Palestina: quem acende o pavio
Milão, 16 de maio de 2026: manifestação pelo aniversário da Nakba.
Os marxistas, diferente dos pós-modernistas, sabem que trocar as palavras não muda o mundo. Apenas a luta de classes – e o seu clímax, a revolução – muda a sociedade. No entanto, as palavras são uma parte do campo de batalha ideológico. Isso vale muito mais pela chamada “questão palestina” que está entre as mais falsificadas pelo sionismo, imperialismo e reformismo. No ano passado “Israel” investiu 800 milhões na “hasbara”[1], a atividade de propaganda para apresentar a entidade sionista sob uma boa aparência. A esta prática sionista se junta a propaganda pela qual os governos imperialistas cobrem os crimes de “Israel”, ajudados pelas organizações reformistas nesse trabalho. Tentaremos mostrar alguns dos truques semânticos utilizados com esse objetivo.
«Paz entre os dois povos»
Geralmente ouvimos falar que se trata de pacificar os dois povos. É a grande mentira que anuncia a solução “dois povos, dois Estados”. O engano consiste em dissimular que na Palestina não existe “dois povos”: há um povo oprimido, o palestino, e existem os colonos que os oprimem, os “israelenses”.
O “reconhecimento” do Estado palestino que é feito hipocritamente por alguns governos com finalidade eleitoral (pensemos no governo Sanches, no Estado Espanhol) significa reconhecer um hipotético mini-Estado que deveria ser concedido aos palestinos. Um mini-Estado formado pela Cisjordania e pela Faixa de Gaza que, somando, possuem cerca de um quinto da Palestina. Esta hipótese fantasiosa exclui o retorno de seis milhões de refugiados às suas casas e deixaria para a colônia sionista dominar esta “reserva indígena”[2] e os quase dois milhões de palestinos que vivem dentro do “Estado hebraico”, submetidos a dezenas de leis raciais. Melhor alguma coisa do que nada, diz alguém. Pena que essa “alguma coisa” seja só fumaça: uma concessão verbal de um futuro Estado em troca de uma renuncia concreta por recuperar a Palestina “do rio ao mar”.
Um engano reapresentado enquanto os sionistas, depois de tê-la arrasada, estão ocupando toda a Faixa de Gaza, estendendo, metro a metro, o controle sobre a Cisjordania, estendendo as suas garras sobre a parte sul do Líbano (“operação obscuridade eterna”) e sobre uma parte da Síria. Como declarou recentemente um comandante do IDF: “estamos matando palestinos com um ritmo que não alcançávamos desde a guerra de 1967”.
«Territórios ocupados», «Israel» e «israelenses»
Um segundo erro semântico é utilizado pela ONU e por toda a esquerda reformista. Às vezes é usado, de boa fé, também por quem realmente tem a causa palestina no coração. A definição de “território palestino ocupado” é um erro por referir-se apenas àquela pequena parte da Palestina (Gaza e Cisjordânia) onde deveria nascer o assim chamado “Estado da Palestina”.
A trapaça consiste em indicar apenas estas partes da Palestina como “ocupadas”: implicitamente afirmando que o resto do território, cerca de 80% da Palestina, que em seus mapas geográficos é indicado como “Israel”, não estaria ocupado.
Em nossa publicação colocamos a palavras “Israel” entre aspas porque não fazê-lo implica aceitar, às vezes involuntariamente, que exista um legítimo Estado e uma legítima população. Enquanto o que existe realmente é uma colônia e colonos (estes são todos os “israelenses”).
«O governo reacionário de Netanyahu»
Entre os erros semânticos, este é um daqueles aos quais mais frequentemente recorrem os reformistas, aqueles partidos que continuam a defender os “dois povos, dois Estados”.
A tentativa é de defender que o problema não está na colônia “Israel”, mas no seu atual governo. Que o governo Netanyahu seja reacionário, não há evidentemente dúvidas. Mas esta é uma meia verdade: porque nunca existiu e nunca poderá existir um governo não reacionário de uma entidade colonial e racista. Para que funcione essa armadilha que alude a um suposto sionismo bom (tese defendida por vários intelectuais da chamada esquerda) é necessário apagar a história da colônia fundada com o terror, as bombas, os estupros, mesmo daqueles sionistas que se pretendiam “bons”, isto é, pelos “trabalhistas”. Foram esses últimos a expulsarem 800 mil palestinos de suas casas, fazendo evaporar mais de 500 vilas, durante aquilo que os palestinos chamam de Nakba, a catástrofe. Nas escolas “israelenses” esta história é falsificada e o êxodo de milhares de palestinos é explicado como um “afastamento voluntário”.
Por outro lado, basta ler os jornais para saber que mesmo nos últimos dias a Knesset, o parlamento colonial, tentou instituir um tribunal militar especial onde seriam processados os combatentes de 7 de outubro e a medida foi votata por unanimidade. Incluindo também os sionistas bons que existem apenas nas fantasias encomendadas a jornalistas e burocratas.
«Permanece sempre uma democracia»
Ocorre ainda hoje, há dois anos e meio do início do último massacre de palestinos, ouvir alguns desses intelectuais orgânicos do capitalismo dizer, depois de ter retirado toda a responsabilidade do “governo reacionário de Netanyahu”, que “Israel permanece, apesar de tudo, uma democracia”.
Dado que esses senhores também sabem que se trata de uma entidade estatal declaradamente teocrática e baseada na supremacia étnica, que bombardeia qualquer país que queira bombardear, que pratica com regularidade a tortura e o estupro de prisioneiros, que ataca as embarcações de ajuda humanitária da Flotilha há milhares de quilômetros da costa que considera sua (a costa da Palestina)… A única explicação para afirmações similares é a de que “Israel” e os seus amigos sabem bem retribuir quem o defende…
«São antissemitas»
Não é necessário alongar-se, para os leitores desse jornal, sobre a falsa equação antissionismo-antissemitismo. Mas é um tema importante a esclarecer entre os setores mais amplos dos trabalhadores e da juventude. É bom recordar que ser “antissemita” significa ser racista. E que essa acusação é dirigida contra nós pelo sionismo, uma ideologia racista, e pelos descendentes dos fascistas que mataram milhões de judeus. Gente que tem em casa o busto daquele antissemita que os partisans penduraram pelo pescoço na praça Loreto. Mas na Itália não apenas os partidos do governo usam esse jogo de palavras (com consequências criminais). A esse coro participam expoentes daquele “campo amplo” que abriram os campos de concentração para imigrantes e no parlamento votam a favor (ou pior, se abstêm) sobre o DDL Romeo que dá a magistratura amplos poderes para definir como antissemita toda declaração antissionista. E estamos falando daquela magistratura que tem colocado na prisão Hannoun e outros companheiros, condenou Anan Yaeesh a 6 anos de prisão e há alguns dias atrás emitiu medidas contra os jovens que em setembro se manifestaram em Milão.
«A culpa é do 7 outubro»
Um outro truque retórico é aquele de quem continua a repetir a falsidade sobre o 7 de outubro. Aquele dia uma dúzia de organizações da Resistência, seguidos por centenas de jovens, romperam a gaiola/os arames de Gaza para pegarem reféns para trocarem pelos milhares de prisioneiros do sionismo.
A quase totalidade das organizações da esquerda, inclusive algumas que se definem “revolucionárias”, criticaram de modo mais ou menos rude aquela ação. Não é o caso do PdAC e da nossa Internacional.
Mais sutil, mas igualmente falso, é o argumento de quem disse que aquela ação de guerra foi “legítima mas contraproducente”, porque teria provocado a reação sionista. A verdade é que não apenas o sionismo mata e bombardeia os palestinos há décadas, mas devemos acrescentar que é sempre reacionário o argumento segundo o qual se o agredido reage, a culpa é sempre do agressor.
Não apenas: se hoje “Israel” está isolado como nunca esteve, se se desenvolveu um movimento internacional de apoio à Palestina que não tem precedentes em extensão e dimensões, se hoje podemos falar de “geração Gaza”, de milhares de jovens que através da causa Palestina compreendem o que é efetivamente o sistema capitalista no qual vivemos e começam a se opor a ele, se isso ocorre, o mérito principal é dos palestinos e da sua Resistência que dura há mais de um século e viu no 7 de outubro um acontecimento heroico.
PCR e Rede dos Comunistas alimentam a confusão
Quanto mais cresce o descredito de “Israel”, ainda mais para aqueles que negaram o genocídio por dois anos, começam a usar aquela palavra. Quanto mais crescem as mobilizações pela Palestina, mais encontramos partidos reformistas, incialmente ausentes das praças, participando das manifestações.
Uma ação unitária é necessária e desde sempre criticamos toda tentativa de dividir as manifestações e greves. Mas isso não significa remover as diferenças. Ao contrário: o debate sobre as reais perspectivas que cada um defende é fundamental e por muito tempo foi removido em nome de uma unidade falsa que só faz o jogo das burocracias.
Em outros números desse jornal e o seu Trotskismo Oggi, revista teórica do nosso partido, assim como em um livro recém publicado (1), examinamos em profundidade as posições que, em nossa opinião falsas, emergem no debate da esquerda.
Aqui nos limitaremos a uma breve lista dessas posições.
“Dois povos, dois Estados”, que é muito comum em grande parte do reformismo italiano (por exemplo, na Refundação Comunista) e mundial, ainda que seja frequentemente desacreditada entre os ativistas mais informados. “Solução de um único Estado”, um substituto dos “dois Estados”, do mesmo modo sem fundamento. O “reconhecimento das resoluções da ONU”, muito comum em quase todas as forças inclusive aquelas que se definem comunistas, que assim implicitamente aceitam a divisão de 1947.
Sobre este último tema, tendem a sucumbir também organizações que apresentam uma aparência mais radical, como por exemplo a Rede Comunista (que participa a Pap e dirige USB e várias estruturas da juventude nas primeiras fileiras das mobilizações, como OSA e Cambiare Rotta). Se trata daquelas organizações que reivindicam o “comunismo novecentista”, compreendendo não (como nós) o Outubro de 1917 e a batalha anti-stalinista do trotskismo para defender o bolchevismo, mas um stalinismo criticado superficialmente. Organizações que vêm na Venezuela o “socialismo do século XXI” (2). São as mesmas forças que reivindicam o castro-chavismo e sustentam um “multipolarismo” no qual China e Rússia (isto é, dois saqueadores imperialistas, como teria definido Lênin) desenvolveriam um papel progressista em contraposição ao outros saqueadores imperialistas liderados pelos Estados Unidos.
Existem ainda organizações que se definem “trotskistas”, como é o caso do PCR (ex Falcemartello), que em nome de uma suposta pureza “classista” (mas é apenas uma incompreensão da posição leninista), partindo da (falsa) premissa segundo a qual “Israel é uma nação e não podemos fazer um chamado à sua abolição” (3), invocando a criação de “uma frente única entre o povo palestino e a classe operária e os setores progressistas (sic) da sociedade israelense” (4). Classe operária que obviamente existe em “Israel”, mas é constituída por uma casta que goza de privilégios coloniais, aos quais talvez um dia renuncie a uma pequena parte deles (assim nos ensina a história de outras lutas por libertação), mas quando for destruído o Estado de “Israel”, só uma minoria absoluta de ex “israelenses” aceitarão viver em paz na Palestina.
A realidade é que, desde o nascimento desse monstro que chamaram “Israel”, apenas os trotskistas consequentes defenderam que a única perspectiva revolucionária passava pelo fim deste enclave colonial e a libertação de toda a Palestina “do rio ao mar” (5), como parte de um programa de “revolução permanente” para construir os Estados Unidos Socialistas do Oriente Médio.
Inclusive por isso um partido realmente marxista, isto é, trotskista, na Itália e em escala internacional, é o objetivo ao qual devem colocar-se todos aqueles jovens e trabalhadores que lutam pela Palestina, lutam para construir uma alternativa ao capitalismo em putrefação. Uma alternativa que só pode ser comunista.
Notas
(1) Veja o nosso Dal fiume al mare. Dalla parte della Resistenza palestinese (ed. Rjazanov, 2025).
(2) A Rede dos Comunistas apoiou entusiasticamente o regime (ultra-repressivo) de Maduro, enviando delegações a Caracas e participando do lançamento da «Internacional Antifascista» promovida pelo regime. Veja por exemplo. https://contropiano.org/documenti/2025/01/13/internazionale-antifascista-il-programma-0179279
Nem mesmo a capitulação explicíta da «cara amiga» Delcy Rodriguez (como a definiu Trump) aos Usa parece ter provocado uma reavaliação. Tudo explicado como «astucia tática» do regime
(3) V. Alan Woods e Ted Grant, Il marxismo e la questione nazionale, aqui em tradução italiana https://rivoluzione.red/il-marxismo-e-la-questione-nazionale/
(4) V. “Basta de hipocrisia! Defender Gaza!” (11/10/23) https://rivoluzione.red/basta-ipocrisia-difendere-gaza-la-dichiarazione-della-tmi/
(5) Não é por acaso que o PCR, que não é consequente com a própria auto definição como “trotskista”, recusa essa reivindicação. Veja a nossa polêmica:
[1] Hasbara, um termo hebraico que significa “explicação”, trata-se da maneira pela qual o sionismo faz propaganda ideológica com o uso de desinformação para justificar suas ações genocidas e de limpeza étnica na Palestina.
[2] Nos EUA e Canadá, essas áreas foram instituídas no século XIX por seus governos para confinar as populações locais com a finalidade de favorecer a expansão territorial dos colonos. (Dicionário Treccani)




