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Bolívia

Bolívia: COB aceita diálogo e retira exigência de renúncia de Rodrigo Paz

Lena Souza

junho 18, 2026

Após 49 dias de mobilização nacional, a direção da Central Operária Boliviana (COB) concordou em estabelecer um diálogo com o governo de Rodrigo Paz e retirou a exigência de sua renúncia, uma consigna que havia ganhado força entre amplos setores de trabalhadores, camponeses e indígenas durante semanas de luta. Essa mudança de postura da direção ocorre em um momento em que o governo enfrenta uma profunda crise política e crescente questionamento popular. Enquanto a direção da COB aposta em uma saída negociada, uma forte disposição combativa persiste entre as bases. Os bloqueios continuam, mantidos principalmente por organizações camponesas e indígenas; setores de mineração manifestaram sua disposição de intensificar as táticas de pressão; e amplos setores da população permanecem convictos de que a mobilização ainda tem força para alcançar suas reivindicações e até mesmo derrotar o governo. Essa contradição entre a disposição combativa da base e a orientação negociadora da direção tornou-se um dos principais pontos de debates dentro do movimento.

Negociações suspensas temporariamente

A COB (Central Operária Boliviana) apresentou uma lista de reivindicações para a chamada “pacificação do país”, que inclui a libertação dos detidos durante os protestos, garantias para o exercício do direito de reunião, o fim da perseguição judicial e o atendimento das demandas econômicas e sociais apresentadas pelas organizações populares. No entanto, a reivindicação pela libertação dos presos tornou-se o eixo central da negociação.

Diante da pressão das organizações mobilizadas, o governo concordou em criar um grupo de trabalho específico para discutir a situação jurídica dos detidos. Assim, as negociações entraram em recesso, e a continuação do diálogo passou a depender da resolução da situação dos presos e da adoção de medidas concretas para garantir sua libertação. A reivindicação pela libertação dos detidos tornou-se, portanto, a principal bandeira da negociação e um ponto de unidade entre as organizações em luta.

A base camponesa e indígena mantém os bloqueios e cobram radicalização por parte das direções

As direções da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) e da Federação Tupac Katari não participaram da reunião de diálogo, argumentando que qualquer decisão deve ser consultada previamente com a base. No entanto, sua orientação política aponta no mesmo sentido da COB (Central Operária Boliviana): priorizar a demanda pela libertação de presos políticos e manter aberta a possibilidade de negociações com o governo.

Os bloqueios e as ações mais combativas têm sido sustentados principalmente por organizações camponesas e indígenas de base, que hoje questionam a orientação da direção ao diálogo. A radicalização desses setores é uma resposta ao agravamento das condições econômicas, ao aumento do custo de vida e às políticas de austeridade, mas também ao aumento do racismo e dos ataques do governo contra as comunidades mobilizadas. Entre amplos setores das comunidades camponesas e indígenas, existe um profundo sentimento de decepção e traição: muitos afirmam ter acreditado nas promessas de Rodrigo Paz, mas que o governo mentiu sistematicamente para eles, recusou-se a negociar durante os estágios iniciais da crise e não respeita os princípios de consulta, reconhecimento e participação dos povos indígenas consagrados no caráter plurinacional do Estado. A estigmatização dos protestos e a discriminação promovida por aqueles que detêm o poder aprofundaram a indignação e fortaleceram a disposição de lutar em grandes regiões do país.

Ampliar os protestos e convocar uma greve geral

A libertação dos detidos e o fim da repressão são demandas absolutamente legítimas. Mas limitar a luta à negociação e abandonar a exigência da renúncia de Rodrigo Paz significa dar um passo para trás justamente quando a mobilização demonstrou sua maior força.

Por essa razão, cresce o questionamento, por parte das bases à direção da COB, a qual muitos trabalhadores e setores populares consideram incapaz de canalizar toda a força do movimento para derrotar o governo. A COB também falhou em impulsionar a verdadeira ampliação da mobilização nacional, apesar da enorme disposição de luta entre trabalhadores, camponeses e povos indígenas. Setores da mineração expressaram sua disposição em intensificar a luta. O Sindicato Misto de Mineiros de Huanuni, por exemplo, declarou publicamente sua disposição para fortalecer a mobilização e implementar medidas mais enérgicas. No entanto, a direção da COB não convocou um plano de luta mais amplo, não incentivou a incorporação de novos setores, nem colocou toda a força da classe trabalhadora organizada na luta nacional. Ao mesmo tempo, setores importantes, como os fabris e professores, gradualmente se afastaram do movimento, sem que a direção da COB realizasse uma campanha decisiva para impedir essas divisões, reconquistar esses setores ou reunificar as forças do movimento popular.

A experiência destas últimas semanas demonstra que a força para alcançar as demandas populares reside na unidade e na mobilização independente dos explorados e oprimidos. A enorme disposição de luta dos trabalhadores, camponeses, indígenas e outros setores deve ser canalizado para um verdadeiro plano nacional de luta para impor suas demandas e avançar rumo à derrota do governo mentiroso e racista de Rodrigo Paz.

Ampliar a luta para derrotar o governo e fortalecer a solidariedade internacional

A tarefa central é ampliar o movimento, fortalecer os bloqueios, incorporar decisivamente os trabalhadores organizados e estender a organização democrática desde a base para derrotar o governo enganador e racista de Rodrigo Paz e impor uma solução favorável aos trabalhadores e ao povo boliviano. Ao mesmo tempo, é necessário fortalecer a solidariedade internacional com a luta na Bolívia. A luta dos trabalhadores, camponeses e povos indígenas bolivianos faz parte da resistência dos povos da América Latina contra a austeridade, a repressão e todas as formas de opressão e discriminação.

O poder deve residir nas decisões das bases

As contradições entre a disposição combativa da base e a orientação negociadora da direção da COB levantam, mais uma vez, uma questão estratégica para o movimento popular boliviano. A Central Operária Boliviana (COB) continua sendo a principal e mais histórica organização dos trabalhadores e dos povos explorados do país. Sua história é marcada por grandes lutas, pela unidade entre operários, camponeses e povos indígenas e por momentos em que se posicionou como referência de poder alternativo aos governos de turno.

Justamente por esse papel histórico, o destino da luta não pode ser deixado nas mãos de negociações conduzidas de cima para baixo e fora do controle das bases. São os trabalhadores, camponeses e povos indígenas que mantêm os bloqueios, enfrentam a repressão e mantêm viva a mobilização que devem decidir democraticamente os rumos do movimento. A COB deve se apoiar em assembleias, reuniões ampliadas e órgãos deliberativos de base, com representantes eleitos e revogáveis, para que as maiorias mobilizadas definam as reivindicações, as medidas de luta e quaisquer negociações com o governo.

Diante de um governo debilitado e questionado por amplos setores da população, a solução não está em substituir a iniciativa das massas por acordos de cúpula, mas em fortalecer a organização independente e democrática dos explorados e oprimidos. Todo o poder de decisão deve estar nas mãos da base, por meio da COB, para unificar a luta e abrir um caminho a serviço dos trabalhadores, camponeses e povos indígenas da Bolívia.

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