Na manifestação da segunda-feira realizou-se um ato convocado pelo Partido Operário para o qual não fomos chamados nem para coordená-lo, nem para debater o seu caráter. O mais importante é que começam a se manifestar duas políticas frente ao julgamento e ao ataque do Estado aos revolucionários.

Por: Daniel Ruíz

Como podemos estar contra as iniciativas em torno da liberdade de Sebastián Romero ou da minha absolvição e a de Cesar Arakaki? Mas estamos entrando na fase final e em relação a este julgamento, nós do PSTU procuramos coordenar as atividades com todas as organizações, inclusive quando ele estava preso. Mas sempre o fizemos a partir de uma concepção histórica da luta operária pelos perseguidos, para a qual podemos citar os exemplos de Sacco e Vanzetty, dos Mártires de Chicago ou dos presos palestinos com campanhas que foram realizadas em coordenação a mais ampla possível para ganhar força diante do ataque do Estado.

Foram as Internacionais operárias, todas elas, incluída a Quarta, que tiveram a política contrária a realizar um ato em que apenas um grupo decide e os outros acatam e participam, além disso, convocar manifestações de luta com um programa já definido, como o fez o Partido Operário nesse caso.

Faço essa reflexão porque o meu rosto foi usado para convocar um ato sem a preocupação em me chamar para opinar, uma vez que, desde novembro de 2019, todas as segundas-feiras encontramos com o Partido Operário nas audiências de julgamento.

Uma postura frente ao julgamento

Lembro muito bem das primeiras reuniões com o Partido Operário, nas quais levantaram uma série de dúvidas sobre o julgamento, argumentando que o melhor era adiar o início, questão que posteriormente reverteram ao aceitar o julgamento. Nessas reuniões, nas quais eu participei pessoalmente, externei minha opinião sobre este julgamento e o caráter que devíamos dar-lhe e assim o fizemos, ou seja, denunciar o Estado pelo seu caráter capitalista, defender o direito à autodefesa, que significa se defender do ataque das forças repressivas com o que tenhamos em mãos e que nesse sentido a disputa ia ficar desfocada por que a luta era poder operário vs. poder capitalista.

Essa visão do Partido Operário baseava-se no fato de que, diante da mudança de governo em dezembro de 2019, deveríamos aguardar como esse processo seria encarado nos Tribunais. Nós consideramos que independentemente dos ventos de mudanças devido à entrada ou saída dos governos, o julgamento ocorria em um momento de aumento das reivindicações, e que minha liberdade se deu com um processo unitário e de lutas por mais de um ano.

É por isso que não compartilhamos a posição de, em face da lei, se apresentar a uma Justiça que não dava garantias nem naquele momento nem agora. Por isso valorizamos as ações tomadas por Sebastián Romero a este respeito, aliás, durante este julgamento nossa postura foi encurtar os tempos, descartar todas as testemunhas da promotoria. Mas o Partido Operário disse que as testemunhas deveriam ser respeitadas quando dos 114 (maioria de policiais e nhoques [funcionário fantasma, ndt] da Defensoria do Povo de Alejandro Amor), em minha defesa permitiram apenas a presença de dois.

Cabe destacar que Alejandro Amor foi eleito por unanimidade para o poder legislativo de CABA (Cidade Autônoma de Buenos Aires) dos últimos anos, como Defensor do Povo, em uma sessão que foi presidida pelo Presidente do Legislativo, Diego Santilli. A candidatura de Amor foi aprovada por unanimidade pelos 54 legisladores presentes em 2019 (1), diga-se a quem se apresentou voluntariamente ao Tribunal para dizer que havia grupos organizados para os excessos naquele dia 18 de Dezembro. Até agora não li que na bancada do Partido Operário no Legislativo tenham reprovado a ação de Amor no julgamento.

Talvez a estratégia fosse jogar a resolução para dezembro, quando os movimentos eleitorais fossem conhecidos. Nós nos inclinamos pelo caminho da luta e do caráter genuíno da ação direta dos trabalhadores e trabalhadoras, assim o fizemos no ato de início do julgamento, em 25 de novembro de 2019.

Reivindicamos o que fizemos ou rechaçamos as ações da primeira linha

Minha declaração no inquérito e meu depoimento no julgamento basearam-se em reivindicar o que foi feito naquele dia, não só minhas ações ou o de Sebastián Romero, mas de toda a massiva primeira linha em que estavam Cessar Arakaki e Dimas Ponce.

Fiz isso por uma concepção concreta, que este é um julgamento “farsa” que independentemente dos governos é uma Justiça patronal e, portanto, nesta instância de chegar a um julgamento devemos usá-la como exemplo para a classe operária. Que o direito à autodefesa operária é um direito legítimo dos trabalhadores e trabalhadoras sem importar o que nos diga as leis dos patrões.

No entanto, a tática da defesa do Partido Operário tem sido a de que seus representados não tenham participado das ações daquela valente primeira linha em 18 de dezembro. Isso foi escrito pela Prensa Obrera a respeito do desfecho do litígio em 2 de março de 2020.

“Na audiência em que Escobar testemunhou, foi-lhe exibido um vídeo da mobilização, onde se observa que no momento em que ele recebe a pedrada, tanto Arakaki como Ponce se encontram totalmente alheios a essa ação. A pessoa autora dessa agressão não só não estava no julgamento, mas também poderia ter sido identificada, mas evidentemente houve uma decisão política e se optou por atribuir esse delito aos militantes do Partido Operário” (2)

Mas esta atitude ganha um relevo mais importante na última audiência com a testemunha Mariana Romano, apresentada pelo Partido Operário, à qual as advogadas do PO lhe perguntam se era militante daquela organização e se alguma vez viu o uso de pirotecnia nas colunas do Partido Operário em todas as marchas nas quais participou, e a resposta foi que é militante há anos e que nunca viu sua organização usar pirotecnia.

Aqui fica evidente que a tática do Partido Operário é de se desvincular da ação direta daqueles milhares da primeira linha, deixando em evidência que os pirotécnicos são os militantes do PSTU, e que haviam outros violentos deixados de lado e praticamente pedindo que os identificassem nos vídeos.

Entendemos minha prisão e a de Sebastián como um castigo a essa primeira linha. Portanto, para nós é nossa obrigação defendê-la e reivindicá-la, não procurar saídas judiciais para não assumir a vontade da classe operária naquele dia, devemos dizer a verdade. Queremos outro dia 18 de dezembro com as primeiras linhas ou não? Porque a história da classe operária mundial foi assim, resistência paus contra paus, armas contra armas e bombas contra bombas, a do boicote, a da sabotagem, estilingues, molotov, a dos piquetes armados e a milícia operária. Essa é nossa tradição e como patagônico, a 100 anos da greve dos peões, tenho como escola, a da Patagônia Rebelde (referência à resistência sindical e dos peões rurais contra os fazendeiros do sul da Argentina, em 1921, ndt).

Chamamos a organizar um ato amplo e unitário neste dia 18 de outubro

No dia das declarações queremos organizar, como sempre fizemos um ato amplo e unitário para defender a necessidade da autodefesa da classe operária. Onde se expressem os abusos de uma Justiça a serviço dos ricos, que seja também tribuna para as demais causas arquitetadas por este regime contra os lutadores e lutadoras e o povo pobre.

Para isso viajarei a Buenos Aires saindo da minha cidade, para impulsionar um ato desse tipo, e a partir do meu partido, o PSTU, e a LIT-QI, tentaremos mais uma vez conseguir a amplitude necessária sem baixar nossas bandeiras.

Que programa devemos levantar

Diante da crise política e da fome no povo argentino, devemos levantar não apenas a ruptura com o FMI, mas devemos assumir os problemas em nossas mãos. Retomar a experiência dos piqueteiros de Neuquén, Tartagal ou Mosconi, com bloqueios por tempo indeterminado, assim se faz necessário ir aos supermercados e frigoríficos para garantir comida, e aos laboratórios e farmácias para garantir medicamentos para nossas famílias.

Mas não será fácil porque a Justiça e as forças repressivas vão querer impedir, mas como a direita e Javier Milei ou José Luis Espert (pré-candidatos a deputados pelo partido Avanza Libertad, ndt) crescem em votos, a única maneira de detê-los é em nosso terreno, nas ruas, nas rodovias, nos piquetes. Por isso se queremos acabar com esta direita devemos desde agora votar, nos sindicatos e organizações sociais, os comitês de autodefesa, treiná-los e prepará-los, porque em última instância a situação nas ruas vai ficar parecida com o dia 18 de dezembro. Para o PSTU consideramos que isso não é espontâneo e se queremos fazer a Revolução deve começar levando essa discussão à classe operária, organizando-a para que seja um 18D triunfante.

Essa perspectiva e essa defesa das primeiras linhas, no caminho para uma revolução social na Argentina, será minha declaração final e minha defesa a todos os heroicos combatentes, homens, mulheres e a juventude que estiveram naquele dia na Praça do Congresso. De minha parte, não os negarei e se tiver que pagar com prisão para que eles estejam livres, o farei de novo.

  • Viva a primeira linha do 18 D!
  • Liberdade para Sebastián Romero!
  • Anulação do julgamento e absolvição de todos os acusados!

21 de setembro de 2021

Notas:

(1) https://www.legislatura.gov.ar/posts/designaron-al-defensor-del-pueblo-y-sus-adjuntos133.html

(2) https://prensaobrera.com/libertades-democraticas/se-baja-la-querella-del-oficial-escobar-en-el-juicio-contra-cesar-arakaki/

Tradução: Rosangela Botelho