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Muito foi dito e escrito sobre o Coronavírus nas últimas semanas. Também nós queremos contribuir para o debate com estas Faq perguntas frequentes, ou seja, com perguntas e respostas. Não nos debruçamos sobre os aspectos relativos ao campo médico e da saúde. Em vez disso, nos propomos a dois objetivos: 1. destacar as responsabilidades específicas do sistema capitalista (e de seus governos) na gênese e má gestão da emergência; 2. explicar aos trabalhadores, desempregados, estudantes, qual seria a abordagem, em casos semelhantes, de um sistema econômico e social diferente, pelo qual estamos lutando: o socialismo.

Por: Secretaria sindical do PdAC – Itália

O fato de o Coronavírus ter se desenvolvido inicialmente em ambientes pobres tem algo a ver com o sistema capitalista?

Sim, o sistema capitalista sempre forçou a maioria da população do mundo a uma condição de pobreza absoluta. Lembremos que, hoje, pouco mais de 2000 capitalistas detêm em suas mãos mais de que 4,6 bilhões de pessoas tem em suas mãos.  O 50% da população mundial possui menos de 1% da riqueza mundial. Os países capitalistas mais ricos, os que chamamos de imperialistas, saquearam literalmente – e continuam a saquear – continentes inteiros: África, América Latina, grande parte do continente asiático. Em grandes regiões do mundo, as grandes multinacionais europeias e norte-americanas se apropriaram de matérias-primas e exploraram mão-de-obra barata em países pobres. Mesmo a China, embora seja uma potência emergente que, por sua vez, busca subjugar as regiões mais pobres, foi e ainda é em parte um território explorado por multinacionais e por empresas capitalistas dos países imperialistas. Não devemos então nos surpreender se, entre essas populações pobres, superexploradas e famintas, que vivem em condições de higiene desumanas, se criam situações que facilitem a propagação de vírus como este. Também devemos acrescentar que, mesmo nos países ocidentais, os governos capitalistas, com as políticas de austeridade, cortaram dezenas de milhares de leitos em hospitais, fecharam e privatizaram milhares de clínicas, cortaram os fundos para a pesquisa, especialmente aquela que não era considerada útil para os interesses das empresas multinacionais de medicamentos (o que também explica por que, em 2020, temos tanta dificuldade de encontrar tratamentos e vacinas para o Coronavírus). Tudo isso aconteceu porque preferiram sacrificar a saúde pública para doar bilhões aos bancos e aos acionistas ricos.

Então, no socialismo, a epidemia de Coronavírus não teria iniciado?

Temos certeza de uma coisa: a extrema pobreza, na história, sempre favoreceu a propagação de epidemias. O sistema social pelo qual lutamos, o socialismo, teria a possibilidade de erradicar a pobreza no mundo. É um sistema no qual a propriedade privada dos meios de produção (ou seja, a de fábricas e dos bancos) será substituída por uma propriedade coletiva, em uma primeira fase do Estado, posteriormente – como disse Marx – será possível alcançar uma condição de “produtores associados livres”. Tudo isso, no entanto, apenas com a condição de que isso seja instaurado em todo o mundo. Como a história trágica da União Soviética estalinizada mostrou, se uma economia de transição para o socialismo (como era a soviética) permanece isolada e não se estende internacionalmente, geram deformidades históricas como o stalinismo: por isso, como Trotsky dizia, é necessária uma revolução permanente, que se estenda internacionalmente. Hoje, a pobreza em massa deriva, essencialmente, do fato de que poucos riquíssimos bilionários concentram a grande maioria das riquezas em suas mãos. Se o proletariado conseguir, chefiado pelo partido revolucionário internacional, instaurar uma economia socialista em todo o mundo, a pobreza poderá desaparecer. Isso também significaria maiores possibilidades de sufocar a propagação de epidemias na origem.

O vírus se originou na China. Mas a China não é um país “comunista”?

Não, a China não é um país comunista, nem nunca foi. Após a Segunda Guerra Mundial, houve uma revolução que expropriou o capital privado, foi criado um Estado operário e camponês deformado, com as características típicas dos Estados operários degenerados da era stalinista. Todas os poderes foram centralizadas nas mãos de uma casta burocrática (maoísta, neste caso) que desmantelou progressivamente as conquistas da revolução. Já na década de 1970, o capitalismo foi restaurado na China: a antiga burocracia maoísta foi convertida em uma nova classe burguesa, que detém o controle do capital privado chinês (incluindo multinacionais). É também um regime ditatorial: poderíamos chamá-la de uma ditadura capitalista. O fato de a burocracia chinesa se reivindicar o comunismo é, em nossa opinião, uma usurpação. É um legado do stalinismo, que se reivindicava o comunismo quando estava construindo um regime que nada tinha a ver com o comunismo. Não é por acaso que na Rússia e em outros Estados operários degenerados, o capitalismo foi restaurado nas suas formas mais brutais.

É verdade que a recessão, na Itália e em outros países capitalistas, será causada justamente pelo coronavírus?

Não, na verdade o coronavírus só pode ser a causa deflagradora do gatilho, o estopim de uma recessão que já estava latente e na economia mundial há algum tempo. Até o jornal IlSole24Ore, jornal da Confindustria, em 6 de março passado, assinalou, que, mesmo antes da explosão da epidemia de Covid-19, havia sinais que levavam a acreditar que era muito provável uma recessão global nos próximos 12 meses. As causas desencadeantes poderiam ter sido diferentes: um novo aumento da guerra tarifária entre a China e os EUA; a explosão da bolha relacionada às dívidas contraídas pelos estudantes para pagar a universidade nos EUA; a falência de uma grande instituição financeira (como aconteceu em 2009 com o Lehman Brotehr); as tensões entre os países produtores de petróleo. Mas a principal causa estrutural de uma recessão geral, como tem sido há mais de um século, é a queda na taxa de lucro das empresas capitalistas. Quando, à queda percentual dos lucros se acresce a redução, em termos absolutos, do conjunto dos proventos, a história nos ensina que a recessão é inevitável. A economia estava nessa situação há tempos, portanto, era apenas uma questão de tempo. Obviamente, o Coronavírus agora acelera todo esse processo.

As medidas econômicas adotadas pelo governo italiano, em particular o aumento da dívida pública, terão repercussões na vida dos trabalhadores e das massas populares? Quais?

Sem sombra de dúvida. Atualmente, o governo já está tomando decisões que resultarão em aumento da dívida. É muito provável que outras virão nas próximas semanas, com os aumentos de gastos cada vez mais consistentes. Na maioria das vezes, beneficiarão o grande capital, mas não podemos excluir que, enquanto durar a emergência de saúde, a fim de evitar surtos sociais difíceis de gerenciar, medidas também possam ser tomadas medidas em favor dos trabalhadores, ainda que parciais e insuficientes.

Tão logo que a fase mais aguda dessa situação tiver passado, em um ou dois anos, um governo burguês, de qualquer cor, apresentará a conta aos trabalhadores, pedindo a restituição do que lhes foi concedido e cobrando, também, o que foi dado aos patrões. As políticas de austeridade voltarão com prepotência à ordem do dia. Em uma época histórica como a que vivemos, onde não se vê o em que o fim da precariedade econômica, nem a menor melhoria pode ser mantida enquanto a lógica do lucro dominar.

Não haveria risco de recessões ou crises da dívida no socialismo?

Crise econômica e recessões, crise da dívida soberana (isto é, do Estado) não são conceitos a-históricos absolutos, mas situações que ocorrem em uma sociedade dividida em classes e, em particular, na dominada pelo capitalismo. Por outro lado, a natureza e as formas das crises foram diferentes na história. Nos tempos pré-capitalistas, eram caracterizadas pela subprodução, causada por fatores externos ao ciclo econômico, como guerras e carestias. Diferentes são as crises no capitalismo, que assumem a forma de superprodução, uma vez que o capital produz mais do que precisa. Não é um excesso absoluto, mas mais do que o necessário para aumentar o seu valor. No socialismo, isso não seria possível: o objetivo do sistema econômico e social não seria a produção como um fim em si mesma, com o objetivo de aumentar o capital, mas a satisfação das necessidades humanas. Não haveria limites para a produção e, ao mesmo tempo, não se deveria necessariamente, produzir sem limites. A sociedade como um todo decidiria o quê, quanto e se produzir. Como Marx escreveu no Grundrisse: “então a unidade de medida da riqueza não será o tempo de trabalho (funcional para aumentar o capital, ndr), mas o tempo livre”. O mesmo se aplica à dívida pública. O dinheiro em perspectiva desapareceria ou seria limitado apenas para desempenhar uma mera função contábil. Não seria a principal forma pela qual o capital se materializa, o qual seria suprimido, nem a maneira pela qual o valor é transferido. A dívida pública, indispensável ao funcionamento de uma sociedade capitalista e um instrumento adicional de enriquecimento da burguesia em prejuízo do proletariado, desapareceria. Como consequência, as crises relacionadas a isso seriam impossíveis.

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Na Itália, como em outros países, o governo impôs o fechamento de escolas, mas não de outros locais de trabalho, por exemplo, fábricas. Por quê?

Porque em uma sociedade dividida em classes, o governo é uma expressão da classe dominante, a saber, a burguesia; cujo interesse é o de manter as fábricas abertas para obter lucros, mesmo com o risco da vida dos trabalhadores. O sistema capitalista baseia-se na propriedade privada dos meios de produção e, portanto, no lucro dos capitalistas, que vem antes de tudo, mesmo antes das vidas humana. Não é por acaso que não tenha sido bloqueado o que não está diretamente vinculado ao lucro dos grandes capitalistas e dos industriais: escolas, as pequenas atividades artesanais, comerciais e de serviços. Se, por um lado, o governo pode ter interesse material em erradicar a epidemia do Covid 19, por outro, não pode se opor à grande burguesia porque, para nos expressarmos como Marx, atua como seu comitê de negócios. E é por isso que, para não impedir os lucros dos capitalistas, é que coloca em risco a vida de centenas de milhares operários e operárias.

Os capitalistas aproveitam o Coronavírus para defender os seus interesses, com o apoio dos governos e das burocracias sindicais. Quais são os exemplos mais evidentes?

Em geral, os capitalistas se aproveitam de qualquer situação de emergência para obter lucros e benefícios; permaneceu na memória coletiva o telefonema de dois empresários satisfeitos pelos futuros negócios relacionados à reconstrução, no dia seguinte ao terremoto que atingiu Aquila em 2009. Especificamente, nestes dias de epidemia viral do Covid-19, houve diferentes formas de exploração em benefício próprio de uma situação trágica, entre as mais impressionantes, podemos citar: demissões, como no caso da Air Italy que se aproveitou dessa crise para deixar 1500 trabalhadores em casa; o abuso imoderado dos chamados amortecedores sociais*, com as quais os grandes capitalistas que querem impor a continuidade da produção nos setores que são rentáveis ​​para eles, não hesitam em socializar as perdas colocando milhares de trabalhadores em ‘cassa integrazzione’** (atingindo fortemente seu poder de compra, entre outras coisas, nesta fase de emergência); o negócio do medo e da emergência, onde o custo das compras on-line de máscaras e sabão desinfetante subiu vertiginosamente e onde a indústria farmacêutica obterá lucros bilionários com a liberação de curas e vacinas. Em cada uma destas situações, o governo é o protagonista e o executor, e as burocracias sindicais são cúmplices. Não esqueçamos que as direções da CGIL, CISL e UIL assinaram um “Protocolo de Entendimento” com o governo e a Confindustria que, além de prever o uso de férias e de licenças de trabalhadores em caso de fechamento temporário das fábricas, não exige dos patrões o fechamento de fábricas, nem no caso de contágio dentro da fábrica!

As fábricas, no socialismo, poderiam ser fechadas em uma emergência como esta?

No socialismo, isto é, uma economia coletiva sob o controle dos trabalhadores, sem propriedade privada, os mecanismos de funcionamento da economia seriam totalmente diferentes, porque, como Marx explica em O Capital, o capitalismo precisa explorar a mão de obra para obter lucro (extração de mais-valia ou mais-trabalho). No socialismo, como o lucro privado não existe, a produção seria funcional apenas para a satisfação das necessidades sociais, ou seja, as necessidades da comunidade. Portanto, além de uma fase inicial de transição, se poderia chegar a níveis muito altos de automação de produção, com o uso quase exclusivo de máquinas e um uso muito limitado de mão-de-obra. Em uma situação de emergência como esta, a produção de mercadorias sofreria muito menos, sendo amplamente automatizada. Em condições normais, no socialismo, cada trabalhador poderia trabalhar algumas horas por semana e produzir riqueza suficiente para satisfazer as necessidades de todos. Em condições de emergência como esta, nenhum trabalhador seria obrigado a arriscar o contágio no local de trabalho. As fábricas que produzem bens desnecessários fechariam sem hesitação. Nas poucas fábricas que seria necessário deixar abertas (produção de instrumentos sanitárias e bens de necessidades básicas), haveria uma redução drástica no horário de trabalho de cada operário (sem penalidades financeiras), com o recrutamento de novos funcionários e, acima de tudo, com o fornecimento de proteções reais, as mesmas proteções que necessitam os médicos que trabalham nos setores infectados. Sistemas de proteção que os capitalistas hoje não pretendem disponibilizar aos trabalhadores, porque são muito caros, penalizando assim seus lucros.

O setor de transporte é um dos mais afetados, como evidenciado no anuncio do  transporte aéreo. De quem são as responsabilidades?

A partir do setor da saúde, surgem muitas contradições e as consequências que estão surgindo, há anos, de privatizações desenfreadas e políticas de austeridade: o setor de transportes está entre os mais afetados. O transporte público local está passando por anos de severos cortes e uma total falta de investimentos que levaram importantes empresas de transporte municipal (Roma, Nápoles, Gênova etc.) à beira da falência com o único objetivo de justificar sua possível privatização. A situação é pior no setor de aviação, onde a liberalização do mercado permitiram a perda do controle do setor por parte do Estado, com as empresas nacionais massacradas pelas privatizações e os aeroportos nas mãos de grandes grupos privados que embolsam os recursos. A condição do setor ferroviário é um pouco melhor, onde, no entanto, existem muitas atividades terceirizadas, como a manutenção, e onde a propriedade pública da FS está longe de ser uma nacionalização a serviço do país, mas expressa aquele capitalismo de Estado que enriquece somente os patrões. Tudo isso é resultado de décadas de desmantelamento perpetrado por governos de todas as cores, com total complacência das grandes burocracias sindicais, através também do compartilhamento das leis (por exemplo, lei 146/90) que reduziram bastante o direito de greve.

O governo, por meio da Comissão de Garantia das Greves e com a colaboração das grandes burocracias sindicais, está proibindo greves. É realmente uma decisão necessária para enfrentar a emergência de saúde?

O “convite firme” da comissão de garantia é datado de 24 de fevereiro, através do qual todas as organizações sindicais foram intimadas a não convocar greves nos chamados serviços essenciais. Estávamos às vésperas da greve geral do setor de aviação – aeroportuários que, entre as várias reivindicações, colocava na ordem do dia precisamente o problema da propagação e contágio do Covid-19 e a falta das devidas proteções e avaliações para reduzir as operações. Enquanto aviões e trens continuam cortando suas operações diariamente, aos trabalhadores ainda é proibido fazer greve. É claro que esse dispositivo governamental, imediatamente aceito pela maioria dos sindicatos, mesmo alguns “de base”, não tem nada a ver com conter a disseminação do vírus, mas continua sendo apenas um ato repressivo contra aqueles trabalhadores que, numa tentativa para proteger sua saúde, teriam utilizado a greve em sua defesa. Não será a proibição das greves que interromperá o vírus, mas o protagonismo dos trabalhadores em impor, também nos serviços essenciais, medidas mínimas emergências e suporte à coletividade.

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Como seriam os transportes no socialismo?

Como muitos outros setores vitais de apoio e à disposição da coletividade, os transportes no socialismo também seriam totalmente públicos e controlados pelos órgãos democráticos dos trabalhadores, sem nenhum lucro. Uma economia planejada permitiria, nos transportes, o equilíbrio justo entre as condições de trabalho, o direito à mobilidade e o respeito ao meio ambiente, bem como à saúde e à segurança, tanto para os trabalhadores quanto para a população. Isso, entre outras coisas, reduziria significativamente a poluição e o impacto no meio ambiente. Nenhum habitante, mesmo nos lugarejos mais distantes, ficaria isolado do resto do país, assim como nenhum morador de ilha seria obrigado a recorrer a alguma empresa privada pronta apenas a obter lucro. Justamente, a emergência do Coronavírus está evidenciando mais ainda a necessidade de nacionalizar as principais empresas de transporte que, se colocadas sob o controle dos trabalhadores, nesta situação de emergência, poderiam exercer o serviço de mobilidade necessário com o único objetivo de limitar os deslocamentos apenas em casos de emergência e para reagrupamentos familiares, com total segurança e sem atuar como veículo de transmissão do vírus.

O sistema de saúde italiano passou por cortes bilionários e privatizações nos últimos anos. Isso ajuda a transformar o risco de contágio em um perigo para a vida de muitas pessoas?

Nas epidemias, o risco de contágio está ligado a duas ordens de fatores: o biológico, representado pela complexa interação hospedeiro/parasita e pela capacidade de se espalhar nas populações; e aquele social, que torna as classes sociais menos favorecidas, mais vulneráveis. Este aspecto determina uma primeira ruptura de classe entre a burguesia e o proletariado. Isso nos faz entender como o perigo de vida, associado às complicações pulmonares da infecção por Covid-19, seja uma consequência não apenas de fatores biológicos, mas também de fatores sociais, como a presença e a eficácia de um sistema público de saúde adequado às necessidades concretas das pessoas. O Sistema Nacional de Saúde universal, público e gratuito nasceu em 1978; não foi uma concessão generosa dos capitalistas (que não tinham nenhum interesse nele), mas foi uma vitória das lutas operárias daqueles anos. No início dos anos 90, com a cumplicidade das burocracias sindicais e dos partidos da esquerda reformista da época, os capitalistas começaram a realizar ataques contra as conquistas gerais do movimento operário e obtiveram o enfraquecimento progressivo do Sistema Nacional de Saúde, em benefício das instituições privadas. Isso deixou as pessoas à mercê de uma oferta de assistência médica não proporcional às reais necessidades coletivas. Esta desapropriação foi mais feroz e cínica no sul da Itália, praticamente desprovido de um sistema público confiável. Agora estamos testemunhando o caos, a desorganização e a escassez de leitos.

Os profissionais de saúde estão protegidos?

Não. Isso é demonstrado pelo fato de que a maioria dos pacientes do Covid-19 é composta por trabalhadores do SSN (Sistema Nacional de Saúde). Alguns deles faleceram. Regras de implementação pomposas foram emitidas, mas permanecem no papel por serem pouco realistas. Em verdade, servem para proteger aqueles que as emitiram. Algumas exposições acidentais são tratadas como descuidos individuais. Essas regras, meticulosamente detalhadas, servem para responsabilizar os funcionários por um possível contágio. Até o momento, os dispositivos de proteção são escassos na maioria dos lugares; até mesmo as máscaras cirúrgicas comuns, de baixa eficácia, estão em falta. Diante da onda epidêmica, os principais dirigentes de saúde se encontraram despreparados. Os contratos coletivos e a direções sindicais atuantes entre os trabalhadores do SSN oferecem o panorama mais sombrio de todos os funcionários públicos. Os trabalhadores do SSN são silenciados e ameaçados. Em toda a Itália, foram emitidos regulamentos disciplinares contendo regras vexatórias e intimidadoras contra os trabalhadores que ousassem expressar opiniões divergentes em público. Esses regulamentos foram emitidos como ato unilateral pelas direções de todas as ASL (Unidades Locais de Saúde) presentes no território italiano, sem ouvir os trabalhadores ou, na melhor das hipóteses, submetê-los ao exame informal das entidades sindicais servis «assina-tudo». E os salários para os trabalhadores são ridículos. Então, agradecer aos heróis parece uma piada.

Como seria a saúde pública em um sistema socialista? Como você lidaria com essa emergência?

A assistência de saúde em um sistema socialista seria, por definição, pública. Desaparecendo a distinção entre classes sociais, qualquer saúde privada não faria sentido. O sistema social de saúde seria internacional, com caráter universal, gratuito e eficiente, porque não haveria limites de gastos, senão aqueles determinados pelas necessidades das massas. Seria financiado, dirigido e organizado por órgãos centrais de controle popular, eleitos pelos conselhos de trabalhadores e das trabalhadoras e revogáveis ​​a qualquer momento: aqueles que exercem funções de direção não têm privilégios sobre outros trabalhadores. Tais órgãos usariam a colaboração de institutos públicos de pesquisa científica: no socialismo, seriam verdadeiramente independentes porque, derrotando o capitalismo, não seriam submetidos a pressões, condicionamentos e chantagens. Todo o sistema de saúde se ocuparia com pesquisa, ensino, assistência sanitária individual e coletiva, desenvolvida nos ramos de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. Ao contrário do que está acontecendo agora no capitalismo, a prevenção representaria a maior parte do compromisso ativo da saúde. Epidemias repentinas não são eventos imprevisíveis, independentemente de sua probabilidade. Um sistema planejado seria capaz de levar em consideração todos os cenários possíveis, mesmo o improvável, e implantar todos os meios necessários para não ser surpreendido frente a uma súbita e particular necessidade. Informações públicas corretas não induziriam pânico ou histeria (hoje vistas com complacência pelo capitalismo com a finalidade de amedrontar impedir e planejar especulações), mas uma colaboração cuidadosa com a finalidade do bem coletivo. A descrença que alimenta a histeria é ditada hoje pela falta de confiança que o proletariado deposita nas classes dominantes. Quando uma epidemia como esta em andamento, o sistema social de saúde socialista já teria as estruturas necessárias para enfrentá-las prontamente; onde não existissem, seria possível montar qualquer estrutura necessária, com o equipamento apropriado e com rapidez ordenada.

A saúde nos locais de trabalho é protegida pelo capitalismo?

Os números são suficientes para nos contar sobre o fracasso persistente e a total incapacidade do capitalismo em proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores nos locais de trabalho: somente na Itália, cerca de 1300 trabalhadores morrem por ano (uma média de três por dia). Em um sistema econômico capitalista, qualquer gasto improdutivo, como aqueles relacionados à segurança dos trabalhadores, qualquer desaceleração da produção, são um obstáculo que se interpõe entre o patrão e seu lucro. Por este motivo, os patrões sempre tentarão eximir-se de medidas necessárias para garantir a saúde e a segurança dos trabalhadores ou canalizá-los para a legislação burguesa, a fim de torná-las compatíveis com seus interesses. A segurança no trabalho é uma questão central e só pode ser resolvida a partir de uma perspectiva de classe. Nesse sentido, nos reportamos ao dossiê preparado pela Frente de Luta No Austerity (disponível no site www.frontedilottanoausterity.org).

Um governo operário socialista estaria mais atento à saúde e segurança nos locais de trabalho?

Sim, como a própria classe operária está no poder, um governo operário socialista não deveria garantir lucros, nem deve lucrar com a força de trabalho dos trabalhadores. No socialismo, a produção não deveria necessariamente ser ininterrupta, mas seria adaptada às necessidades dos trabalhadores e da coletividade; os ritmos de trabalho e a duração dos turnos seriam compatíveis com a segurança e a saúde dos trabalhadores e com todas as medidas necessárias para proteger os trabalhadores dos perigos que encontram na atividade de trabalho poderiam ser realizadas livremente, sem estar subordinadas a razões orçamentárias. Além disso, como dissemos acima, no socialismo a produção seria amplamente automatizada, ou seja, confiada a máquinas: as horas de trabalho necessárias seriam muito poucas. Os trabalhadores teriam prioritariamente tarefas de administração da indústria e das empresas, pois estas estão sob seu controle. Em perspectiva, cada trabalhador poderá, como Marx dizia, dar de acordo com suas capacidades e receber de acordo com suas próprias necessidades.

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O fechamento de escolas afeta a vida de mulheres trabalhadoras, funcionários e estudantes?

Obviamente sim. Vivemos em uma sociedade machista, onde muito pouco fizeram os governos para combater a subordinação das mulheres. Agora, muitas mulheres, com companheiros ou sós, têm que cuidar sozinhas de seus filhos que não podem frequentar a escola ou o berçário. É uma condição muito pesada, tanto para as mães que continuam a trabalhar – que não sabem como cuidar de seus filhos – quanto para as muitas que perderam o emprego (precárias, trabalhadoras com contrato limitado, trabalhadoras não declaradas, etc.) e que não têm mais renda para alimentar seus filhos. Além disso, não devemos esquecer que os índices de violência doméstica contra as mulheres são muito altos. Para muitas mulheres, o slogan “ficar em casa” significa estar em uma situação perigosa, com um agravamento da violência sofrida por cônjuges ou conviventes. Hoje, o Estado não oferece alternativas para as mulheres nesta condição. Hoje, uma parte do pessoal das escolas é penalizada, especialmente os trabalhadores precários que vivem como substitutos ocasionais e os educadores contratados pelas cooperativas: muitos já estão sem emprego, outros logo se encontrarão desempregados (aqui também estamos falando de uma força de trabalho majoritariamente feminina). Finalmente, os estudantes são obviamente penalizados, por não poderem mais usufruir como antes, de um direito muito importante: o direito à educação. O ensino a distância não substitui o ensino presencial, especialmente considerando os cortes bilionários que as escolas sofreram ao longo dos anos: os prédios estão em ruínas, os equipamentos tecnológicos também e imaginemos se existem meios para ativar um ensino à distância de qualidade! Um grande número de estudantes nem sequer tem um computador ou uma conexão à internet em casa: seus pais não podem pagar.

Como seria a educação e a instrução no socialismo? Como eles seriam organizadas em uma situação de emergência?

No socialismo, os grandes potenciais produtivos da indústria contemporânea, em vez de serem usados para enriquecer alguns tios Patinhas, seriam usados para fortalecer o sistema de serviços públicos, portanto também a escola e, em geral, o sistema de ensino e educação. Isso significa que a educação pública teria enormes recursos, o que permitiria a implementação de ensino à distância de alta qualidade. Antes de tudo, a administração pública garantiria a cada aluno (e professor) a possibilidade de ter gratuitamente um computador, conexão rápida à internet, tablet, além de todo o equipamento necessário para realizar aulas de qualidade à distância. Haveria acomodações gratuitas e espaçosas para todos e, assim, cada aluno poderia ter um espaço somente seu onde pudesse estudar. Além disso, uma escola com tantos recursos disponíveis teria uma enorme quantidade de material multimídia de alta qualidade para poder utilizá-lo no o ensino à distância, o que hoje, somente algumas escolas exclusivas podem disponibilizar. Digamos que, apesar de ter que enfrentar uma situação difícil, os alunos certamente seriam menos penalizados.

As mulheres do socialismo teriam a possibilidade de ser dispensadas do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos, mesmo em uma situação de risco de contágio?

Não queremos contar mentiras, como fazem os representantes da burguesia. Um problema como o Coronavírus, se tivesse se desenvolvido por algum motivo, teria levado a uma situação difícil, mesmo em uma economia planejada sob controle dos trabalhadores. Em relação às mulheres, para libertá-las da condição de opressão em que se encontram e aliviá-las do trabalho doméstico, do cuidado dos filhos e dos idosos, restaurantes públicos, lavanderias públicas, empresas públicas de limpeza e higiene das casas, jardins de infância e escolas públicas de período integral seriam instituídas no socialismo. Um sistema baseado no uso de estruturas públicas obviamente deveria enfrentar problemas quando se desenvolvesse uma doença que torna perigoso o uso de estruturas públicas. Mas não esqueçamos que, com o atual nível de desenvolvimento das forças produtivas, se a produção fosse uma propriedade pública, parte da indústria poderia, em pouco tempo, ser reconvertida em uma indústria que produza o que é necessário no momento da emergência, do tampão*** a máscaras realmente protetoras. Isso significa, por exemplo, que em caso de necessidade de usar uma estrutura pública, haveria proteções gratuitas reais disponíveis para todos. Muitos outros tampões também estariam disponíveis. Se hoje não há tampões suficientes nem mesmo para determinar o estado de saúde dos pacientes sintomáticos, é porque os tampões são produzidos por indústrias privadas, que provavelmente os vendam a um preço alto. No socialismo, poderíamos produzir todos os tampões que precisamos. Acima de tudo, no socialismo, haveria possibilidades reais para as mulheres fugir da violência doméstica: toda mulher teria total autonomia econômica e poderia dispor de um alojamento gratuito, onde morar sozinha ou com quem preferir.

Muitos dizem que o socialismo é uma utopia e que seu fracasso seria historicamente demonstrado pelo fracasso da União Soviética ou pelos atuais regimes liberticidas da China, Rússia e Cuba. Como é realmente a situação?

Como escrevemos no início, 2000 capitalistas possuem a riqueza de 4 bilhões e meio de pessoas: a única utopia real é pensar que deste sistema perverso e criminoso algo bom para os trabalhadores e para as massas populares poderá um dia surgir. Se essa desigualdade gigantesca não existisse, essa enorme expropriação perpetrada por uma minoria dominante contra a humanidade, que é privada de toda a riqueza produzida por bilhões de trabalhadores em todo o mundo, poderíamos criar uma sociedade inteiramente baseada nas necessidades vitais e sociais de todos, onde o trabalho teria horários e condições compatíveis com as necessidades de vida dos trabalhadores, respeitando o clima e o meio ambiente. Além disso, o trabalho seria uma oportunidade de realização das próprias habilidades e predisposições, não uma imposição. O que são indevidamente chamados “Estados socialistas” ou “comunistas” (União Soviética, China, Cuba etc.) foram, por um período, Estados operários degenerados e burocratizados, onde o capitalismo foi gradualmente restaurado: eles representam a própria negação do comunismo. O socialismo não é uma utopia: é a única chance que temos de salvar a humanidade, antes do ponto sem retorno.

Notas do/a tradutor/a

* Conjunto de normas com o fim de manter a renda do trabalhador desempregado.

** Instituto previsto na legislação italiana que consiste numa prestação econômica paga pelo Estado aos trabalhadores com contrato suspenso ou jornada reduzida.

*** Massa de gaze usada para absorver secreções.

Tradução: Maria Teresa Albiero e Alberto Albiero Jr.