Apresentado como modelo internacional de campanha de vacinação bem-sucedida contra a Covid-19, o Estado racista de Israel é na verdade um péssimo exemplo. Afinal, é da sua natureza enquanto enclave colonial a serviço do imperialismo utilizar todas as armas a sua disposição para a contínua limpeza étnica na Palestina, que segue há mais de 72 anos. A vacina, nas suas mãos, virou mais uma peça nessa engrenagem.

Por: Soraya Misleh

Vale tudo, desde propaganda para encobrir seus crimes contra a humanidade até usar a vacina como moeda de troca, enquanto promove apartheid sanitário contra palestinos.

Na semana passada, chegou a fornecer milhares de doses “excedentes” a Honduras e República Tcheca, em troca da transferência de suas embaixadas para Jerusalém, bem como à Guatemala e à Hungria, pelos serviços já prestados e a serem ampliados – processo que foi suspenso pelo “Ministério da Justiça” sionista para análise da autoridade do primeiro-ministro Netanyahu para tomar tal decisão. O que não deixa de ser interessante: mostra a divisão interna que se acentua às vésperas da quarta eleição parlamentar em pouco tempo, marcada para 23 de março, em que a campanha de vacinação é propaganda certa. Sem ilusões: a “defesa e segurança” do enclave colonial não estão em disputa.

Enquanto isso ocorria, Israel sequer completava a entrega de 5 mil doses prometidas há mais de um mês à Cisjordânia, ocupada em 1967 – destas, destinou apenas 2 mil. Mas nos assentamentos ilegais israelenses também na Cisjordânia a imunização era garantida.

No total, contam-se 12 mil vacinas disponíveis no local, insuficientes até para vacinar os profissionais da saúde. E os palestinos ainda tiveram que lidar com a gerente da ocupação, a Autoridade Palestina, desviando declaradamente 10% das doses para, entre outros, seus ministros, em detrimento de vulneráveis.

No mesmo mês de fevereiro, Israel segurou por dois dias a entrega de parcas 2 mil primeiras doses russas doadas a Gaza, também ocupada em 1967 – que conta atualmente 2 milhões de habitantes obrigados a conviver com bloqueio sionista desumano há 14 anos e bombardeios frequentes que destruíram a infraestrutura local e, portanto, sua capacidade de enfrentar a pandemia.

A chantagem foi a mesma do início da pandemia para assegurar a passagem de respiradores: entregar corpos de soldados da ocupação que invadiram a estreita faixa ao massacre em 2014. Gaza não cedeu, e a pressão internacional forçou Israel a cessar a barganha e permitir que as vacinas, insuficientes até para imunizar os profissionais da saúde, fossem entregues.

“Cruel e injusto”

A situação é dramática, como denunciam palestinos desde o início da campanha de vacinação sionista, em meados de dezembro último, e evidencia relato  do médico sem fronteiras Matthias Kennes de 22 de fevereiro último.

Atuando em Al Khalil (a cidade palestina conhecida como Hebron), na Cisjordânia, ele afirma que, como profissional da saúde, está “chocado”. Salienta: “O sucesso da vacinação de Israel contra a covid-19, aclamado internacionalmente, tem um lado oculto, cujas consequências são cruelmente sentidas no território palestino da Cisjordânia, onde trabalho, e na Faixa de Gaza, sob bloqueio israelense, onde meus colegas de Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalham.”

Kennes demonstra: “Israel conseguiu vacinar quase 4,2 milhões de pessoas com a primeira dose – o equivalente a 50% da população – e 2,8 milhões de pessoas com as duas doses completas – ou seja, mais de 30% da população. Enquanto isso, somente alguns milhares de doses estão disponíveis na Cisjordânia, e uma remessa de 20 mil doses que chegou a Gaza no último fim de semana mal atende às necessidades locais. Supondo que as 35 mil vacinas Sputnik e Moderna estejam realmente disponíveis, isso representaria cerca de 0,8% da população palestina.”

Ele continua: “Para ser mais claro, a probabilidade de você ser vacinado em Israel é 60 vezes maior do que na Palestina. Israel tem a responsabilidade, como potência ocupante, de garantir o abastecimento médico da população ocupada, incluindo ‘a adoção e a aplicação de medidas profiláticas e preventivas necessárias para combater a propagação de doenças contagiosas e epidemias’ em ‘toda a extensão dos meios disponíveis para isto’.”

O médico informa sobre a tragédia palestina em meio à ocupação e pandemia. “Em oito das 11 províncias da Cisjordânia, o número de casos de Covid-19 está aumentando novamente [até agora cerca de 200 mil infectados e mais de 2 mil mortos]. Em Hebron, esse aumento tem sido lento, mas constante, nas últimas quatro semanas. Não quero ver mais nenhum paciente morrendo por falta de oxigênio. A vacina é a minha esperança de isso ser evitado. Também é uma fonte de desespero.”

E explica o porquê de estar exasperado: “A poucos quilômetros, em Israel, todos os grupos vulneráveis foram vacinados e, agora, estão planejando vacinar adultos e jovens saudáveis, que são menos vulneráveis, especialmente a complicações graves. Aqui na Cisjordânia, existem cerca de 10 mil doses, o que é suficiente para que 5 mil pessoas sejam vacinadas. No hospital onde trabalho, a vacina foi oferecida aos funcionários, mas as doses disponíveis não chegam nem perto de conseguir proteger todos os profissionais de saúde, muito menos os idosos e as pessoas com problemas de saúde que os tornam suscetíveis a morrer de covid-19. Se perguntarem por que pessoas vulneráveis não podem ser vacinadas na Palestina, não sei como responder. É inexplicável e inacreditável. Pior do que isso – é injusto e cruel.”

Somente agora Israel anunciou que vai fornecer vacinas a 120 mil trabalhadores palestinos que são obrigados a se entulhar como gado num checkpoint para servir de mão de obra barata aos sionistas. A razão é óbvia: não teria como não imunizá-los para garantir que o vírus seja contido nas áreas ocupadas em 1948, ou seja, onde hoje se chama Israel. Por essa mesma razão, a exclusão não se estendeu aos palestinos submetidos a 60 leis racistas no local ou aos 5 mil presos políticos, em que grassa a negligência médica e a tortura é institucionalizada.

A limpeza étnica planejada atinge a todos, mas a tática de utilizar a pandemia para a contínua Nakba – catástrofe desde a formação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 – tem sido devidamente seletiva. Certamente na Cisjordânia, por essa lógica, a vacina bastante atrasada chegará ainda assim antes do que na prisão a céu aberto de Gaza.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou ao início de 2021 que planeja fornecer o suficiente para 20% da população que vive sob ocupação até meados do ano. A Autoridade Palestina pretende adquirir o suficiente para mais 40% dos palestinos por meio de parcerias com organizações humanitárias. Complicador, contudo, conforme a RTP Notícias, é que “os palestinos têm apenas uma unidade de refrigeração capaz de armazenar a vacina da Pfizer/BioNTech, que necessita ser mantida em temperaturas extremamente baixas”. A ocupação israelense é diretamente responsável pela carência de infraestrutura.

Apartheid sanitário

A denúncia do apartheid sanitário veio à tona inicialmente através da Anistia Internacional. Em relatório no dia 6 de janeiro, intitulado “Negar a vacina de Covid-19 aos palestinos expõe a discriminação institucionalizada de Israel”, conta com a seguinte declaração do vice-diretor regional para o Oriente Médio e Norte da África da Anistia Internacional: “Enquanto Israel celebra uma campanha de vacinação recorde, milhões de palestinos que vivem sob controle israelense na Cisjordânia e na Faixa de Gaza não receberão vacina ou terão que esperar muito mais – dificilmente poderia haver uma ilustração melhor de como as vidas de israelenses são valorizadas acima dos palestinos.”

A instituição é categórica: “As autoridades israelenses devem garantir que as vacinas sejam fornecidas igualmente aos palestinos que vivem sob seu controle, a fim de cumprir suas obrigações perante o Direito Internacional.” Cita, entre seus deveres como potência ocupante, previstos no artigo 56 da Quarta Convenção de Genebra, garantir e manter “os estabelecimentos e serviços médicos e hospitalares, saúde pública e higiene no território ocupado, com particular referência à adoção e aplicação de medidas profiláticas e preventivas necessárias para combater a propagação de doenças contagiosas e epidemias”.

Como um Estado fora-da-lei, Israel tem feito exatamente o contrário. Desde o início da pandemia de Covid-19, destruiu repetidamente clínicas e postos de saúde montados em cidades palestinas para tratamento de pacientes com Covid-19, confiscou equipamentos médicos e máscaras, fechou locais de testagem improvisados e bombardeou hospitais em Gaza. As denúncias do racismo e desumanização são incontáveis, em meio à expansão colonial agressiva dia a dia. Em meio à contínua Nakba. A campanha de vacinação é parte desse processo.

A exigência da Anistia Internacional de que, como potência ocupante, Israel cumpra com suas obrigações perante o Direito Internacional é importante diante da urgência e para desmascarar a propaganda sionista. Mas não se pode alimentar ilusões: o racismo é intrínseco ao Estado colonial sionista. Aos palestinos, portanto, resistir é a única alternativa.

Urge denunciar o apartheid e os crimes contra a humanidade cometidos também agora em meio à pandemia por Israel. É imperioso elevar as vozes para exigir vacinação em massa a todos os palestinos e cercá-los de solidariedade internacional ativa, rumo ao fim do enclave colonial sionista. Palestina livre, do rio ao mar, com o retorno do milhões de refugiados às suas terras, é questão de vida ou morte.