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Alemanha: depois das eleições, as lutas operárias questionam Merz

Fábio Bosco

setembro 23, 2026

No domingo, dia 20 de setembro, as eleições regionais expressaram, mais uma vez, o repúdio popular às políticas de austeridade do governo federal liderado pelo chanceler Friedrich Merz, do partido conservador CDU.

No estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha) capitalizou a insatisfação popular e venceu com 38,2% dos votos, seguido de perto pelo partido social-democrata SDP com 35,5%. O partido Die Linke (A Esquerda) teve 6,5%, e os verdes 5,7%. O partido CDU, do chanceler Merz, não obteve o piso eleitoral de 5% para eleger deputados, nem o BSW – uma ruptura pela direita do Die Linke que é xenófoba, putinista e contrária aos direitos dos LGBTs e das mulheres. Apesar da vitória, a AfD não tem maioria para governar, e deve continuar na oposição.

Em Berlim, o vencedor foi o Die Linke com 25,7%. seguido do CDU com 18,8%, a AfD com 16,3%, os verdes com 14,3% e o SPD com 12,1%. O BSW não conseguiu passar a barreira de 5% e não terá representantes no parlamento local. Pesquisas apontam que, para vencer, o Die Linke ganhou 36 mil votos do SPD e 51 mil votos dos verdes. Agora o Die Linke terá um grande desafio: cumprir a promessa eleitoral de cumprir o referendo de 2021 no qual 58% votaram por expropriar cerca de 220 mil moradias privatizadas para grandes empresas envolvidas na especulação imobiliária. Esta medida tem como objetivo baixar os custos exorbitantes de moradia na capital.

Outro desafio será enfrentar a chantagem do partido Verde, que acusa indevidamente o Die Linke de flertar com o antissemitismo devido ao apoio que setores dentro do partido dão à causa palestina. A única forma justa de enfrentar a chantagem é romper com o sionismo, e apoiar incondicionalmente a causa Palestina como política nacional do partido. Na mesma linha, o apoio à resistência ucraniana, humanitário e militar, precisa ser debatido e decidido pelo partido, rompendo com o putinismo e o pacifismo que ainda são influentes dentro das suas fileiras. É claro que apoiar militarmente a Ucrânia não tem nada a ver com apoiar o militarismo alemão e o orçamento militar de 830 bilhões de euros proposto por Merz até 2030.

A baixa popularidade de Merz e as derrotas eleitorais em três estados no espaço de 15 dias, apontam para a possibilidade da queda de seu gabinete, o que Merz rejeita. As reformas na saúde e previdência social propostas por Merz para reviver a economia alemã estão sintonizadas com os interesses do grande capital alemão mas são muito impopulares, e podem ser derrubadas pela classe trabalhadora.

O fim da parceria social?

No dia seguinte às eleições, o sindicato IG-Metall convocou protestos na indústria automobilística sob o lema “futuro ao invés de demissões”, que atingiram cerca de 200 locais de trabalho envolvendo 175 mil trabalhadores em todo o país, incluindo outras empresas além da Mercedes-Benz. Os trabalhadores não aceitam o aumento da jornada de trabalho de 35h para 40h semanais, sem aumento de salário, o fim do bônus de natal e de férias, além das demissões.

Os patrões da indústria automotiva apontam para a redução dos lucros, que ainda são milionários, e a perda de competitividade em relação à indústria chinesa para aumentar a jornada, cortar direitos e demitir trabalhadores. Estudos patronais apontam que a elevação da jornada reduziria os custos com mão-de-obra em cerca de 13%. Hoje o custo da folha de pagamento representa apenas 10% a 15% dos custos de produção no setor automotivo. O principal beneficiário dessas medidas são os acionistas que continuariam a receber dividendos milionários, e todo o peso desse ajuste seria colocado nas costas dos trabalhadores.

Sob intensa pressão das bases, a central sindical DGB convocou um dia nacional de manifestação contra as reformas trabalhista, da saúde e da previdência propostas por Mertz nas principais cidades alemãs para o sábado dia 26 de setembro.

Ao longo de décadas, os líderes sindicais conservadores da central sindical DGB e dos principais sindicatos pregaram a parceria com patrões e a cogestão das empresas, enquanto o partido com mais peso entre a classe operária, o SPD, fazia uma parceria com o principal partido capitalista, o CDU/CSU para implementar a reconstrução capitalista do país no pós-guerra e, neste momento de decadência do imperialismo alemão, salvar o capitalismo. Essa política de colaboração de classes está questionada pela oposição dos trabalhadores às medidas de austeridade. Agora, o que está colocado para a classe trabalhadora é superar qualquer forma de parceria social com os capitalistas, derrubar Mertz, barrar a AfD e lutar pelo poder.

O primeiro passo é barrar os ataques aos direitos dos trabalhadores em cada empresa, e barrar as reformas de Mertz e o ascenso da AfD, através de manifestações e greves. Essa luta se completa com medidas arrojadas como a nacionalização de todas as grandes empresas (VW, BMW, Mercedes-Benz, RheinMetall, Bosch, Siemens, Basf, Bayer, Merck, …) sob o controle dos trabalhadores para manter os empregos e direitos trabalhistas, e promover uma reconversão industrial para produzir bens bons e baratos que sejam úteis para a população. Outra medida arrojada é rejeitar a demogogia da AfD de retomar a importação de energia fóssil da Rússia, e investir na transição energética com base na energia solar, a eólica e hidrogênio verde em prazos curtos para oferecer energia barata e limpa para todos os lares no país.

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