Entrevista com Edgar Galiano (Comissão de Imigrantes de Roma)


 


(Entrevista feita pela seção romana do PdAC)


 


Qual é a sua avaliação sobre os fatos de Rosarno?


 


Depois da revolta dos trabalhadores imigrantes de Rosarno, a burguesia e o governo (que é ligado à máfia) estão preocupados em passar a imagem que os acontecimentos estão ligados à clandestinidade, ao racismo e às leis de segurança. O problema não é como a burguesia interpretou os fatos para os seus fins, mas como nós, de outra parte, da parte dos trabalhadores, valorizamos o que emergiu de Rosarno. Um elemento muito importante que emergiu é o direito a autodefesa. Não se tratou de uma resposta “selvagem” e violenta e depois o “pogrom”.  Reparem que nesta armadilha caíram também setores da esquerda. A autodefesa e auto-organização devem ser assim: um golpe e depois sair em retirada. Porque os trabalhadores deveriam defender um posto indefensável? No fundo as pessoas sabem que se trata de autodefesa.


 


Portanto o sinal importante que chegou dos imigrantes é: “Se nos agridem, responderemos. Que não passe pela cabeça da burguesia nos mandar para os centros lager (termo usado para designar os campos de concentração NDT)”.


 


De outra parte os 60% daqueles que trabalhadores (imigrantes) têm permissão de estadia na Itália; uns 20% estão aguardando a permissão e somente 20% são irregulares.


 


O Estado agiu ali rapidamente para eliminar um elemento de contradição. O importante é que retornada a “santa paz” capitalista, a máquina continue a funcionar, assim como deseja a burguesia, o Estado e a máfia. O fato positivo, contudo, em termos de classe, é que os trabalhadores de Rosarno deram um sinal aos imigrantes e também aos trabalhadores italianos, os quais recordarão também como os italianos estão sendo explorados no trabalho agrícola precário. Um sinal que diz: “é assim que se combate a máfia”. 


 


O Estado é a garantia da máquina produtiva. Só no momento em que está máquina não funciona bem, por que alguém impede, é que o Estado intervém com leis, com a força etc. Portanto, retornada a “santa paz”, os meios de comunicação não falarão mais e outros (marroquinos e búlgaros) tornarão ali para trabalharem nas mesmas condições. 


 


Como se insere o trabalho de Rosarno na cadeia de produção neste momento?


 


Dentro da crise do sistema capitalista, também a agricultura tem sua crise, com suas características específicas. De uma parte estão os grandes proprietários de terra e de outra os pequenos produtores. São os pequenos produtores aqueles que estão em débito com os bancos, enquanto as grandes empresas agrícolas têm uma produção mais “industrializada”. Neste quadro temos uma questão que penso que deva ser analisada, ou seja, a questão da presença da máfia. A máfia, na Itália, jogou e joga um papel fundamental para que a crise não se desenvolva. Este é um dos poucos países no qual nenhum banco faliu e nenhum banco irá à falência. Os grandes capitais que entram, com o escudo fiscal, cobrem tudo, não existe falta de liquidez. Na produção agrícola o sistema ilícito de recrutamento de mão de obra joga com a “ndrangheta” (Máfia da Calábria NDT) um papel no controle dos trabalhadores, mas também no controle da produção e do mercado.    


 


Creio que a passeata que se desenvolveu em Rosarno tenha sido importante, seja porque numa população de 15 mil habitantes estavam na Praça 2 mil manifestantes; seja porque, para mim, estava presente uma crítica a máfia. É claro que a situação é contraditória.


 


Veja, eu venho de um país onde a relação entre a máfia e a população é estreita: a máfia não é estúpida, cria sua base social. Como por exemplo, na Colômbia, a máfia fazia o esgoto nas pequenas cidades, levava água potável, dava diretamente dinheiro à população.


 


De outra parte existe uma ligação entre o Estado e a máfia. O fato que normalmente seja reconhecido que um dos maiores negócios na Itália seja a máfia diz qualquer coisa, a presença da máfia é legalizada.



Ali, em Rosarno, vimos que não existe nenhum acordo com os sindicatos e com os partidos políticos … a venda da força de trabalho é feita sem proteção. Mas aconteceu que esta máquina se obstruiu porque foi acionado o seguinte mecanismo: “Eu lhe dou meu trabalho, mas também tenho dignidade; posso vir do fim do mundo, mas eu estou trabalhando para você, estou lhe trazendo lucros e então você deve me respeitar …”. Neste sentido vejo a resposta positiva dos trabalhadores porque somente se existe um ódio de classe se pode comprender …


 


Qual o papel dos partido, dos sindicatos e das forças da esquerda?


 


Pergunto-me porque os sindicatos e os partidos da esquerda não vão lá e dizem: “dobremos os salários”. Porque não vão lá para verificar se os trabalhadores estão registrados, interrompendo o trabalho, ocupando as terras onde os trabalhadores são explorados, denunciando através da mídia? Onde estavam em todos estes anos os sindicatos, onde estão os companheiros? Pode-se permitir que em Rosarno se recomece tudo como antes?


 


Os trabalhadores de Rosarno podem somente dar início. Repito, a destruição da máquina capitalista foi o aspecto positivo. Este fato nos deu a percepção que as condições objetivas para a revolução neste país, começaram a se fazer mais visíveis. Em atraso somos nós. Desejo que chegue um momento no qual as forças revolucionárias farão um apelo para organizar-se. Espero que nosso congresso possa acelerar este processo.


 


Nós imigrantes, de fato, estamos procurando dar um salto político e estamos organizando um congresso de imigrantes para os dias 24 e 25 de abril. Lançaremos um apelo a todas as estruturas da esquerda que vejam positivamente este percurso e queiram sustentá-lo.


 


_________________________________________


Artigo publicado no Informativo do PdAC, de 23/01/2010