Descubramos América
A verdadeira história da América: um legado de resistência e luta contra a opressão colonial e a exploração.
Publicado em El Clarín, 12 de outubro de 2026
Desde que os primeiros migrantes cruzaram o estreito congelado de Bering, a América conta com cerca de dezesseis mil anos de história “humana”; apenas 500 deles têm a ver com a cultura europeia. Estima-se que, na época do “contato” entre o Velho e o Novo Mundo, viviam aqui cerca de 50 a 60 milhões de pessoas.
É impossível precisar quantas culturas havia, mas basta apontar que se registram entre 1.200 a 1.500 línguas distintas que se agrupam em cerca de 120 famílias linguísticas independentes. Essa grande fragmentação idiomática tornava a América uma das regiões com maior diversidade cultural do planeta, aspecto que se estendia também a uma enorme variedade de sistemas sociais e políticos e de crenças.
Coexistiam grandes impérios centralizados e densamente povoados, como o mexica-azteca na Mesoamérica –gerado por uma aliança étnica tripla– e o extenso Tawantinsuyu inca na região andina; confederações democráticas de vários povos como os iroqueses da zona dos Grandes Lagos da América do Norte e os que foram conhecidos como sioux; cidades-estado autônomas como as dos antigos maias; cacicados; povos tributários –nossos calchaquíes, quilmes e omaguacas– e numerosas tribos nômades ou seminômades como os famosos diné chamados “apaches”, do sudoeste dos Estados Unidos e seus temidos vizinhos, os comanches, mestres da equitação, que viviam basicamente da caça do bisão. No outro extremo havia culturas marítimas como a selk’nam e sociedades que viviam em canoas como os yaganes e alacalufes.
Quando na madrugada daquele 12 de outubro de 1492 Rodrigo de Triana avistou uma ilha nas Bahamas após setenta dias de viagem, os navegantes acreditavam ter chegado à Índia asiática e por isso denominaram “índios” seus indivíduos que, na verdade, eram parte do povo taíno ou lucayo e chamavam à ilha de Guanahani; Colón a renomeou San Salvador. A terra que muito em breve será chamada de “América” por Vespúcio –e não “Colômbia”–, nasce assim com um duplo fracasso, a dos “índios da América” que, algumas décadas depois, em 1537, por bula do papa Paulo III serão declarados “seres humanos verdadeiros e dotados de alma”.
Sobrevêm então trezentos anos em que a América é colônia, sustentada sobre o sangue, exploração e despejo físico dos nativos e o traslado forçado de pessoas da África, convertidas em escravos, mera mercadoria e mão de obra para fábricas, mineração e plantações.
Por efeito de guerras, epidemias, exploração laboral e ruptura dos laços sociais, em menos de um século a população autóctone diminuiu dramaticamente, até quase 10% da original. Da mesma forma, dos mais de doze milhões de africanos obrigados a embarcar-se amontoados, cerca de 10 a 15% faleceu em alto-mar.
A conquista da América pelos europeus se realizou, assim, provocando uma verdadeira catástrofe demográfica indígena e africana. É um absurdo que se persista em falar de “conquista e povoamento”, quando na realidade houve um violento despovoamento.
Em uma resolução histórica de 25 de março de 2026, o impacto do tráfico, comércio e escravidão racializada foi declarado pelas Nações Unidas como o crime de lesa humanidade mais grave e cujos delitos derivados são imprescritíveis, isto é, que não expiram com o tempo.
A iniciativa foi apresentada por um grupo de 60 países e a votação da Assembleia Geral foi 123 votos a favor, 52 abstenções e apenas 3 votos contra: ao lado de Israel e Estados Unidos, se alinhou o governo argentino, e ressalto o “o governo” porque ninguém foi consultado a respeito. Coerente com essa decisão retrógrada e completamente inaceitável, o presidente Milei oficializou por decreto o retorno da denominação “Dia da Raça” –de que raça ele está falndo?– para o feriado de 12 de outubro, revertendo o nome de “Dia do Respeito à Diversidade Cultural” que vigorava desde 2010.
Enquanto Colón se preparava para sua viagem, em agosto de 1492, Antonio de Nebrija escreveu sua Gramática sobre a língua castelhana que apresentou à rainha Isabel a Católica, principal incentivadora da viagem do genovês. No prólogo, cunhou uma frase célebre: “a língua sempre foi companheira do império”. De fato, o poder político e o idioma evoluem e crescem unidos, assim como, ao mesmo tempo, mostram indícios de possíveis involuções da sabedoria e da cultura.
Se trouxermos hoje à memória o enorme sofrimento que gerou a conquista, as reivindicações consequentes e postergadas dos povos originários e suas tradições que são parte do nosso folclore, é para fazer presente aquilo de que “não se ama o que não se conhece”, dado que as versões eurocêntricas da história ainda hoje fazem desaparecer civilizações inteiras, inclusive aquelas vigentes até as respectivas conquistas “do Oeste”, a Araucânia e o “Deserto”.
Recolher e difundir essas tradições nos permite ser otimistas sobre o futuro do continente. Dada a gravidade da mudança climática e a aguda crise e incerteza que se multiplica no hemisfério norte dominante, e apesar dos pesares de nossos governos latinos e anglosaxões que conseguimos, América, única terra que vai de polo a polo e está rodeada de imensos oceanos, a médio e longo prazo tem o desafio de se tornar novamente em “terra de promissão”. Justamente por isso é que deve recuperar com orgulho seu caráter multiétnico e mestiço por definição, como suas dores, suas lutas e sua riquíssima história milenar.




