Nayib Bukele e o trumpismo latino-americano: Bonapartismo e criminalização político-social
Nayib Bukele representa um processo típico de bonapartização latino-americana, no período histórico em que não existem contradições estruturais entre as burguesias locais (e seus partidos e governos) e o projeto imperialista estadunidense.
Bukele realizou um percurso político que se originou na FMLN (Frente Farabundo Martí pela Libertação Nacional), elegendo-se prefeito de Nuevo Cuscatlán (2012-2015) e, posteriormente, de San Salvador (2015-2018), e sendo acusado de lavagem de dinheiro e fraude em seus mandatos. Foi expulso do partido em 2017, tentou, sem êxito, fundar seu próprio partido e então se candidatou à presidência pela GANA (Grande Aliança pela Unidade Nacional), quando, em fevereiro de 2019, elegeu-se em primeiro turno com 53% dos votos. Na ocasião, Bukele se autoproclamou o “ditador mais descolado do mundo”[1]. Em fevereiro de 2021, já com seu próprio partido, Nuevas Ideias, em aliança com a GANA, obteve 2/3 dos assentos da Assembleia Nacional. O “combate ao crime organizado” e à corrupção foi o principal mote e a justificativa política que Bukele e seu grupo político utilizaram para se consolidarem no poder. Em 2024, elegeu-se para um segundo mandato presidencial, com cerca de 83% dos votos, em meio às inúmeras denúncias de prisões arbitrárias e de violações de direitos humanos.
Bukele se autodenomina “sábio”, “rei filósofo”. Ao lado da imagem de “combatente” do crime, constrói a imagem de modernizador da economia salvadorenha – associada à tecnologia, às criptomoedas e aos ativos digitais, ao turismo internacional e à atração de investimentos. Embora mantenha a imagem de modernizador, o que vemos em seus governos é uma “máquina de corrupção” que envolve irmãos e outros parentes, colaboradores próximos e membros do seu gabinete, que desviam verbas públicas, concedem contratos de obras a favorecidos e direcionam seletivamente compras de alimentos e de remédios.[2] O contraponto é o crescente endividamento junto ao FMI e os dados sociais e laborais que indicam um processo simultâneo de aprofundamento da miséria, da informalidade e da vulnerabilidade social.
Em fevereiro de 2020, oito meses após sua posse, Bukele ordenou que o Exército ocupasse a Assembleia Nacional e ameaçou dissolvê-la para apoiar seu plano de gastos militares, chamado Plano de Controle Territorial, que também envolvia a reestruturação das forças armadas.
Já com a maioria no Congresso, em maio de 2021, destituiu cinco membros da Suprema Corte e o procurador-geral do país, substituindo-os por próximos ao seu círculo político. Além disso, aprovou uma reforma que demitiu todos os com mais de 60 anos. Em junho de 2021, ele teve aprovada a possibilidade de recandidatar-se.
Na sequência, em setembro de 2021, Bukele aprovou no Congresso a criptomoeda Bitcoin como moeda corrente ao lado do dólar, com o objetivo de “inclusão financeira”, investimento e desenvolvimento econômico. Ele anunciou a mudança em mensagem reproduzida em conferência sobre bitcoin em Miami: “Isso vai gerar empregos e ajudar a proporcionar inclusão financeira a milhares de pessoas fora da economia formal, e, a médio e longo prazo, esperamos que essa pequena decisão possa nos ajudar a impulsionar a humanidade, pelo menos um pouquinho, na direção certa”.
Contra a nova moeda, cerca de 8 mil pessoas foram às ruas de San Salvador (Capital) para protestar contra Bitcoin e o acelerado processo de bonapartização do regime político. Teria sido a gota d’água de um processo de dois anos: as reformas constitucionais; as revelações sobre o pacto entre Bukele e as gangues para “pacificar” o país; a intenção de dobrar o tamanho do Exército; e, finalmente, a imposição da nova moeda. A manifestação reunia distintos setores, desde estudantes, feministas e sindicalistas até integrantes dos partidos da ordem, como o FMLN e a Arena. Como registrado em reportagens jornalísticas, a maioria dos manifestantes marchava com o rosto coberto por máscaras, óculos de sol e boné por receio de serem fotografados ou gravados por drones que sobrevoavam o protesto.
Estado de exceção e bonapartismo
O estado de exceção é o eixo político central que, até o momento, estrutura o regime bonapartista de Nayib Bukele desde março de 2022. A medida foi justificada como necessária em decorrência dos índices de violência que haviam aumentado naqueles dias. Mas, na realidade, o que estava em questão eram os protestos sociais contra Bukele que tenderiam a crescer.
Desta maneira, o governo suspendeu três garantias constitucionais básicas: direito à defesa, período máximo de detenção e proibição de comunicação. Tem servido de pretexto para as prisões em massa no país. A repressão estatal, apresentada como combate às gangues, também atinge as oposições críticas ao governo: sindicalistas, jornalistas e defensores de direitos humanos.
Bukele publiciza suas concepções de segurança pública com papel estratégico. A política de encarceramento e a repressão militar generalizada são justificadas pelo discurso da “guerra contra as gangues”; na prática, no entanto, funcionam como mecanismos de controle social e político ampliados. Atingem amplos setores populares, a classe trabalhadora, a juventude periférica e os opositores do regime. Também operam como instrumento de propaganda, mobilizando o apoio da classe média urbana, da burguesia e mesmo de setores populares, que passam a associar ordem, segurança e crescimento econômico à suspensão de direitos políticos.
O “modelo” Bukele: encarceramento em massa
A população de El Salvador é estimada em 6,3 milhões de habitantes, dos quais cerca de 526 mil vivem em San Salvador (capital). Após a aprovação do estado de exceção em março de 2022, o país vive um dos mais intensos processos de encarceramento em massa do mundo.
Em março de 2024, a população encarcerada chegou a 109.519[3] pessoas, sendo que 84 mil estão presas sem julgamento, sem acusação formal e sem direito à defesa. Entre esses presos, estão jornalistas, advogados, sindicalistas e defensores de direitos humanos ou opositores político-partidários ao regime. Em termos proporcionais, isso significa 1.659 prisioneiros para cada 100 mil habitantes, o maior índice prisional do mundo, superando inclusive países como os EUA e a China.
Organizações nacionais e internacionais de direitos humanos apresentam contínuas denúncias sobre as condições do sistema prisional salvadorenho. Nos últimos três anos, foram registradas ao menos 473 mortes em prisões[4], sendo cerca de 50% decorrentes de ações violentas e cerca de um terço associado à recusa deliberada de atendimento médico: “Sem terem sido condenadas em julgamento, 94% das pessoas não tinham perfil de integrantes de gangues e morreram sob a custódia do Estado e em total impunidade. O número de mortes pode ultrapassar mil, mas há informações que estão sendo ocultadas nos julgamentos em massa.
Trabalho, informalidade e miséria social
El Salvador tem uma taxa de emprego informal urbano de 70%, incluindo assalariados informais e “por conta própria/autônomos”. É uma das taxas mais altas entre os países latino-americanos, muito acima da média regional de 55,6%, segundo relatório da CEPAL. Isso significa cerca de 1,94 milhão de pessoas, constituídas por vendedores ambulantes, trabalhadores domésticos, empregos informais em transporte, manufatura e construção civil, entre outros. Entre os jovens, cerca de 3 em cada 4 estão em empregos informais. Apenas 25% da população que trabalha está no mercado formal, uma pequena parcela de trabalhadores com contrato e com alguma proteção social. Os empregos formais ocupam cerca de 900 mil pessoas (entre 31% e 32% do total de pessoas que trabalham).
Reportagens jornalísticas de campo, realizadas por El Faro em 2024, apontavam elevados níveis de insegurança alimentar[5]: “quase metade da população sofre de insegurança alimentar moderada ou grave”.
Ainda, de acordo com El Faro, as principais determinações para essa situação seriam: aumento dos preços dos alimentos, quebras de safra devido à crise climática e à falta de subsídios agrícolas. O problema teria se agravado ainda mais a partir do estado de exceção de março de 2022. Milhares de famílias salvadorenhas diminuíram suas rendas, seja porque seus principais provedores foram detidos, seja porque a família precisava dividir o pouco de renda entre pacotes de compra para fornecer itens básicos a parentes encarcerados.
As remessas familiares de imigrantes salvadorenhos nos EUA para El Salvador continuam sendo um amortecedor social. Em pesquisa de 2023, o Banco Central do país destacou que mais de 1,5 milhão de salvadorenhos viviam nos EUA, dos quais 80,9% enviavam regularmente remessas para suas famílias, e cerca de 55,4% trabalhavam na área de construção civil, limpeza e restaurantes. Outra pesquisa da mesma instituição indica que, em 2024, essas remessas representaram 24% do PIB salvadorenho, totalizando US$ 8.206,4 milhões. Ainda indica que cerca da metade estaria em situação migratória irregular.
Bukele e o trumpismo
A integração de Nayib Bukele ao trumpismo não é episódica. Trata-se de um alinhamento ideológico estrutural presente desde sua primeira eleição presidencial, em 2019, e aprofundado após sua reeleição em 2024.
Em 2023, Marco Rubio, então senador republicano pela Flórida, visitou Bukele em El Salvador e elogiou-o por trazer paz ao país. No início de 2024, o salvadorenho foi recebido com ovações no CPAC – Comitê de Ação Política Conservadora. Na posse do segundo mandato, Bukele recebeu na cerimônia Javier Milei e Don Jr. – filho de Trump –, que o elogiou nas redes sociais: “Parabéns pela sua vitória e pelas suas incríveis conquistas (…). E você faz tudo isso sem ter que prender seus oponentes políticos!”.
No início de 2025, após a posse de Donald Trump, o secretário de Estado, Marco Rubio, visitou El Salvador e firmou um acordo com Bukele para a deportação de imigrantes dos EUA. Os EUA pagariam ao governo salvadorenho US$ 4,76 milhões por ano.
O local de encarceramento foi o chamado Centro de Confinamento de Terroristas (CECOT), prisão de segurança máxima inaugurada em 2023, denunciado internacionalmente por condições desumanas. Vários deportados venezuelanos denunciaram torturas e abusos generalizados na prisão. Ocorreram diversas contestações judiciais contra o governo estadunidense por conta das deportações.
O alinhamento político foi reiterado em abril de 2025, quando Trump recebeu o presidente salvadorenho na Casa Branca e reafirmou a ampliação da cooperação em políticas de imigração e de deportação.
O papel geopolítico de Bukele para Trump
Externamente, na geopolítica latino-americana, o “ditador descolado” alinha-se às prioridades da política externa dos EUA sob o trumpismo: contenção da imigração, externalização do controle migratório e combate securitário ao crime transnacional. El Salvador passa a operar como extensão do aparato repressivo estadunidense.
As prisões salvadorenhas, particularmente o sistema de encarceramento de segurança máxima, convertem-se em infraestrutura funcional para a política migratória estadunidense, como forma de terceirização da repressão, deslocando custos políticos, jurídicos e humanitários para a periferia.
É necessário considerar outros aspectos nesse alinhamento geopolítico. No início de novembro último, de acordo com a imprensa estadunidense, foram observadas pelo menos três aeronaves militares dos EUA no principal aeroporto de El Salvador, o que indica uma ampliação da cooperação militar já existente. Ainda em novembro, os EUA anunciaram a transferência de dois helicópteros para o país, com o objetivo de “fortalecer suas contribuições” aos “esforços de segurança” no Haiti.
O acordo Escudo das Américas, assinado entre El Salvador e Costa Rica, reforça ainda mais a função geopolítica salvadorenha no “tabuleiro” trumpista. Segundo Bukele, tal acordo visaria “que ambos os países se ajudem mutuamente no combate ao crime”: “O crime não conhece fronteiras, o crime opera de maneira transnacional (…) funciona como uma única rede coordenada, mas os países não. Portanto, não faz sentido que várias estruturas transnacionais operem em sincronia sem coordenação”.
Quem sustenta o regime de Bukele?
Nayib Bukele estrutura-se em uma base política e econômica articulada aos setores de tecnologia, criptomoeda, turismo, construção e serviços. Orienta-se para “investimentos” estrangeiros, na realidade, com grande desregulamentação por meio de isenções fiscais e de investimentos públicos em infraestrutura.
A tentativa é posicionar El Salvador como centro regional de tecnologia. Contratos com grandes empresas internacionais para infraestrutura digital ou parcerias de plataforma. Para isso, aprovou projetos de lei para reduzir ou eliminar impostos sobre software, hardware e desenvolvimento tecnológico e inteligência artificial. Bukele, em 2023, assim falava dessa flexibilização: “Na próxima semana, enviarei um projeto de lei ao Congresso para eliminar todos os impostos (renda, propriedade, ganhos de capital e tarifas de importação) sobre inovações tecnológicas (…) e sobre o desenvolvimento em IA, bem como sobre a fabricação de hardware e a comunicação”.
Nesses grandes empreendimentos públicos, os projetos de construção são executados por grandes construtoras ligadas à rede de empresas nacionais e internacionais – o que beneficia grupos econômicos próximos ao governo. Envolvem grandes empreiteiras, empresas de engenharia e fornecedores de materiais que obtêm contratos estatais.
O endividamento público e o FMI
A dívida pública de El Salvador disparou no governo de Bukele para mais de US$ 30 bilhões, o que equivale a 84% do produto interno bruto do país.
Bukele encontra-se subordinado aos mecanismos do FMI[6]. Renegocia dívidas e aprofunda o endividamento. Ainda consegue acordos com a instituição, graças às relações que mantém com o trumpismo. De acordo com o Banco Mundial[7], os “desequilíbrios fiscais e externos” levaram o governo a realizar “três recompras de dívida soberana entre 2022 e 2024”. Essas renegociações foram “seguidas pela aprovação de um orçamento austero para 2025”, visando “apoiar a consolidação fiscal”.
[1] The Guardian, Temores sobre a democracia em El Salvador após presidente se autoproclamar o ‘ditador mais tranquilo’ [Fears for democracy in El Salvador after president claims to be ‘coolest dictator’], 21 de setembro de 2021. https://www.theguardian.com/world/2021/sep/21/fears-for-democracy-in-el-salvador-after-president-claims-to-be-coolest-dictator
[2] EL FARO, O método Bukele para saquear o Estado [El método Bukele para saquear el estado], 01 de agosto de 2025. https://beta.elfaro.net/editoriales/el-metodo-bukele-para-saquear-el-estado
[3] WPB World Prision Brief, El Salvador, Dados. https://www.prisonstudies.org/country/el-salvador
[4] Relatório da ONG Socorro Jurídico Humanitário, em 24 de dezembro de 2025.
[5] Júlia Gavarrete, Quase um milhão de salvadorenhos à beira da fome [El Salvador con hambre], El Faro, 19 de janeiro de 2024. https://especiales.elfaro.net/en/hunger.
[6] Lisandro Abrego, O acordo com o FMI tornará a dívida pública de El Salvador sustentável [¿El acuerdo con el FMI hará sostenible la deuda pública de El Salvador?], El Faro, 26 de março de 2025. https://beta.elfaro.net/opinion/el-acuerdo-con-el-fmi-hara-sostenible-la-deuda-publica-de-el-salvador
[7] BANCO MUNDIAL. El Salvador. Visão Geral.




