Companheiras e companheiros do Movimento Internacional de Trabalhadores (MIT) do Chile, recebam uma saudação fraterna e combativa do MAS do Equador.

Por: MAS-Equador

Por meio deste comunicado, queremos expressar nossa solidariedade à corajosa e consequente luta que o povo chileno trava contra o modelo capitalista neoliberal imposto há 30 anos pela ditadura de Pinochet, a mesma que mergulhou a classe trabalhadora, e a maioria da população chilena, na pobreza, desigualdade e discriminação.

Também queremos declarar que a insurreição popular que vivemos no Equador de 11 a 13 de outubro teve o apoio moral e a legitimidade elevados pelo processo insurgente que vocês protagonizam nas ruas há mais de um mês. Este é um exemplo do caminho que devemos seguir, nós  das classes populares na América Latina, para derrotar o capitalismo e construir uma sociedade justa e igualitária. Nós, que fazemos parte da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), enviamos nossas leituras sobre o processo revolucionário que vive o nosso país irmão, o Chile.

Uma onda de lutas populares começa na América Latina. Desta “primavera latino-americana” fazem parte os levantes de Honduras, Porto Rico, Haiti, Panamá, Equador, Chile, Bolívia e, possivelmente, Colômbia, que se prepara para viver uma greve geral convocada para dia 21 de novembro. O mal-estar generalizado na região tem como pano de fundo a ofensiva do imperialismo e das burguesias nacionais que, para agradá-lo e obter os favores do FMI, ataca os padrões de vida dos trabalhadores e da população mais pobre.

Nesse contexto, há mais de um mês, centenas de milhares de chilenas e chilenos continuam nas ruas exigindo a saída de Sebastián Piñera do poder, a convocação imediata de uma Assembleia Constituinte, que os numerosos casos de violação de Direitos Humanos sejam julgados e a melhoria das condições de vida. Exigências que apontam para a necessidade de derrotar um dos modelos mais vorazes do capitalismo, o neoliberalismo.

Um dos principais protagonistas dessa longa resistência foi o movimento estudantil que, na história recente do Chile, se manifestou contra as políticas neoliberais que desmantelaram a educação pública. As mobilizações mais lembradas, por sua criatividade, imensa participação e pela adesão de outros setores, foram as da “Revolução dos Pinguins”, ocorrida nos anos de 2006 e 2011.

O Chile vive um heroico processo revolucionário, no qual a juventude voltou a ser a protagonista da história. As “evasões em massa” (pula catraca) no metrô de Santiago contra o aumento das passagens decretado por Piñera acenderam o pavio da explosão popular. A partir de então, imensos setores perderam o medo e aderiram à luta impulsionados pelo alto custo de vida e aumento dos preços da eletricidade, água e medicamentos. Rapidamente o exemplo de Santiago ecoou por todo o país, mostrando que essa sociedade perfeita, esse “oásis” na América Latina, um paradigma de defensores do mercado, um exemplo de desenvolvimento e estabilidade na região, não passava de uma fachada .

As medidas adotadas por Piñera atingiram o bolso da grande maioria dos chilenos, que contam com um salário mínimo de 387 dólares (301.000 pesos), insuficiente para sobreviver até o final do mês, apesar de a cesta básica custar 241 dólares. Cerca de 11% da população é de idosos e vive com uma pensão miserável inferior a 150 dólares.

A privatização indiscriminada dos setores de saúde e educação deixou a população sem outra opção a não ser endividar-se para acessar esses “serviços”, tendo sido privatizadas inclusive as estradas e o serviço de água potável. Por outro lado, a classe trabalhadora foi explorada ao máximo para sustentar um sistema econômico podre que, desde os anos da ditadura de Pinochet, não conseguiu resolver os problemas mais urgentes dos chilenos.

Com o peso de toda essa frustração e o ódio contido, os trabalhadores, a juventude desempregada, os estudantes, os idosos, as mulheres, os artistas e todo o povo em geral aderiram às manifestações. Rapidamente, dezenas de mobilizações em massa tomaram ruas e praças. Imensas concentrações, panelaços e inúmeras formas de protesto emocionam o mundo.

Além disso, como resultado da agitação social e da infiltração de forças repressivas, como vimos no Equador, houve incêndio em estações, saques e o inevitável confronto entre manifestantes e militares e policiais. Em resposta, novas e variadas formas de autodefesa foram criadas e adotadas, as quais, graças aos corajosos jovens, protegem as concentrações realizadas na “Praça da Dignidade”, onde mais de um milhão de pessoas chegaram a se reunir.

Diante desse legítimo ato de democracia, Sebastián Piñera respondeu com uma repressão brutal, decretando estado de emergência e toque de recolher na tentativa de desgastar a insurreição. Mas a população, que carrega em sua memória a ferida aberta da ditadura, não está disposta a suportar um estado ditatorial novamente. Assim, trabalhadores e organizações sociais organizaram a greve e as ruas explodiram em todo o Chile.

Foram organizadas assembleias em todos os lugares e na linha de batalha foi organizada a autodefesa popular. Isso foi necessário porque os chilenos que estão nas ruas são vítimas de inúmeros abusos da repressão militar e, principalmente, dos odiados carabineros, que são responsáveis por pelo menos 23 mortos, vários feridos, 6.300 detidos, torturados, mais de 200 pessoas com graves lesões oculares e até abuso sexual praticado por militares e policiais.

Por esse motivo, a palavra de ordem Fora Piñera! tornou-se a principal palavra de ordem das manifestações. Em nível internacional a solidariedade não tardou. De atletas a artistas apoiam a luta no Chile. Organizações de trabalhadores, civis e grupos de todos os tipos fazem manifestações em frente às embaixadas chilenas pelo mundo.

Desse modo, a força da revolta fez com que o governo Piñera se apressasse em mudar seu gabinete e dar luz verde a promessas há longo tempo adiadas para acabar com os protestos, inclusive sendo forçado a aceitar a proposta de uma nova Assembleia Constituinte, mas restringindo sua organização às amarras do parlamento.

Da mesma forma, os partidos tradicionalistas aceitaram o acordo de paz pelas costas do povo que permanece nas ruas com a clara consciência de que não se pode confiar no governo repressivo de Piñera e que não há acordo a ser feito sobre o sangue de companheiros mortos, torturados, mutilados e presos. Por esse motivo, o povo chileno continua nas ruas lutando e organizando a resistência.

No Equador, muitos setores rejeitam o “modelo bem-sucedido do Chile”, que tanto a burguesia equatoriana quanto a latino-americana defendem, e apoiam a luta do povo chileno pela DIGNIDADE. Em nosso país, tivemos uma insurreição vitoriosa que derrotou o decreto 883, colocou o governo de Lenin Moreno contra a parede e disse não ao FMI.

Agora, com o processo revolucionário dos irmãos do Chile, reafirmamos que a luta popular é o único caminho que nos garantirá o cumprimento das demandas dos trabalhadores do campo e da cidade, dos povos originários, dos estudantes, dos jovens desempregados sem acesso ao estudo, das mulheres, dos idosos, dos aposentados e de todo o povo pobre.

Nós, do MAS (Movimento ao Socialismo) do Equador, saudamos a coragem do povo chileno e chamamos todas as organizações sociais, trabalhadores, estudantes do ensino médio e universitário, coletivos de mulheres e todos os tipos do Equador a continuarmos impulsionando a campanha de solidariedade internacional com o povo do Chile.

Conclamamos o povo chileno a permanecer nas ruas até a queda de Piñera e seu governo criminoso,  seguir fortalecendo as assembleias populares como base de um futuro governo de trabalhadores, camponeses e do povo pobre. Mas, acima de tudo, chamamos todas as lutadoras e os lutadores chilenos que se forjaram nesse processo de mobilização a se organizarem em um partido revolucionário que possa canalizar a indignação desta insurreição na direção a uma sociedade sem exploração, uma sociedade sem classes, uma sociedade socialista.

Por isso, convidamos você a conhecer o Movimento Internacional dos Trabalhadores (MIT), seção chilena da Liga Internacional dos Trabalhadores, uma organização revolucionária que sempre lutou consequentemente ao seu lado.

Continuar nas ruas até a queda de Piñera!

Fora o imperialismo e o FMI da América Latina!

Vivam os cabildos* e as assembleias populares!

Viva a luta do povo chileno, equatoriano e latino-americano!

Viva a autodefesa do povo!

Justiça e reparação para as vítimas da repressão brutal!

Liberdade para os presos políticos!

Pela construção de um partido revolucionário internacional!

*Cabildo: Conselhos populares

Tradução: Luana Bonfante