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Palestina

Sob genocídio e limpeza étnica, palestinos votam em eleições locais

EFE/ Magda Gibelli

Fábio Bosco

maio 5, 2026

No último dia 25 de abril, foram realizadas eleições locais na Cisjordânia e em um município em Gaza: Deir al-Balah. 6.917 palestinos se candidataram em listas eleitorais em 381 distritos eleitorais (vilas ou municípios).

Houve votação em metade dos distritos eleitorais, onde mais de uma lista de candidatos se apresentou. O comparecimento foi de 56% dos um milhão de palestinos habilitados a votar. Em Deir al-Balah, o comparecimento foi de 22,7% (16 mil entre 70 mil eleitores). Na outra metade das localidades, não houve votação, como foi o caso de cidades importantes como Ramallah e Nablus.Em Jerusalém Oriental (Al-Quds as-Sharkiya em árabe) a votação foi impedida pelo estado de Israel.

As eleições foram convocadas pela Autoridade Nacional Palestina com o objetivo de retomar alguma legitimidade, já que sua política de colaboração com a ocupação israelense é muito impopular, pois se mostrou contrária aos interesses da maioria dos palestinos. A única beneficiária dessa colaboração é a burguesia palestina ligada aos negócios da ocupação.

Para evitar que sua impopularidade se expressasse nas eleições, a ANP impôs como regra para os candidatos o reconhecimento da OLP como única representante do povo palestino e também o reconhecimento do Estado de Israel e dos acordos de cooperação.

O Hamas e a FPLP anunciaram sua não participação nas eleições. A FDLP criticou, mas participou de algumas listas independentes. Já o Partido do Povo (PPP, antigo Partido Comunista) participou procurando se distanciar do governo da Autoridade Palestina do qual participa.

Oitenta e oito por cento dos candidatos se apresentaram como independentes por questões eleitorais, mesmo muitos sendo integrantes de partidos palestinos, principalmente do Fatah.

Em Deir al-Balah, em Gaza, se apresentaram quatro listas. Todas se anunciaram como independentes, mas, de fato, a lista “Ascensão de Deir al-Balah” próxima à Fatah elegeu seis dos 15 conselheiros, e a “Deir al-Balah nos une”, mais próxima ao Hamas, elegeu dois conselheiros. Das listas independentes, “Futuro de Deir al-Balah” elegeu 5 e a “Paz e reconstrução” elegeu 3.

Um fato comemorado pelas ativistas pelos direitos das mulheres foi a eleição de 21,4% de conselheiras mulheres, acima da cota de 20% exigida por lei. Entre as quais, três prefeitas.

Apesar da participação, as expectativas dos palestinos com os conselhos e a ANP são baixas. Por um lado, a violência do genocídio em Gaza e da limpeza étnica na Cisjordânia impede qualquer normalidade. Por outro, a experiência com a colaboracionista Autoridade Palestina, cujo presidente foi eleito em 2005 e o legislativo em 2006, é muito negativa. A maioria dos palestinos votou por questões práticas, já que esses conselhos são responsáveis por serviços básicos como a coleta de lixo e o abastecimento de água. Mas todos sabem que estas eleições não são parte de um projeto de libertação nacional.

Qualquer projeto de libertação nacional deve partir da unidade de todo o povo palestino hoje dividido pela ocupação israelense: cerca de metade vive dentro da Palestina ocupada (Cisjordânia, Gaza, Al-Quds e Palestina de 1948) e metade na diáspora/refúgio.

Eleições poderiam ser um instrumento poderoso de reavivamento do movimento nacional palestino e de debate e decisão sobre os rumos da luta pela libertação nacional. A OLP teria todas as condições de organizar essas eleições, cadastrando todas as famílias palestinas, organizando debates livres e realizando eleições virtuais em todo o mundo.

A questão é que a atual liderança seria varrida e o impopular projeto de cooperação com a ocupação israelense seria enterrado. Daí a falta de interesse dos líderes da OLP em realizá-las. Os sionistas também não têm qualquer interesse em enfrentar um movimento nacional palestino rejuvenescido e sob novas estratégias de luta.

A política de normalização com o Estado de Israel, materializada nos Acordos de Oslo de 1993, se revelou um fracasso para os palestinos, que vivenciam uma ampliação da colonização combinada com a violência genocida do exército israelense e dos colonos sionistas.

Por outro lado, a política de resistência frutificou na perda de legitimidade do Estado de Israel aos olhos dos povos de todo o mundo, em particular nos países imperialistas ocidentais que são os principais apoiadores do Estado genocida.

Esta deslegitimação do sionismo favorece a resistência palestina, assim como o enfraquecimento de Israel após a agressão militar ao Irã.

O fortalecimento da resistência palestina, armada ou não, junto com a classe trabalhadora e a juventude dos países árabes e de todo o mundo, é caminho para a conquista de uma Palestina livre, do rio ao mar.

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