China, a potência imperialista emergente em pugna com os EUA
A ascensão do imperialismo chinês e seu impacto nas dinâmicas globais de poder.
Introdução
Marco Rubio, o recém-nomeado secretário de Estado de Trump, destacou em sua posse que “a China é o adversário mais perigoso e potente que os EUA já enfrentaram”. Em termos semelhantes se pronunciou, dois anos antes, Blinken, o secretário de Estado de Biden, na Universidade G. Washington:
«seguiremos enfocados no desafio a longo prazo mais sério para a ordem internacional, o que propõe a China (…) o único país com a intenção de remodelar a ordem internacional e, cada vez mais, com o poder econômico, diplomático, militar e tecnológico para fazê-lo».
Estas palavras atestam o antagonismo entre os EUA, o imperialismo que tem ostentado –e continua fazendo– o domínio mundial desde o fim da II Guerra Mundial e o imperialismo emergente chinês. A irrupção da companhia de Inteligência Artificial (IA) chinesa DeepSeek, desafiando os planos dos grandes monopólios tecnológicos norte-americanos, é uma viva manifestação desse antagonismo.
Na verdade, desde a emergência da China como nova potência imperialista a partir de sua resposta à grande crise econômica de 2008, temos entrado em um prolongado período de conflito entre ambos os imperialismos. É um choque que condiciona a marcha do organismo econômico mundial, globalmente estagnado desde a crise de 2008. Afeta de cheio a divisão mundial do trabalho (DMT) e desequilibra profundamente o Sistema de Estados, relocalizando o papel dos países e regiões do mundo. Este antagonismo se tornou um eixo central da política mundial.
O acesso de Trump à presidência norte-americana precipita a crise da Ordem Mundial, acentua os choques comerciais, tecnológicos e geopolíticos com a China, e intensifica a corrida armamentista global aumentando as tensões e até o risco mesmo de colisões militares.
Neste artigo, vamos focar no processo de restauração do capitalismo na China, sob a iniciativa e direção da burocracia do Partido Comunista Chinês (PCCh), até a conversão do país em uma potência imperialista emergente. Também revisaremos o estado atual do conflito com os EUA e a situação atual da China, que enfrenta a nova onda tarifária de Trump em um cenário interno complicado.
A restauração capitalista na China
O processo de restauração ocorreu no contexto da reconciliação do PCCh com o imperialismo norte-americano. Essa reconciliação, com grandes implicações geopolíticas (como a invasão chinesa do Vietnã), ganhou sua dimensão mais colossal na restauração capitalista da China, que iniciou um processo de reordenamento da economia mundial que ia dar lugar à Globalização, na qual a China ia se tornar a “fábrica do mundo”. Finalmente, a Grande Recessão de 2007- 2008 colocou em questão a Globalização e provocou uma enorme crise que gerou uma resposta massiva do capitalismo chinês, que culminou emergindo como nova potência imperialista, em rivalidade com os EUA.
A restauração capitalista é inseparável de seu grande impulsionador e beneficiário: o PCCh, o partido da burocracia mao-estalinista e eixo vertebrado da ditadura chinesa. Seu peso avassalador vem de ter usufruído da revolução de 1949 e de se erguer sobre ela durante 60 anos como uma casta burocrática onipotente.
Os investimentos estrangeiros nunca teriam chegado, muito menos no volume gigantesco em que o fizeram, sem a existência de uma ditadura burocrática capitalista que garantisse firmemente os lucros extraídos de uma classe trabalhadora superexplorada e sem direitos, e que facilitasse,
da mesma forma, infraestrutura, suprimentos baratos, mercado e um ambiente fiscal favorável.
Uma ditadura que, ao mesmo tempo, promovia ativamente a acumulação capitalista autônoma. O PCCh sempre buscou utilizar a restauração para se tornar ele mesmo o coração do capitalismo chinês, formando um conglomerado com a nova burguesia privada, que já emergia com força ao calor das IED (investimentos estrangeiros diretos) imperialistas.
Dirigida por Deng Xiaoping, a burocracia mao-estalinista, ao contrário da URSS, não se fraturou nem estourou em pedaços, mas manteve sua unidade e dirigiu e controlou o processo de restauração capitalista. Preservou a independência política do regime e manteve um ritmo gradualista («cruzar o rio sentindo as pedras sob a água»), assegurando-se de manter a qualquer preço seu monopólio como partido-Estado.
A decisão de restaurar o capitalismo, alguns anos antes que Gorbachov, foi a opção do aparato burocrático triunfante da chamada Revolução Cultural (1966-1976). Esta, inicialmente uma disputa interburocrática instigada por Mao para recuperar o poder perdido após as consequências catastróficas do “Grande Salto Para Frente”, acabou em uma verdadeira contrarrevolução, na qual o aparato maoísta, com o exército à frente, acabou a sangue e fogo com uma rebelião de setores de jovens e de trabalhadores que lhe escapou das mãos1.
1 O Grande Salto Para Frente foi um plano impulsionado por Mao no campo entre os anos 1958 e 1962. Caracterizou-se pela coletivização forçada dos camponeses, por meio do estabelecimento de comunas rurais a que designaram o objetivo de multiplicar a produção agrícola (com cotas obrigatórias) e por instalar de maneira generalizada pequenos altos-fornos rurais para fundir aço, cuja produção devia superar a britânica em 15 anos. Um aspecto central do plano era garantir a exportação agrícola para reembolsar a dívida contraída com a URSS. O plano, arbitrário, coercitivo e sem recursos que o tornassem possível, baseou-se em uma enorme superexploração camponesa e fracassou em todos os seus objetivos: a produção agrícola não não aumentou, o aço era em sua maior parte imprestável e dezenas de barragens construídas colapsaram em 1975. Deu lugar, pelo contrário, a uma fome massiva que provocou a morte de milhões de camponeses (pelo menos 10 milhões, havendo fontes que calculam em 35 milhões).
Da «Reforma e Abertura» (1978) de Deng ao massacre de Tiananmen (1989)
A restauração capitalista começou em 1978-1979, coincidindo com a visita de Deng a Washington. O eixo inicial da «Reforma e Abertura» foi o campo, onde vivia a avassaladora maioria da população chinesa (80%). As comunas e fazendas coletivas foram abolidas e instaurou-se o «sistema de responsabilidade familiar». A descoletivização avançou muito rápido e a reforma teve um surpreendente sucesso, ajudada pelo aumento do preço do grão, créditos e melhorias técnicas.
O complemento da descoletivização foram as «Empresas de Pueblo y Aldea» (TVEs), não agrárias, que se concentraram nas regiões costeiras. Na primeira década, foram o principal motor de acumulação capitalista. De empregar 28 milhões de trabalhadores (1978), passaram a ocupar 125 milhões (1993) e a produzir 25% do PIB. Mais tarde, quando, após o massacre de Tiananmen (1989), se acelerou a restauração capitalista, a prioridade passou para as cidades da costa e as TVEs entraram em crise aberta.
Após 1992, coincidindo com o aceleracionismo restauracionista, as áreas rurais ficaram fortemente desassistidas, provocando uma grave crise que obrigou os camponeses a emigrar em massa. Enquanto isso, o governo promovia a compra e venda dos direitos de uso da terra, sua concentração, a usurpação de terras pelos governos locais, e a criação de uma burguesia agrária.
As medidas restauracionistas no campo foram a peça imprescindível para «liberar» 200 milhões de camponeses e obrigá-los a se deslocar para as cidades como mão de obra migrante (nonmigong), trabalhando em regime de fábrica-quartel, com salários muito baixos, empregos precários; sem direito a aposentadoria, plano de saúde ou educação básica para seus filhos, por não terem registro de residência (hukou) urbano. Um apartheid que os transforma em cidadãos de segunda, com uma identidade rural hereditária.
O segredo final do milagre econômico chinês destes 40 anos reside em grande medida na mais-valia extraída desses trabalhadores migrantes, que compõem uma parte substancial da classe trabalhadora chinesa.
O pacote da «Reforma e Abertura» estabeleceu também quatro «Zonas Econômicas Especiais» (ZEE), entre elas Shenzhen, projetadas para atrair investimento estrangeiro. A partir de 1984, o PCCh facilitou o acesso do capital estrangeiro a quatorze cidades costeiras com privilégios semelhantes, desta vez em colaboração com os governos locais.
Esta fase respondeu ao avanço da integração chinesa nas cadeias de produção asiáticas dos novos ramos industriais (TIC, “tecnologias da informação e da comunicação”), orientadas para a exportação e sustentadas nos investimentos dos “Tigres Asiáticos” e Japão.
Continuou a liberalização dos preços dos bens de consumo, dando lugar a uma inflação desenfreada (21% em 1988), combinada com um forte aumento da desigualdade social e uma corrupção generalizada.
Sobre essas bases, se desenvolveu o levante popular que, liderado pelos estudantes, teve como epicentro a praça de Tiananmen, estendendo-se pelo país, exigindo liberdades, o fim da corrupção e justiça social. Em 4 de junho de 1989, diante da extensão do movimento e do crescente envolvimento de setores de trabalhadores, conscientes de que seu desenvolvimento levava a questionar a ditadura do PCCh, o exército esmagou em sangue a revolta e procedeu a uma selvagem repressão.
Após Tiananmen, a restauração capitalista avançou a passos largos
Após o massacre, durante um breve interregno, o processo ficou paralisado pelas divisões internas sobre o ritmo sobre o
ritmo e as modalidades da restauração e sobre a melhor maneira de preservar o monopólio do PCCh e sua ditadura.
A famosa Viagem ao Sul de Deng, em fevereiro de 1992, aos 88 anos, encerrou o interregno e inaugurou o “Grande Compromisso“. Este unificou as distintas frações do PCCh. Com Deng à frente, deixaram claro que, após Tiananmen, não havia marcha atrás.
As empresas estatais (SOEs: State Owned Enterprises) «pequenas e médias» foram privatizadas, caindo nas mãos dos burocratas provinciais e locais, em combinação com seus «cronies» (compinches) e os antigos diretores. As grandes SOEs foram profundamente reestruturadas: parte de seu capital passou a cotar na bolsa; entre 30 e 40 milhões de trabalhadores (60%) foram despedidos e os que ficaram sofreram um imenso retrocesso laboral. Paralelamente, a chegada de capital estrangeiro superava as melhores expectativas.
O salto após a entrada na OMC (2001)
A entrada da China na OMC, em 2001, acelerou as medidas de liberalização, melhorou as condições do investimento estrangeiro, abriu muitas portas para o mercado chinês, e permitiu um forte impulso às exportações. Significou um forte aumento dos investimentos estrangeiros, desta vez protagonizados pelos EUA e o resto dos grandes países imperialistas. Em 2009, 27% dos investimentos globais tiveram a China como destino. As multinacionais ocidentais passaram a se servir massivamente da China, via investimento direto e subcontratações, para produzir componentes e para sua montagem final, o que provocou, por sua vez, uma deslocalização industrial generalizada em seus países. Ao mesmo tempo, a burguesia norte-americana forçou uma intensa queda de salários e condições de trabalho em seu país (que se generalizou a todo o mundo). Eis aqui, resumida, a essência da «Chimérica». Nesse processo, em apenas duas décadas, a China se tornou a «fábrica do mundo», superando em 2011 os EUA como maior potência manufatureira.
A burguesia chinesa emergiu e se fortaleceu a partir de sua integração nas cadeias de suprimento das fábricas criadas pelo investimento estrangeiro, com exportações massivas, através das obras colossais de infraestrutura e da massiva urbanização do país. Isso foi feito ganhando força em segmentos dos processos de fabricação e explorando o vasto mercado rural da China. O próprio atraso da China lhe permitiu, paradoxalmente, saltar etapas inteiras de desenvolvimento Assim, a adoção da alta tecnologia nas telecomunicações não foi feita repetindo cada etapa dos países capitalistas avançados, mas instalando cabos de fibra ótica em todo o país praticamente de uma vez.
Algo parecido se pode dizer sobre os veículos elétricos ou os painéis solares, em que a China é a primeira potência
tecnológica e comercial. O processo da acumulação capitalista autônoma, com o surgimento de poderosos oligopólios privados, contou com o apoio massivo do Estado, que manteve em suas mãos o sistema de crédito2, a energia e as indústrias de base e desenvolveu as infraestruturas. O Estado forneceu aos oligopólios privados – concentrados nos setores de bens de consumo – empréstimos, ajudas e participações acionárias, assim como energia e bens de produção baratos, além de impostos camaradas. Ao mesmo tempo, forçava a transferência de tecnologia ocidental através de joint-ventures, em troca do acesso ocidental a uma força de trabalho semiescrava e ao crescente mercado chinês.3
O controle do processo de restauração permitiu ao Estado manter taxas de investimento de 40% do PIB durante décadas (com a consequente redução do consumo da população) e promover, em especial desde o acesso de Xi Jinping, um poderoso desdobramento de investimentos no exterior. Em relação ao PIB, segundo o Escritório Nacional de Estatística, entre 1980 e 2014 apresentou uma taxa média de crescimento de 9,5%. Embora desde então o índice tenha ido em retrocesso: em 2017 era de 6,9%; em 2024 chegou justo a 5%, e para 2025 prevê 4-5%.
2 AYALA, Ricardo. “O sistema bancário chinês e a guerra comercial de Trump”, 24 de julho de 2019, litci.org.
3 Mediante SOEs com taxas de lucro netamente inferiores às empresas privadas (POEs, Empresas de Propriedade Privada).
Entrelaçamento entre capital estatal e privado
O capitalismo chinês se caracteriza por uma amalgama entre o capital estatal e o privado4. As grandes corporações privadas (Internet, alta tecnologia, carro elétrico, telecomunicações, eletrônica, farmacêuticas, robótica…) se beneficiam de financiamento e contratos massivos do Estado, que desempenha um papel chave em sua expansão exterior. As grandes SOEs e bancos estatais têm participação privada em seu capital e estão listados nas Bolsas chinesas; muitos também em Hong Kong e um número significativo em praças estrangeiras. Juntas, as grandes corporações privadas e estatais conformam grandes consórcios.
Segundo dados oficiais de 2017, o setor privado contribuía com mais de 60% do PIB e mantinha a mesma porcentagem no investimento em capital fixo e nas inversões exteriores. Representava mais de 70% das empresas de alta tecnologia, mais de 80% do emprego urbano e mais de 90% dos novos empregos.
Em outubro de 2020, os super-ricos da China alcançaram, no calor da pandemia, uma fortuna combinada de 4 trilhões de dólares, mais do que o PIB da Alemanha. A família de Jack Ma (Alipay) liderava a lista macabra com uma fortuna do tamanho da economia russa5. O Star Market, a bolsa tecnológica de Xangai (o Nasdaq chinês) havia “criado” nesse período 13 novos bilionários, entre eles o dono do Tiktok e o fundador da plataforma de comércio eletrônica Pinduoduo.
4 Aqueles que estiverem interessados na polêmica com aqueles que sustentam que o regime chinês é “o socialismo de nossos dias” ou defendem que o que há na China não é capitalismo, mas sim um “regime em transição entre capitalismo e socialismo”, ver AYALA, Ricardo e ALEGRÍA, Felipe, “China: ¿Um regime capitalista, o «socialismo de nossos dias» ou um regime social «intermediário»?”, 14 de dezembro de 2021, litci.org.
5 REN, Daniel. “Jack Ma lidera o grupo enquanto as fortunas dos bilionários chineses em 2020 crescem ao tamanho da economia da Rússia”, South China Morning Post, 20 de outubro de 2020.
https://www.scmp.com/business/money/wealth/ artigo/3106202/jack-ma-lidera-grupo-de-bilionários-chineses-2020-fortunas-crescem
O impulso imperialista chinês
Lenin, em sua obra O imperialismo, fase superior do capitalismo (1916), vinculava a emergência da Alemanha como potência imperialista à resposta do capitalismo germânico à grande crise econômica do final do século XIX e início do XX. Analogamente, a resposta chinesa à grande recessão de 2007-2008 (que cortou abruptamente suas exportações e provocou uma desvalorização maciça do capital) provocou seu impulso imperialista como via para preservar e ampliar o poder dos oligopólios chineses e manter a própria independência política do regime.
A burocracia mao-estalinista forçou a maquinaria de crédito, aumentando o investimento até 45% do PIB e propôs um «mudança de modelo de desenvolvimento”, que tomou contornos precisos com Xi Jinping (2012).
D. Harvey, em seu livro Marx, o capital e a loucura da razão econômica (2017), aponta: «Em 2007 não havia nem um km de ferrovia de alta velocidade, em 2015 há 20.000 km (…) Entre 1900 e 1999, os EUA consumiram 4,5 milhões de toneladas de cimento. Entre 2011 e 2013, a China consumiu 6,5 milhões de toneladas. Em dois anos, os chineses consumiram mais cimento do que os EUA em todo um século (…) Nos últimos anos, mais da metade da produção e do consumo de aço do mundo ocorreu na China». 6 Tudo isso colocou em 2011 o PIB chinês na segunda posição global. Nestes anos, junto às grandes infraestruturas, o setor imobiliário saltou de 9% do PIB (2000) para 21% (2020). A sobreinvestimento em setores como o aço ou o cimento se acentuou, enquanto a manufatura, telecomunicações e alta tecnologia ficavam para trás, a taxa de lucro e a produtividade do país caíram.
A resposta foi um pacote com dois componentes combinados: o primeiro, o programa «Made in China 2025», lançado por Xi em 2015. Nele se concretizavam 10 setores prioritários e tecnologias-chave como 5G, Inteligência Artificial (IA) e semicondutores (chips). Promovia “campeões nacionais”, isto é, monopólios chineses para os quais preservava o domínio do mercado doméstico para, sobre essa base, afirmar sua primazia global. Mais tarde veio o programa China Standards 2035, com a meta de fixar padrões globais para novas tecnologias. 6 HARVEY, David. Marx, o capital e a loucura da razão econômica, Madrid: Akal Ediciones, 2019.
O segundo componente foi a saída ao exterior. Se até então a exportação de mercadorias havia crescido rapidamente, agora, com Xi Jinping, o que tomava velocidade vertiginosa era a exportação de capitais. A China ocupava em 1990 a 16ª posição no ranking de exportadores de capital. Em 2010 era a 4ª e em 2018 a segunda. Em 2019, seu IED foi de US$117 bilhões, enquanto a dos EUA era de US$125 bilhões. Em 2020, o investimento chinês no exterior superava o investimento estrangeiro no interior do país.
A fórmula que condensou a saída chinesa para o exterior foi a BRI (Belt and Road Initiative; em português «Iniciativa do Cinturão e da Rota da Seda»), lançada em 2013 e convertida por Xi no principal mecanismo de expansão imperialista chinesa. A BRI é uma ferramenta de controle e apropriação de fontes energéticas e matérias-primas, de saída da superprodução interna e conquista de mercados, em particular em países semicoloniais (o “Sul Global”), de expansão dos monopólios chineses e de deslocalização de indústrias chinesas intensivas em mão de obra. Como uma extensão “natural” da BRI, estão os grandes investimentos na América Latina, associados à conversão da China no principal parceiro comercial da região.
Ao longo dos últimos anos, o imperialismo chinês, de mãos dadas com o Estado, investiu poderosamente no mercado asiático e africano, onde é o principal credor (e o segundo em escala global). Fortaleceu intensas relações com a Rússia, com os olhos voltados para a Ásia Central e para o fornecimento energético. Entrou com ímpeto no Oriente Médio, onde é o principal parceiro comercial. Na África, deslocou as potências tradicionais (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos). Uma expressão conclusiva é a recente celebração em Pequim (setembro de 2024) do Fórum de Cooperação China-África com a participação de chefes de Estado e de governo de mais de 50 países africanos.
A China se tornou o primeiro parceiro comercial da América Latina (onde 21 países aderiram à BRI e é, após os EUA, o segundo exportador de capitais para a região. Exemplos incluem a fábrica de carros elétricos (EV) da ByD no Brasil, o investimento na Bolívia da CATL (principal produtora mundial de baterias) para extrair lítio do salar de Uyuni, ou a construção dos portos de Chancay (Peru) e Ensenada (México).
Os monopólios chineses se tornaram forças nitidamente beligerantes na luta global por recursos, mercados e as «áreas de influência», com a BRI como ponta de lança. O notável e crescente fortalecimento militar da China faz parte desse movimento, em particular de seu poderio naval no Mar do Sul da China.
Foi esse impulso imperialista da China que fez entrar em crise a Globalização (com sua Chimérica) e a Ordem Mundial, na qual até então os EUA exerciam um domínio absoluto e indiscutível.
O conflito China-EUA hoje
Pouco depois da posse de Trump, grandes tecnológicas norte-americanas anunciavam na Casa Branca um investimento megamilionário de US$500 bilhões. Objetivo: assegurar o monopólio norte-americano sobre a IA, necessário para uma apropriação mundial de superganhos tecnológicos e para a hegemonia global norte-americana. A irrupção, alguns dias depois, do chat chinês de IA, DeepSeek, questionava esses planos e colocava em dúvida a primazia norte-americana na IA e o papel que a China ia desempenhar nesse terreno vital7.
7 SULLIVAN, Jake. “Comentários do Conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan na Cúpula Global de Tecnologias Emergentes do Projeto de Estudos Competitivos Especiais” Briefing da Casa Branca, 16 de janeiro de 2022. Na conferência, o ex-assessor de Biden afirmou expressamente que não permitiriam que a China liderasse a IA porque o domínio geopolítico do país estava subordinado à hegemonia neste campo.
Os Estados Unidos continuam mantendo a hegemonia econômica mundial, sustentada em uma produtividade geral que supera claramente a da China, ao que se deve adicionar seu domínio financeiro global (e, evidentemente, geopolítico e militar). Os EUA continuam sendo a primeira potência em relação aos bens de consumo final (indústria digital, eletrônica de ponta, farmacêutica ou aeroespacial). A China, no entanto, já alcança 12,24% mundial neste campo e é, ao mesmo tempo, o maior produtor global de meios de produção (30,83% em 2023)8. Constitui, com diferença, “a superpotência manufatureira mundial”9 e aparecia, no final de 2024, como a primeira economia mundial segundo paridade de poder aquisitivo (ppa) de seu PIB; a segunda, após os EUA, em dólares correntes.
Justo alguns dias antes da aparição do DeepSeek, a agência norte-americana Bloomberg sinalizava que a China era líder mundial em carros elétricos (EV), drones, painéis solares e trens de alta velocidade, e que lutava para ser líder em robôs e medicamentos. O avião comercial chinês C919 já compete na Ásia com a Boeing e a Airbus. Se tudo isso é de grande relevância, é muito mais a batalha pelo liderança em semicondutores (hoje nas mãos da norte-americana NVIDIA) e em IA, dado que, se a China conseguisse superar os EUA nesse terreno, poderia dar origem a uma onda sísmica de enormes consequências.
A China está em evidente inferioridade ante o imperialismo norte-americano no terreno financeiro. Os EUA são a grande superpotência financeira, que conta com seu sistema bancário, com as instituições financeiras internacionais (FMI, BM) e com o papel do dólar como moeda universal. No entanto, a China está trabalhando arduamente, em paralelo com os seus investimentos estrangeiros, para se tornar uma potência financeira global. Neste campo, o grupo dos BRICS+10, capitaneado pela China, tem como objetivo dar passos na criação de uma estrutura financeira e monetária alternativa ao domínio estadunidense.
8 Relatório de ILAESE, baseado na evolução das 500 maiores corporações mundiais nos últimos 20 anos.
9 BALDWIN, Richard. “A China é a única superpotência manufatureira do mundo: Um esboço da ascensão”, Centro de Pesquisa em Política Econômica, 17 de janeiro de 2024. https://cepr.org/voxeu/columns/chi-
na-worlds-sole-manufacturing-superpo- wer-line-sketch-rise (17/01-2024)
O acesso de Trump à Presidência, com todas as suas medidas extraeconômicas, incluindo suas ameaças e bravatas, não reflete a fortaleza do imperialismo norte-americano, mas sim sua decadência. Durante longas décadas, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, da qual emergiu como potência dominante indiscutida, os EUA não se apoiaram, como norma, em medidas extraeconômicas para impor sua avassaladora hegemonia econômica, sustentada em sua maior produtividade e em seu domínio financeiro, ou seja, se assentou em seu “poder brando”. A culminação (e última etapa) desse processo foi a Globalização neoliberal, com o famoso “Consenso de Washington” e sua plena liberdade de movimento de capitais e mercadorias. Evidentemente, no fundo desse processo sempre se encontrou o exército norte-americano, com seu gigantesco arsenal, suas mais de 700 bases no mundo e suas intervenções seletivas.
Esta situação geral tem mudado e hoje se manifesta com estridência sua quebra no segundo mandato de Trump, com sua “guerra tarifária” e o resto de suas medidas extraeconômicas, provocações incluídas. A nova pauta de Trump expressa o deterioro da primazia econômica norte-americana em setores de ponta e reflete, em conjunto, a perda da influência global dos EUA, em particular diante do ascenso chinês. Trump recorre às medidas extraeconômicas para restabelecer o domínio perdido, ao preço de colocar abertamente em dúvida as maltratadas bases da Ordem Mundial surgida após a Segunda Guerra Mundial, renovada após a queda da URSS.
10 Formado inicialmente por China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul, e depois ampliado para um número importante de países do chamado Sul Global.
A disputa entre os EUA e a China está tomando e vai tomar formas cada vez mais agudas. Tudo aponta para o fato de que Trump, além de manter o embargo tecnológico, está nos inícios de uma batalha tarifária de grandes dimensões contra as exportações chinesas, com repercussões no resto dos países. A força da China como superpotência manufatureira é, assim, sua fraqueza diante de uma ofensiva tarifária generalizada, devido à sua dependência das exportações e à sua atual sobreprodução. Da mesma maneira, a economia dos EUA é também muito dependente das importações chinesas11 e o fechamento destas poderia ter sérias consequências.
A China, diante da ofensiva norte-americana, vai intensificar sua expansão exterior, em particular em direção ao Sul Global. E terá que enfrentar uns EUA que buscam reconquistar áreas de influência ganhas pela China, impedir que estabeleça alianças e impor um cerco militar regional (AUKUS…). Na verdade, estamos em um processo inédito onde se combinam elementos econômicos (tecnológicos e comerciais) e questões geopolíticas e onde, além disso, incide a situação interna dos respectivos países. Um processo cujo resultado vai depender dessa combinação e de seus efeitos ao longo do tempo.
Um processo onde tudo vai ser colocado à prova.
Antes, mencionamos o aumento dos riscos de colisões militares. Na verdade, essa possibilidade não é algo autônomo, mas depende do curso geral do conflito nos próximos anos. No seu caso, o ponto crítico mais provável está no estreito de Taiwan e no mar do Sul da China. É onde apontava, em setembro de 2024, a almirante Lisa Franchetti, chefe das forças navais norte-americanas quando afirmava que os combates navais no mar Vermelho e no mar Negro eram de grande ajuda para “se preparar para um ataque chinês em Taiwan”: “Eu estou muito focada em 2027”.
11 BALDWIN, Richard. “A China é a única superpotência manufatureira do mundo: Um esboço da ascensão”. Center for Economic Policy Research, 17 de janeiro de 2024.
https://cepr.org/voxeu/columns/china-worlds- sole-manufacturing-superpower-line-sketch-rise
A difícil situação econômica chinesa
Desde o final da pandemia da Covid, a economia chinesa não consegue se recuperar. Há uma desaceleração do crescimento, muito longe do que era décadas atrás, com tendências deflacionárias, impulsionadas por um consumo que não se recupera e pela guerra de preços entre fabricantes, motivada pela sobreprodução existente, algo manifesto no caso dos carros elétricos. O desemprego atinge 20% entre os jovens, ofuscando suas expectativas e agravando suas péssimas condições de trabalho. Os governos locais sofrem uma crise financeira muito grave, que provém da explosão da bolha imobiliária (quebra da Evergrande, 2021), que os deixou sem sua principal fonte de recursos, a venda de terrenos, e com uma dívida de grandes proporções. Há lugares onde os governos locais não conseguem nem mesmo pagar seus funcionários e contratados.
A crise imobiliária está longe de ter sido resolvida. Os investimentos do Estado apenas conseguiram amenizar a crise e o mesmo acontece agora, com medidas recentes como a aprovação de fundos para concluir edifícios que ficaram inacabados. Os preços das habitações e as transações continuam caindo; em fevereiro de 2025, as autoridades de Shenzhen resgataram a imobiliária Vanke e pelo menos uma dúzia de incorporadoras, incapazes de saldar suas dívidas, enfrentam pedidos de liquidação. O efeito dessa crise no conjunto da economia chinesa é francamente depressivo.
Todo isso acontece em meio à ofensiva tarifária (e ao embargo tecnológico) reiniciado por Trump contra uma economia altamente dependente das exportações (embora metade delas vá atualmente para o chamado Sul Global), em uma situação
mundial marcada pelo estancamento, que a guerra das tarifas pode agravar.
Importantes economistas do establishment chinês alertam para o perigo de entrar em uma profunda recessão de balanço (“balance sheet recession”) como a que afetou gravemente o Japão nos anos 90’12. Suas propostas são lançar, ao estilo de 2008, um megapaquete de gasto público com o fim de relançar o setor privado e reanimar o consumo (embora a dívida pública atual, de 100% do PIB, não permita tantas alegrias). Da mesma forma, ainda com mais razão do que em 2008, propõem dar um novo empurrão à expansão exterior. Falam de um Programa de desenvolvimento verde do Sul Global, que –dizem– viria a ser o equivalente chinês ao Plano Marshall norte-americano que seguiu à Segunda Guerra Mundial. Este plano responde ao fato de que o mercado doméstico não é capaz de absorver a sobreprodução vinculada às novas energias, em primeiro lugar, o carro elétrico (EV). Por outro lado, centrado no Sul Global, serviria para eludir as barreiras comerciais dos EUA e da UE e fortalecer as áreas de influência.
As dificuldades e medos de Xi diante da situação chinesa se refletem indiretamente em sua campanha anticorrupção, que está afetando altos executivos empresariais e do Estado, incluindo alguns ministros e militares de alto escalão13. Uma amostra de seus medos é a republicação, no jornal do PCCh, Qiushi, de um de seus discursos de 2023, no qual dizia: “O menor erro poderia detonar um efeito borboleta onde pequenos per- igos escalam a ameaças sérias, riscos localizados se generalizam e riscos socioeconômicos se transformam em ris- cos políticos”.
Esta frase de Xi reflete o temor a um deterioro grave da situação econômico-social e a que, assim, isso acabe provocando uma entrada em cena da classe trabalhadora chinesa14, passando por cima do “sindicato” oficial, um instrumento de enquadramento contra a livre organização sindical.
A situação dos trabalhadores chineses
Até agora, as mobilizações do final de 2022 contra a brutal e humilhante aplicação da política Covid-Zero, lideradas por trabalhadores migrantes e universitários, foram as mais importantes desde a derrota de Tiananmen (1989). Reclamavam o fim do lockdown selvagem, enfrentavam a política repressiva e exigiam liberdades democráticas. Depois, ocorreram mobilizações importantes dos aposentados em Wuhan e outras cidades contra os cortes no subsídio médico. Também é preciso levar em conta as lutas das nacionalidades oprimidas no país, como as da região autônoma de Xinjiang, que inclui os uigures, ou o Tibete.
As mobilizações em 2024 têm estado circunscritas a uma série de greves de fábrica, sobretudo no setor da construção e na produção de aço, ocasionadas por atrasos salariais e, em vários casos, por recolocações e demissões. Segundo China Labour Bulletin (CLB) as greves foram 1.508, sem que tenham afetado grandes empresas.
Quanto às condições de trabalho, o jornal de Hong Kong, South China Morning Post (SCMP), informou sobre a existência generalizada do conhecido regime 996, comum entre as empresas de internet e tecnológicas: jornadas de trabalho das 9 da manhã às 9 da noite durante 6 dias na semana, apesar da legislação trabalhista que o proíbe. Quando houve protestos contra esse regime de trabalho em março de 2019, Jack Ma, o magnata da Alibaba declarou: “O sistema 996 é uma bênção (…) Se você vem para a Alibaba, deve estar disposto a trabalhar 12 horas por dia, se não, por que vem?”.
SCMP também informou sobre o recente escândalo de 163 trabalhadores chineses da construção trabalhando na edificação da fábrica ByD em Bahia (Brasil), em regime semiescravo: “longas horas de trabalho, camas sem colchões, lavabo comum para dezenas de trabalhadores”, sem dia de descanso semanal e, neste caso, com os passaportes retidos. SCMP revelava que é uma situação similar à que vivem na China os operários deste setor, formado por migrantes rurais, onde se violam sistematicamente os direitos legalmente reconhecidos (8 horas de trabalho diárias, 44 horas por semana, um dia de descanso semanal). É igualmente brutal o caso das operárias e operários que trabalham para a marca de moda ultrarrápida Shein, também migrantes rurais. O bairro de Panyu, em Guangzhou, é conhecido como “o povo de Shein”, com cerca de 5.000 fábricas e oficinas. A maioria das operárias e operários de Panyu só tem um dia de descanso por mês, trabalham 75 horas por semana (10, 11 ou 12 horas por dia, aos domingos três horas a menos) e recebem por peça.




