Governo Bolsonaro: Mil dias de genocídio, desemprego, fome e destruição ambiental

O vergonhoso discurso de Bolsonaro na abertura da 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) foi o coroamento de um passeio do genocida pelos Estados Unidos marcado por um desfile de negacionismo e deboche. Quando seu ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mostrou o dedo do médio a manifestantes, na verdade se dirigia aos brasileiros que padecem de um verdadeiro genocídio cujos números oficiais, subnotificados, chegam a 600 mil mortes, e um rastro de desemprego, carestia, fome e destruição ambiental.

Por: PSTU Brasil

Resultados diretos de um mandato que chega aos seus mil dias aplicando a ferro e fogo uma política ultraliberal e entreguista que coloca os lucros dos banqueiros, grandes empresários, multinacionais e latifundiários acima de tudo. E que mantém ainda uma permanente ameaça golpista no ar, apontando para uma saída autoritária caso não vença as eleições.

O discurso na ONU, muito provavelmente escrito por Steve Bannon, o ideólogo da ultradireita que ajudou a eleger Trump, foi recheado por mentiras e negacionismo. Além de defender o “tratamento precoce”, eufemismo para os medicamentos comprovadamente ineficazes ao combate da Covid-19, Bolsonaro pintou um país que só existe nas correntes de sua indústria de fake news. Um país no qual o governo não enfrenta denúncias de corrupção e se preocupa com vacinas, empregos e o meio ambiente. Palavras dirigidas, na verdade, a sua cada vez menor e mais radicalizada base, numa tentativa de conter o derretimento e manter fidelizado seu séquito.

Não podemos esperar mais um ano

Enquanto o país passa por um verdadeiro processo de desmonte, recolonização e profunda regressão social, a oposição, tanto da direita tradicional quanto da esquerda parlamentar, com o PT à frente, tem uma política de não tirar Bolsonaro agora, mas desgastá-lo eleitoralmente. O conjunto majoritário da burguesia, em que pese não o considerar como alternativa para 2022, tampouco quer um impeachment, de olho na boiada que consegue, por hora, passar no Congresso Nacional.

A cada dia, porém, Bolsonaro vai impondo cada vez mais ataques. Alguns deles irreversíveis, como os mortos na pandemia ou a destruição ambiental. É nesse tempo, ainda, que Bolsonaro avançará em sua perspectiva de golpe. Embora o ensaio do 7 de setembro tenha sido derrotado, essa política não foi abandonada, e uma alternativa à lá Capitólio está na mesa do genocida.

É preciso massificar as manifestações pelo Fora Bolsonaro e Mourão já. Com uma ampla unidade de ação com todas as forças que estejam dispostas a isso, sem qualquer veto, incluindo aí até a direita. Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora precisa se organizar para impor o Fora Bolsonaro até o fim, preparando, desde as bases, uma grande greve geral que golpeie para valer esse governo, ao mesmo tempo em que combate também essa política econômica de fome, desemprego, destruição ambiental e genocídio indígena.

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MIL DIAS

Um governo marcado corrupção

Na tribuna da ONU, Bolsonaro disse que “o Brasil está há dois anos e oito meses sem nenhum caso concreto de corrupção”. Isso nem mesmo os mais convictos bolsonaristas acreditam. Bolsonaro já sofria investigações sobre os esquemas das rachadinhas quando passou a ser investigado por esquemas clandestinos de financiamento e difusão de fake news em massa durante as eleições. Seu ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles foi obrigado a sair, após ser revelado seu envolvimento em tráfico internacional de madeira ilegal.

A cereja do bolo, contudo, foram as revelações na CPI do Senado que desvelam um esquema criminoso de fraudes e superfaturamento na compra de vacinas, como a Covaxin, intermediadas por empresas ligadas a bolsonaristas. Esquema que liga diretamente o governo, a cúpula das Forças Armadas e empresários num arranjo corrupto responsável por milhares de mortes na pandemia.

MIL DIAS

Devastação ambiental em favor do agronegócio

Um dos momentos mais vergonhosos no discurso da ONU foi quando tentou se vender como defensor do meio ambiente. A realidade, porém, é o contrário disso. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), os dois primeiros anos do governo Bolsonaro foram marcados por um aumento de 56% no desmatamento da Amazônia. Foram 10.490 quilômetros quadrados de floresta derrubados, quase metade do estado de Sergipe. As queimadas tornaram-se símbolos desse governo ecocida.

Resultado de uma política consciente de devastação do meio ambiente, com o desmonte de órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em favor das grandes madeireiras e mineradoras.

MIL DIAS

Avanço do extermínio indígena

Bolsonaro disse que, no Brasil, os povos indígenas estariam “vivendo em suas terras em liberdade”. A única liberdade que seu governo garantiu, porém, foi a dos ruralistas assassinarem indígenas e a negação dos processos de demarcação de territórios, completamente paralisados em sua gestão. São atualmente, segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 829 terras indígenas à espera de regularização. Enquanto isso, a Fundação Nacional do Índio (Funai) é aparelhada pelo agronegócio.

Neste momento, o Supremo Tribunal Federal (STF) vota a famigerada tese do marco temporal, que limita a demarcação em áreas ocupadas por indígenas até a promulgação da Constituição de 1988, ignorando 500 anos de perseguição, genocídio e expulsão de populações inteiras de suas terras. O governo Bolsonaro já avisou que, se derrotado no Supremo, vai lançar mão de um projeto de lei para impor a medida no Congresso Nacional.

MIL DIAS

Um governo contra as mulheres, os negros e LGBTIs

Entre os mais pobres, são os setores oprimidos como as mulheres, a população negra e as LGBTIs que mais morrem na pandemia e mais sofrem com o desemprego, a fome e a precarização. Além disso, Bolsonaro ataca diretamente esses setores, desmontando, por exemplo, as políticas públicas voltadas às mulheres e LGBTIs.

No ano passado, o Ministério da Mulher de Damares não gastou um centavo da verba de R$ 4,5 milhões que havia para o departamento LGBTQIA+. Já em 2021, as verbas federais voltadas à política para mulheres foram reduzidas pela metade. Em relação à população negra, tornou-se marca desse governo o racista e capitão-do-mato Sérgio Camargo, à frente da Fundação Palmares.

CONCILIAÇÃO DE CLASSES

A mudança não virá junto com os bilionários que estão lucrando com a pandemia e a miséria

A maior parte da burguesia busca uma alternativa a Bolsonaro para 2022. Um setor já está fechado com Lula, e outro ainda busca o que se convencionou chamar de “terceira via” (um candidato que continue tocando a atual política econômica de Guedes, mas sem o negacionismo e as ameaças de ruptura com o atual regime). Já se aventa, inclusive, a opção de se “remodelar” Bolsonaro numa versão mais light, embora a burguesia tenha tentado desde o início do mandato fazer isso, sem sucesso. A entrevista de Bolsonaro à revista Veja, fingindo-se de moderado, porém, mostra que essa opção dificilmente viável (pelo desgaste do governo e pelo próprio caráter do bolsonarismo) está colocada à mesa.

Grande parte da burguesia se afasta de Bolsonaro por discordar de sua política negacionista e genocida em relação à pandemia, algo que, evidentemente, não é bom para seus negócios. E pelos arroubos autoritários que criam um clima de instabilidade política que tampouco é favorável a seus interesses. À medida que esse governo se torna disfuncional, as várias opções de substituí-lo por um projeto mais confiável vão ganhando força.

De resto, estão 100% com Bolsonaro no ataque aos empregos, direitos, na destruição dos serviços públicos (com eufemismos como “enxugamento” ou reforma administrativa) e nas privatizações generalizadas. Assim como no “teto dos gastos”, privilegiando o pagamento da dívida aos banqueiros, enquanto o conjunto da população empobrece cada vez mais. Ou seja, ser contra Bolsonaro, hoje, não significa, para o andar de cima, ser contra a sua política econômica, mas o contrário. Querem alguém que tenha força e legitimidade para aplicar justamente o projeto que está aí.

“Frente ampla” de Lula tenta se mostrar viável à burguesia

A articulação de Lula e do PT para uma frente ampla com os banqueiros, grandes empresários e ruralistas, juntamente com os partidos do “centrão”, tenta sinalizar que pode cumprir essa função. Aponta para um governo de conciliação de classes com o objetivo de trazer estabilidade, acalmar possíveis explosões sociais, enquanto mantém, em sua essência, a atual política econômica. Nesse projeto está a direção do PSOL, cujo recém-terminado 7º Congresso acaba de chancelar o apoio a Lula já no primeiro turno em 2022.

Alternativas como Ciro Gomes, Sérgio Moro ou tucanos como Doria ou o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tentam ocupar esse espaço, buscando se viabilizar diante do desgaste do bolsonarismo e do rechaço remanescente ao PT.

Se um improvável Bolsonaro repaginado ou uma alternativa da direita tradicional não resolverão nossos problemas, também não o fará um governo de conciliação de classes encabeçado por Lula e PT. Um governo de Lula com a burguesia não reverterá nem mesmo a profunda regressão que vivemos nos últimos cinco anos, porque, mesmo para isso, será preciso enfrentar os interesses dos bilionários. E Lula já disse que nem mesmo taxar os ricos está disposto a fazer.