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Correio Internacional

Coletivos chavistas: “Guardiões da revolução” ou grupos paramilitares?

A transformação dos coletivos venezuelanos: de defensores da revolução a instrumentos de repressão estatal.

Victor Quiroga

janeiro 31, 2026

A agência alemã de notícias DW, ao citar o Observatório Venezuelano de Conflictividade Social (OVCS), diz que “os coletivos são grupos parapoliciais e paramilitares que atuam em estreita coordenação com outras forças de segurança do Estado”.  DW conclui que: “Os civis desarmados da Venezuela são os que mais poderiam sofrer nas mãos dessas falanges, que foram comparadas mais de uma vez com os Tonton Macoute do ditador haitiano François Duvalier (1957-1971).” 

A comparação parece exagerada, mas nas mobilizações opositoras e nas lutas de trabalhadores dos últimos anos, viu-se agir alguns desses grupos de civis armados junto à Guarda Nacional ou à Polícia. Disparavam suas armas para dispersar e intimidar os protestos. Em vários casos, são responsáveis por mortos e feridos.

“O braço armado da revolução”

Alguns desses coletivos existem desde o Caracazo (1989), antes de Chávez e do chavismo: eram uma forma de organização de ativistas de esquerda nos distritos pobres de Caracas. Faziam atividades políticas, comunitárias e culturais.

Muitos deles tiveram uma atuação destacada contra o golpe pró-ianqui de 2002 e o enfrentaram no momento em que Chávez estava preso e o aparato chavista já havia se rendido. Também atacaram a sede da FEDECAMARAS, onde se reúne o que há de mais retrógrado entre os empresários venezuelanos, e de onde provinha o efêmero presidente que sucedeu Chávez, Pedro Carmona. Inclusive se rebelaram contra a política do chavismo de “perdoar” os golpistas. Naqueles momentos, eram conhecidos como “Círculos bolivarianos” e se expandiram por numerosos bairros, onde eram a autoridade mais respeitada, e Chávez os chamou de “o braço armado da revolução”. 

Entre os coletivos mais antigos está La Piedrita, que surge em meados dos anos 80. Outros eram Alexis Vive (homenagem a Alexis González Rivette, nome de um ativista assassinado durante o golpe de 2002), Tupamaros (nome tomado do conhecido grupo guerrilheiro uruguaio), surgidos depois do caracazo, o Movimento Revolucionário de Libertação e a Coordenadora Simón Bolívar, entre outros

A institucionalização 

Ao mesmo tempo, Chávez e o chavismo compreendiam que esses “círculos”  continham elementos de duplo poder, que não podiam perder o controle de suas ações e que deviam “domesticá-los”. 

Uma parte dessa política consistiu em transformá-los em meros “comitês eleitorais”, controlados por quadros confiáveis, especialmente a partir do “plebiscito revogatório” de 2004. Por outro lado, foram sendo transformados em comitês implementadores das Missões de educação, assistência médica, distribuição de alimentos, etc.  Ou seja, a maioria deles passou a ser instrumentos do aparato chavista.

A morte de Chávez e a “parcelização do poder”

A partir da morte de Chávez, o poder na Venezuela tem se fragmentado. E isso também ocorreu no caso dos coletivos. Segundo a jornalista Sebastiana Barraez, “nem todos respondem a Maduro”. Alguns estão próximos de Diosdado Cabello e de um setor das FANB. Outros de Freddy Bernal, responsável pela distribuição dos CLAP (Comitês Locais de Abastecimento e Produção). Bernal também atua como “protetor” (uma espécie de governador paralelo) do estado Táchira, um dos mais conflituosos do país, por estar lá a principal fronteira com a Colômbia.

Embora todos sejam financiados pelo governo, alguns organismos de direitos humanos opinam que “embora nem todos, uma boa parte deles se financia com atividades ilegais” [1].

Com a decadência econômica e social, os coletivos foram se transformando e escaparam ao controle orgânico do chavismo.  Inclusive, vários foram acusados pelo então Ministro do Interior, López Torres, como simples “delinquentes”. Em 2014 foi assassinado o jovem deputado José Serra, estreitamente ligado aos “coletivos”, em um confuso episódio de “tentativa de roubo” em sua casa.

Um dos dirigentes da Coordenadora 5 de Março (composta por cerca de 100 coletivos), José Odreman, um ex-policial, declarou à imprensa que “¡Basta de assassinar camaradas! Se algo me acontecer, responsabilizo o Ministro López Torres”. Poucos dias depois, em “um confronto com criminosos”, Odreman foi morto, junto a outros integrantes da Coordenadora [2].

A importância e a força desses grupos ficaram demonstradas, naquele momento, quando um protesto dos coletivos saiu às ruas de Caracas exigindo a renúncia de López Torres e “uma profunda investigação” dos assassinatos. A renúncia do ministro ocorreu poucos dias depois.

De “guardians da revolução” a grupos paramilitares

Nem todos os coletivos utilizaram armas para intimidar. Mas os trabalhadores e setores populares que se mobilizaram dão conta da presença desses grupos que os agrediram para dispersá-los ou disparar contra eles.

Roberto Briceño, do OVCS, os define como “verdadeiros grupos paramilitares na Venezuela”. Também atuam em fábricas e em outros locais de trabalho, “apertando” e intimidando os ativistas. Este salto em seu papel de repressão “paramilitar” aparece com toda evidência em 2017, com o ataque às mobilizações massivas, onde atuou junto à Guarda Nacional, que causou mais de 100 mortos.

Segundo a ONG de Direitos Humanos PROVEA, o governo de Maduro teria utilizado esses grupos para reprimir no âmbito das últimas manifestações opositoras. Os chamados “coletivos” atuaram em: Acarigua, Barcelona, Barinas, Barquisimeto, Boconó, Cabimas, Cagua, Calabozo, Caracas, Carora, Carrizal, Carúpano, Ciudad Bolívar, Coro, Cumaná, Ejido, El Tigre, El Vigia, , Guanare, Guarenas-Guatire, La Guaira, La Victoria, LosTeques, Maracaibo, Maracay, Maturín, Mérida, Naguanagua, Ocumare del Tuy, Pampanito, Porlamar, Puerto Ayacucho, Puerto Cabello, Puerto La Cruz, Puerto Ordaz, Punto Fijo, San Antonio de Los Altos, San Antonio de Táchira, San Carlos, San Felipe, San Fernando de Apure, San Joaquín, San Juan de los Morros, Santa Elena de Uairén, Tinaquillo, Tucupita, Upata, Ureña, Valencia e Valera [3].

Decadência e decomposição dos “coletivos”

Como dissemos mais acima, há sinais de decomposição em vários desses grupos. A crise econômica e a redução de orçamentos levaram a que seu financiamento fosse realizado por vias ilegais (sequestros, chantagens, drogas, etc.). Alguns degeneraram em gangues comuns que se vendem ao melhor comprador, às vezes disparam contra as mobilizações opositoras e outras vezes as apoiam. Por isso, já não oferecem garantias, e isso é um problema para  a ditadura. 

Segundo vários jornalistas, em alguns “coletivos” haveria crise e diferenças com Maduro. Esses jornalistas inclusive informaram de “deserções por centenas” de seus membros e de sua ida para a Colômbia e para o Brasil. Não conseguimos checar essa informação. Mas talvez isso explique que Iris Varela, ministra responsável pelas prisões venezuelanas, tenha aparecido na fronteira com a Colômbia, acompanhada de civis armados, para cumprir com ações repressivas  (disse-se que eram “presos”) [4]. 

Hoje disparam contra a oposição ao regime chavista. Mas não seria estranho que, diante da decomposição cada vez mais acentuada do regime, um setor desses “coletivos” que degeneraram em grupos paramilitares, ligados a negócios legais e ilegais, sem um programa político, possa passar para o outro campo burguês de oposição, pró-imperialista, tão corrupto que oferece “anistia” aos chefes militares e civis. Talvez alguns desses grupos acabem se beneficiando dessa “anistia” apontando suas armas para seus ex-companheiros de caminhada. 

[1] Ver http://www.defiendoddhh.org/rafael-uzcategui/

[2] http://www.el-nacional.com/noticias/sucesos/quien-era-jose-odreman-lider-del-colectivo-marzo_118415  

[3] https://www.derechos.org.ve/ e http://talcualdigital.com/

[4] http://epmundo.com/2019/iris-varela-suelta-presos-en-la-frontera-videos-evidencia/  

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