Abelardo de la Espriella declarou guerra aos trabalhadores, aos oprimidos e à natureza
Resistência e unidade da classe trabalhadora contra a ofensiva neoliberal e autoritária na Colômbia.
Palestra apresentada por María na atividade de Zoom do dia 16 de setembro
Este governo chega à Colômbia no contexto do novo auge da ultradireita no mundo, Bukele, Milei, Trump e recentemente a vitória regional na Alemanha. O auge da ultradireita é uma realidade e representa a decadência do capitalismo imperialista, e a expressão de setores diante da impossibilidade de que funcionem as alternativas de reformar o capitalismo. Tentam buscar saída apoiando a esses supostos nuncas, outsiders que se apresentam como antissistema, diferentes, que no final acabam sendo os de sempre.
O Governo é ilegítimo
Abelardo de la Espriella (ADLE) é aliado e lacaio de Trump, de Marco Rubio e Netanyahu, impulsiona um projeto autoritário, neoliberal e entreguista e tal como temos dito desde o primeiro dia: seu governo é ilegítimo.
Houve denúncias sérias de fraude e irregularidades no processo eleitoral, não temos confiança na burguesia e suas instituições, no entanto, nossa opinião é que a maior fraude está fora das urnas, e foi realizada por meio do engano, da desinformação, do uso da IA e da ingerência do imperialismo e do sionismo. Diante disso, milhares de ativistas saíram às ruas para rejeitar o triunfo da ultradireita. Mas o Pacto Histórico, com Cepeda à frente, reconheceu rapidamente a derrota, chamou à calma e se preparou para a transição, convocando as pessoas a não se mobilizarem e a colocar suas ilusões em mecanismos da democracia burguesa como a demanda de nulidade perante o Conselho de Estado, e à desobediência civil que na verdade é a resistência individual pacífica. Essa decisão foi um balde de água fria sobre a mobilização e uma desistência de lutar até o fim.
A responsabilidade do progressismo
Mas além da fraude em seus distintos tipos, é preciso encarar de frente a responsabilidade política do próprio Pacto, e a relação inegável que existe entre a chegada da ultradireita a muitos países, em seguida a um governo progressista.
O governo de Petro colocou muitos dos nossos direitos em tinta apagável: reformas pela metade, acordos com setores burgueses, ilusões institucionais que desmobilizaram, defesa de personagens como Laura Sarabia que torturou a empregada doméstica, etc. O descontentamento social profundo que explodiu na Greve Nacional de 2019 e 2021 não foi resolvido. O desemprego real, a precarização, a falta de terra, a violência e a miséria continuaram lá, embora com paliativos. Esse vazio de respostas reais é o que a ultradireita aproveitou.
No entanto, também dissemos que a derrota eleitoral do Pacto Histórico não é a derrota da luta de classes, metade do país vota em Cepeda e, após as eleições, milhares se mobilizaram demonstrando que há reservas e vontade de luta. É a derrota de uma estratégia reformista e de conciliação. Agora enfrentamos um governo que vem para tudo, e isso ficou nítido nos chamados Acordos de Barranquilla com Marco Rubio.
A ofensiva contra a classe trabalhadora é direta e sistemática.
ADLE já revogou 11 resoluções trabalhistas que buscavam proteger jornadas, horas extras e a estabilidade laboral reforçada. Impulsiona um Estatuto do Trabalho às escondidas dos sindicatos, sem nenhum acordo real. Seu plano propõe reduzir o tamanho do Estado em até 40%, o que significa demissões em massa, privatizações e mais precarização.
Não há um plano de emprego digno: há mais exploração. Enquanto isso, as reivindicações mais urgentes da classe continuam adiadas, como estabilidade laboral real, jornada de 36 horas sem perda salarial, estatuto do trabalho sob controle dos trabalhadores e estatização dos serviços públicos.
Suas promessas de “proempresa” e formalização “inteligente” são mais terceirização e mão de obra barata. Na reconstrução do terremoto —um dos eixos dos Acordos de Barranquilla—, o Fondo Milagro e as obras por impostos entregam o negócio a construtores e banqueiros, enquanto os trabalhadores das áreas afetadas ficam como espectadores.
Avança o bonapartismo
O projeto de Abelardo é autoritário, machista, xenófobo, homofóbico e reacionário. Muitos o chamam de fascista, nós consideramos que se trata de uma aprofundamento do regime político bonapartista. O bonapartismo é um conceito que surge a partir da análise da luta de classes na França, que faz Marx, em particular do governo ditatorial de Luís Bonaparte. Em essência, propõe que, em certos momentos históricos, surgem personagens (como Bonaparte) que assumem como árbitros, acima das próprias classes e das instituições tradicionais da democracia burguesa. Costumam ser governos muito autoritários que se apoiam nas instituições repressivas do regime e colocam o poder executivo acima dos outros níveis do poder, até o ponto de dissolvê-los.
Em concreto, promove mão dura, megacárceres estilo Bukele, militarização e o fim de qualquer processo de paz. ADLE foi capaz de começar a bombardear o Catatumbo enquanto no sudoeste as pessoas estavam sob escombros, o que gerou não apenas as conhecidas mortes de menores, deslocamento, mas aumento das baixas de militares. Em um evidente recrudescimento do conflito armado.
Política externa para o saqueo
Em aliança com Trump, reforça a intervenção imperialista e a criminalização de imigrantes. Um dos três eixos dos Acordos de Barranquilla é “blindar o hemisfério”: segurança, luta contra o “narcoterrorismo” e modernização das Forças Armadas com apoio estadunidense. É a continuidade do regime que tem assassinado dirigentes sindicais, sociais e indígenas, agora reforçada com a tutela de Washington.
Isso se soma à incorporação no infame escudo das Américas, que é realmente um projeto de recolonização, que inclui coisas diretamente inconstitucionais como bases e operações militares conjuntas. É preciso insistir na nacionalização dos recursos naturais sob controle de trabalhadores e comunidades, e na rejeição frontal ao extrativismo imperialista.
Além disso, declara-se aliado do Estado de Israel. Prometeu restaurar as relações “como nunca antes”, transferir a embaixada para Jerusalém e se tornar um parceiro armamentista. É cúmplice do genocídio em Gaza. Também é anunciada a implementação da definição IHRA de antissemitismo, com a qual têm processado Zé Maria no Brasil, fazendo com que dizer palestina livre do rio ao mar seja crime.
Guerra contra os oprimidos
Mas a guerra contra os oprimidos também se dirige com especial ferocidade contra as mulheres e as pessoas LGBTI+. Seu discurso de “família, fé e pátria” não é inocente: é a bandeira da ultradireita internacional para atacar direitos sexuais e reprodutivos, para obstaculizar o acesso ao aborto, para cortar programas de gênero e para semear ódio contra as dissidências sexuais. No PGN, o orçamento de saúde sexual e reprodutiva foi reduzido em 97% segundo denunciam alguns grupos feministas.
É um governo que reivindica a ordem heteronormativa e religiosa como modelo de sociedade. Nesse contexto, as mulheres trabalhadoras, as mães chefes de família, as vítimas de violência de gênero e as companheiras LGBTI+ ficam na linha de frente: mais precarização laboral, mais desproteção estatal e um clima de hostilidade que legitima a discriminação e a violência.
A chegada de Abelardo representa uma ameaça concreta para as conquistas democráticas das mulheres e da comunidade LGBTI+. Não é apenas retórica: é a preparação de um retrocesso em direitos que já estamos vendo em outros governos da mesma onda reacionária; e é a legitimação dos feminicídios e dos crimes de ódio, basta ver as redes sociais para perceber o quanto estão encorajados os abelardistas e a forma como justificam a violência
Por isso é urgente a unidade dos de baixo —trabalhadores, camponeses, indígenas, afrodescendentes, mulheres e dissidências sexuais—, não de conciliação.
O ataque à natureza também é aberto e entreguista.
ADLE propõe reiniciar a exploração petrolífera em áreas antes protegidas, impulsionar o fracking e transformar a “mineração organizada” em motor da economia. Os Acordos de Barranquilla o confirmam:
Reconstruir a pátria (reconstrução pós-terremoto com investimento privado e estadunidense).
Recuperar a economia (atrair capital estrangeiro, infraestrutura, energia).
Blindar o hemisfério (segurança militarizada).
Além disso, foram assinados dois memorandos: um sobre minerais críticos e terras raras e outro sobre cooperação nuclear civil. É a entrega aberta de nossos recursos naturais aos Estados Unidos. O Plano Milagre e o “Plano Marshall” para o Chocó são a face local desse saque: negócio para mineradores e petroleiros, mais deslocamento, contaminação e desmatamento para as comunidades.
Todos às ruas para derrotar Abelardo e seu plano
Não basta denunciar ou reclamar nas redes sociais. Sabemos que a mobilização atualmente enfrenta maiores riscos, mas para isso a solução é a massividade e a organização. Não acreditamos que seja necessário se resignar e se preparar para quatro anos de ataques incessantes, que não só nos deixarão com muitos mortos, menos direitos e danos irreversíveis ao meio ambiente. O que se precisa é retomar o caminho da greve nacional, por isso insistimos que fosse realizado um encontro nacional de emergência para votar o plano de ação.
Graças à pressão das bases e regiões, as centrais e o pacto terminaram chamando para o encontro que foi nos dias 11 e 12 de setembro, este não é exatamente o encontro que propusemos, sua convocação e preparação o tornam menos democrático, mas mesmo assim lá se expressou essa necessidade da paralisação e do plano de luta (ver informe dos delegados do PST em https://magazine.pstcolombia.org/2026/09/encuentro-nacional-de-organizaciones-sindicales-y-sociales-frente-amplio-para-elecciones-o-movilizacion-para-derrotar-al-gobierno/).
O encontro se deparou com uma disjuntiva, a política do pacto que se resume na decisão que já tinham tomado, para fazê-la passar como uma conclusão do encontro de constituir uma frente ampla pela vida em chave eleitoral; e a pressão das bases e dos dirigentes regionais de construir a mais ampla unidade de ação por baixo com o objetivo de derrotar o plano de ADLE. A política que nós propomos é independência de classe e mobilização permanente: nem um dia de trégua. Frente dos de baixo, unidade de ação contra todos os que se opuserem a ADLE, mas não frentes com os de cima, com objetivo eleitoral.
A linha do PH é se reorganizar como oposição parlamentar, “acumular forças” para as eleições territoriais de 2027 e eventualmente um novo ciclo eleitoral, mantendo a lógica de negociação e de subordinar a mobilização aos tempos institucionais. Isso desvia a raiva popular para o terreno onde a burguesia e o imperialismo têm todas as chances de ganhar.
A dificuldade de impor essa política expressa o fracasso da conciliação de classes que governou dentro do Estado capitalista e não resolveu os problemas dos trabalhadores. Canalizou o potencial da Greve de 2021 para as urnas e desmobilizou.
O encontro termina votando ambas coisas, a frente ampla e a greve. Em concreto para o 14 de outubro jornada de um dia, e para novembro greve no dia 12 ou no dia 20. A burocracia vai tentar aplicar apenas o primeiro, e diluir a greve em jornadas nacionais de protesto. Nosso trabalho é insistir que a greve nacional deve ser preparada a sério: assembleias de base, comitês de greve democráticos e independentes, pauta unificada, propaganda, e medidas de proteção do movimento.
Mas também temos a tarefa de construir uma alternativa de direção, tanto no terreno político quanto sindical e social, nós impulsionamos a construção do PST como alternativa política da classe trabalhadora, e chamamos a pensarmos formas organizativas que nos permitam superar a barreira que hoje são para as lutas o pacto e as direções burocráticas.
Temos que unificar a luta com os povos da América Latina e do mundo, na Bolívia a política traidora da burocracia levou a suspender a greve sem conseguir quase nada, e hoje o país está em tremenda crise. Por isso, propomos construir a Liga Internacional dos Trabalhadores e a Rede Sindical Internacional como alternativas política e sindical/social.




