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O fim do apartheid na África do Sul, regime de segregação racial imposto pela minoria branca durante décadas, não conseguiu acabar com outro tipo de segregação: a social. Quando Nelson Mandela saiu da prisão em 1990 pela força da revolução contra a colonização de ingleses e holandeses, a esperança de dias melhores tomou conta de toda a população negra do país.


 


No entanto, o freio à revolução, finalmente vitoriosa em 1994, e o acordo feito pelo Congresso Nacional Africano (CNA), o partido de Mandela, com a minoria branca “esclarecida” para a manutenção do sistema capitalista contribuiu apenas para a construção de uma forte classe média negra e de uma burguesia nativa, com a transferência de várias empresas sul-africanas para proprietários negros. A maioria da população ainda espera pelas promessas não cumpridas.


 


O balanço da administração de Mandela e de seu último sucessor, Thabo Mbeki, que deixou o cargo no ano passado após nove anos, não poderia ser mais estarrecedor. Apesar de um crescimento econômico médio de 5% nos últimos quatro anos, a desigualdade social aumentou 10% em relação ao período do aparheid (1948-1994), deixando 40% da população abaixo da linha de pobreza e 8 milhões dos 49 milhões de habitantes do país vivendo em favelas.


 


Com a primeira recessão em 17 anos, fruto da crise econômica mundial, o desemprego oficial de 23,4%, que pode superar os 30%, tende a aumentar ainda mais. A população é obrigada a suportar uma inflação de 8% com os preços de alimentos e combustíveis cada vez maiores. A situação é particularmente grave neste início de ano, devido ao rigoroso inverno sul-africano, que todos nós pudemos conhecer pela transmissão dos jogos da seleção brasileira na Copa das Confederações. Os barracos das favelas não têm aquecimento, energia elétrica nem água encanada. Tudo isso pode piorar com a previsão de um encolhimento para 2% no PIB do país em 2009.


 


Novo governo, velha política


 


Jacob Zuma assumiu a presidência em maio depois de dois anos de disputas internas no CNA, contando com o apoio da poderosa central sindical sul-africana, a Cosatu, e do Partido Comunista. Seu ministério de 34 pastas conta com sete ex-sindicalistas da Cosatu, entre eles os ministros do Trabalho e do Desenvolvimento Econômico, e quatro membros do PC. Sua vitória eleitoral foi obtida com a promessa de priorizar a erradicação da miséria, estender a assistência à infância e universalizar o sistema público de saúde.


 


Os trabalhadores, contudo, não quiseram esperar que as promessas caíssem do céu. Poderosas manifestações em várias cidades da África do Sul, com milhares de manifestantes ocupando ruas, começaram a ter lugar no dia 23 de julho para exigir a melhoria de serviços essenciais, principalmente de moradia, água e eletricidade.


 


Em Durban, houve saques em supermercados e 94 pessoas foram presas. Em Siyathemba, nos arredores de Balfour, a população queimou pneus e jogou pedras contra a polícia, que usou bombas de gás lacrimogêneo e projéteis de borracha para tentar dispersar a multidão enraivecida.


 


As ações policiais contra a população, cansada de esperar pelo cumprimento de promessas vazias e as melhorias que o fim do apartheid deveria trazer, mostraram a real natureza do governo de Zuma, cujo ministro da Governança Cooperativa, Sicelo Shiceka, não hesitou em declarar que “a lei tem que seguir seu curso. Vamos responder duramente. Não vamos permitir que ninguém alcance seus objetivos por meios ilegais”.


 


Mas tais ameaças não surtiram efeito. A greve de 150 mil funcionários públicos irrompeu, paralisando o transporte, a coleta de lixo e o fornecimento de eletricidade nas principais cidades, como a capital Johanesburgo, Pretória e Cidade do Cabo. Sua reivindicação é a melhoria dos serviços e aumento salarial de 15%.


 


A classe operária entrou em cena, com greves que fecharam os portões de várias fábricas químicas e de outros ramos para exigir o mesmo índice de aumento salarial. Os trabalhadores estatais de comunicações prometeram deixar as telas de TV do país sem imagens se sua demanda de 12% de aumento não for atendida, e professores e médicos do Estado também planejam entrar em greve se não receberem os bônus prometidos há muito tempo.


 


O que dizem os trabalhadores e seus dirigentes


 


Muitas vezes, os governos acusam os trabalhadores de fazerem exigências excessivas, ou de não terem paciência para esperar pelos efeitos de suas políticas ditas sociais. Porém, no caso da África do Sul, este argumento é falso até a raiz. Basta conhecer as declarações dos manifestantes.


 


Nicolas Mabitsela, afirmou: “quero viver como Zuma, numa casa com eletricidade. Estou cansado de viver em um barraco, quero um vaso sanitário com descarga”. Já o desempregado Bongani Mazibuko disse que “este governo está podre até a raiz”.


 


Exigir uma casa com vaso sanitário não parece ser algo insólito ou impossível para o governo do único partido no poder desde o fim do apartheid. É por isso que o prefeito de Balfour, Lefty Tsotetsi, que prometeu destinar mais dinheiro para a educação, combater o desemprego e construir banheiros, teve sua casa em construção queimada pela população. Com certeza, ela tinha banheiros com vasos sanitários.


 


É nesse cenário que a Cosatu e o PC passam a exigir uma participação mais decisiva no governo. O secretário geral da Cosatu, Zwelinzima Vavi, afirmou que “nós fazemos a política e o governo implanta. O governo não mais lidera”. Talvez muito tarde para duas organizações que apóiam os governos do CNA desde 1994 e num momento em que a bola está nos pés dos trabalhadores.


 


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Artigo publicado no site do PSTU em 04/08/2009