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As epidemias fazem parte da história social da humanidade. As primeiras comunidades humanas estavam muito atentas à prevenção de doenças e, portanto, à higiene pessoal e coletiva, procurando locais onde a água era limpa, potável e abundantemente disponível, daí a proximidade de cavernas e grutas. Paradoxalmente, nesta era capitalista, todo o ciclo planetário da água está poluído e vastas massas de populações, em vários continentes, não têm água suficiente nem limpa. Nesta China capitalista, nos mercados se aglomeram massas de pobres que compram e consomem de tudo, até morcegos, abundantes na natureza; os animais são vendidos vivos por tradição – e também porque são escassas as câmaras frigoríficas – sem qualquer norma de higiene e são abatidos na presença do comprador. O frio, a pobreza, as dificuldades, a coabitação numerosa, os transportes fizeram o restante.

Por: Mario Avossa (médico)

Mas nem todas as epidemias tiveram a ênfase correta da mídia, lembramos as epidemias órfãs, que logo esquecemos: a zika no Brasil, Mers, Sars-1, Ebola. Enquanto flagelaram populações pobres, afastadas dos holofotes da mídia capitalista importante, elas foram observadas com indiferença, com o devido distanciamento. Isso também aconteceu em Hu Bei. O governo chinês foi culpado, primeiro por omitir e, depois por demorar em aplicar as medidas de saúde pública necessárias para conter a epidemia, porque agia em camadas de classes mais baixas, em populações de regiões continentais pobres e longínquas. Mas quando a epidemia se espalhou e o contágio rapidamente alcançou as ricas regiões costeiras, tornou-se evidente aos aparatos do governo chinês e despertou o alarme. Mas já era tarde demais, porque o coronavírus já estava disseminado na China e rapidamente criou surtos em meio mundo, através dos transportes internacionais. A situação ficou fora de controle.

Dez mil mortos na Itália, centenas de milhares de contagiados

No momento em que escrevemos, contamos mais de dez mil mortes na Itália, mais do que na China, primeiros no mundo.

Atualmente, não existem medicamentos efetivamente eficientes contra o Coronavírus, nem teremos uma vacina antes de dezoito meses. O alto número de vítimas da Sars-Covid-19 na Itália se deve ao fracasso das políticas de saúde de contenção e à discrepância entre a necessidade e a oferta social de assistência à saúde, agravada pela velocidade de propagação do contágio.

Independentemente das razões biológicas e médicas da pandemia, devemos denunciar as razões políticas de tantas mortes. A ladainha do melhor sistema de saúde do mundo foi substituída pela retórica dos heróis.

Ninguém percebeu que a saúde pública italiana se sustentava com dificuldade com um número insuficiente de trabalhadores, aos quais se pedia que compensassem as deficiências estruturais. A sua exploração, as suas virtudes profissionais, no entanto, mal eram suficientes para manter em pé um sistema que foi sucateado por mais de vinte anos, com cortes absurdos e falta de contratações, feitos por governos burgueses de todas as cores políticas. Era uma forma oculta de compensação. Mas, acima de tudo, era uma exploração de funcionários, aos quais se pediam sacrifícios pelo bem público.

Este era “o melhor sistema de saúde do mundo”. A epidemia causou o colapso do Serviço Nacional de Saúde (Ssn). Não sabemos mais onde colocar os doentes, temos que escolher quem entubar e quem deixar de lado, como em um cenário de guerra. A paixão profissional e a qualidade clínica não foram mais suficientes. Tudo entrou em colapso. Os próprios socorristas, as enfermeiras, os médicos foram contagiados em grande número e muitos morreram. Eles foram enviados como soldados desarmados para a frente de batalha, sem EPI´s adequados, sujeitos a turnos muito longos, após os quais é fácil incorrer em pequenas distrações fatais. No momento da redação deste artigo, contamos 58 médicos falecidos e 6.414 profissionais de saúde contagiados, 9% do total de contágios conhecidos.

O governo enfrentou a epidemia sem nenhuma ordem específica, em total confusão e em conflito aberto com os presidentes dos conselhos regionais; o surto vêneto, na cidade de Vo foi circunscrito por um cordão sanitário e foi iniciado um estudo epidemiológico coerente; na Lombardia nem isso; em ambas as regiões, densamente povoadas e altamente industrializadas, os trabalhadores foram forçados pelos industriais a continuar a trabalhar; os membros da família foram abandonados ao seu destino, ao contágio inevitável. Notícias inquietantes vêm da província de Bérgamo onde, nos primeiros sinais da epidemia, os conselhos municipais de Alzano Lombardo e Nembro montaram um cordão sanitário e o isolamento, mas alguns industriais importantes da área (os nomes de Persico, Polini e Pigna são citados extraoficialmente) teriam agido nos bastidores para obter a revogação imediata da medida e poder continuar empregando mão-de-obra na produção industrial. Os surtos se espalharam por toda a Itália, de acordo com a distribuição geopolítica das concentrações de produção.

Vimos a inconsistência entre medidas coletivas rígidas para conter a epidemia (isolamento, quarentena, cordão sanitário) e a permissividade em relação aos ditames da burguesia capitalista, representada pelo sistema bancário e pela Confindustria. Estes não permitiram que trabalhadores e funcionários pudessem cumprir, no local de trabalho, as medidas preventivas básicas. Os trens suburbanos continuavam lotados, local de contágio. Para piorar a situação, o dramático desastre de Frecciarossa, que levou milhares de passageiros da Lombardia a se aglomerarem nos vagões dos trens substitutos. As empresas continuam abertas, apesar dos protestos dos trabalhadores, obrigados a trabalhar sob o risco de contágio. Os lucros das empresas vêm antes da saúde dos trabalhadores; e isso vimos em muitas circunstâncias, não por último, a lenta carnificina de trabalhadores na Ilva de Taranto e das famílias proletárias que residem no bairro de Tamburi. O protesto “Quarentena em casa, contágio na fábrica” ​​aparece.

O Ssn entrou em colapso após anos de cortes violentos

O desastre que estamos testemunhando não se deve apenas ou simplesmente à incapacidade dos aparatos das classes dominantes, evidente em face de algo maior que eles. A inaptidão do governo e de suas articulações também é revelada por episódios menores e tragicômicos, como o contágio contraído por alguns de seus altos funcionários. Apelar à inaptidão, como fazem os reformistas ou os chacais de direita, é limitativo porque mascara o fato, diante dos olhos de todos, de que o desastre consiste na insuficiência do Sistema Nacional de Saúde em relação às reais necessidades da população diante de um contágio em massa. O sistema foi prejudicado por anos de corte de verbas, fechamento ou redimensionamento dos hospitais italianos, cortes sem sentido de leitos, redução progressiva de funcionários, cancelamento das estruturas das regiões, ausência de políticas de prevenção, salários miseráveis, precariedade, terceirizações e privatizações; sobrecarregado por um aparato burocrático hipertrófico e generosamente pago, com presentes à saúde privada, hoje opulenta, com comitês paritários estipulados entre os principais dirigentes das Ooss (Organizações Sindicais) e Confindustria no setor de bem-estar corporativo, com benefícios generosos para as seguradoras privadas. Estas são as consequências das duras aplicações dos planos de inspiração neoliberal do capitalismo. Ocorreram nos anos noventa do século passado, quando o capitalismo as introduziu em etapas sucessivas, a partir dos imperialismos anglo-saxões, acuando a classe trabalhadora.

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Esta havia arrancado da burguesia capitalista um sistema de bem-estar público mais favorável às suas necessidades, após anos de duras lutas. À medida que o ataque capitalista progredia, sob a pressão de sucessivas crises econômicas internacionais, as Ooss e os partidos da esquerda reformista recuaram, dando às classes no poder o terreno para as suas pretensões, com a liquidação das conquistas dos trabalhadores obtidas em meio século de lutas. Semearam ilusões reformistas, adiamentos para um futuro improvável, a mentira de conviver no mesmo barco, forçaram a classe trabalhadora a um abraço mortal com a burguesia até o concordar com os patrões sobre as restrições ao direito de greve, a abolição do artigo 18, as demissões em massa, a precariedade por tempo indeterminado. Apesar dos levantes exemplares de resistência, a classe trabalhadora foi entregue aos seus açougueiros. Isso é a austeridade, isto é, o desmantelamento progressivo de qualquer conquista social operária desses anos, incluindo a do Ssn.

Como fizeram isso?

Fieis aos ditames das instituições bancárias europeias, os governos italianos se dedicaram ao regular e constante desmantelamento do Ssn. Um primeiro núcleo de vulnerabilidade está contido na lei fundadora do Ssn, a 833-78, que divide a saúde pública em áreas regionais. O Serviço Nacional de Saúde nasceu dividido e organizado em uma miríade de pequenas Unidades de Saúde locais, administradas por comitês de gestão nos quais estavam presentes os delegados dos partidos do então “arco constitucional”.

Mas em 1992, em concomitância com as sangrentas convulsões que levaram os setores neoliberais da burguesia ao governo, o ataque frontal começou: as Usl (Unidades de Saúde Locais) foram rapidamente dissolvidas e fundidas em empresas locais de saúde, sujeitas a vínculos de produtividade e de balanços, forçando um posicionamento em sentido neoliberal. Assim, começaram a retirar fundos do Ssn com o objetivo de enfraquecê-lo gradualmente e arrecadar recursos a serem desviados para banqueiros e industriais, empresas privadas de saúde e seguradoras. Os governos negam; nos últimos anos, os governos e todos os diferentes partidos burgueses que se alternaram no poder afirmaram que aumentaram os fundos alocados ao Serviço Nacional de Saúde. Mas é mesmo assim?

Não. De acordo com o relatório Gimbe 20191, na década 2010-2019 o financiamento público do Serviço Nacional de Saúde aumentou 8,8 bilhões de euros no total, crescendo em média 0,9% ao ano. É uma taxa inferior à taxa média anual de inflação, que é de 1,07%. O aumento das necessidades nacionais de saúde (Fsn) na última década é apenas aparente, porque sequer foi suficiente para manter o poder de compra. No relatório ao qual nos referimos, há uma cronologia política precisa das etapas de cortes de financiamento, que destaca como cada governo, de qualquer cor política, foi  responsável pelos cortes na saúde pública.

O governo Conte-bis nasceu em 2019 com um programa que não inclui explicitamente o refinanciamento do Serviço Nacional de Saúde, apesar de o novo ministro Speranza, na cota Leu, ter se apressado em colocar uma nota prometendo: «Eu já estou pedindo mais recursos para saúde no próximo orçamento». E a encenação está feita.

A partir dos dados divulgados, fica claro que, na década 2010-2019, entre cortes e ausência de financiamentos ao Serviço Nacional de Saúde, foram subtraídos aproximadamente 37 bilhões de euros e as Fsn (necessidades nacionais de saúde) tiveram um acréscimo de apenas 8,8 bilhões. Atualmente, a maior parte do novo Lea (níveis essenciais de assistência) ainda não é paga de maneira uniforme em todo o território nacional, com um sério atraso nas regiões do Sul. O relatório não pode mencionar a cota desviada pela corrupção e pelos benefícios milionários. Com um eufemismo, no entanto, o relatório aponta: “Desperdícios e ineficiências que se escondem em todos os níveis do Ssn continuam corroendo recursos preciosos”.

A hipertrofia do setor privado afiliado pesa nos gastos com a saúde e nas desigualdades sociais, alimenta o consumismo e corre o risco de induzir fenômenos de excesso de diagnósticos e de excessos de tratamento, como destacam as vergonhosas nesses últimos anos.

A falta de financiamento na saúde pública, agora estruturalmente relacionada à crise econômica do capitalismo, se transformou em uma constante irreversível. No período 2010-2015, o Ssn fortemente sobrecarregado pela crise, foi usado pelos governos da burguesia como campo de pilhagem para canalizar recursos para bancos e empresas. No entanto, uma recuperação econômica hipotética do país não teria um efeito correspondente positivo nos gastos com a saúde. De fato, a análise do Relatório Gimbe dos Def (Documento de Economia e Finanças)  2017, 2018 e 2019 mostra que a relação gasto com saúde / PIB no médio prazo é sempre revisada para baixo, documentando tanto a tendência de avançar nas previsões (ilusórias) de crescimento econômico, quanto a intenção específica de não repropor o financiamento da saúde pública.

Essas decisões de política financeira de longo prazo inequivocamente documentam que a saúde pública nunca foi uma prioridade política para nenhum governo burguês na última década. Como se pode ver, quando a economia está estagnada, a saúde se transforma em um caixa eletrônico para ser utilizado indiscriminadamente; por outro lado, no caso de crescimento econômico, os benefícios para o Serviço Nacional de Saúde não são proporcionais, impossibilitando a liberação de qualquer financiamento público.

Apesar das manobras de ocultação dos dados econômicos, a falta de financiamento do Serviço Nacional de Saúde é visível a partir de uma grande quantidade de números entre financiamento programados pelos Def, fundos alocados pelas leis do Orçamento, cortes e contribuições às finanças públicas das regiões.2

Os planos de recuperação

Outra ferramenta, desta vez regional, para infligir cortes no Ssn são os famigerados planos de recuperação. Surgiram da modificação pejorativa do Título V da Constituição, que atribui às regiões o ônus de equilibrar o orçamento em conformidade com a garantia do Lea (níveis essenciais de assistência) estabelecidos em nível estatal. Com o resultado que os Leas permaneceram ilusões piedosas enquanto os cortes foram reais. Eles operaram com um mecanismo de chantagem semelhante, em pequena escala, ao Mes (Mecanismo Europeu de Estabilidade).

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Citamos uma publicação do Banco da Itália, “Questões de Economia e Finança”, número 427 de março de 2018. “A saúde na Itália: o difícil equilíbrio entre restrições orçamentárias e qualidade dos serviços nas regiões com  planos de recuperação”: «.. foram introduzidas no nosso sistema condições de acesso aos recursos de saúde, separando e adiando a provisão de uma parte do fundo nacional de saúde devido a cada Região (a chamada cota de recompensa) à verificação do equilíbrio orçamentário”; a chantagem está aqui: “Para facilitar a recuperação também de déficits passados, a mesma lei financeira alocou recursos adicionais, vinculando seu desembolso à estipulação de um acordo específico da Região com déficit” .3 Esse mecanismo foi usado para atribuir vínculos orçamentários a cada Região e para deslocar grandes quantidades de recursos públicos que derrubaram estruturas, funcionários e a funcionalidade da oferta de assistência à saúde em todas as Regiões, mas sobretudo nas Regiões do Sul que indiretamente garantiram, em detrimento das populações, empréstimos a fundo perdido par​​a bancos e empresas.

Vínculos europeus e regiões do Sul

No recente Relatório Svimez 20194, o atraso no desenvolvimento econômico é um atraso italiano, não apenas do Sul. É descrito como um “duplo descompasso”. O Norte e o Sul do país estão bloqueados no panorama europeu; portanto, todo o complexo econômico italiano se afasta da Europa. Ao mesmo tempo, os descompassos internos não mostram sinais de diminuição.

O panorama europeu, de acordo com o relatório Svimez, é caracterizado por um pronunciado processo de convergência adotado pelos países do Leste Europeu, pelo afastamento dos países do sul da Europa, incluindo a Itália, dos níveis médios do padrão de vida europeu; a tendência de crescimento da renda per capita no norte da Europa; e a manutenção dos dados relativos às economias da Europa Central, incluindo a Alemanha […]. Com a média europeia de 100, entre 2006 e 2017, todas as regiões italianas, nenhuma excluída, registraram uma queda no PIB por habitante. Em outras palavras, o sacrifício das regiões do Sul não ajudou a salvar o declínio das economias produtivas das regiões do Norte.

A economia do Sul está competindo, especialmente após o alargamento a leste da UE (União Europeia), com as economias atrasadas que crescem fortemente e competitivamente. É com relação a estas economias, a outras regiões europeias, que essas áreas geopolíticas se beneficiam dos sistemas de coesão europeus, razão pela qual o Sul perdeu terreno, com a presença de uma desvantagem ligada ao seu pertencimento a uma economia nacional em que há uma carga de impostos muito alta, comparada à praticada nos países do Leste Europeu. O capitalismo europeu, em suma, não se interessa pela baixa competitividade das regiões do Sul da Península.

O regionalismo diferenciado

A disputa sobre os resíduos fiscais subjacentes aos pedidos de regionalismo diferenciado, por um lado, representa a resposta histérica das Regiões produtivas que temem um colapso devido à iminente recessão; por outro, não se baseia em dados verdadeiros, porque os dados provenientes do Tribunal de Contas, o sistema de contas públicas territoriais (Cpt) 5, revelam uma distribuição regional da despesa pública em benefício das regiões do Norte. Os dados oficiais negam as declarações de propaganda dos Presidentes das Regiões da Lombardia, do Vêneto e da Emília Romanha.

O centro-sul na pobreza. «Não há dinheiro»

Segundo o relatório de Svimez citado, o número mais preocupante, em 2018, que assinala a dinâmica territorial divergente, é a estagnação dos consumos na área (+0,2, contra +0,7 no resto do país). Enquanto o centro-norte já se recuperou e superou os níveis anteriores à crise, os consumos no centro-sul ainda estão abaixo do nível de 2008 de -9 pontos percentuais. E continua: mas acima de tudo, faltou a contribuição do setor público. A despesa das administrações públicas para consumos finais assinalou um ulterior -0,6% em 2018, continuando um processo de contração que, acumulado na década de 2008 a 2018, é igual a -8,6%, enquanto no centro-norte o crescimento registrado é de 1,4%. Essa é uma das principais causas, apesar dos clichês, que explica a dinâmica divergente entre as áreas.

Em 2018, estima o relatório Svimez, foram investidos 102 euros per capita em obras públicas no centro-sul, em comparação com 278 no centro-norte (em 1970, eram 677 euros e 452 euros per capita, respectivamente).

Com base nos dados de Svimez, sabemos que o descompasso no índice de ocupação de empregos é dramático. No Sul, o emprego, em média nos dois primeiros trimestres de 2019, está diminuindo em Abruzzo, Campânia, Calábria e Sicília. No mesmo período, aumenta a precariedade no Sul e diminui no centro-norte: nas áreas do Sul, o peso de contratações temporárias no total de novas contratações aumentou nos últimos anos e a precariedade foi maior. No Sul, a taxa de emprego para jovens de 15 a 34 anos, ainda em 2019, é de cerca 29%, um número incomparável na Europa.

Em 2018, a incidência de pobreza absoluta aumentou para 8% no Sul, em 2017 era de 7,2% (5,6% no Norte e 4,9% no centro), com valores duplos em relação àqueles de 2008; a cota de famílias em pobreza absoluta, com um operário chefe de família, aumenta para 14,7% no centro-sul (era de 11,7% em 2017), enquanto cai cerca de um ponto, para cerca de 11%, no centro-norte.

Nenhum bem-estar no Sul, saúde pública com pouca credibilidade

Também no Relatório Svimez, constatamos que nesse contexto as populações do Sul têm dificuldades em acessar serviços públicos: educação, saúde e assistência. O desequilíbrio entre as necessidades e as respostas recebidas é verificado, por exemplo, nas famílias que têm um componente com problemas de saúde. O relatório destaca que onde a demanda é maior, a resposta é menor: no centro-sul, 35,6% das famílias gostaria de receber ajuda, mas apenas 12,5% a recebem.

A quantidade e a qualidade dos cuidados de saúde no centro-sul permanecem significativamente mais baixas do que nas regiões do Norte. O total de leitos por 100.000 habitantes é de 791 no centro e Norte e de 363 no centro-sul. Isso gera um fluxo abundante de emigração de saúde para as regiões do Norte, principalmente para cirurgias mas também para alta especialidade. No centro-sul, cerca de 10% do número total de habitantes hospitalizados por doenças cirúrgicas se deslocam para outras regiões, em comparação com valores entre 5% e 6% nas regiões do centro e do Norte. E assim, se abre mais um fator de endividamento direto das regiões do Sul com as do Norte.

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O atual descompasso da saúde entre Sul e Norte

No Trentino-Alto Ádige e Vale de Aosta, os habitantes têm uma disponibilidade muito maior de instalações e de serviços de saúde do que aqueles oferecidos ao restante do país. Muito acima da média nacional são os investimentos em Emília Romanha, Toscana e Vêneto. Em vez disso, um grupo de regiões aparece com níveis de investimento em torno da metade da média nacional: Apúlia, Molise, Campânia e Lácio. Os dados da Calábria são dramáticos: com menos de 16 euros per capita, temos uma intensidade de investimento em saúde quase 12 vezes menor que a da província autônoma de Bolzano e quase três vezes menor que a média nacional.

Covid-19 no centro-sul

Nesse contexto, a evidência de que a epidemia atingiu menos força no Sul é uma consequência do fato de que as populações do Sul foram deixadas para trás, em todos os aspectos econômicos e sociais, por um planejamento capitalista que adotou essa estratégia de dominação por décadas, incluindo a restrição dos cuidados de saúde pública ao mínimo possível. O Norte do país foi mais brutalmente flagelado pelo vírus, porque é lá que se concentram massas ativas do proletariado, reunidas em aglomerações industriais e setores produtivos. No Norte, os contágios se desenvolveram entre os trabalhadores, como mostra a dizimação dos trabalhadores da saúde. O deslocamento dos trabalhadores foi um fator amplificador.

Dadas essas premissas, o governo entrou em pânico. Ele não temia pela saúde das massas proletárias do Sul, o principal comitê de negócios da burguesia não levanta esse tipo de preocupação. Pelo contrário, temiam as consequências, ou seja, que o possível contágio maciço das populações do Sul produzisse espetáculos horripilantes nas ruas, dada a mínima capacidade reativa do Ssn. Temiam-se revoltas espontâneas, tumultos nas praças, a  terrível organização de uma revolta na qual os temas da luta de classes corriam os risco de abrir caminho entre as massas aterrorizadas.

Não é por acaso que os serviços de segurança entraram em ação nessas horas para fornecer ao governo informações úteis. Surtos são observados em várias regiões do Sul, onde pequenos grupos de proletários assaltam supermercados levando alimentos; e outros em desespero por ficar sem comida. Os capitalistas não se preocupam com o desespero do proletariado, a eles  importa que esses sofrimentos não gerem protestos de classe, organizados ou não. Esta é a explicação para a decisão precipitada do governo de estender a zona vermelha em todo o país.

O capitalismo falhou, devemos nos livrar dele

Um punhado de capitalistas detêm o controle político, econômico, militar e social sobre as classes oprimidas. No final dos primeiros vinte anos do século XXI, o capitalismo já conhecia três crises globais consecutivas; como Marx previra, cada uma dessas crises é mais profunda que a anterior e, a partir das convulsões que se seguem, só pode resultar em um reajuste, nos níveis de estabilidade, inferior aos anteriores. Eventos bélicos e guerras comerciais se sucedem, mas sem conseguir aplacar a crise estrutural do capitalismo. Os capitalistas estão em pânico, conscientes de terem falhado. A saúde das massas proletárias é o menor dos seus problemas. A epidemia Covid-19 entrou no pior momento possível, isto é, na chegada de uma nova crise de superprodução pior que a de 1929, para a qual os imperialismos do mundo olham com preocupação.

É por isso que o capitalismo não teme o próprio Coronavírus, mas as consequências nocivas nos mercados globais que a epidemia desencadeia como uma enzima catalisadora. Não há dúvida de que mais uma vez o capitalismo descarregará todo o custo de sua crise econômica sobre as massas operárias e populares, é apenas uma questão de tempo (6), e isso apenas agravará as atuais condições de vida do proletariado. Portanto, a resposta do operário não deve ser adiada e o único meio de que dispõe a classe trabalhadora para enfrentar o ataque capitalista é a greve.

A crise econômica global se intensifica diante de um planeta incendiado, há apenas alguns meses, pelas chamas do inferno capitalista, envenenado em seus sistemas biológicos, deturpado em seu aspecto natural, em que todos os elementos, ar, água, terra e fogo, estão contaminados com agentes cancerígenos. O choque entre as classes, nessas condições só pode polarizar-se, até a consciência de que os capitalistas são incompatíveis com a sobrevivência da humanidade e que toda a humanidade é incompatível com a classe dos capitalistas.

Diante disso, não temos outra maneira senão livrar-nos do capitalismo o mais rápido possível. As massas proletárias já têm a ferramenta certa para conduzir esta batalha. É o seu partido revolucionário, a criatura que Trotsky criou em anos de luta revolucionária implacável e lúcida à frente da classe operária: a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional, da qual o Partido da Alternativa Comunista é a expressão na Itália.

Socialismo ou barbárie!

Notas

Tenho a obrigação de agradecer ao professor Isaia Sales, professor de História do crime organizado no centro-sul da Itália, da Universidade Suor Orsola Benincasa, Nápoles.

1) Gimbe, Relatório 7/2019. A interrupção de financiamento 2010-2019 do Ssn.

2) Tribunal de Contas. Relatório de 2019 sobre a coordenação das finanças públicas. Roma, 29 de maio de 2019: páginas 234-239.

3) Questões de economia e finanças, n. 427, março de 2018.

4) Apresentação do Relatório Svimez de 2019 sobre a economia e a sociedade no centro-sul.

5) Prof. Gianfranco Viesti, Investimentos públicos em saúde na Itália 2000-2017: uma redução acentuada com disparidades territoriais crescentes.

6) Nos remetemos ao artigo de Alberto Madoglio, A pandemia é a prova do fracasso do capitalismo, publicado em nosso site.

Tradução: Maria Teresa Albiero