Da burocracia de Moscou à burguesia compradora de Ramallah

Por: Tamer Khorma

Após decidir viver à sombra da direita palestina e se limitar a cumprir o papel de mediação entre o Fatah e o Hamas em busca de uma “parceria política” com uma autoridade formal sob a sombra da ocupação, a esquerda palestina não conseguiu sequer formar uma lista eleitoral unificada para concorrer nas próximas eleições legislativas que deveriam ocorrer em 22 de maio de 2021 (I).

A unidade da esquerda palestina foi e ainda é um sonho utópico que não pode ser concretizado por razões ideológicas, organizacionais e políticas, muitas das quais estão relacionadas a fatores subjetivos e não a fatores objetivos. É necessário chamar as coisas pelos seus nomes sem qualquer diplomacia política. Em suma, a esquerda palestina não conseguiu concretizar o projeto revolucionário que clamava pela transformação das capitais do Oriente Médio em Hanóis árabes! (II)

Primeiro a esquerda palestina abandonou a perspectiva da violência revolucionária; depois aceitou a liderança da classe que há muito descrevera como a “burguesia compradora palestina”(III); e então abraçou na prática a ilusão da “solução de dois Estados”. Agora a esquerda está longe da possibilidade de formar uma liderança revolucionária que conduza as massas palestinas em base ao princípio da revolução permanente. Hoje, esta esquerda registra mais um fracasso, desta vez na gestão do jogo político “pacífico” de acordo com as mesmas regras que a direita acumulou, desde o programa de dez pontos da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) ao malfadado acordo de Oslo! (IV) As causas do fracasso são múltiplas e cumulativas, mas partem de uma base teórica, representada pelo pragmatismo burocrático!

A maldição do estalinismo

A “idade de ouro” da esquerda palestina ocorreu na década de 1970 quando a Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP) levantou o slogan “Perseguir o inimigo em toda a parte” para mais tarde abandoná-lo em resposta aos ditames da burocracia estalinista de Moscou, e às pressões da direita palestina e dos reacionários árabes. Havia também o crescimento de uma corrente interna pragmática que se contentava em ser a “segunda fração” mais importante da OLP, e se aproximava da União Soviética que defendia que a etapa de libertação nacional deveria ser conduzida pela “burguesia nacional”.

No entanto, o dilema tem raízes mais profundas e anteriores às rupturas da Frente Democrática pela Libertação da Palestina (FDLP), da “FPLP-Comando Geral” e demais cisões subsequentes que levaram à formação de organizações momentâneas como a “Frente Popular Revolucionária (Maoista)” entre outras. A tragédia, francamente, tem suas raízes profundas na esquerda palestina desde o primeiro momento em que esta importou a solução soviética na versão stalinista na fundação do Partido Comunista Palestino (PCP), atual Partido do Povo(PP).

O marxismo distorcido da União Soviética, que testemunhara uma reversão massiva dos princípios leninistas nas mãos de Joseph Stalin, levou a burocracia soviética a ser a primeira a reconhecer a entidade sionista como um “estado”. Ao passar dos anos, as batalhas ideológicas da esquerda palestina deram lugar a uma forma de realismo vulgar que visa elaborar teorias a partir dos interesses políticos de curto prazo, e colocar as “táticas” antes da estratégia mesmo que sejam incompatíveis.

Muitos membros do PCP acreditavam na ilusória aliança de classe com o proletariado aristocrático representado pela classe trabalhadora judaica cujos interesses eram garantidos pela ocupação sionista. Com essa abordagem era impossível para o PCP formar uma direção revolucionária das massas palestinas. Depois do fracasso dessa política, o PCP se aliou à esquerda em defesa da luta armada como ponta de lança contra o projeto sionista. Naquele momento, a FPLP poderia ter liderado o projeto de libertação nacional, não fossem as catastróficas rupturas que a dividiram e a constante confusão entre a tentativa de adotar uma abordagem marxista-leninista junto com o legado histórico do movimento nacionalista árabe.

Já a FDLP levantou o slogan “quem mudou, mudou” (V) anunciando sua dissidência e sua adesão total ao marxismo. No entanto ela apenas adotou explicitamente uma versão mais distorcida da visão soviética, uma abordagem ideológica regida pelo interesse próprio baseado no pragmatismo extremista, que a levou mais tarde a apresentar a proposta de “solução provisória” (VI) cujos terríveis resultados assistimos até hoje.

Do estalinismo ao maoísmo, ao flerte com os sonhos guevaristas, a esquerda palestina continuou a se mover de uma tutela internacional para outra, sem ser capaz de aplicar o marxismo e apresentar uma concepção científica da questão nacional árabe, sem cair no chauvinismo nem abandonar o materialismo dialético. Apesar dos teóricos de seus círculos ideológicos realizarem tremendos esforços intelectuais nesse campo, o monopólio da vontade política controlado pela burocracia partidária impedia que a alternativa teórica se desenvolvesse e tivesse sua tradução em prática.

Realismo vulgar

A ausência de uma concepção teórica que faça a “digestão” do marxismo entre os palestinos e conduza à formulação de um programa político revolucionário unificado, impossibilita a esquerda de formar uma frente capaz de liderar o projeto de libertação palestina.

Mas, francamente, o fracasso em apresentar tal visão não se deve a um déficit intelectual ou fraqueza teórica, mas sim a razões políticas pragmáticas, cujo resultado foi a formulação de interpretações justificativas ​​que servem a objetivos organizacionais ou manobras táticas.

Quando a direita palestina introduziu o princípio da “palestinização” da revolução, o slogan da “unidade nacional” foi posto acima de qualquer consideração. Sacrificar os princípios intelectuais tornou-se razoável a fim de preservar a unidade do “lar palestino” (com a FPLP como ala esquerda unida ao Fatah na mesma organização). Seria apenas um slogan bonito e utópico se de fato não significasse a unidade das lideranças partidárias em bases puramente representativas, e não a unidade das massas palestinas e suas frações populares em base a um verdadeiro projeto revolucionário de libertação.

E assim, a direita palestina continuou a liderar a OLP até que esta tivesse seu estatuto desfigurado a partir do reconhecimento da entidade sionista como um Estado. A esquerda palestina (parte da qual redigiu os primeiros documentos de cessão da terra histórica da Palestina, e a outra parte que se convenceu de que bastava ser a segunda fração da organização apostando na unidade em detrimento de sua proposta revolucionária), colocou-se quase fora dos círculos de decisão desde que o poder foi subtraído daquela organização abandonada.

Entre o utopismo da “unidade” e o pragmatismo da representação organizacional, a esquerda palestina ainda se contenta em desempenhar seu papel secundário na equação política, e as diferenças entre as várias organizações de esquerda ainda se traduzem em alianças distintas e temporárias. Se a FPLP tende ao Hamas, a FDLP vai correr junto com o Partido do Povo a flertar com o Fatah. No entanto, as razões fundamentais para essas divergências dentro da esquerda palestina estão longe de serem descritas como ideológicas, especialmente porque o marxismo e sua abordagem dialética são hoje a última preocupação dos seus líderes que se alimentam do que resta do legado histórico de suas organizações.

A ausência de uma prática verdadeira do princípio de “crítica e autocrítica” e o monopólio da burocracia partidária quanto aos postos de tomada de decisão nos vários partidos de esquerda, cujas bases organizacionais foram construídas de acordo com os princípios stalinistas, foram os fatores decisivos para o envelhecimento dessa esquerda, que é guiada pelo “realismo” de se render ao status quo, em vez de buscar a mudança revolucionária.

A farsa do pecado

Quando a esquerda palestina ergueu a bandeira da luta armada, ela conseguiu liderar as massas de acordo com sua abordagem ideológica e até contribuiu para difundir o ABC da causa palestina em todo o mundo. Quando a Resistência Islâmica respondeu ao projeto de liquidação de Oslo com suas operações de jihad, também foi capaz de reunir amplas massas ao seu redor. Antes disso, o partido Fatah, que levantou o slogan “o primeiro tiro” (VII), conseguiu ser o principal partido na arena palestina. A luta é só o que une as massas palestinas, e as faz alinhar atrás de qualquer organização que lute por sua classe e interesses nacionais, independentemente da terminologia ideológica que escolha em seus discursos!

Sob a ótica marxista, a esquerda palestina, se ainda acreditasse em seus ideais passados, sabe perfeitamente que a burguesia “compradora” está representada pela Autoridade Nacional Palestina e seus sócios, e que a esquerda palestina aceitou trabalhar sob seu comando e, sendo sua sombra, não pode de forma alguma liderar um projeto de libertação.

A burguesia palestina abandonou há décadas esse papel histórico e seus interesses tornaram-se total e diretamente ligados aos interesses da ocupação sionista. A esperança de libertação permanecerá dependente disso? Ou será que mesmo os líderes da esquerda palestina estão defendendo os interesses da classe burguesa “vacilante” de quem supostamente tal esquerda se encontra separada?

Concorrer nas eleições foi um pecado desde o início, mas esse pecado na verdade se tornou uma farsa, quando a esquerda palestina, depois de abandonar seus ideais revolucionários, não conseguiu sequer formar uma lista pragmática.

Abandonando a luta armada e combatendo o Fatah em estruturas de poder que servem apenas à ocupação sionista e seus objetivos, o Hamas se juntará a ele se insistir em suas manobras políticas, e a esquerda se aprisionará em lutas secundárias que não servem nem mesmo a seus objetivos organizacionais. A revolução é a senha essencial que permite liderar as massas palestinas.

Resumindo, a questão é que o sonho palestino não pode ser reduzido a um arremedo de Estado nem mesmo a um Estado!(VIII) O projeto palestino foi, é e continuará sendo a libertação de todo o território nacional palestino, e a erradicação do sionismo desta terra que vai do Mediterrâneo ao Rio Jordão, considerando a entidade sionista como o braço do imperialismo na região. Isso é o que a esquerda sempre defendeu. Então como pode mudar sua causa em vez de desalojar a velha direção?

Notas do Tradutor:

(I)  as eleições foram adiadas pela Autoridade Palestina sob alegação de que os eleitores de Al Quds/Jerusalém Oriental não poderiam votar, mas a verdadeira questão é a provável derrota eleitoral da lista do presidente da Autoridade Palestina –  Mahmoud Abbas.

(II) Hanói era a capital do Vietnã do Norte que enfrentou e derrotou militarmente os Estados Unidos servindo de exemplo para revolucionários em todo o mundo.

(III) Burguesia compradora é a burguesia nacional que colabora com o imperialismo ou com a ocupação sionista. O estalinismo desde os anos 30 defendeu a aliança com setores burgueses anti-imperialistas ou democráticos, rejeitando aqueles setores burgueses que considerava colaboracionista.

(IV) Em 1974 a OLP votou o programa de 10 pontos que apontava para um auto-governo em terras palestinas liberadas e sinalizava para o reconhecimento do Estado Sionista que resultaria nos acordo de Oslo de 1993.

(V) Trata-se de uma crítica à FPLP por não aderir integralmente ao marxismo.

(VI) Trata-se da proposta apresentada em 1971, precursora do programa de 10 pontos.

(VII) Trata-se da defesa da luta armada para a libertação da Palestina, ou seja, o primeiro tiro contra a ocupação sionista.

(VIII) O Estado em questão é um Estado Palestino nas fronteiras de 1967.

PS: publicado originalmente em árabe em 28/04/2021 no website: https://www.alaraby.co.uk/