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A pandemia do coronavírus atingiu com força a economia chinesa, com retrocessos em indicadores chaves que não eram registrados há décadas. O que acontecerá nos próximos meses? Como esta realidade atual e sua dinâmica incidem sobre a economia mundial?

Por: Alejandro Iturbe

Recentemente, um artigo da BBC informava: “O Escritório Nacional de Estatísticas da China divulgou quedas recordes na produção industrial, varejo ou o investimento em ativos fixos, o que, somados a outros índices, antecipam um colapso em múltiplos âmbitos” […]

“A produção industrial (que mede a atividade manufatureira, da mineração e de serviços públicos) caiu 13,5% interanual, a primeira contração desde janeiro de 1990. As vendas a varejo, um indicador chave da situação do consumo na segunda economia mundial, baixaram 20,5% interanual, o maior colapso desde que se tem registro.  Enquanto que o investimento em ativos fixos – que reflete gastos em artigos que incluem infraestruturas, propriedades, maquinário e equipamentos –caiu para 24,5% interanual, outra queda recorde” […] “Segundo o Índice Empresarial Nacional da empresa de pesquisa Trivium, até 16 de março a economia chinesa operava com 69,5% da produção normal” [1].

A taxa de desemprego subiu de 5,2% em dezembro passado para 6,3% em fevereiro de 2020, o maior nível desde o início da publicação dos registros oficiais [2].

A economia chinesa não tinha um retrocesso deste tipo desde 1976 quando a direção de Deng Xiao Ping definiu o começo do processo de restauração capitalista. Hoje, sua economia é dez vezes maior que naqueles anos e tem um peso muito mais significativo na economia mundial.

As causas

Antes da pandemia, a economia chinesa cresceu 6,1% em 2019, o ritmo mais baixo em três décadas. Considera-se, pela combinação de diversos elementos, que um crescimento do PIB chinês abaixo de 7% já representa uma situação de “crise”. Isto é, sua economia vinha então em uma “crise lenta” [3].

Sobre esta base já debilitada, as medidas adotadas para enfrentar e frear o surto do coronavírus (entre 45 e 50 dias de virtual paralisação), afetaram tanto a produção como o consumo e, no primeiro trimestre de 2020, empurraram a economia chinesa abruptamente para baixo, tal como vimos nas cifras já fornecidas. “O consumo privado é o mais afetado. As lojas estão fechadas ou abrem com horários reduzidos, e as atividades de lazer desapareceram. As vendas de automóveis, por exemplo, caíram mais de 80% em fevereiro” [4].

O governo de Xi Jinping vinha tentando dar um peso crescente ao mercado interno no destino dos produtos fabricados na China, diminuindo o peso das exportações. Esta situação dificulta, pelo menos conjunturalmente, esse giro.

Impacto internacional

A economia chinesa é hoje a segunda do mundo, com um peso muito forte tanto nas vendas como nas compras no mercado mundial. Por isso, além da diminuição do mercado interno, esta dinâmica tem um forte impacto sobre a economia internacional em seu conjunto.

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Por um lado, o da oferta, porque deixou de abastecer as cadeias de peças das indústrias de outros (ou a diminuiu drasticamente), e as levou a sua quase paralisação: “as restrições afetaram as cadeias de valor de grandes companhias como o fabricante de veículos Nissan ou Jaguar Land Rover, por exemplo ” [5].

Por outro, o da demanda, a  daqueles países em que comprava alimentos e matérias primas e alguns insumos industriais. Essas exportações significavam um dos motores dessas economias, como o Brasil e a Argentina.

Na semana passada, a Bolsa de Valores de São Paulo caiu 7%. Este resultado refletiu o impacto nas empresas industriais a falta de insumos chineses nas cadeias de produção, o que afeta as exportações industriais brasileiras (eletrônicos e eletrodomésticos). “A LG suspendeu as atividades de sua planta paulista em Taubaté pelos próximos 10 dias. Também ocorreu com a Motorola…A câmara empresarial desse segmento produtivo (Abinee) informou que 57% das empresas associadas tem problemas para receber materiais importados ” [6].

Também impacta a produção agropecuária: “José Ronaldo de Castro,  argumentou que a epidemia do coronavírus irá afetar o PIB agrícola brasileiro, na medida em que a demanda externa de carnes seja reduzida”. É um fenômeno que foi registrado na Argentina, onde a exportação do produto caiu 30% [7].

 “Com um crescimento limitado da China, haverá menos exportações e isso impacta os grandes conglomerados industriais como a Vale e a Petrobrás”. Nesta quarta-feira, as ações de ambas as empresas acusaram o impacto: as ações da petroleira estatal brasileira caíram 9,47%; as da Companhia Siderúrgica Nacional experimentaram uma queda de 10,66%. Evidentemente, as que mais sofreram foram as companhias aéreas: os papéis da GOL caíram 15% e os da Azul quase 14 %” [8].

A política do governo chinês

Uma vez passado o pior momento da pandemia, e com o surto aparentemente controlado, o governo chinês aposta em duas vias para recuperar a economia. Por um lado, aplicará políticas de “estímulo”:

“As expectativas são que a segunda economia do mundo se contrairá neste trimestre, pela primeira vez em quatro décadas, razão pela qual se antecipa que a China injetará centenas de bilhões de dólares em estímulo. O Politburo pediu para expandir o déficit orçamentário, emitir mais bônus locais e nacionais, reduzir as taxas de lucros, atrasar os pagamentos dos empréstimos, reduzir os pontos de estrangulamento na cadeia de fornecimento e aumentar o consumo. A China deveria emitir ao menos 2 trilhões de yuanes (282 bilhões de dólares) em bônus para ajudar a economia, disse Robin Xing, economista de Morgan Stanley” [9].

Por outro lado, apostaria em um efeito “rebote” da própria economia, na medida em que for se normalizando: “Segundo os últimos dados oficiais, já voltaram ao trabalho 95% das grandes companhias e 60% das pequenas e médias empresas fora de Hubei, a província mais afetada” [10].  

As perspectivas

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Esta política parece começar a dar seus primeiros resultados em alguns campos. “O mais revelador da recuperação chinesa é a volta massiva dos grandes fundos investidores de Wall Street e Londres aos mercados de valores da República Popular via Hong Kong. Só nos últimos 10 dias de fevereiro, os Índices Bloomberg, Barclay e JP Morgan receberam mais de US$10,80 bilhões, com um total de compras de bônus da República Popular (em reminbi) que já superam US$400 bilhões, e se duplicariam em 2021” [11].

Existem uma série de prognósticos sobre a dinâmica imediata da economia chinesa. Alguns são otimistas, como os do próprio governo, que espera alcançar em 2020 uma cifra de crescimento similar ao de 2019.

 “A mídia oficial citou  especialistas que se mostram otimistas com a recuperação econômica nos próximos meses, entre eles, Liang Huang, economista chefe da Corporação de Capital Internacional da China. Liang disse ao Global Times, de linha nacionalista, que “se a situação continuar sem complicações, a China é capaz de conseguir um crescimento anual do PIB de 6%”[12].

Este prognóstico é compartilhado por vários analistas e centros de estudos imperialistas. “O cálculo do NBS é que a atividade econômica oferecerá uma recuperação visível em fins de março, com um segundo trimestre que disporá de um aumento de 4%/5% anual, que subiria a 6.5%/7% no terceiro, para recuperar no segundo semestre do ano o boom de consumo que experimentou em 2019” [13].

Outros, pelo contrario, tem uma visão pessimista. Algo que começa pela avalição do impacto da queda produzida em 2020 e continua com a avaliação das possibilidades de recuperação do PIB no restante de 2020. “Diante do débil desempenho nos dois  primeiros meses do ano, o banco Goldman Sachs revisou sua previsão para a economia chinesa no primeiro trimestre, de crescimento de 2,5% para uma queda de 9%. No ano, a previsão do banco diminuiu de um crescimento de 5,5% para um de 3%” [14].

Outra análise no mesmo sentido: “Há quem prenuncie um rebote, e isso poderia suceder no setor industrial, mas o consumo se perdeu. As pessoas não começarão a comer seis vezes por dia, e atividades como o turismo vão quebrar porque as férias desapareceram” [15].

O que pode acontecer com a economia mundial?

Nesse marco das possibilidades dinâmicas da economia chinesa, os analistas também elaboram prognósticos sobre as perspectivas da economia mundial. A consultora empresarial McKinsey apresenta dois cenários alternativos, nos quais “diferencia entre dois cenários: um no qual se produz uma rápida recuperação, no qual se comprova que o vírus é sazonal e para o outono os governos tem as ferramentas para freá-lo; ou uma desaceleração mundial, no qual o vírus não é sazonal e os países devem manter medidas de prevenção de contágio inclusive se controlaram a epidemia, como no caso da China”[16].

A dúvida é o impacto que, além de uma certa “recuperação natural”, possam ter as “medidas de estímulo fiscal que os governos aplicarem. “O segundo ponto chave é como os governos tratarão de mitigar o impacto de uma crise, já que, nas mais recentes, a resposta tem sido cortar as taxas de juros para ajudar as empresas e as pessoas a pagarem suas dívidas e estimular a demanda, como já fez ontem o Banco da Inglaterra e que o deixa com muito pouco espaço para cortar ainda mais. Assim, os governos teriam que abordar o impacto do coronavírus através da expansão fiscal, algo totalmente diferente de tudo visto no passado recente, ainda que não esteja claro qual seria o impacto ” [17].

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O pior cenário previsto pela UNCTAD (Conferencia das Nações Unidas sobre Comercio e Desenvolvimento) é que “a economia mundial cresceria só 0,5%, com um impacto negativo de 2 trilhões de dólares no PIB mundial” [17].No início de março, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) estimou  0,7 e o Banco Mundial 1,2 % [18]. Todas estas instituições, que já em janeiro haviam estimado baixos índices de crescimento, agora os reduziram.

De fato, estamos falando do início de uma recessão mundial. A população mundial cresceu em 2018 1,109 %[19]. Isto é, sob esse crescimento, a economia mundial está na realidade reduzindo-se. Uma situação que pode se unir com as gigantescas contradições acumuladas por décadas e detoná-las.

Notas:

[1] https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-51916056

[2] https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/19/impactos-economicos-coronavirus-china.htm

[3] https://www.elmundo.es/economia/2015/10/19/562470fe22601dc45b8b4622.html

[4] https://www.laverdad.es/economia/caida-economica-china-20200308131227-ntrc.html?ref=https:%2F%2Fwww.google.com%2F

[5] Ver nota [1].

[6] https://www.lapoliticaonline.com/nota/124870-coronavirus-la-caida-de-la-economia-china-pego-en-brasil-y-preven-que-arrastre-a-argentina/

[7] Idem.

[8]  Idem.

[9]https://negocios.elpais.com.uy/noticias/china-prepara-medidas-estimulo-economico-remision-coronavirus.html

[10] https://www.lavanguardia.com/economia/20200316/474193315948/china-economia-coronavirus-crisis-ventas-fabricas-empresas.html

[11] https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2020-03/economia-da-china-esta-se-normalizando-apos-pico-de-coronavirus

[12] Ver nota [1].

[13] https://www.clarin.com/economia/economia/recuperacion-china-abre-camino-superacion-crisis-global_0_0f_dAQy-k.html

[14] Ver nota [2].

[15] https://www.laverdad.es/economia/caida-economica-china-20200308131227-ntrc.html?ref=https:%2F%2Fwww.google.com%2F

[16] Ver nota [1].

[17] https://www.rankiapro.com/como-afecta-coronavirus-mercado-chino/

[18] https://www.razon.com.mx/negocios/ocde-recorta-a-0-7-pronostico-de-crecimiento-para-mexico-en-2020/

[19] https://datos.bancomundial.org/indicador/SP.POP.GROW

Tradução: Lilian Enck