Declaração da Liga de Trabajadores Hacia El Socialismo – Panamá (LTS/LIT-QI)

 

Depois de dez dias de uma heróica luta com mobilizações diárias na cidade de Colón e uma greve geral em toda a cidade que durou cinco dias; após as greves e manifestações de solidariedade em todo o país; de enfrentamentos nas ruas contra a brutal repressão da polícia que matou 4 colonenses, incluindo um menino de 9 anos,

o povo panamenho obrigou o governo Martinelli a abolir a Lei 72 que originou esta revolta popular.



É um inegável triunfo da mobilização popular. Os trabalhadores e o povo derrotaram uma Lei entreguista que autorizava a venda dos terrenos da Zona Livre de Colón. É necessário ressaltar que esses terrenos desde sua fundação em 1948 até a presente data pertencem ao Estado, sendo alugados aos comerciantes que operam neste grande empório comercial, a segunda Zona Livre do mundo, depois de Hong Kong.



A aprovação da Lei foi a gota d’água e despertou a fúria dos habitantes de Colón. Não é pra menos. Todos os dias os colonenses enfrentam condições de vida de extrema pobreza: águas sujas nas ruas, 50% das casas sem condições de habitação, várias zonas da província sem água potável, o índice de desemprego alcança 24%, gerando marginalidade, frustração e violência. Porém na mesma cidade está a zona livre que gera um movimento comercial de 30 bilhões de dólares, dos quais apenas 30 milhões destinam-se a Colón. Uma zona livre que emprega 30 mil trabalhadores, dos quais só uma pequena minoria é de Colón. Por tudo isso que a revolta foi tão forte e despertou a consciência para os problemas de fundo que afligem este povo.



A luta dos trabalhadores e do povo de Colón e de todo o país conseguiu impedir a entrega de uma valiosa zona de propriedade do Estado panamenho e um patrimônio público. Mesmo assim também conseguiu uma frustração com a negociação de Martinelli. Mas principalmente impulsionou uma importante derrota política deste governo entreguista, corrupto e anti-operário.



Os fatos mostram claramente porque esta luta não pode parar. Logo após a derrogada da Lei 72 pela Assembléia Nacional, o presidente Martinelli se dirigiu à nação em um discurso transmitido pela televisão. Disse que ao sancionar a derrogada da lei, buscava a paz e o diálogo. Incrivelmente acusou os manifestantes dos atos de violência que provocaram roubos e mortes e prometeu acusar-los judicialmente.



O governo tenta ocultar grosseiramente sua total responsabilidade em ordenar a repressão ao povo de Colón e depois a todo o país. Tenta ocultar em vão que a polícia disparava com armas de fogo sobre os manifestantes e é a única responsável pelas 4 mortes e centenas de feridos a balas e estilhaços.

É uma tentativa grotesca de que o povo se esqueça que foi o governo que teve a iniciativa e pressionou ao máximo para aprovar a Lei 72. E que o presidente foi viajar pela Ásia, durante mais de uma semana, esperando que em sua ausência do país a polícia e o destacamento SENAFRONT, corpo militarizado de fronteiras, fizessem o trabalho sujo de esmagar os protestos.



As posturas de Martinelli evidenciam que a tarefa não terminou. Enquanto continuar este governo pró-imperialista e autoritário haverá mais ataques aos trabalhadores e ao povo, pobreza e miséria, corrupção, repressão e entrega do país. Ao contrário do que dizem os partidos burgueses como o PRD, o panamenhismo, etc, não se deve dar uma trégua ao governo nem esperar as eleições de 2014. Deve-se seguir nas ruas, exigindo a liberação dos presos; investigação e punição dos agentes de repressão responsáveis pelas mortes, que o Estado assuma a responsabilidade dos danos materiais e indenize os afetados pela repressão. Mas, o mais importante é que se vá o principal responsável por toda esta situação, Fora Martinelli!



Deve-se aproveitar este grande triunfo para unir o movimento operário e popular ao redor das propostas que ataquem os principais problemas de fundo do país. O Panamá vive uma grande contradição. De um lado grandes aplicações de capital imperialista, encabeçadas pela ampliação do Canal, a construção do novo centro de negócios e hub no Aeroporto de Tocúmen, os portos, estaleiros, etc. Os grandes edifícios do centro financeiro da cidade de Panamá valeram o apelido de “Manhattan da América Central”. A economia do Panamá cresce em ritmo “asiático” com índices de até 10% ao ano.



Do outro lado, o povo panamenho, os operários da construção, os povos indígenas como os ngabe bugle, os funcionários públicos e os setores populares em geral, seguem na pobreza. Apesar do extraordinário crescimento, cresce a desigualdade.



Isso é assim porque este crescimento beneficia principalmente os grandes capitais estrangeiros. A política da burguesia panamenha e seus partidos levam esta contradição ao máximo. Seu objetivo é vender todo o país aos capitais imperialistas, ficando com as migalhas que conseguem pegar da mesa deste banquete.



As organizações dos trabalhadores e setores populares necessitam se unir para lutar para que toda a riqueza que é gerada no país, tais como os benefícios da zona livre e do Canal, devam ser controladas pelos trabalhadores e utilizadas em um Plano de Obras Públicas e Aplicações Sociais que beneficie o povo.



Finalmente, não é casual que Martinelli possa ter realizado suas arbitrariedades sem que os partidos políticos burgueses o tenham feito parar. É que todo o sistema político no Panamá se caracteriza pelo autoritarismo, a corrupção e as práticas antidemocráticas. Aos partidos operários e populares é dificultada ao máximo sua legalização e participação nas eleições. Por tudo isso é necessário mudar radicalmente toda a Constituição do país por meio de uma Assembléia Constituinte originária.



A Liga de Trabajadores Hacia el Socialismo alerta as organizações do movimento operário e os setores populares a não confiar nas novas políticas negociadoras de Martinelli. É necessário manter a mobilização e a organização independente para seguir com a luta pelas nossas reivindicações. Para isso propomos que se convoque um Encontro Nacional Sindical e Popular onde se possa discutir e aprovar um programa e um plano de luta pelos direitos econômicos e políticos dos trabalhadores e do povo.



Os acontecimentos que sacudiram nosso país demonstraram a necessidade imperiosa de que a classe trabalhadora e os setores populares construam seu instrumento político, quer dizer, um partido classista, socialista e revolucionário que possa dar coerência a um programa que contenha os interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora. Desde a LTS estamos trabalhando neste sentido e chamamos a todos os lutadores conscientes a unir forças nesta grande tarefa.



Panamá, 29 de outubro de 2012


Tradução: Cynthia Rezende