search
Correio Internacional

Uma polêmica com o campismo estalinista de Breno Altman sobre Venezuela

Edu Almeida - PSTU Brasil

fevereiro 4, 2026

A invasão da Venezuela pelo imperialismo norte-americano e o sequestro de Nicolás Maduro são hoje um dos temas centrais debatidos pela vanguarda a nível mundial. 

O jornalista Breno Altman escreveu um artigo sobre o tema com o qual temos alguns acordos e muitas diferenças. Gostaríamos começar essa discussão pelos acordos, pelo respeito que temos por Altman. Embora, provavelmente, não fundamentemos esses acordos com os mesmos argumentos. 

A invasão imperialista tem de ser repudiada

A invasão de Trump é um ato criminoso, cometido pelo país imperialista mais poderoso do mundo contra um país semicolonial. A motivação alegada — combate ao narcotráfico – é ridícula, e logo foi substituída pela real motivação: o controle do petróleo venezuelano e a disputa com o imperialismo chinês. Trata-se de uma expressão da política do documento de segurança estratégica dos EUA, como analisamos em outro artigo. 

Essa ação brutal de Trump pode despertar expectativas em setores das massas venezuelanas e latino-americanas em função do desgaste da ditadura de Maduro. 

Mas, ao contrário dessas expectativas, essa intervenção imperialista não trará liberdade às massas venezuelanas. Todo o aparato repressivo venezuelano segue presente, e agora amplificado pela possibilidade de presença terrestre de tropas americanas. Não existem mais liberdades hoje na Venezuela e nem sequer se apontam eleições livres no país. A imposição imperialista, para garantir seus objetivos no petróleo, implica manter a repressão sobre o povo venezuelano.

O fato de o regime de Maduro ter sido uma ditadura burguesa, odiada pelas massas, não muda nosso repúdio à agressão dos EUA, por se tratar de um ataque de um país imperialista contra um país semicolonial, a serviço dos interesses norte-americanos.

Tampouco as expectativas de melhoria nas condições de vida têm base na realidade.  O imperialismo norte-americano está impondo, mundialmente, salários cada vez mais baixos aos trabalhadores. Não vai ser diferente na Venezuela. Nem sequer os investimentos propagandeados por Trump foram assumidos até agora pelas grandes empresas petroleiras, que exigem segurança estratégica para investir. E isso, ao menos até agora, não existe na Venezuela. 

Ao contrário das expectativas, a invasão imperialista para garantir o controle do petróleo só vai trazer mais miséria e mais repressão ao povo venezuelano.

Houve ou não a facilitação da invasão?

Mas nosso acordo com Breno Altman para aí, no repúdio a agressão imperialista contra Venezuela. A partir daí vêm as diferenças.

Em primeiro lugar, Breno nega a realidade. Segundo ele, não houve facilitação da invasão dos EUA por parte de uma importante facção do regime chavista. 

“De um lado, a Venezuela chavista, agora sem seu máximo condutor, ficou emparedada pelas tropas norte-americanas, com sua imensa superioridade aérea e naval, capazes de bloquear o país e feri-lo gravemente. De outro lado, os Estados Unidos demonstram enorme potencial de pressão externa, mas sem as cartas para derrotar estrategicamente o inimigo, que continua governando.”

Trata-se de uma situação em equilíbrio precário, como é evidente. Até onde é possível entender, em seus modos erráticos, o presidente norte-americano, aproveitando-se da vantagem atual, trata de exigir as mais brutais concessões e de tentar desmoralizar o governo chavista, agora liderado pela presidente interina Delcy Rodríguez. Apresenta-o como um fantoche em suas mãos e alimenta os mais sórdidos boatos de traição do novo núcleo dirigente a Nicolás Maduro.

Esses rumores, despropositados, são repercutidos pela imprensa ocidental e seus aliados, na tentativa de levar à lona o movimento criado por Hugo Chávez, contra o qual bateram armas por tantos anos – muitas vezes com a simpatia dos círculos de esquerda influenciados por ideias liberais ou simplesmente enganados pela narrativa exalada desde os Estados Unidos e a Europa.”

O problema é que as Forças Armadas venezuelanas têm 120 mil soldados, que não entraram em combate contra a invasão norte-americana. Possui um sistema de defesa aérea apoiado em armas russas como os sistemas S-300 (com foguetes de alcance de 150 km, considerado o rival do Patriot norte-americano) e BUK-M2 (alcance a 40 km), além dos mísseis portáteis Pechora e Igla-S, que podem ser manejados por um soldado. Nada disso funcionou. 

Seguramente, a inegável superioridade militar norte-americana e sua guerra tecnológica funcionaram. Mas somente isso não pode explicar como duzentos soldados dos EUA entraram na Venezuela, sequestraram Maduro em menos de três horas, sem sequer uma baixa. Mesmo a operação de invasão do Panamá e sequestro de Noriega em 1989, implicou 13 dias de combate terrestre. 

Como se explica isso, sem que se tenham entregado as forças invasoras, os pontos cegos do sistema de defesa venezuelano e a exata localização de Maduro?

A realidade é que todas as fontes, desde a imprensa burguesa, os ativistas independentes na Venezuela e até mesmo o próprio governo Trump, dizem que “uma parte do governo venezuelano entregou Maduro”.

A única e óbvia exceção é o próprio governo chavista e seus apoiadores a nível internacional. Grande parte dos partidos comunistas faz parte desse coro, assim como figuras identificadas com o castrochavismo como Breno Altman. Uma exceção é um dos PC, o venezuelano, que também afirma que houve entrega. 

O caráter do governo Delci Rodrigues     

Essa discussão sobre a facilitação da invasão norte-americana não é menor. E ela se liga diretamente ao caráter do novo governo venezuelano. 

Para surpresa de muitos, a vice-presidente Delci Rodrigues, uma vez empossada, propôs uma “agenda de cooperação” com Trump.

Ao mesmo tempo, Trump descreveu Delcy como “uma pessoa formidável”. “É alguém com quem trabalhamos muito bem”.

Para completar o quadro, Trump não apostou em Maria Corina Machado, a representante da oposição burguesa de ultradireita venezuelana, trumpista de primeira hora, que ela “não tem o força e o respeito da população”

Mesmo depois de sua visita a Trump, quando lhe entregou de forma subserviente a medalha recebida pelo prêmio Nobel, o presidente norte-americano manteve o apoio a Delci Rodrigues, e não a Corina Machado. 

Segundo grande parte dos analistas de esquerda e de direita, Delci Rodrigues teve contato com o governo norte-americano vários meses antes da invasão e participou da facilitação da invasão.

Isso explica o novo papel do governo chavista, que passa a ser o de apoio direto à política de Trump na Venezuela. Delci Rodrigues, embora tenha a mesma aparência chavista, não tem o mesmo significado que Maduro. Não se trata de um governo da boliburguesia chavista, com atritos parciais com o imperialismo norte-americano. É um governo alinhado diretamente a Trump. 

O fato de manter um discurso chavista na forma tem a ver com a preservação de suas bases, educadas formalmente no anti-imperialismo. 

Isso se explicita abertamente no acordo sobre o petróleo, almejado por Trump e objetivo da invasão. A partir de agora, o petróleo venezuelano passa a ser comercializado diretamente pelo governo norte-americano e, com a venda, os venezuelanos terão de comprar produtos dos EUA. Esse tipo de acordo, diretamente colonial, não existe em nenhuma outra parte do mundo.

Essa mudança no governo e regime chavista está em curso, recém se inicia. Vão ocorrer novos desdobramentos, seguramente. Uma mudança como essas, quase seguramente vai levar a crises no aparato chavista. A base material do petróleo em que se apoiava a boliburguesia venezuelana se estreitou. O discurso formalmente antiimperialista por décadas tem base em setores de massas e do aparato do estado. Novas contradições estão sendo gestadas. 

Mas está ocorrendo uma mudança de fundo no regime venezuelano, realinhado agora com Trump. 

A explicação de Altman 

Breno Altman afirma que a atitude de “não confrontação” de Delci Rodrigues é uma política determinada “pela relação de forças”. Altman se apoia na continuidade da forma (“o regime chavista segue”), para dizer que o governo Delci é o mesmo que o regime chavista anterior. 

Segundo ele, Delci busca ganhar tempo, reaglutinar forças para poder se enfrentar com o imperialismo.

“A presidente interina opera para manter coeso o bloco histórico chavista e mobilizada sua base social – denunciando a agressão imperialista, reafirmando a soberania nacional e exigindo a libertação imediata do casal presidencial. Entre suas incontáveis tarefas, Delcy Rodríguez necessita manter o funcionamento do Estado, reativar o ânimo das ruas e cicatrizar as feridas do ataque sofrido.

Também visa ampliar as alianças internas, apesar da hegemonia do PSUV sobre todas as instituições, buscando um arco de apoios mais amplo para defender a sobrevivência da nação. O desencarceramento de presos, já em curso, faz parte dessa estratégia de distensão interna.”

Realmente existe um problema de relação de forças importante, que é necessário analisar. O imperialismo é qualitativamente mais forte em termos militares. No entanto, resta saber se essas ações do novo governo venezuelano apontam no sentido da reaglutinação de forças ou a sua desorganização e desmoralização. As declarações de Delci Rodrigues, apontando um trabalho “construtivo” com o invasor Trump, apontam para a segunda hipótese.

Historicamente, os povos têm se enfrentado com os imperialismos, na maioria absoluta das vezes em uma brutal inferioridade militar. Em alguns casos, obtiveram vitórias muito importantes, como no Vietnã, na Argélia e no Iraque. Em todos eles, a mobilização de massas teve um papel fundamental.

A própria história venezuelana demonstra isso. Em 2002, um golpe militar, patrocinado pelo governo Bush derrubou o governo Chavez. Uma mobilização de massas derrotou o golpe e recompôs o governo chavista.  

Delci Rodrigues não chamou a mobilização das massas venezuelanas contra o ataque, não entregou armas para os trabalhadores. Tampouco chamou a mobilização internacional contra a invasão, nem nos EUA, nem na América Latina.

O exemplo de Brest-Litovsk

Altman recorre ao exemplo do acordo de Brest-Litovsk, assinado entre os bolcheviques e o governo alemão, para justificar os acordos entre Delci Rodrigues e Trump, como um acordo obrigado pela relação de forças.

“O chavismo atravessa, no entanto, um momento que poderia ser comparado ao da Revolução Russa nas negociações de Brest-Litovski, nos primeiros meses de 1918, ainda durante a Primeira Guerra, quando a Alemanha apresentou reivindicações absurdas para um acordo: o controle sobre territórios que abrigavam um terço da população russa, 50% da indústria e 90% das minas de carvão.”

Trata-se de um malabarismo teórico, muito comum do reformismo. Frequentemente, para justificar o injustificável, recorre-se ao problema da “relação de forças”. Por exemplo, assim se justifica a política do governo Lula de acordo com as multinacionais e o agronegócio — defendida explicitamente por Breno Altman- pela “relação de forças”. Nessa avaliação da “relação de forças”, o reformismo frequentemente recorre à relação de forças parlamentar, o que é coerente com sua visão de mundo, segundo a qual as mudanças devem ser feitas por meio do regime democrático burguês, e não por meio de revoluções.   

Mas, segundo o marxismo, a relação de forças está centrada na relação entre as classes em luta ou em sua expressão militar durante as guerras. Isso é coerente com a tradição marxista, segundo a qual as mudanças na estrutura de classes e nos enfrentamentos com o imperialismo devem ser realizadas pela via das revoluções. 

Já vimos que o governo chavista não recorreu à mobilização de massas nem ao enfrentamento militar com o imperialismo norte-americano.  

Mas, como existe um problema real de relação de forças, examinemos o exemplo histórico citado-Brest — Brest-Litovsk — e depois voltemos ao caso venezuelano. 

O acordo de Brest Litovsk foi assinado em 3 de março de 1918 entre o governo bolchevique e o alemão.

Em primeiro lugar, os bolcheviques eram uma direção revolucionária do primeiro estado operário da história. Nada a ver com o estado burguês dirigido pela ditadura de Maduro. Breno Altman, com sua metodologia campista, compara dois estados e governos opostos.

Em segundo lugar, os bolcheviques estavam no poder há alguns meses, não existia ainda o Exército Vermelho. As massas russas estavam exaustas pela guerra imposta pelo czarismo e continuada pelo governo provisório. O fim da guerra foi uma das palavras de ordem defendidas pelos bolcheviques e apoiadas pelas massas. Caso não se aceitasse o acordo de Brest-Litovsk, os alemães poderiam derrotar militarmente o novo estado recém-formado.

Depois desse acordo, o estado operário se organizou, montou o Exército Vermelho e derrotou 14 exércitos dos países imperialistas que invadiram a URSS durante a guerra civil. 

O chavismo governa a Venezuela há 28 anos; tem um exército formado e organizado que não entrou na luta. Se não recorreu à mobilização de massas e ao armamento dos trabalhadores no passado e nem agora, isso tem a ver com o caráter de classe burguês do regime chavista e do Estado venezuelano, que Altman se recusa a caracterizar. 

A adesão do novo governo venezuelano a Trump não tem nada a ver com um recuo tático, e menos ainda com o Tratado de Brest-Litovsk. Trata-se de uma passagem melancólica de um regime bonapartista decadente para o adesismo ao imperialismo norte-americano. 

Mais uma vez, a falência do campismo 

Breno Altman é um jornalista e intelectual conceituado, que defende abertamente a visão estalinista dos “campos progressivos”. 

A análise marxista compreende a realidade a partir de sua estrutura de classes sociais e da luta de classes. O campismo estalinista substitui essa metodologia pela dos “campos progressivos”, com setores burgueses. Isso inclui os “governos progressivos” que se “enfrentam com o imperialismo norte-americano”. 

Essa é a lógica pela qual a China é um regime “progressivo”, alternativo ao imperialismo norte-americano, e não um país imperialista ascendente, com empresas multinacionais explorando brutalmente o proletariado chinês. 

Breno Altman não enxerga o imperialismo chinês, assim como defende a ditadura iraniana no massacre contra o povo iraniano. Em sua lógica, “o governo progressista dos aiatolás” é atacado por infiltrados sionistas e norte-americanos.

Da mesma forma, Altman não viu a decadência do regime chavista nem sua transformação em uma ditadura burguesa, odiada pelas massas. Não viu a formação de uma boliburguesia no país nem a brutal miséria dos trabalhadores. Tratava-se de um “governo progressivo” … 

Mas agora, o erro é maior. O novo governo venezuelano é o instrumento de Trump no país.  A boliburguesia e seu regime chavista preferiram se aliar ao imperialismo norte-americano a enfrentar o imperialismo e arriscar suas propriedades. 

Leia também