search
África

Crise ambiental na África Oriental

Seca no Quênia, inundações em Moçambique e morte na classe trabalhadora

Cesar Neto e J.G. Hata

fevereiro 13, 2026

Introdução:

Em maio de 2025 foi publicado o estudo denominado “Estado do Clima na África – 2024”, o qual mostra que 2024 foi o ano mais quente já registrado no continente e que esse aumento da temperatura veio acompanhado de inundações devastadoras, secas e ondas de calor marinhas. Neste início de ano o Quênia e Moçambique, países banhados pelo Oceano Indico, são dois exemplos que comprovam os efeitos da Crise Ambiental provocada pelo capitalismo e suas consequências para a classe trabalhadora. 

No Quênia, após o fracasso do período de chuvas curtas entre outubro e dezembro, com precipitação 2/3 abaixo da média, a seca está matando o gado, cabras e plantações. Mais de 2 milhões de pessoas estão à beira da fome. “Nossos filhos serão os próximos a morrer” diz o agricultor queniano olhando o gado morrendo de sede. 

Em Moçambique, a atual temporada de chuvas está entre as piores já vividas no país. O sistema meteorológico do país teme que o número de vítimas possa aumentar ainda mais com a previsão de mais chuvas fortes. Um alerta vermelho, o nível mais alto, foi emitido em todo o país devido às condições meteorológicas. O porta voz da Presidência da República, Inocêncio Impissa, analisando os efeitos das inundações reconheceu que: “estamos perante uma catástrofe”

Quênia: seca no Norte e, na época das chuvas, inundações no sul

No final de dezembro de 2024 um relatório das Nações Unidas afirma que grande parte das terras do planeta está secando e prejudicando a capacidade de sobrevivência da vida vegetal e animal. O relatório trata sobre o combate à desertificação — a transformação de terras antes férteis em desertos devido ao aumento das temperaturas causado pelas mudanças climáticas provocadas pelo capitalismo, à falta de água e ao desmatamento. E mais, o estudo constatou que mais de três quartos das terras do mundo experimentaram condições mais secas entre 1970 e 2020 do que no período de trinta anos anterior.

No Quênia a seca prolongada está deixando milhões de pessoas em condições de vulnerabilidade extrema. No nordeste do país, na região mais atingida pela seca, os moradores foram obrigados a arrastar seus animais mortos para campos distantes para serem queimados, a fim de evitar o mau cheiro e manter as hienas necrófagas longe de suas casas.

A Rede de Sistemas de Alerta Precoce de Fome afirmou recentemente que entre 20 e 25 milhões de pessoas no Quênia, Somália e Etiópia precisam de assistência alimentar humanitária, mais da metade devido à seca. As crianças não estão recebendo uma dieta adequada por causa desta seca. Elas dependem de leite de camelo e de cabra, mas não há nenhum disponível. Rebanhos de cabras, gado e camelos agora precisam percorrer até 30 quilômetros até o bebedouro mais próximo, disputando a água restante que as autoridades estão racionando.

Nesse quadro de seca e desolação as pessoas dependem de doações de organizações como o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, mas os países imperialistas, os que mais doavam, estão cortando seus gastos e reduziram drasticamente os orçamentos de ajuda humanitária no último ano. Assim, o Quênia não recebeu nenhum suprimento nos últimos seis meses.

O governo queniano e grupos de ajuda humanitária, como a Cruz Vermelha, intensificaram os esforços de distribuição de água por caminhões-pipa, assistência alimentar e apoio financeiro, porém frente a imensidão da seca e de dois milhões de atingidos, essa ajuda é uma gota de agua no oceano.

Moçambique, um diluvio destrói o país e ainda há ameaça de ciclones

Duas semanas de chuvas intensas no centro e no sul do país, os dados mostram mais de 700 mil pessoas atingidas, 20 mortos, duzentas mil casas inundadas, cinco mil casas totalmente destruídas, 250 mil alunos sem escolas pois, mas de 350 escolas estão sob as aguas. “A economia de subsistência sofreu um duro golpe, coma perda 285 mil hectares de terras agrícolas e a morte de mais 325 mil animais entre bovinos, caprinos e aves”, segundo o jornal Integrity.     

A crise pode aumentar para um cenário ainda pior devido a situação crítica da barragem Senteeko, na África do Sul que está em vias de romper.   Além do risco de rompimento das barragens alguns meteorologistas alertam para a entrada no período de ciclones    

Para Guy Taylor, da Unicef: “As inundações que estamos presenciando não estão destruindo apenas casas, centros dessaúde e estradas” Taylor vai mais além: “A agua contaminada, os surtos de doenças e a desnutrição estão realmente se transformando em uma ameaça mortal para as crianças. O fato de Moçambique estar entrando em sua temporada de ciclones cria o risco de uma crise dupla”

  No Quénia, seca. Em Moçambique, inundações. Fenômenos que se repetem em outros pais

Nós estamos tomando como exemplo dois fenômenos muito atuais. Porém poderíamos exemplificar com Marrocos onde a seca diminuiu em 45% a produção agrícola, ou o Sudão Sul onde anualmente vem sofrendo com secas imensas no verão e inundações no tempo chuva, o que faz deste país um dos mais “pobres” do mundo. Kinshasa, capital da República Democrática do Congo a cada dois anos é invadida por verdadeiros rios de enxurrada. 

O Oriente Médio e o norte da África, região conhecida como MENA está aquecendo muito mais rápido que a média global, com os maiores picos na Península Arábica e na Argélia. O Sudão e a Somália sofreram ondas calor em 2024, com temperaturas acima de45 graus. Na Tanzânia, também em 2024, sofreu o ano mais chuvoso dos últimos 50 anos. A precipitação de 1.354,6 representa 28% acima da média anual.

Friederike Otto, do Imperial College, de Londres afirma que: “os frequentes períodos de chuvas intensas estão destruindo casas, devastando plantações e anulando ganhos econômicos. A cada fração de grau de aquecimento causado pelos combustíveis fósseis, o clima se tornará mais violento, criando um mundo mais desigual”

África não polui e é ponto crítico da emergência climática

China, União Europeia e Estados Unidos são os maiores emissores de Gases de Efeito Estufa contribuindo com 42,6% das emissões globais. Ao mesmo tempo outros 100 países representam apenas 2,9%. Considerando os dez maiores emissores (China, EEUU, Índia, União Europeia, Rússia, Japão, Brasil, Indonésia, Irã e Canadá) juntos são responsáveis por 2/3 das emissões mundiais de Gás de Efeito Estufa. 

A disparidade na emissão de Gases de Efeito Estufa é tal que a África subsaariana contribuiu com apenas 1,9% no período de 1750 a 2021. A África do Sul contribuiu com 1,3% enquanto os outros 48 países contribuíram com apenas 0,6%

Segundo o State of Africa’s Environment: Mesmo tento contribuído com tão pouco, hoje a África é o ponto crítico da emergência climática planetária. Das dez nações mais vulneráveis ao clima no mundo sete estão localizadas na África. Dados divulgados em agosto de 2021, demonstrou que: “Nos últimos 60 anos, a África registrou uma tendência de aquecimento que, em geral, foi mais rápida do que a média global… o clima mudou a taxas sem precedentes em pelo menos 2.000 anos”.

Essa tendência ao aquecimento explica por que a cada 3 mortes causadas por condições extremas ou estress hídricos, nos últimos 50 anos, uma dela ocorreu na África. Exatamente, sendo o continente que menos polui, mesmo assim, 33% das mortes são no continente.

2011 a 2025 os quinze anos mais mortíferos em toda África

De 2011 a 2025, dos quase 1 bilhão e duzentos mil Africanos, 412 milhões foram atingidos. No mesmo período tivemos 42.000 mortes. Ou seja 1/3 da população africana foi afetada por desastres relacionados aos eventos climáticos extremos, incluindo secas, inundações, ciclones, deslizamentos de terra, ondas de frio e ondas de calor.

O período 2021 à 2025 foi o quinquênio mais devastador para a vida humana causadas pelo desastres climáticos. Dos 412 milhões de atingidos nos últimos quinze anos, o ultimo quinquênio contribuiu com 221 milhões. As mortes no período 2011 a 2025, foram 42 mil, porem no ultimo quinquênio foram de 29.000 pessoas, próximo dos 70% de todas as mortes. Estes dados servem para demonstrar que os acidentes estão sendo cada vez mais abrangentes pois afeta toda a África e mais mortíferos. 

Um Programa Operário e Socialista para enfrentar a catástrofe ambiental

FIM DOS COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS E TRANSIÇÃO ENERGÉTICA SOB CONTROLE DOS TRABALHADORES

Redução imediata das emissões de gases de efeito estufa e fim dos combustíveis fósseis

Nenhuma nova fronteira petrolífera.  Basta de termoelétricas

Expropriação sem indenização de todas as empresas de energia e dos recursos energéticos e coloca-los sob controle operário

Elaboração de um plano de transição energética democrático, controlado por trabalhadores e comunidades, com base em energias renováveis.

RUPTURA COM O AGRONEGÓCIO E A MINERAÇÃO PREDATÓRIA

Expropriação sem indenização do agronegócio, da grande mineração e de todas as empresas poluidoras e destruidoras dos biomas

Fim dos créditos públicos e dos subsídios estatais ao agronegócio

Recuperação das áreas desmatadas e dos biomas devastados pelo agronegócio

Por uma agricultura popular, agroecológica e livre de agrotóxicos, voltada a soberania alimentar do povo

AGUA E BENS COMUNS FORA DO MERCADO

A agua não é mercadoria

Reestatização sem indenização das empresas públicas de agua e saneamento privatizadas

Fim dos projetos que privatizam aquíferos e recursos hídricos em favor das grandes corporações

Contra a instalação de Data Centers que consomem energia e agua em larga escala, agravando a crise hídrica e energética

CONTRA A “FINANCEIRIZAÇÃO” DA NATUREZA

Rejeição total aos créditos de carbono e outros mecanismos de “compensação verde” que transformam os ecossistemas em ativos financeiros e expulsam comunidades de seus territórios

Nenhum acordo com o capital especulativo “verde”: a natureza não é um negócio, é base da vida.

PLANEJAMENTO ECOLOGICO E URBANO SOCIALISTA

Elaboração de um plano popular de adaptação as mudanças climáticas, com investimento público em infraestrutura e prevenção de desastres

Combate aos incêndios florestais, deslizamentos, inundações e crises de abastecimento, com trabalho coordenado entre comunidades, cientistas e trabalhadores

Uma revolução verde nas cidades: replanejamento urbano ecológico, transporte público e gratuito e de qualidade, ampliação das áreas verdes e habitação digna para a classe trabalhadora

CONTRA A OBSOLESCENCIA PROGRAMADA E PELO CONTROLE SOCIAL DA PRODUÇÃO

Proibição da obsolescência programada em todos os setores da indústria, com controle operário e popular sobre a produção

Plano de reindustrialização ecológica para produtos duráveis e recicláveis, reduzindo o uso de recursos

Garantia de direito a reparação, com livre acesso a peças e manuais, combatendo monopólios tecnológicos

Pesquisa e inovação sob controle público e coletivo, voltadas a eficiência material, a redução do consumo de recursos naturais e à ampliação da durabilidade dos produtos.

Para enfrentar a crise climática africana reivindicamos e adaptamos uma parte importante do documento “O Colapso Ambiental é Capitalista” material difundido durante a COP30 pela Liga Internacional dos Trabalhadores, PSTU e REBELDIA. Entendemos que esse é um programa imediato, porém temos a firme convicção que os desastres ambientais são consequências da anarquia na produção capitalista, e mais, que somente a revolução socialista e a planificação da produção democraticamente discutida, aprovada e gerida pelos trabalhadores poderá planificar a economia e enfrentar-se com a tragédia ambiental que cresce de forma vertiginosa.

Leia também