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Desde o início do mês de setembro há um violento ataque contra os migrantes que vivem na África do Sul, local de longa história de ataques xenófobos.

Por: Cesar Quiximba

Os ataques começaram na cidade de Gauteng, em especial na região de extrema pobreza conhecida como Alexandria, e logo se espalhou por Joanesburgo, Pretoria e outras cidades. A imprensa tenta abafar, esconde os fatos, mas o dia a dia dos migrantes é recheado de relatos de violência e muito medo.

Xenofobia e crise econômica:

Os ataques xenófobos estão sendo tratados pela imprensa local e internacional como consequência da disputa por emprego entre os sul-africanos e estrangeiros, mas fundamentalmente, segundo a imprensa por disputas entre facções criminosas.

Para nós, os ataques xenofóbicos são expressão do atual ciclo de crise econômica descritos por Alberto Madoglio. “Japão e a Europa estão próximos de uma provável recessão, assim como algumas economias emergentes do tamanho do Brasil e da África do Sul, enquanto isso Turquia, Argentina e Paquistão já estão em recessão” e já antes da entrada em recessão, a situação de vida de classe trabalhadora e do povo pobre é alarmante.[1]

Os impactos de uma provável recessão na Africa do Sul podem ser previsto comparando-se com o impacto da crise mundial de 2008-2009. Nos embalos dessa crise, em 2009, fecharam-se 1 milhão de empregos, houve queda de 3% do PIB entre 2008 e 2009, queda de 33% da produção mineral, redução de 50% da produção na indústria automobilística, queda de 21,6% da produção industrial em 2019, queda das exportações em 24% em 2009, etc.

A África do Sul é considerada o país mais desigual do mundo segundo estudos das Nações Unidas. Enquanto suas reservas minerais, de acordo com o Citigroup, estão avaliadas em US 2,5 trilhões, e o país seja considerado a nação mais rica do mundo em commodities, a pobreza  e a desigualdade são de causar espanto.

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Dados do próprio governo reconhecem que a taxa de desemprego está acima dos 35%, que dos 54 milhões da habitantes, um em cada quatro passam fome, ou seja 26% da população passam fome e ao mesmo tempo outros 28% estão na margem de risco. Como consequência 26,5% das crianças em idade escolar apresentam estatura inferior a média e 70% das mulheres adultas estão com excesso de peso por conta da desnutrição. É bom não esquecer que esses dados são antes da economia entrar em recessão.

Xenofobia uma política preventiva contra as explosões – Se juntamos os dados acima sobre o desemprego e os índices de fome no país e ao mesmo tempo um agravamento da situação provocado pelo processo recessivo dentro do quadro atual de crise econômica mundial, a política de xenofobia deve ser vista como uma política preventiva, na medida em que a população da África do Sul é composta de 7% de refugiados econômicos vindos de diversos países da África, em especial Zimbábue e Moçambique.

Esses refugiados econômicos fogem da pobreza e vêm viver nas townships (favelas) das grandes cidades. Então expulsar esses refugiados significaria reduzir as pressões por conta da crise estrutural do país, combinado com a crise econômica mundial e sua refração na África do Sul.

Ramaphosa, o carniceiro de Marikhana cruza os braços – Este ano completa-se 25 anos que Mandela chegou ao governo através do CNA e apoiado pela central sindical COSATU e pelo Partido Comunista da África do Sul. Mandela governou um mandado e a coligação se perpetuou nesses anos todos.

O atual presidente Cecyl Ramaphosa é identificado como um dos principais responsáveis pelos assassinato de 34 mineiros em Marikhana.  Diversos documentos comprovam que a ordem para a repressão partiu dele, que naquela época era diretor da empresa inglesa de mineração Lonmin. Esse massacre foi perpetrado pelo Estado africano com o envio prévio de carros de assaltos, helicópteros, homens armados com fuzis e, pasmem, quatro caminhonetes para remoção dos que seriam mortos.

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Ramaphosa até agora tem dados vagas declarações sobre a xenofobia mas não seria absurdo pensar que a ordem de repressão partiu do próprio Estado sulafricano. Os diversos vídeos que circulam pela internet mostram que as ações são coordenadas, com franco atiradores e a polícia fazendo vista grossa.

O tiro pode sair pela culatra – Os primeiros atingidos foram os migrantes nigerianos. Imediatamente, na capital Abuja, as massas começaram a responder aos ataques xenofóbicos aos seus compatriotas. A TV nigeriana apresentava entrevistas com nigerianos irados, dizendo que em seu país eles iriam saquear e incendiar as propriedades sulafricanas e citavam nominalmente as redes de supermercados Shoprite e Pick ‘n Pay, além da empresa telefônica MTM. E assim o fizeram.

A Embaixada da África do Sul na Nigéria fechou suas portas com medo de ser invadida. Também houve saques e incêndios contra propriedades dos capitalista sulafricanos no Congo, Moçambique e em Gana.

A empresa aérea da Tanzânia cancelou seus vôos para Joanesburgo.

A revolta das massas contra os atos de xenofobia na África do Sul pode ser um exemplo frente aos ataques praticados nos países europeus. Imaginem se os familiares de refugiados econômicos na Europa começarem a responder e atacar as empresas europeias em seus países? As massas aprendem pela ação e aprendem rápido.

[1] https://litci.org/es/menu/mundo/europa/italia/la-economia-mundial-se-encuentra-en-una-situacion-peligrosa/

Artigo publicado em: http://cspconlutas.org.br/2019/09/xenofobia-e-crise-economica-uma-mistura-explosiva-por-cesar-quiximba/