COMPARTILHAR

Nos dias 14 e 15 de dezembro foi realizado, em Johanesburgo, o pré lançamento do Partido Socialista Revolucionário dos Trabalhadores. Estiveram presentes por volta de mil delegados representando os nove estados da Federação. O novo partido nasce apoiado pelo movimento sindical mais combativo do país representado pelo NUMSA e outros sindicatos, e também por parte importante da central sindical independente, SAFTU.

Por: Cesar Quiximba

As razões para a criação de um novo partido no país:

Depois de 25 anos de governo do CNA (Congresso Nacional Africano) apoiado pela Cosatu (Congress of South African Trade Unions – central sindical) e pelo Partido Comunista da África do Sul, os trabalhadores ao lançarem o seu partido marcam definitivamente a ruptura com o partido que teve como sua principal expressão: Nelson Mandela.

Este governo tripartite (CNA + COSATU + PC) tem  25 anos de conciliação com a burguesia nacional e imperialista, chegando ao extremo de ser co-autor do Massacre de Marikhana que resultou na morte de 34 trabalhadores. Como se não bastasse o assassinato, os que sobreviveram muitos foram processados e presos.

No plano econômico, o CNA, COSATU e PC seguiram com o favorecimento ao capital estrangeiro tal qual na época do Apartheid. Hoje a classe trabalhadora, ao invés de superar a miséria do apartheid, vive em condições miseráveis e segundo a pesquisa do próprio governo a desnutrição da população já é quase igual ao último período do apartheid.

Ao fundar o Workers Party a classe trabalhadora, sem dúvidas, está promovendo um acerto de contas com o CNA, Cosatu e PCdaAS

O clima do congresso:

Na chegada das delegações percebia-se as caras e os corpos que se mostravam cansados. O cansaço da viagem era real, mas o verdadeiro cansaço era da vida sofrida neste rico país produtor de ouro, diamante e outros minerais, além de um parque industrial diversificado. A África do Sul é o segundo país mais importante do continente, só perde para a Nigéria petroleira.

Os rostos cansados, o olhar distante e triste era o que marcava os delegados. Trabalhadores, moradores das favelas, desempregados e alguns poucos jovens carregavam no rosto o ar da falta de esperança.

O Congresso começou e já nas primeiras falas os delegados se manifestam. Cantam, dançam e extravasam suas esperanças. Muitos delegados não falam inglês, os setores mais pobres da sociedade, porém falam pelos menos três outras línguas locais. Mesmo assim, aquele que não entendesse a língua entendia a animação e a esperança.

Das várias músicas cantadas e dançadas, escolhemos esta em sesotho com sua respectiva tradução, por expressar o clima dos delegados:

For a long time; We gave our sweat

or power to you;  For a long time

We gave our blood to you;  Now it is time for us as worker

To stand up; To give leadership to the revolution

Por muito tempo; Nós demos nosso suor

ou poder para você; Por muito tempo

Nós demos nosso sangue para você; Agora é hora de nós, como trabalhadores

Levantar-se; Para dar liderança à revolução

Velhos militantes contavam que este era um momento histórico, pois a classe trabalhadora que sempre correu atrás do nacionalismo burguês ou dos partidos da democracia burguesa como o CNA  agora tomava a decisão de construir seu partido revolucionário. Outro militante dizia que desde 1921 quando foi fundado o Partido Comunista, ainda na época áurea da III Internacional, nunca mais a classe trabalhadora havia construído uma organização que se reivindicasse revolucionária e com composição de massas.

A emoção tomou conta do plenário. Era fácil encontrar pessoas emocionadas. Para aqueles que já não acreditam na classe trabalhadora e só vêem o parlamento como saída, seguramente, se sentiriam deslocados neste congresso.

Programa e Estatuto:

O esboço de programa e Estatuto foram apresentados no Pré Lançamento do Workers Party. Estes documentos deverão ser discutidos e votados no Congresso Fundacional, em março de 2019.

Os textos são longos e optamos por apresentar o preâmbulo dos Estatutos a serem votados.

Observando a história de todas as sociedades até agora vemos que tem sido uma história de lutas de classes;Reconhecendo que vivemos na época do imperialismo e na decadência e nos últimos dias do capitalismo mundial;Consciente de que o sistema capitalista sul-africano e o Estado foram impostos a partir do exterior e continuam a ser sustentados pelo imperialismo;Consciente de nossa experiência histórica e atual da natureza brutal e totalizante do colonialismo e como os negros em geral e os africanos em particular têm sido historicamente despossuídos, oprimidos, dominados e marginalizados racialmente pela supremacia branca na África do Sul;

Aprendemos com a experiência de todas as antigas colônias imperialistas e com a experiência de 1994 que é impossível resolver a questão nacional, de gênero, raça e classe na África do Sul e no resto do mundo pós-colonial sem simultaneamente derrotar o capitalismo e o imperialismo e estabelecer o socialismo;

Nós, o Partido Socialista dos Trabalhadores Revolucionários, damos a nós mesmos este Estatuto, guiado pelo Marxismo-Leninismo, como uma ferramenta revolucionária em nossas lutas para educar, mobilizar e organizar a classe trabalhadora em nosso Partido e em sua missão histórica de derrotar o imperialismo e o capitalismo e estabelecer uma África do Sul Socialista, uma África e um Mundo, como um prelúdio para avançar para uma sociedade verdadeiramente livre e sem classes: por uma África do Sul Comunista, uma África e um Mundo Comunista.

O diamante foi achado. Resta cuidá-lo, preservar e lapidar

Em um país onde o sonho de todo trabalhador é encontrar um diamante gigante nos trabalhos de mineração artesanal, a parábola do diamante do Workers Party foi lembrada por alguns ativistas.

Para eles, o diamante foi encontrado. E o diamante é o Workers Party. É preciso preservar e cuidar desse diamante, mas é preciso também lapidar. E lapidar significa, entre outras tarefas, ampliar a democracia interna, dar vida aos núcleos de base, eleger os dirigentes, aprofundar o programa anticapitalista e discutir o socialismo e suas experiências. O modelo socialista a ser seguido se traduz na discussão, por exemplo, se o modelo chavista deve ser seguido ou não. Um importante dirigente, no plenário, afirmou que o modelo a ser seguido não é o do PT brasileiro, mas o modelo chavista.