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Irã

Trump retoma guerra para reverter fracasso

Fábio Bosco

julho 23, 2026

Em 17 de abril, o presidente Trump firmou um memorando de entendimento que, entre outros pontos, estabeleceu um cessar-fogo em todas as frentes, incluindo o Líbano, e a garantia que o Irã permitiria a passagem de navios pelo estreito de Ormuz sem cobrança de qualquer taxa por sessenta dias. Em troca, as forças estadunidenses suspenderam o bloqueio aos portos iranianos e as sanções sobre as exportações de petróleo iraniano.

Esse memorando é favorável ao Irã e expressa o fracasso da agressão. No entanto, Trump busca reverter essa derrota, e a retomada da agressão pode aprofundá-la.

Primeiro foi o Líbano. Trump impôs um acordo neocolonial contra o Líbano que garante às forças israelenses a permanência no sul do Líbano, e o “direito” de revidar a qualquer “ameaça”. Ao governo libanês fica a obrigação de desarmar as milícias ligadas ao partido político libanês Hezbollah. Ou seja, Israel terceirizou o combate ao Hezbollah sem se retirar do território libanês.

Depois Trump decidiu atacar o Irã depois que três navios, que desacataram as ordens iranianas de cruzar o estreito pela rota norte, levaram tiros de advertência, no dia 7 de julho. Além disso, Trump voltou a bloquear os portos iranianos e a impôr sanções sobre as exportações de petróleo.

Os ataques estadunidenses foram ampliados ao longo de 11 dias, mas ainda não atingiram os níveis da ofensiva de 38 dias iniciada em 28 de fevereiro. Mas Trump ameaça ampliar qualitativamente os ataques com foco no sul do país, na ilha de Kharg e na montanha da picareta perto de Isfahan, onde Trump acredita estarem depositados os 400 quilos de urânio enriquecido a 60%.

Apesar dos ataques militares e das ameaças, o regime iraniano não aceita modificar o Memorando de Entendimento em detrimento de seus interesses. E tem revidado à agressão militar estadunidense atacando as bases estadunidenses em vários países da região.

Big Techs, petroleiras e indústria militar lucram com a guerra

No dia 21 de julho, o secretário de defesa Pete Hegseth foi ao parlamento estadunidense pedir mais USD 70 bilhões para a agressão contra o Irã. Ele afirmou que a guerra já consumiu USD 37,5 bilhões. O orçamento total pleiteado chega a USD 1,5 trilhões.

Parte desses recursos vai para Big Techs como a Palantir, a Microsoft, a Amazon e a SpaceX que possuem contratos bilionários para desenvolver sistemas militares integrados por Inteligência Artificial para ações militares, vigilância e comunicações, logística e armazenamento de dados e softwares em nuvens.

Outra parte vai para o chamado complexo industrial-militar com empresas do porte da Lockheed Martin que produz aviões, mísseis e helicópteros, a Raytheon (atual RTX) que produz os mísseis Patriot e Tomahawk, a Northrop Grumman que faz o bombardeiro B-21, a General Dynamics que produz submarinos nucleares, navios destroyer e tanques Abrams, e a Boeing especializada em aviões militares.

Além destas corporações, petroleiras como a ExxonMobil, a Chevron, a ConocoPhillips, a Occidental Petroleum lucram bilhões com o aumento do preço do petróleo em quase 50%, atingindo USD 90 o barril do tipo Brent.

No entanto, o fechamento do estreito de Ormuz atinge em cheio o conjunto da economia mundial e se reflete nas projeções de menor crescimento econômico, de maior inflação e taxa de juros com impacto nas ações das grandes empresas e no bolso da classe trabalhadora.

Por isso há divisões inter-burguesas dentro dos Estados Unidos, onde alguns setores apoiam ampliar a agressão para subjugar o Irã, e outros setores criticam a decisão de Trump de ir à guerra e retomá-la.

Há também divisões inter-imperialistas. Enquanto os Estados Unidos, que é o imperialismo hegemônico, mantém a agressão ao Irã o que levou ao fechamento do estreito de Ormuz, o imperialismo europeu quer o fim do conflito e a reabertura do estreito pois sua economia é uma grande vítima dos altos preços do petróleo e gás.

A impopularidade da guerra pode levar a uma derrota eleitoral

Desde sua eleição, o governo Trump já enfrentou várias crises de popularidade.

Sua amizade com o pedófilo Jeffrey Epstein, gerou crises na base de seu movimento direitista MAGA (Make America Great Again). Pouco divulgado pela mídia, Epstein também tinha fortes ligações com o dirigente sionista Ehud Barak e, possivelmente, com o serviço secreto israelense através do pai de sua companheira, o magnata da mídia britânica Robert Maxwell, morto em condições não esclarecidas, e sepultado no Monte das Oliveiras com a presença do primeiro-ministro israelense e dirigentes do Mossad.

Outra crise foram as ações do serviço de imigração ICE, transformado em polícia política pelo presidente Trump. O ponto alto foi o levante popular em Minneapolis após a invasão do ICE e o assassinato de dois manifestantes, o que obrigou Trump a retirar o ICE da cidade. Recentemente, o ICE assassinou dois imigrantes em violentas batidas policiais.

Agora é a guerra e, particularmente, seu impacto inflacionário. A impopularidade do governo Trump deve se refletir nas eleições de meio de mandato em outubro, levando à perda da maioria da Câmara dos Deputados (House of Representatives). Para minimizar uma eventual derrota, Trump está recorrendo a mudanças em distritos eleitorais (prática conhecida como “gerrymandering”), a dificultar o voto dos mais pobres através dos correios e de exigências de documentos nacionais, e denúncias falsas de fraude eleitoral.

Irã luta para assegurar o controle do estreito

A agressão estadunidense e israelense representou uma ameaça existencial ao regime iraniano e ao próprio país. No entanto, após 38 dias de pesados bombardeios diários, o Irã sobreviveu e conquistou o controle sobre o estreito de Ormuz que lhe dá uma vantagem dissuasória sobre os inimigos que ele não tinha antes. Desta forma, o regime agora dominado pela guarda revolucionária, se moralizou perante a parcela da população iraniana que o apoia.

No entanto, a repressão interna continuou após o massacre de mais de 20 mil manifestantes nos dias 8 e 9 de janeiro deste ano. Mesmo durante a agressão militar ao país, o governo enforcou 18 manifestantes e impôs uma pena absurda contra a cantora Parastoo Ahmadi, que se apresentou sem véu em uma gravação e foi condenada a 74 chibatadas e dois anos sem poder se apresentar nem sair do país. Esta semana, a Al Jazeera publicou um artigo sobre o fechamento de bares e cafés no centro de Teerã por aceitarem clientes mulheres sem véu!

Essa repressão aliena grande parte da população e fragiliza a defesa do país. A ampla maioria do povo iraniano rejeita a agressão estadunidense. A experiência histórica demonstra que a população nunca se beneficiou de qualquer invasão estrangeira. Além disso, os ataques se dirigiram contra alvos militares e civis, colocando em risco a vida da população e a infraestrutura econômica e social do país.

A posição do PSTU e da LIT-QI é clara. Estamos na trincheira militar do regime iraniano contra a agressão estadunidense, sem que isso implique em qualquer apoio político ao regime. Defendemos a libertação dos presos políticos e a suspensão dos enforcamentos. Entendemos que, para garantir a defesa do país, particularmente em caso de invasão terrestre, é necessário armar a população, principalmente no sul, na ilha de Kharg e nos arredores da montanha da picareta.

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