No dia 27 de julho de 2020, o palestino de 49 anos Maher al-Akhras foi preso pelas forças de ocupação israelenses na cidade de Selit El Dahir, próxima à Jenín na Palestina ocupada.

Por: Fábio Bosco*

Sem qualquer acusação formal ou decisão judicial, ele foi encarcerado no presídio Ofer, próximo à Ramallah, a título da famigerada “detenção administrativa”, uma violação do direito internacional.

A “detenção administrativa” é uma prisão sem o devido processo legal (sem acusação formal, direito de defesa ou decisão judicial) que pode durar seis meses renováveis ilimitadamente. Atualmente há cerca de 4.400 presos políticos palestinos nos cárceres israelenses, entre os quais 39 mulheres e 155 crianças. Deste total, 355 estão sob detenção administrativa.

Maher Al-Akhras já havia sido detido por 16 meses em 2009, e por 11 meses em 2018. Por isso desde o primeiro dia, Maher Al-Akhras entrou em greve de fome por sua liberdade imediata.

Desde então se formou um movimento internacional pela liberdade à Maher Al-Akhras que incluiu importantes organizações de direitos humanos como a B’tSelem e a Addameer.

Em 6 de novembro, após 103 dias em greve de fome, as forças de ocupação israelenses se comprometeram a soltá-lo em 26 de novembro. Maher Al-Akhras então suspendeu a greve de fome e deve permanecer hospitalizado para recuperação.

No dia 7 de novembro, Maher Al-Akhras, no leito do hospital, deu a seguinte declaração gravada e veiculada nas mídias sociais:

“Agradecemos à Síria pela sua honorável posição por muitos anos frente à conspiração dos chamados grupos islâmicos pelos quais o Islã não é responsável. Saudações à Síria e seu heroico exército que combateu esses criminosos apóstatas e seus auxiliares do exterior e de grandes potências. Que Deus queira que a Síria triunfe sobre eles e libere sua terra para o povo sírio, o governo sírio e o exército sírio, para que apoiem nossa causa como sempre fizeram. Agradeço a eles por tudo que nos deram.”

Não apoiarás a tirania alheia

A reação contra sua declaração foi imediata. Milhares de posts reverberaram nas mídias sociais em língua árabe, principalmente de sírios, mas também de palestinos, criticando duramente sua declaração. Um deles foi do jornalista sírio Faisal Al-Kasim, apresentador de um dos mais antigos e famosos programas sobre política no mundo árabe na rede Al-Jazeera.

Após uma enxurrada de críticas, circulou pelas mídias sociais uma declaração escrita atribuída à Maher Al-Akhras:

“Em nome de Deus, o clemente, o misericordioso. Louvado seja Deus senhor do universo. Oremos para que a paz esteja com o mais honorável de toda a criação.”

Inicio com meus sinceros agradecimentos e gratidão a todos os povos árabes e islâmicos que me apoiaram, e os apoiadores da liberdade do mundo. Seu apoio teve um grande impacto sobre a minha firmeza e vitória.

À luz das reações ao meu discurso sobre a Síria, eu gostaria de enfatizar o seguinte:

Eu espero que o povo sírio tenha segurança e estabilidade, e que tenha fim esta guerra que destruiu esse país que foi um suporte para a resistência palestina e o povo palestino. Eu rejeito a injustiça e a tirania contra os povos árabes. Eu apoio as justas reivindicações dos povos pela preservação de sua dignidade, humanidade e direito de expressão.

Eu rejeito a intervenção estrangeira contra os povos árabes, seu assédio e a implementação de agendas estrangeiras. Isto é contra o interesse do país. Como um palestino, tenho sofrido e ainda sofro com a injustiça. Eu me posto na trincheira dos oprimidos e nunca ajudarei o opressor. Se você viu algum erro meu no passado, reze por mim, por orientação e perdão. Peço perdão se ofendi algum irmão.

Obrigado por toda a solidariedade e apoio. Vocês apoiaram uma causa palestina, não uma causa puramente pessoal.

Não há lealdade a um opressor, tirano ou traidor.

Que a paz, a piedade e a benção de Deus estejam convosco.

De seu irmão em cativeiro, Maher Al-Akhras”

Independentemente desta declaração escrita, sua defesa do regime sírio levantou uma discussão muito importante sobre os caminhos para a libertação da Palestina.

Quem são os aliados da causa palestina

A discussão sobre quem são os aliados da causa palestina é antiga. Em geral sempre se espera dos regimes árabes o apoio aos seus irmãos palestinos.

Após a experiência da revolução palestina e 1936-39, da Nakba e da Naksa, a melhor definição foi sem dúvida aquela dada pelo revolucionário palestino Ghassan Kanafani que sintetizou em poucas linhas quem são os inimigos da libertação da Palestina:

“Entre 1936 e 1939, o movimento revolucionário palestino sofreu severo revés nas mãos de três inimigos que se constituíram, juntos, na principal ameaça ao movimento nacionalista na Palestina, em todos os estágios subsequentes de sua luta: a liderança local reacionária; os regimes dos Estados árabes vizinhos; e o inimigo imperialista-sionista.“ (KANAFANI, Ghassan, A Revolta de 1936-39 na Palestina, editora Sundermann, 2015, página 27).

Sua definição se verifica até os dias de hoje seja para os regimes que mantêm relações diplomáticas com o Estado racista de Israel como é o caso do Egito e da Jordânia, seja também para o regime libanês (hoje hegemonizado pela aliança entre o general Michel Aoun e o Hezbollah) e sírio sob a dinastia Assad.

Por isso, a declaração de Maher al-Akhras ofende a memória dos palestinos que, em luta por libertação, enfrentaram a violência do regime assadista. Vejamos alguns casos mais conhecidos.

Bloqueio à ajuda para o palestinos durante os dez meses do “setembro negro” no qual o regime jordaniano massacrou os palestinos em 1970 e 1971. Veja o que escreveu o marxista egípcio Lotfallah Soliman:

“Se ele (Nasser) estivesse vivo, (o rei) Hussein jamais teria ousado prosseguir sua ofensiva, que duraria até 17 de julho de 1971, e suprimir a presença da resistência palestina na Jordânia, ajudado nisso por Hafez al-Assad que, tendo conseguido monopolizar o poder em Damasco, bloqueava em Lataquia as armas pesadas que a Argélia destinava aos palestinos.” (SOLIMAN, Lotfallah, Por uma história profana da Palestina, editora brasiliense, 1990, página 196).

O massacre do campo palestino de Tal az-Zaatar em 1976. Veja a descrição do intelectual marxista palestino Hanna Batatu:

“Para o palestino comum, as ações de Assad tinham a aparência de facadas nas costas. Sua amargura contra Assad se aprofundou com a tragédia do campo de refugiados de Tal Az-Zattar, a qual eles também colocam na sua conta. Situado dentro de um enclave maronita, o campo suportara desde 12 de junho (de 1976) as temerosas tensões de uma tentativa sustentada de reduzí-lo pela fome. Neste momento, ao segurar as principais forças palestinas nas montanhas, Assad de fato liberou as milícias de direita para um ataque total a Tal az-Zaatar. Sua queda em 12 de agosto, após uma dura resistência a partir de abrigos subterrâneos, levou ao massacre pelas mãos das falanges e dos homens de Camille Chamoun de não menos que 3 mil civis presos no campo.” (BATATU, Hanna, Syria’s Peasantry, the Descendants of Its Lesser Rural Notables, and Their Politics, Princeton University press, 1999, página 300)

Guerra dos Campos promovida pela AMAL contra os palestinos, apoiada pelo regime sírio. Veja o que escreveu o dirigente marxista libanês Fawwaz Traboulsi sobre um dos “confrontos mais sangrentos da guerra (civil libanesa): a ‘guerra dos campos’ entre a AMAL e as organizações palestinas (em Beirute ocidental e no sul do Líbano)”:

“ Após a retirada de Israel em 1985, a AMAL estava satisfeita em suspender a maioria de suas atividades de resistência, enquanto o papel do Hezbollah progredia às custas de outras organizações, principalmente da esquerda. A nova força rapidamente se tornaria o único movimento de resistência, fortemente apoiado pelas autoridades sírias que empregavam todos os esforços disponíveis para bloquear a participação dos comunistas na resistência. Por outro lado, o Hezbollah desaprovava publicamente a ‘guerra dos campos’ promovida pela AMAL, uma guerra encorajada e armada por Damasco e apoiada por uma votação parlamentar revogando os Acordos do Cairo” (TRABOULSI, Fawwaz, A History of Modern Lebanon, Pluto Press, 2007, página 230).

Proteção ao criminoso Elie Hobeika após os massacres de Sabra e Chatila em 1982. Veja a descrição do jornalista Robert Fisk, recém falecido:

“Elie Hobeika, o falangista que liderara os assassinos de Sabra e Chatila, foi nomeado para a chefia da milícia cristã – para substituir Geagea, que caíra em desgraça, e apaziguar a Síria.

A comissão de inquérito israelense sobre o massacre registrou a pergunta dirigida por rádio a Hobeika por um colega falangista sobre o que deveria ser feito com cinquenta mulheres e crianças palestinas aprisionadas. Sua resposta: ‘Esta é a última vez que você vai me fazer uma pergunta dessas. Você sabe exatamente o que fazer.’ … Mais tarde, quando Geagea desferiu um contragolpe, Hobeika fugiu para Damasco e os sírios o puseram em contato com uma milícia cristã rival em Zahle.” (FISK, Robert, Pobre nação, editora Record, 2007, página 805).

Repressão brutal dentro da Síria. O famoso escritor libanês e reconhecido apoiador da causa palestina Elias Khoury publicou em 2018 um artigo chamado “Palestina e o ramo palestino” no qual denuncia a polícia política e centro de tortura e prisão criado pelo ditador sírio Hafez Al-Assad para controlar os refugiados palestinos no país denominado Ramo Palestino ou Ramo 235. Situado na estrada que conduz ao aeroporto de Damasco, suas dependências têm três andares. “Em seus corredores centenas de combatentes palestinos desapareceram”, afirma Khoury. Uma de suas especialidades era a tortura, sendo o pioneiro em tortura sexual.

A destruição do campo de refugiados palestinos de Al-Yarmouk. O campo foi completamente sitiado pelo regime sírio em 8 de julho de 2013, em particular pela FPLP (Comando Geral) de Ahmed Jibril, e posteriormente bombardeado pela força aérea síria e russa. Totalmente esvaziado, a área está destinada à especulação imobiliária pelo regime sírio. O silêncio sobre o massacre ocorrido no campo de refugiados foi lamentado pelo escritor palestino-americano Talal Alyan:

“Al-Yarmouk permanece uma espécie de curiosidade histórica, uma excessão aos numerosos massacres sofridos pelo povo palestino ao longo dos anos, não devido à singular brutalidade pois a história palestina garante que tal distinção seja quase inatingível. O que persiste é a falta de reação pública de muitos palestinos a essa catástrofe. Houve resposta e cobertura deliberadamente quietas quanto ao massacre da comunidade de Al-Yarmouk. Além disso, há uma acomodação tácita daqueles tão rumorosos em torcer pelos corruptos executores desse cerco. A aposta representada pelo silêncio, pela neutralidade contém uma calamidade ainda maior. A destruição do campo de refugiados de Al-Yarmouk sinaliza uma severa, talvez sem precedentes, ruptura na coletividade palestina. (ALYAN, Talal, The Death of Palestine: Two years of Siege in Yarmouk”, The World Post, 16 de dezembro de 2014, citado em AL-SHAMI, Leila e YASSIN-KASSAB Robin, País em Chamas – Sírios na revolução e na guerra, editora Sundermann, 2018).

Perspectivas para o fortalecimento da resistência palestina

A heroica resistência palestina, feita pelos milhões de palestinos e palestinas que não arredam o pé de suas terras e de seu direito ao retorno e à autodeterminação, precisa retomar os ensinamentos de Ghassan Kanafani e se unir aos seus verdadeiros aliados, que são os povos árabes e os defensores da liberdade em todo o mundo.

A causa palestina simboliza a luta de todos os povos contra a opressão e a exploração.

O povo sírio se levantou contra a ditadura Assad em 2011 e sofreu um massacre com mais de 500 mil mortos (90% dos quais pelas mãos das forças do regime sírio e seus aliados russos e iranianos), e hoje há mais de cem mil presos em centros de tortura e extermínio na Síria além de 13 milhões de sírios expulsos de suas casas, o que configura uma Nakba síria.

É necessário estender a solidariedade palestina ao povo sírio, assim como a todos os povos que se levantam por liberdade e justiça social. Nesse sentido, a declaração de Maher Al-Akhras vai na contramão da história.

A construção de alianças verdadeiras com a classe trabalhadora árabe, e não com seus regimes burgueses, fortalecerá as condições para a libertação da Palestina e de todo o mundo árabe, contra o colonialismo europeu e americano e seus agentes na região. Nesta perspectiva temos que trabalhar a partir de 2021.

* artigo originalmente publicado em: https://www.monitordooriente.com/20201211-maher-al-akhras-e-os-caminhos-para-a-libertacao-da-palestina-2/#.X9O_IBmJRu4.whatsapp