras críticas de outras organizações trotskistas. Dentre essas críticas, foi permanente a realizada pela corrente internacional FT (Fração Trotskista), encabeçada pelo PTS argentino (Partido dos Trabalhadores Socialistas), que encontrava alí uma nova prova do “revisionismo” e das “tendências capituladoras” de Moreno e o morenismo [2], com quem romperam em 1988.

Como em todos os debates com essa corrente, sobre Moreno e as elaborações que criticam ou reformulam análises ou posições de Trotsky, é necessário partir de um problema metodológico prévio. A FT / PTS considera os escritos e elaborações de Trotsky como um dogma ou uma bíblia: nada pode ou deve ser reelaborado, independentemente de se a realidade seguiu cursos diferentes e gerou processos novos e distintos dos previstos por Trotsky [3].

O próprio Trotsky seria o primeiro a criticar essa rigidez metodológica, porque o marxismo é, por sua própria essência, uma concepção com bases muito sólidas, mas ao mesmo tempo flexível, para continuar se construindo, analisar novos processos e descobrir as leis que os governam. É o que sempre tentou fazer Moreno, com acertos e erros, e o que tentam fazer os que continuam seu legado. Isso não remove nem um milímetro da genialidade teórica de Trotsky nem diminui todos os seus gigantescos acertos. Mas os marxistas não temos deuses nem profetas, temos professores de quem aprender e, ao mesmo tempo, corrigir seus erros e enriquecer seu legado.

Para a FT / PTS, pelo contrário, tudo está escrito e nada pode ser alterado ou enriquecido. Por isso abordam esse debate sobre a hipótese formulada por Moreno sobre a guerra: “A posição de Moreno, no mínimo, não deixa pedra sobre pedra na política de Trotsky sobre o fascismo e na da IV Internacional sobre a Guerra Mundial …” [4].

A análise e a posição de Trotsky

Há toda uma série de obras sobre a Segunda Guerra, elaboradas por Trotsky e a IV Internacional até 1940. Duas delas são especialmente importantes: “A guerra e a IV Internacional” foi escrita em 1934 e é um material de prognóstico sobre a guerra que chegava, o caráter que teria e a política que deveria ser adotada em relação a ela [5]; a segunda é o conhecido Manifesto emitido pela IV quando a guerra já havia começado, e que reitera os conceitos centrais e a política expressa no material anterior [6].

Para evitar falsas polêmicas, digamos que a análise de Trotsky sobre a natureza essencial da guerra era muito clara. Em 1934, ele escrevia: “Uma guerra moderna entre as grandes potências não será uma luta entre a democracia e o fascismo, mas um conflito entre dois setores imperialistas por uma nova distribuição do mundo … em ambos os lados haverá estados fascistas (semifascista, bonapartistas etc.) e ‘democráticos’” [7].

No Manifesto de 1940 se analisava: “A causa imediata da guerra atual é a rivalidade entre os velhos impérios coloniais ricos, Grã-Bretanha e França, e os ladrões imperialistas que chegaram tarde, Alemanha e Itália”. A isso acrescentava a inevitável entrada dos Estados Unidos no conflito: “A possível vitória da Alemanha sobre os aliados paira sobre Washington como um pesadelo. Com o continente europeu e os recursos de suas colônias como base, com todas as fábricas de munições e estaleiros europeus à sua disposição, a Alemanha (especialmente se aliada ao Japão no Oriente) constituiria um perigo mortal para o imperialismo norte-americano” [8]. Nesse contexto, reafirmava: “Não é menor o erro da consigna da guerra pela democracia contra o fascismo”.

Também era muito clara a política a ser adotada: “Ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer nem por um momento que essa guerra não é nossa guerra. Diferentemente da Segunda e Terceira Internacional, a Quarta Internacional não constrói sua política em função dos avatares militares dos estados capitalistas, mas da transformação da guerra imperialista em uma guerra dos trabalhadores contra os capitalistas, da derrubada da classe dominante em todos os países, da revolução socialista mundial. As mudanças que se produzem na zona de combate, a destruição dos capitais nacionais, a ocupação de territórios, a queda de alguns estados, desse ponto de vista só constituem trágicos episódios no caminho da reconstrução da sociedade moderna” [9].

Em resumo, para Trotsky, a natureza da Segunda Guerra era essencialmente a mesma que a Primeira. A partir daí, a política era a mesma que haviam promovido os bolcheviques na época: o derrotismo revolucionário (“a derrota do próprio imperialismo é o mal menor”) e a estratégia de transformar a guerra interimperialista em uma guerra revolucionária pelo poder operário.

A invasão da URSS

Não pretendemos, portanto, fazer manobras analíticas e tirar conclusões deformadas de uma posição e uma política tão claras, mas ver se elas se verificaram na realidade. A primeira questão é ver se essa guerra interimperialista se combinou com outras de caráter diferente e até que ponto essa combinação incidiu na natureza da guerra.

No próprio manifesto de 1940, Trotsky considerou a combinação com outras guerras. Entre elas, a invasão do regime nazista à URSS para destruir o Estado operário (uma guerra contrarrevolucionária [10]), e as guerras de libertação das nações pequenas ou fracas e das colônias, com referência destacada para a China e a Índia. Mas não considerou que isso modificava o caráter essencial da guerra nem a política em relação a ela. No entanto, a dinâmica da realidade mostrou profundas diferenças com a análise que realizava Trotsky.

Vamos começar com a guerra contra a URSS. Como já vimos, Trotsky considerava inevitável a invasão alemã e criticava duramente o stalinismo por sua cegueira estratégica nesse aspecto. Na época em que o Manifesto foi escrito, estava em vigor o sinistro pacto nazista-stalinista de não agressão, o que resultou em uma aliança de fato para dividir a Polônia. Inclusive houve um desfile conjunto de tropas de ambos os países [11].

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Em caso de guerra contrarrevolucionária, Trotsky e a IV eram a favor da defesa incondicional do Estado operário. Mas na situação em que o Manifesto foi redigido, essa defesa se expressava através da tarefa, ao mesmo tempo estratégica e imediata, de que a classe trabalhadora soviética derrubasse a burocracia stalinista.

Por outro lado, na mesma época, em sua polêmica com o setor antidefensista dentro do SWP dos EUA, alertava: “A questão concreta é saber o que fazer se Hitler invadir a URSS antes que a revolução tenha acertado contas com Stalin. Nesse caso, seria necessário lutar contra as tropas de Hitler… Se Hitler voltasse suas armas contra a Rússia, seria necessário colocar em primeiro lugar a resistência militar contra ele” [12].

Precisamente, a invasão nazista da URSS ocorreu “antes da revolução acertar as contas com Stalin” e mudou drasticamente a situação analisada no Manifesto, porque obrigou a burocracia stalinista a ter que defender o Estado operário e, ao mesmo tempo, abriu-se uma heroica mobilização de massas, com sua expressão militar, para realizar essa defesa.

A ordem das tarefas mudava e passava a primeiro lugar “a resistência militar” contra os nazistas. Não é por acaso que, após a invasão, os trotskistas detidos na Sibéria pediram para serem libertados para poder estar na linha de frente de combate. Embora essa mudança de orientação dentro da URSS não estivesse prevista no Manifesto, ela havia sido prevista por Trotsky em outros materiais.

De nossa parte, consideramos que o início da guerra do Eixo contra o Estado operário, por si só e sem considerar ainda a hipótese de Moreno, não apenas levava a mudar a orientação dentro da URSS, mas também tinha um impacto muito profundo na combinação de guerras. Uma mudança qualitativa, diríamos, na caracterização da própria natureza da guerra considerada como um todo e na política a seguir diante dela.

A defesa do Estado operário era feita contra um dos blocos imperialistas (o Eixo), enquanto o outro bloco (os Aliados) combatia militarmente o Eixo em outras frentes, forçando-o a destinar forças a eles, enfraquecendo-o e, nesse sentido, favorecendo a defesa do Estado operário e a possibilidade de triunfo da URSS.

De fato, de maneira objetiva, estabelecia-se uma unidade de ação objetiva no terreno militar. Nesse contexto: era correto manter a política de derrotismo revolucionário no campo dos Aliados? Nós acreditamos que não e assim começaram a considerar setores da IV Internacional.

É necessário considerar que, além do assassinato de Trotsky, as condições de existência e comunicação da organização em meio às condições da guerra eram extremamente difíceis, especialmente com as seções europeias e asiáticas, muitas das quais haviam sido destruídas ou deviam agir na mais rigorosa clandestinidade. O Secretariado Internacional (o SI) havia se mudado para Nova York e o novo secretário, o franco-holandês Jean Van Heijenoort, mal conseguia publicar alguns materiais teóricos.

É nesse contexto que são publicadas, em 1942, as Teses sobre a questão nacional, promovidas por algumas seções europeias que sugerem o boicote e a sabotagem aos países que combatem contra a URSS, mas não aos Aliados [13]. Essas Teses abriram um debate dentro do SWP (que mantinha a orientação de Trotsky do derrotismo revolucionário) como nas próprias forças europeias.

As guerras de libertação

Um problema similar ocorria nas guerras de libertação contra a ocupação das forças do Eixo. Na China, por exemplo, existe uma resolução de março de 1941 que reconhece a legitimidade de aceitar a ajuda estadounidense. Isso é feito sem deixar de alertar sobre o perigo de Chiang Kai-shek como um “aliado subalterno do imperialismo norte-americano”, mas expressa que isso não suprime a necessidade de intervir “na luta da China para expulsar os invasores japoneses” [14]. Os próprios trotskistas chineses se dividiram entre os que promoveram o abstencionismo e os que propunham intervir na luta contra as tropas japonesas.

Na Indochina, especialmente no Vietnã, os trotskistas participavam das lutas de resistência contra o domínio japonês. Faziam isso em condições extremamente difíceis: perseguidos não apenas pelos invasores, mas também pelas forças stalinistas da resistência. Vide o exemplo do dirigente vietnamita Ta Thu Thau, preso em um campo de concentração pelos japoneses durante a guerra e depois assassinado por ordem de Ho Chi Minh em 1945 [15].

Em resumo, nesses países e colônias, também foi levantada a necessidade da mesma unidade de ação militar objetiva com os Aliados que combatiam contra as potências do Eixo.

Na Europa ocupada

Vamos agora à política que tinha de ser adotada nos países imperialistas que haviam sido ocupados pelas tropas alemãs: como consideramos esses países em nossa política? Por exemplo, em um de seus últimos trabalhos, Trotsky escreve: “Seguindo uma quantidade de pequenos estados europeus, a França está se tornando uma nação oprimida” [16]. No mesmo artigo, ele analisa que: “Nos países derrotados, a posição das massas piorará extremamente de forma imediata. Junto à opressão social está a opressão nacional, cuja carga principal também é suportada pelos trabalhadores. De todas as formas de ditadura, a totalitária de um conquistador estrangeiro é a mais intolerável”. Uma das conclusões é: “Pode-se esperar, sem dúvida, a rápida transformação de todos os países conquistados em verdadeiros barris de pólvora”.

No entanto, apesar da precisão desta análise e desta previsão, mantem a linha a que já nos referimos: “Do ponto de vista de uma revolução no próprio país, a derrota do próprio governo imperialista é sem dúvida um ‘mal menor’ […] O novo mapa bélico da Europa não invalida os princípios da luta de classes revolucionária. A Quarta Internacional não muda seu rumo”.

Para nós existe uma profunda contradição entre a análise de Trotsky (a França como nação oprimida, agravamento da situação das massas, a dinâmica de se tornar um “barril de pólvora”) e as conclusões que ele tira. Concordamos com as conclusões estratégicas (a saída para a classe operária não virá das “democracias imperialistas” ou da ação de seus exércitos.

Mas acreditamos que a orientação concreta estava errada. Porque nos países imperialistas ocupados pelos nazistas estava colocada a organização da resistência contra a ocupação. Algo que fez, por exemplo, o setor majoritário dos trotskistas franceses do POI encabeçados por Marcel Hic, que propôs intervir na resistência contra os nazistas com uma perspectiva de classe nas Resoluções do movimento partisano. Hic é preso pela Gestapo, torturado e deportado para os campos de concentração, onde morre em dezembro de 1944 [17]. Uma política similar foi promovida pelos trotskistas belgas, entre os quais se destacava um muito jovem Ernst Mandel.

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Para nós, no contexto dessa resistência também estava colocada a unidade de ação militar para derrotar os nazistas com as forças maquis que respondiam a De Gaulle e, de maneira mais geral, com as tropas aliadas que os combatiam. Vejamos uma questão concreta. Quando ocorreu a invasão da Normandia (Dia D), qual deveria ser a posição dos trotskistas franceses e de outros países europeus: desenvolver uma unidade de ação militar com as tropas aliadas para facilitar o desembarque ou chamá-las ao derrotismo revolucionário? Não temos dúvidas.

Como já dissemos, essas críticas à análise e posição de Trotsky não removem nem um milímetro da genialidade teórica de Trotsky nem diminuem seus gigantescos acertos. Tampouco significam nenhuma capitulação aos “imperialismos democráticos” nem a seu “embelezamento”, nem às burguesias nacionais como inimigos estratégicos dos trabalhadores, mas a consideração de qual política era a que mais favorecia os trabalhadores e o desenvolvimento da luta revolucionária.

Ou seja, em praticamente todas as frentes da guerra, essa unidade de ação militar se impunha como uma necessidade. O stalinismo transformou essa necessidade de intervir no mesmo campo militar em uma política de aliança estratégica com os “imperialismos democráticos” e as burguesias nacionais, expressa nos acordos de Teerã, Yalta e Potsdam. Mas essa é outra discussão.

Onde se aplicava plenamente a política de derrotismo revolucionário era nos países integrantes do Eixo. Por isso reivindicamos a heroica atuação de Martin Monath, um jovem judeu alemão, militante trotskista, que se infiltrou entre os nazistas e publicava clandestinamente o jornal Arbeiter und Soldat (Trabalhador e Soldado), que distribuía entre as tropas alemãs ocupantes na França. Em 1944, foi detido pela polícia francesa colaboracionista, entregue à Gestapo e executado [18].

Na Itália, os pequenos grupos trotskistas também participavam da luta partisana contra o regime fascista. Um importante quadro italiano, Pietro Tresso (que havia participado da fundação da IV), estava na França, participando com outros trotskistas na luta da resistência francesa. Nessa situação, ele foi assassinado por um comandante italiano dos maquis (membro do serviço secreto stalinista), em outubro de 1943.

Agora sim, a hipótese de Moreno

O que queríamos demonstrar até agora é que, mesmo antes de considerar a hipótese de Moreno, a discussão não pode ser colocada no plano de “deixar pedra sobre pedra da política de Trotsky”, mas no de contrastar as análises, previsões e a orientação com o desenvolvimento diferente que teve a realidade, uma vez que Trotsky já havia morrido.

Como já apontamos, a hipótese de Moreno é que, na Segunda Guerra, além do conflito armado interimperialista, houve um enfrentamento entre dois regimes (o democrático-burguês e o fascista), e que este último era o que determinava a natureza essencial da guerra. Ele argumenta que Trotsky se equivocou ao não ver esse aspecto e que, portanto, a orientação correta deveria ter sido a participação a fundo na resistência europeia contra o nazismo e não um derrotismo revolucionário no campo dos Aliados [19].

A luta entre frações da burguesia no nível nacional que, em uma determinada situação defendem regimes diferentes, é algo que ocorreu muitas vezes na história e se expressou em enfrentamentos militares através de golpes de Estado e guerras civis.

É um assunto muito analisado e elaborado pelo trotskismo, cuja orientação, nessa situação concreta, sempre foi defender o regime burguês mais progressivo para as massas (a democracia burguesa) contra o ataque do fascismo ou outros regimes reacionários. Isso implica que, dentro desse quadro, são válidas e necessárias a unidade de ação com os setores burgueses “democráticos” e a participação em um mesmo campo militar, sem ter nenhuma confiança neles e defendendo de modo absoluto a independência política do movimento operário.

Em muitos escritos, Trotsky não deixa nenhuma dúvida sobre esse assunto. Na guerra civil espanhola, ele diz: “Participamos da luta contra Franco como os melhores soldados …” [20]. Para que não houvesse dúvidas, anos antes havia escrito que que “na luta contra o diabo” (o fascismo) podia-se e devia-se “fazer acordos práticos com a mãe do diabo” (os setores burgueses que o deixaram crescer, mas que agora eram oposição) [21].

É possível aplicar essa configuração política e esse tipo de conflito interburguês (e a orientação que se deriva dela) a nível internacional? É o que faz Moreno com sua hipótese. Nesse ponto, a FT / PTS incorpora um argumento teórico-político:

“É A Segunda Guerra uma ‘guerra mundial de regimes’? De que estado? Um regime é a forma política que adquire o conteúdo social de um determinado estado. O estado se estabelece nacionalmente, e uma guerra civil como a da Espanha adquiriu a forma dada pela direção republicana, de guerra de regimes dentro de um mesmo estado nacional. O regime político é uma superestrutura inferior à superestrutura estatal. Uma guerra de regimes implica uma superestrutura maior, um estado que a contém. Mas não há um estado mundial!! ” [22]

Essa discussão deve ser dividida em dois planos. O primeiro é que a FT / PTS tem razão ao afirmar que não há um “Estado mundial” e, portanto, não pode haver um “regime mundial”, entendido como uma determinada combinação de instituições que regem esse estado, como existe no nível nacional.

Contudo, muitas vezes os marxistas usaram o conceito de “ordem mundial” que, despido de seu uso meramente jornalístico ou vinculado às “teorias da conspiração”, pode ser muito útil. Em linhas muito grossas, podemos dizer que é uma determinada configuração de relações superestruturais estabelecidas entre os representantes políticos das burguesias imperialistas, as burguesas nacionais e seus aliados (as direções contrarrevolucionárias do movimento de massas) para manter o mundo “sob controle” e implementar políticas para isso. Por exemplo, o que foi chamado de “ordem mundial do segundo pós-guerra”.

Em vários períodos da história do capitalismo imperialista, essa “ordem mundial” é o oposto: uma “desordem mundial” devido ao impacto, muitas vezes combinado, das disputas interimperialistas, por um lado, e da luta de classes e revoluções, por outro. O início da Segunda Guerra Mundial levou essa disputa interimperialista e a resposta à luta de classes no terreno militar internacional.

Estabelecer que, como não há um estado mundial e portanto não há um regime mundial, não pode haver um conflito interimperialista que expresse um enfrentamento entre regimes é um esquema mecânico e, portanto, metodologicamente errado.

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Se analisamos os dois blocos em conflito, vemos que em um deles (o Eixo) havia duas nações com regimes fascistas (Alemanha e Itália), uma monarquia imperial absoluta (Japão) e ditaduras militares (Hungria e Romênia). Quando ocupavam países, inclusive imperialistas, estendiam esses regimes aos países dominados. Seu projeto era internacional e, se tivesse triunfado, teria estendido esse regime pelo menos à Europa e grande parte da Ásia. Sobre a base dessa vitória, um grande Estado teria se estabilizado em importantes regiões do mundo e, dentro dele, um regime fascista.

No outro bloco se alinhavam as burguesias imperialistas (a estadunidense, inglesa, canadense, australiana, o setor da burguesia francesa que não se alinhou aos nazistas após a ocupação), que, pelo menos para seus países e para a Europa , queriam manter o regime democrático burguês.

Dentro de vários países imperialistas houve fortes disputas interburguesas sobre que atitude adotar diante da guerra e do projeto fascista. Por exemplo, nos EUA, o magnata Henry Ford simpatizava com o nazismo. Na Grã-Bretanha, Edward VIII (de breve reinado em 1936, forçado a abdicar com a desculpa de um escândalo pessoal), também simpatizava com os nazistas. Em 1937, já como duque de Windsor, visitou a Alemanha, fez a saudação fascista e se encontrou pessoalmente com Hitler, sem a permissão do governo britânico.

Mas acabou predominando a linha de enfrentar o projeto de Hitler-Mussolini-Hirohito, que propunham Winston Churchill e Franklin Delano Roosevelt, que envolvia a defesa do regime democrático burguês, pelo menos nas regiões a que nos referimos. O que aconteceu no imediato pós-guerra, mostra isso. Se o termo “guerra mundial entre regimes” incomoda tanto a FT / PTS, vamos falar então de uma “guerra internacional entre regimes”. Não se trata de termos, mas de conteúdo.

Consideramos que a defesa da URSS e a luta pela libertação das nações débeis ou das colônias seria uma posição comum com a FT / PTS. Mas o que tinha que ser feito na Europa (e também nos EUA)? Defender que a linha era seguir à risca o derrotismo revolucionário significa afirmar que para os trabalhadores e as massas (não apenas europeias, mas do mundo), significava o mesmo o triunfo do nazi-fascismo ou o dos Aliados.

É um erro grosseiro, muito mais se se mantém após o desenvolvimento da própria guerra e dos processos posteriores do imediato pós-guerra. Porque a derrota do projeto nazi-fascista foi um grande triunfo das massas e dos trabalhadores do mundo. Assim sentiram e agiram de acordo: começou uma grande ascensão revolucionária que deu origem a novos Estados operários na Iugoslávia, Albânia, China e Coreia do Norte; a luta anticolonial teve um fortíssimo alicerce na África e na Ásia, como mostraram a Indochina e a Argélia. Na própria Europa imperialista, os trabalhadores tinham condições de disputar o poder na França e na Itália.

Nem se poderia entender o prestígio e o peso que recupera o stalinismo entre os trabalhadores e as massas do mundo, apesar de todas as suas traições anteriores, sem compreender que foi visto como um dos artífices da derrota do nazi-fascismo, não apenas pela defesa da URSS, mas por sua destacada participação na Resistência na Europa.

O stalinismo usou esse prestígio entre as massas para construir uma colaboração estratégica com o novo imperialismo hegemônico, o estadunidense. Além do atrito e dos choques que tiveram no segundo pós-guerra, essa colaboração foi fundamental em traições como a da França e da Itália e nas políticas para derrotar, ou pelo menos conter e canalizar, a ascensão revolucionária. Mas isso já é outra parte da história, que analisaremos em um próximo artigo.

Queremos terminar este artigo com uma consideração: o método de analisar os processos históricos por parte da FT / PTS, devido ao seu profundo esquematismo, não ajuda na compreensão desses processos nem a verificar quais análises e previsões de Trotsky foram cumpridas e quais não (e, portanto, devem ser corrigidas). Parece que seu único interesse é continuar “condenando” Moreno e o morenismo. Uma atitude que se torna mais necessária a eles, na medida em que se acentua seu giro para o  eleitoralismo e sua adaptação à democracia burguesa.

Notas:

[1] Ver edição completa em http://www.nahuelmoreno.org/escuela-de-cuadros-argentina-1984.html

[2] Ver, por exemplo http://ceip.org.ar/Polemica-con-la-LIT-y-el-legado-teorico-de-Nahuel-Moreno

[3] Ver, nesse sentido, o debate contido em https://litci.org/es/menu/teoria/fraccion-trotskista-pts-del-sectarismo-propagandistico-al-oportunismo-electoralista-parte-i/

[4] Idem nota [2]

[5] http://www.ceipleontrotsky.org/La-guerra-y-la-Cuarta-Internacional,136

[6] http://www.ceip.org.ar/Manifiesto-de-la-Cuarta-Internacional-sobre-la-guerra-imperialista-y-la-revolucion-proletaria-mundial

[7] Idem nota [5]

[8] Idem nota [6]

[9] Idem.

[10] Ver a segunda parte desse artigo: https://litci.org/es/menu/teoria/historia/la-naturaleza-de-la-segunda-guerra-mundial-ii/

[11] http://www.outono.net/elentir/2017/09/01/el-desfile-conjunto-nazisovietico-de-1939-en-polonia-que-algunos-niegan-en-video/?fbclid=IwAR2w1U0xb9Dyp2KGCdk2ZZed31TwGDdqQb82_srQLY7OEGvmprnmBrtd8hE

[12] Citado por Daniel Bensaïd em seu livro Trotskismos. España: Ediciones El Viejo Topo – Viento Sur, 2002, p. 45.

[13] As Teses foram publicadas na revista Quatrième internationale N° 2 e são citadas no livro de Daniel Bensaïd (p. 46).

[14] Idem nota [12], p. 46.

[15] Ver https://litci.org/pt/teoria/ta-thu-thau-lider-trotskista-vietnamita/

[16] TROTSKY, León. Artículo “No cambiamos nuestro rumbo”, 30 de junio de 1940, en: https://www.marxists.org/espanol/trotsky/ceip/escritos/libro6/T11V212.htm

[17] Para os que têm interesse em conhecer a participação dos trotskistas na resistência francesa, recomendamos ler o trabalho de Emiliano Monge “Una experiencia de maquis trotskista. Ohé Partisans!”, publicada por Cuadernos de Marte, Ano 9 Nro. 15, julho-dezembro de 2018, cuja versão em PDF está disponível na internet.

[18] Sobre Martin Monath ver o artigo https://www.leftvoice.org/Martin-Monath-A-Jewish-Trotskyist-Among-Nazi-Soldiers y el libro de Wladek Flakin, “Arbeiter und Soldat. Martin Monath – Ein Berliner Jude unter Wehrmachtssoldaten. Stuttgart: Schmetterling Verlag, 2018.

[19] Sobre este tema ver também o livro de Alicia Sagra, La Internacional. Un permanente combate contra el sectarismo y el oportunismo. Buenos Aires: Deeksha Ediciones, 2007, pp. 162/163.

[20] TROTSKY, León. “La lucha contra el derrotismo en España”, Escritos, 14/9/1937.

[21] TROTSKY, León. “¿Y ahora? Problemas vitales del proletariado alemán”, 25/1/1932. Tomado de: http://www.ceipleontrotsky.org/Y-ahora

[22] http://ceip.org.ar/Polemica-con-la-LIT-y-el-legado-teorico-de-Nahuel-Moreno

[23] O surgimento dos Estados operários do leste da Europa ocupados por tropas da URSS merece uma análise específica. Sobre este tema, recomendamos ler o libro de Jan Talpe, Los Estados obreros del Glacis. Discusión sobre el Este europeo. San Pablo: Ediciones Marxismo Vivo, 2019.