Uma sala cheia de jovens, operários, imigrantes no seminário de três dias do PdAC

Se alguém pensou que militantes e simpatizantes do Partido da Alternativa Comunista se encontrariam no seminário anual de setembro para ficarem fechados de modo sectário para falar “das grandes ideias”, longe da luta de classes, se enganou e muito. O seminário de 9,10 e 11 de setembro de 2011 representou um momento importante de estudo e de luta, não apenas pela presença de dezenas de militantes sindicais e do movimento estudantil ou de ativistas dos comitês de lutas, mas também porque representou, neste ano de modo ainda mais incisivo do que nos anos anteriores, o lugar onde o estudo e a reflexão sobre o passado do movimento operário internacional estão interligados a realidade viva das lutas atuais.
 
Ao lado dos imigrantes em luta
 
Estavam presentes no seminário os nossos companheiros do PdAC Wagne Moustapha e Tahar Sellami, que são dirigentes do Comitê dos Imigrantes na Itália. Poucas horas antes do início do seminário participaram da decisão de organizarem um protesto contra a falsa anistia para empregadas domésticas e pessoas que cuidam de idosos e pelo visto de permanência para todos, movimento que está se desenvolvendo ainda enquanto escrevemos, e onde dois trabalhadores imigrantes ocuparam a torre da Via Selinunte em Milão (ver matéria publicada no site da LIT).
 
Foi com um longo, convicto e comovente aplauso que a assembléia reunida em Rimini, tão logo recebeu a noticia em tempo real, dos companheiros de Milão, da sua vitoriosa ocupação da torre, aprovou um manifesto de solidariedade que representou o empenho e a estreita ligação entre os companheiros do PdAC e os companheiros imigrantes em luta. Ligação que existe não apenas pela presença de alguns de seus dirigentes entre os membros do nosso partido, mas também pela clara identificação entre as justas aspirações dos nossos irmãos e companheiros imigrantes e o programa do partido: um programa revolucionário, baseado sobre a independência de classe da burguesia e dos seus governos e fundado sobre a inquestionável palavra de ordem, verdadeira para todo comunista, do internacionalismo. Um internacionalismo que não está simplesmente escrito no papel, mas construído nas lutas e no paciente trabalho de agrupamento dos partidos revolucionários dos vários países do mundo sobre a bandeira da reconstrução da Quarta Internacional e do seu Programa.
 
Estudar o marxismo para organizar as lutas e a revolução
 
As intervenções que se seguem, dos companheiros Claudio Mastrogiulio, Alberto Madoglio, Valério Torre, Francesco Ricci, Fabiana Stefanoni, Ruggero Mantovani, longe de quererem representar um exercício acadêmico, apresentaram um instrumento para compreender o passado e para preparar o futuro, um futuro que nós cremos, para repetir as palavras de Rosa Luxemburgo, “em qualquer lugar estaremos com o bolchevismo”.
 
Os numerosos jovens presentes no seminário (seguramente a parte majoritária do encontro) manifestaram abertamente o seu apreço pelo ótimo nível das discussões, seja do ponto de vista do rigor e do aprofundamento teórico, seja do ponto de vista da clareza das exposições: conceitos e situações desenvolvidos no passado ganham vida e se revelam em toda a sua atualidade.
 
Assim o resultado que ficou claro a todos os presentes, foi que para compreender o hoje, a atual crise internacional do capitalismo, as revoluções do mundo árabe e suas perspectivas, é não apenas útil, mas indispensável estudar as crises e as revoluções do passado. Avançamos na consciência sobre a necessidade de uma real alternativa de sociedade, de um outro mundo possível. Durante o seminário foi discutido o tema da necessidade da revolução internacional e do trotskismo como marxismo moderno, analisou-se as crises do capitalismo e os seus efeitos sobre a luta de classes e suas revoluções de ontem e de hoje, falou-se sobre a importância das organizações sindicais dos trabalhadores e da sua unidade e sobre o papel nefasto das burocracias sindicais (grandes e pequenas), no passado e atualmente, como agentes da burguesia no interior do movimento dos trabalhadores. O seminário discutiu a palavra de ordem “poder dos trabalhadores”, o programa da revolução permanente, a necessidade da construção do partido internacional dos comunistas ontem e hoje, as modernas revoluções do mundo árabe e as suas perspectivas.
 
Mas também não faltaram importantes momentos de divertimento (a festa de sábado à noite) e de socialização entre os participantes e aqueles que não participavam do encontro, os três dias em Rimini foram de um intenso trabalho de concentração e estudo. É claro que apenas três dias não podem ser suficientes para esgotar o conhecimento sobre temas tão importantes, mas é esta mesma consciência que nos leva a prosseguir o caminho iniciado desde a fundação do PdAC e de sustentá-la na militância cotidiana da luta. O empenho no estudo rigoroso da história do movimento operário internacional, dos seus erros e dos seus sucessos nos serve para procurar não repetir os primeiros e a completar o percurso interrompido pela tragédia do stalinismo de acordo com os segundos. O stalinismo foi uma tragédia que foi evocada também com imagens de um interessante filme apresentado pelo companheiro Adriano Lotito, coordenador dos Jovens do PdAC.
 
A confirmação da importância que o PdAC dá à ligação entre a teoria e a prática, ao estudo do marxismo visto como o mais importante instrumento de luta, foi a apresentação do primeiro número da nova revista teórica do PdAC, Trotskismo Hoje, que vai estar ao lado do jornal político do partido, Projeto Comunista. Um instrumento precioso (tanto mais no desolador vazio político e teórico que caracteriza tanto a esquerda reformista como aquela semi-reformista, que nós definimos como “centrista”). Uma revista verdadeiramente bela: não apenas pelo cuidado dos materiais que contém, mas também pelo designer cativante. Um outro importante motivo de orgulho para os militantes do nosso partido.
 
A participação da nossa Internacional, a LIT-Quarta Internacional
 
No seminário falaram também companheiros de outras seções nacionais da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional: em particular da Inglaterra, Martin Ralph e Margaret McAdam da Liga Socialista Internacional e, do Brasil, a companheira Cecília Toledo do PSTU e responsável pela Comissão Internacional das Mulheres da LIT. 
 
Os companheiros da Inglaterra falaram sobre as radicais mobilizações estudantis de seu país e sobre a situação dos imigrantes e das jovens gerações operárias. Imigrantes e jovens sobre os quais se abatem os ataques do capitalismo com o resultado de aumentar de modo exponencial, neste último período, a sua alienação sobre a sociedade, mas também de aumentar a sua consciência de classe e uma nova consciência internacional. Explicaram que a nossa seção inglesa, mesmo não sendo grande numericamente, conseguiu estar presente em muitas lutas e a participar ativamente das imponentes greves que os nossos companheiros definiram como “de importância histórica” e que é a resposta de classe aos ataques aos direitos sociais e serviços.
 
Cecília Toledo, na sua intervenção, destacou de modo particular a importância da internacional que estamos construindo com tantos esforços e também com importantes resultados. “Encontro-me no seminário do Partido da Alternativa Comunista na Itália – concluiu a sua fala entre os aplausos – mas não sinto saudade de casa, me parece estar no Brasil e isso porque falamos a mesma língua de classe, temos a mesma análise e o mesmo programa, a mesma organização, somos a LIT, empenhada na reconstrução da Quarta Internacional”.
 
Uma sala cheia de jovens
 
Durante o debate as experiências, as dúvidas, as propostas dos companheiros que são ativistas nas varias lutas atuais se ligaram com aquelas grandes lutas do passado, estudadas naquelas horas com numerosas e apaixonadas intervenções, de modo especial daqueles companheiros jovens. De fato, os jovens são o patrimônio mais precioso do nosso vivaz partido (que a alguns meses estão se organizando como Jovens do PdAC). Estiveram juntos com os companheiros imigrantes nas suas lutas, são os verdadeiros protagonistas deste quinto seminário nacional. Porque, ao lado das jovens gerações do mundo árabe e da Europa, do Chile e de tantos outros lugares do mundo, e também na Itália há uma geração que está levantando a cabeça, que quer lutar e compreender.
 
Os jovens que “são livres do peso do passado” e cujo “espírito guerreiro pode garantir os primeiros sucessos na luta”, sucessos que “podem levar novamente ao caminho da revolução os melhores elementos da velha geração”, aqueles que não traíram e que não se transformaram em cínicos.
 
Antes de cantarem, todos juntos e de punhos fechados, as comoventes estrofes da Internacional, o seminário foi concluído com a leitura das palavras do companheiro trotskista Pietro Tresso, dirigente e fundador do Partido Comunista da Itália, morto, como milhares de outros companheiros, por um assassino stalinista: “É porque permanecemos ainda jovens que nos encontramos fora das diversas igrejas. Se tivéssemos nos transformados em velhos teríamos escutado a voz da experiência, teríamos nos transformado em sábios, estaríamos entregues como tantos outros às mentiras, à hipocrisia, à reverência para com os “diferentes filhos do povo”, mas isso não nos era possível. Por quê? Porque permanecemos jovens, e porque estamos sempre insatisfeitos com aquilo que temos, porque aspiramos sempre alguma coisa melhor. E quem não permaneceu jovem está, na realidade, transformado em cínico; para eles os homens e a humanidade não são mais que instrumentos, meios que devem servir aos seus interesses pessoais, mesmo quando esses interesses são dissimulados sob frases de caráter geral. Para nós, ao contrário, os homens e a humanidade são o caminho, a verdadeira realidade existente”.     
 
Tradução: Nívia Leão