Nas últimas semanas a série sul-coreana Round 6, lançada pela Netflix, tornou-se um sucesso mundial e já é uma das séries mais vistas da história da plataforma. A série narra a história de pessoas endividadas que aceitam participar de jogos violentos em troca de um prêmio vultoso de dinheiro. Com uma estética de videogame e com uma trama instigante, a série é realmente de prender a atenção e de tirar o fôlego. O roteiro chegou a ser recusado em 2009, quando foi criado, por ser considerado muito pesado.

Por:Jorge Mendoza

A série tem muitos méritos, a começar pelo tom com que aborda as cenas de ação e violência, característico do cinema asiático. No cinema ocidental o melhor representante dessa característica talvez seja Quentin Tarantino. Quem assistiu Kill Bill ou Django Livre sabe do que se trata. Mas sem abrir mão disso, Round 6 vai muito além e consegue estabelecer um diálogo com grandes motes do cinema mundial e debates sociais contemporâneos como a desigualdade social e reality shows sem cair em estereótipos ou clichês. Não à toa, proliferam os memes e, da esquerda à direita, todos tem usados suas cenas para fazer debates políticos. Essa potência de discussão que seu enredo provoca é possivelmente um dos grandes méritos da série.

Se me pedissem para dizer qual o tema da série eu diria: é uma série sobre o fracasso da sociedade em estabelecer igualdade entre as pessoas e em lidar com a natureza humana.

Gameficação social

Todo o enredo de Round 6 gira ao redor de um fato: a existência de uma camada de pessoas fracassadas, endividadas, sem perspectivas ou sem nada a perder. São essas pessoas que são recrutadas – e que aceitam – participar dos jogos. Não à toda a série foi inevitavelmente comparada com O poço (2020, Gael Gaztelu-Urrutia) e com O parasita (2019, Bong Joon-Ho), que também tratam do que o humano é capaz em situações extremas. Aparentemente inocentes e baseados em brincadeiras infantis, os jogos em Round 6 acabam com a eliminação física dos participantes. No melhor estilo de Jogos Vorazes (2012, Gary Ross), mas no lugar do romantismo epopeico e heróico, a tragédia social. As pessoas que participam dos jogos em Round 6 são pessoas “descartáveis”, e isso nos ajuda a lidar com a violência da série.

Um aspecto interessante da série também é a sua abordagem sobre a gameficação social – a transformação da vida em um jogo. E qualquer trabalhador do setor dos serviços entende do que se trata. O casamento entre a ascensão do discurso empreendedor, filosofia de coachs (neoliberalismo fantasiado de filosofia aristotélica), obsessão pelo “engajamento” e a plataformização (tipo particular de digitalização) do trabalho tem gerado isso que já é uma tendência no capitalismo contemporâneo. No fundo, não passa de uma maneira de forçar os trabalhadores a baterem metas inatingíveis e aumentar a mais-valia absoluta, mas com aspectos de videogame. É a competição levada à níveis elevadíssimos e que acabam exigindo uma dose de entretenimento para serem suportadas. A naturalização dessa competição como um jogo é também o que está por trás dos reality shows que tanto vemos por aí – um aspecto também presente na trama de Round 6.

Nesse sentido, o paralelo entre a sociedade da livre concorrência não é exagero. Ao contrário dos que dizem os defensores do livre mercado, de que a concorrência absoluta geraria o equilíbrio e o benefício de todos, o que assistimos é o descarte e eliminação da maioria em benefício de um punhado. É a sociedade baseada na competição que gera, justamente, essa camada de pessoas descartáveis que, sem perspectivas, aceita participar dos jogos. Uma sociedade baseada na absoluta concorrência é uma sociedade baseada na barbárie e na violência e o que assistimos acontecer na ilha isolada em Round 6 é só uma alegoria caricata e irônica do que vivemos no dia-a-dia. É tudo pelo dinheiro e, pelo dinheiro, vale tudo.

As escadarias de Escher, uma simetria do absurdo e do ilógico.

Falsas simetrias

Mas a série também não dá de barato a crítica da competição social. Ela também faz a crítica de sociedades autoritárias que tentam, pela força, estabelecer uma igualdade fictícia e artificial. Parece ser esse o papel da personagem Sae-Beyok, que foge da ditadura norte-coreana para tentar uma vida melhor para a família e termina nos jogos juntos com os fracassados sul-coreanos. É muito interessante o fato de que os participantes poderem interromper o jogo a qualquer momento (o que sugere uma falsa ideia de liberdade) – como se houvessem escolhas no mudo lá fora. Os jogos até são interrompidos em determinado momento, mas os participantes decidem livremente voltar aos jogos macabros para tentar a sorte. Afinal, dentro dos jogos são todos iguais e as chances de vencer o prêmio são as mesmas para todos. E nessa hora, do alto do nosso conforto social, a gente pensa: “não acredito! O que essa gente tem na cabeça?”.

Bem, o que faz uma pessoa, excluída e eliminada em uma sociedade baseada na competição trocar essa “liberdade de competição” por um projeto de “liberdade” baseado na violência e na força? Sim, parece absurdo. Mas a história política moderna mostra que a decadência de sociedades capitalistas liberais são sempre acompanhadas pela ascensão de projetos ditatoriais e totalitários. Foi assim nos anos 1930, com o fascismo e nazismo pós-crise de 1929, é assim nos dias de hoje, com o reflorescimento da extrema direita em todo mundo pós-crise de 2008. Há sempre aqueles que, nos tempos de crise, querem controlar a sociedade pela força e violência sem abrir mão da competição. “A cadela do fascismo está sempre no cio”, dizia Brecht. E é exatamente o que ilustra Round 6. Os jogos violentos não acabam com a competição do mundo lá fora, mas restabelecem a competição com regras bem delimitadas e controladas pela força e violência.

Mas nem a sociedade baseada na competição absoluta nem os projetos ditatoriais e totalitários são capazes de estabelecer uma verdadeira igualdade entre as pessoas. Os cenários onde acontecem os jogos em Round 6 são todos bem limpos, higienizados, iluminados e neles reina a ordem e a disciplina. A trilha sonora ainda conta com Danúbio Azul, de Johann Strauss, que ajuda a dar o tom ordeiro refinado (impossível não pensar em 2001 – Uma odisséia no espaço). Mas nem toda essa aparência é suficiente para contornar o fato inegável de que o que acontece ali é a barbárie. A todo momento a série parece nos alertar: cuidado com falsos projetos de ordem e liberdade, podem ser apenas um esconderijo para o oposto. O discurso da livre concorrência é bonito no papel, mas é a barbárie na prática. Porque o que a concorrência elimina são pessoas.

De todos os cenários, o que melhor representa isso são as escadarias do local, todas muito coloridas, alegres e bem organizadas. Nem parecem fazer parte de uma prisão. É inegável a referência desse cenário às obras de Maurits Escher, artista holandês que trabalhava bastante com isometria. O próprio Escher desenhou escadarias que, aparentemente, se mostram bem organizadas e encaixadas, mas que, sob um olhar mais atento, se revelam um completo absurdo ilógico. Tal como as escadas de Escher, os jogos em Round 6 e a livre competição (na qual se baseia o capitalismo), parecem organizadas, lógicas, capazes de garantir igualdade e liberdade… mas não passam de uma falsa simetria. Um completo absurdo que esconde a violência e a barbárie na qual se apoiam.

De olhos bem fechados – quem se esconde por detrás das máscaras?

Voyeurismo e sadismo

A série também aborda questões que costumo incluir sob o guarda-chuva filosófico das seguintes perguntas: existe uma natureza humana? Se sim, até onde ela pode ir? E esse é um tema principal que a relação entre as personagens parece evocar. Vale tudo em uma competição? Mesmo que ela custe nossa vida? Do que somos capazes de fazer em condições extrema? A esses dilemas, colocados em cada etapa dos jogos, os personagens vão dando respostas diferentes.

Mas não só para os competidores. É possível entender esses questionamentos a todos os envolvidos nos jogos. A começar pelos “trabalhadores” anônimos, prontos para executar absolutamente qualquer ordem sem questionamentos e que assistem a tudo indiferentes, apenas cumprindo seu papel. Até onde devemos simplesmente cumprir as ordens porque é assim e assim deve ser feito? O tema já foi amplamente discutido e um dos pontos altos desse debate é o episódio do julgamento e Adolf Eichmann, funcionário público nazista que alegou em sua defesa estar apenas cumprindo ordens que não eram absurdas em sua época. Sobre esse episódio que Hanna Arendt escreveu Eichmann em Jerusalém (1963), onde discute o seu conceito de banalidade do mal. E sobre essa mesma ideia foi realizado e experimento do psicólogo Stanley Milgram em 1963, que acabou virando filme em 2012 (O Experimento de Milgram, Michael Almereyda).

Mas os questionamentos sobre a natureza humana devem ser feitos, especialmente, para os VIPs, os ricaços por trás do financiamento dos jogos em Round 6. Diz o dito popular que se quisermos conhecer verdadeiramente alguém é preciso dar poder a essa pessoa. E Round 6 também põe isso à prova. O baile dos mascarados que se divertem sadicamente com a morte e a destruição alheia sem perder a pose já foi tratado em outros clássicos do cinema como Saló ou os 120 dias de Sodoma (1975, Pier Paolo Pasolini) ou De olhos bem fechados (1999, Stanley Kubrick). Ambos abordam tendências sádicas e voyeurismo (prazer em observar o que é íntimo ou mórbido) praticados abertamente por aqueles que concentram o poder e que, justamente por isso, não se preocupam em satisfazer e manifestar seus piores aspectos. Mas o que Round 6 põe de novo no debate é a gameficação: além de serem tratados como apostas de cavalos pelos VIPs, tal como no Big Brother Brasil, os jogadores eliminados vão se apagando no telão. É impossível não pensar no sadismo e voyeurismo envolvido em entretenimento do gênero que se baseia na humilhação dos derrotados e que, no entanto, assistimos com naturalidade. E tal como em Saló, os magnatas de Round 6 fazem tudo isso sem abrir mão do refinamento cultural, recitando versos e ouvindo boa música. É um retrato da hipocrisia do elitismo e do conservadorismo.

Saló: voyeurs da barbárie sem perder o status social.

À beira da morte, de frente com tudo isso

E no debate sobre nossa humanidade submetida à situações extremas, há um tema universal que é o da morte. A morte é a situação extrema que todos nós enfrentaremos um dia e naturalmente ele está presente no cinema. A cena do homem em seu leito de morte se deparando com o sentido da vida é um clássico também presente também em Round 6. Tanto em 2001 – Uma odisseia no espaço (1968, Stanley Kubrick) quanto em O cidadão Kane (1941, Orson Welles), o ponto alto do entendimento da narrativa se dá no leito de morte quando paramos para pensar qual o sentido disso tudo? Em 2001, diante do monolito misterioso, o que nos torna humanos; para Charles Foster Kane, “Rosebud”; e em Round 6, “qual a diferença entre uma pessoa muito pobre e uma pessoa muito rica?”.

Esse é um grande gancho na história do cinema e a série o aproveita para retomar o tema sobre a natureza humana sob condições extremas. Mas não apenas fisicamente (por uma questão de vida ou morte nos jogos), mas sobre os extremos sociais: a absoluta miséria e a absoluta riqueza. Pode haver humanidade sob essas condições? O que esse mundo tão desigual tem feito conosco? São perguntas possíveis postas pela série e para as quais não precisamos esperar o leito de morte para se perguntar. Se por um lado, há um certo consenso de que não deveriam existir pessoas miseráveis, a série dá margem para questionarmos o outro extremo: e bilionários, deveriam existir? Que risco isso nos oferece?

O Cidadão Kane, 1941
2001 – Uma Odisseia no Espaço

Excesso de violência

Há quem questione Round 6 por um suposto excesso e banalização da violência. Mas entendo que esse exagero seja parte central dos questionamentos levantados pela série. Vivemos em um mundo violento, não apenas fisicamente, mas socialmente violento. E a desigualdade e a competição social desenfreada sãos sintomas disso. O que a série faz é, justamente, exagerar nesse retrato à ponto de deixá-lo aceitável. É esse exagero que faz com que as cenas percam o realismo e beirem a ironia, dando margem para que a gente reflita sobre isso. Kill Bill nunca foi criticado pelos seus exageros, pelo contrário, seu deboche é considerado uma qualidade única. É o excesso que o torna palatável. Esse, aliás, é outro debate interessante. Até onde as condições sociais influenciam em nossa violência? É um tema debatido pelo chamado experimento de Stanford, que acabou virando filme também: O experimento de aprisionamento de Stanford (2015, Kyle Patrick Alvarez).

Mas para os que ainda duvidam da potencial vilania humana, vale procurar pela performance de Marina Abramović chamada Ritmo 0. A artista se pôs a disposição durante 6 horas para que as pessoas fizessem o que bem entendessem com seu corpo livremente. Apenas isso. O que começou com flores e abraços terminou como Marina violentada, mutilada e, por pouco, não saiu sem vida. Essa performance, de 1974, faz a violência de Round 6 não parecer tão absurda assim. Talvez apenas não queremos ver o quão violento pode ser o mundo.

Performance Ritmo 0, de Marina Abramović em 1974

Round 6 é feliz ao instigar todos esse debates – que são profundos – sem dar a eles uma resposta simples e fácil. Faz uma caricatura sem ser caricato. E, lógico, existem muitos outros debates e abordagens possíveis que não caberiam aqui por motivos de bom senso. Ao mesmo tempo que consegue abrir um diálogo como muitos temas e motes do cinema, faz tudo isso sem abrir mão de um bom enredo e boas cenas de ação. Para quem quer só diversão, ou para quem quer um bom debate, recomendo.