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Colômbia

A chegada de Abelardo de la Espriella à presidência: uma ameaça para as mulheres e as pessoas LGBTI+

A resistência à ultradireita: unindo lutas contra a opressão e o capitalismo em defesa dos direitos humanos.

Lucia

agosto 5, 2026

Como mulheres e socialistas, recebemos a eleição de Abelardo de la Espriella com firmeza, mas com preocupação. Sua vitória representa o avanço da ultradireita machista, empresarial, paramilitar e autoritária na Colômbia. Trata-se de um projeto autoritário que prioriza o lucro, a suposta “família tradicional” e a ordem punitiva sobre os direitos humanos, a diversidade e o bem-estar das maiorias. Este projeto faz parte do auge internacional da ultradireita e se sente respaldado pelo imperialismo norte-americano sob a liderança de Trump; é tal a investida ideológica que se está questionando até o direito ao voto feminino.

Este não é uma simples mudança de governo: constitui um perigo real para as conquistas logradas com anos de mobilização. Afeta especialmente as mulheres mais vulneráveis —trabalhadoras precarizadas, vítimas de violência nos territórios, mães chefes de família, migrantes, racializadas— e as pessoas LGBTI+, sobretudo as trans, lésbicas e gays de bairros populares, que enfrentam discriminação múltipla por classe, orientação sexual e identidade de gênero.

Durante a campanha, vimos os comentários machistas e homofóbicos de Abelardo: referências grosseiras a seus genitais, trato despectivo a jornalistas mulheres, desqualificações a candidatos homossexuais e a construção de uma imagem “machito alfa” como modelo de poder. Não foi apenas um show. Reflete uma ideologia profundamente enraizada, que reduz as mulheres a papéis reprodutivos e ataca a diversidade sexual, tornando impossível que possa governar com equidade. De suas declarações e anúncios, assim como o nomeação de Vivian Morales na pasta da educação, nos permite antecipar políticas que invisibilizarão nossas demandas e as da comunidade LGBTI+.

Quando promete combater a mal chamada “ideologia de gênero”, sabemos o que implica: um ataque sistemático aos direitos sexuais e reprodutivos, à educação inclusiva e à diversidade sexo-gênera. Concretamente, ameaça retirar conteúdos educativos sobre igualdade de gênero e diversidade sexual nas escolas, cortar fundos para programas de prevenção de violências e limitar o acesso ao aborto. Para as pessoas LGBTI+ isso significa maior vulnerabilidade: retrocessos no reconhecimento de identidades trans, na adoção por casais do mesmo sexo e em políticas de não discriminação, e um discurso que promove os crimes de ódio e os feminicídios.

Em direitos reprodutivos, os marcos restritivos apenas aumentam a mortalidade e o sofrimento das pessoas mais vulneráveis. É muito possível que tentem impor um retrocesso na despenalização do aborto, na adoção igualitária, nas cotas de gênero e nas proteções para pessoas LGBTI. Os sinais já estão presentes: sua defesa cerrada da “família tradicional” de pai e mãe (que já não existe para milhares de crianças que crescem sem pai na Colômbia), sua oposição explícita à adoção homoparental e seu silêncio frente aos feminicídios e aos crimes de ódio.

Assim como Trump e Milei, não poderá simplesmente fazer o que quiser ou eliminar direitos com um decreto. Embora diga respeitar formalmente a ordem jurídica, sua base e aliados já busca desmontar direitos ou limitá-los por meio de nomeações conservadoras e reformas culturais regressivas nos ministérios; e como era de se esperar, reencenando a apresentação de referendos como o recém-apresentado pela bancada chamada contraditoriamente pró-vida para limitar o direito ao aborto. Dizemos que não são pró-vida porque está mais do que provado que a proibição do aborto não o evita, mas sim causa mortes de mulheres, além de que esses mesmos personagens são aliados de Israel, a principal causa de morte infantil do mundo nos últimos anos.

Na nova tentativa de referendo que se sabe ser inconstitucional, se somarão uma sequência de demandas de nulidade e outras iniciativas contra direitos que, como o aborto, estão consagrados constitucionalmente. A maioria dessas iniciativas cairá, mas conseguirá seu objetivo de desinformar e criar um ambiente de dúvida sobre a vigência dos direitos e de legitimidade para as barreiras e as violências.

Mão dura contra a violência machista?

Em relação à violência contra as mulheres e as pessoas LGBTI, seu discurso de “mão dura” e “ordem” é insuficiente e perigoso. A abordagem punitiva —megacárceres, prisão perpétua— não erradica a violência machista nem os crimes de ódio. Não toca nas raízes estruturais: a desigualdade econômica, o machismo, a transfobia e homofobia, e a impunidade.

Sem empregos dignos, sem educação inclusiva, sem atenção integral e sem transformar as masculinidades dominantes, a violência continuará. O modelo punitivo e populista gera mais repressão seletiva, não segurança real para mulheres e pessoas LGBTI.

Que resposta devemos dar as mulheres e as pessoas LGBTI+?

Não podemos ficar na defensiva. O movimento deve ser amplo, inclusivo e de classe: unir as lutas contra o machismo, a LGBTfobia e o capitalismo, articulando as lutas com outros setores da sociedade. Não é o momento do feminismo liberal, branco e elitista, mas sim da unidade das e dos de baixo, que coloque no centro as mais oprimidas e exploradas. Neste momento, a unidade das exploradas e oprimidas é vital para defender direitos e evitar retrocessos maiores.

Precisamos avançar para uma nova paralisação nacional, para isso convocar assembleias territoriais, campanhas de educação popular contra o machismo e a homofobia, e pressão constante nas ruas.

Esta vitória reacionária é um obstáculo na longa marcha pela emancipação. Abelardo vem para nos lembrar que no sistema capitalista todas as vitórias são parciais e temporárias, que quando se para de lutar ou se baixa a guarda, vem o retrocesso; mas assim mesmo é possível, por meio da luta, deter os planos antiderechos e até mesmo avançar.

O capitalismo se alimenta de homofobia, machismo, racismo e todas as opressões; para derrubá-los precisamos de uma luta conjunta, internacionalista e de classe.

A resistência já começou e se manifestou nas mobilizações juvenis desde a eleição. Continuemos tecendo redes, avançando em organização e consciência. As mulheres e as diversidades não recuaremos. ¡Organização, luta e unidade operária e popular!

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