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A AfD, a “alternativa” de extrema direita na Alemanha

Phillipe

setembro 24, 2026

1 – Entendendo melhor esse partido

Este é o primeiro de dois artigos que visam aprofundar o conhecimento sobre os meandros de um fenômeno político inédito na Alemanha desde 1945: a rápida ascensão do partido Alternative für Deutschland (AfD, “Alternativa para a Alemanha”). Ele oferece uma apresentação histórica do fenômeno, bem como de seus “valores” e de seu programa político, elementos indispensáveis para compreender suas recentes vitórias eleitorais e a preocupação que ele suscita legitimamente nos círculos progressistas alemães. O artigo a seguir abordará sua trajetória eleitoral, seus sucessos atuais e as razões que fazem da AfD o segundo maior partido em nível nacional e o primeiro em alguns estados federados.

Os primórdios da AfD

O partido foi lançado oficialmente em 14 de abril de 2013, em Berlim. Trata-se de uma espécie de “OVNI” — pelo menos no contexto alemão — que surgiu no cenário político após décadas de estabilidade política democrático-burguesa dominada pelos conservadores da CDU e pelos social-democratas do SPD.  Vale lembrar o contexto.

2013: o surgimento de um “OVNI”

O nascimento desse partido não é obra do movimento neonazista, mas de figuras conservadoras em desacordo com a política europeia e de imigração de Angela Merkel. Já em 2012, Bernd Lucke (economista da Universidade de Hamburgo, que rompeu com a CDU desde 2011), Konrad Adam (ex-jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung) e Alexander Gauland (político que deixou a CDU em 2013 após ter atuado como ministro federal do Meio Ambiente e, posteriormente, do Interior no governo de Helmut Kohl, bem como no estado de Hesse). Essas pessoas anunciaram, em 2012, o lançamento de um partido democrático e anti-euro: o objetivo era, para elas, acabar com a moeda única, a fim de formar blocos de países menores, porém mais homogêneos. O que se delineia, então, é um partido burguês de caráter nacionalista e soberanista (inicialmente anti-euro, depois anti-UE) e anti-imigração. Ele não é classificado como de extrema direita e, por si só, se distancia deliberadamente dos neonazistas (o NPD, em particular)[i] . Nesse momento, a AfD é, portanto, um partido fundado por políticos. No entanto, a Alemanha apresenta uma tendência soberanista histórica, favorável ao distanciamento em relação ao Ocidente (Europa, Estados Unidos) e à aproximação com o Oriente (a Rússia, em particular). Desde 1945, essa tendência era extremamente minoritária na burguesia e na esfera política — o apego à construção europeia, ligado às perspectivas de lucros a longo prazo, revelou-se, aliás, mais forte na Alemanha do que em outros lugares —, mas mesmo durante esse longo período, um social-democrata convicto como o chanceler Willy Brandt lançou a Ostpolitik, em busca de uma aproximação com a Alemanha Oriental e o Bloco Soviético. Esse contexto global começou a mudar em 2013. Seis meses depois, o lançamento da AfD foi bastante bem-sucedido: o partido por pouco não conseguiu entrar no Bundestag em setembro de 2013, obtendo 4,7% dos votos.

A virada de 2015

Em 2015, as pesquisas mostravam que a AfD estagnava em 3% das intenções de voto.[ii] Em 31 de agosto de 2015, diante do afluxo maciço de refugiadas e refugiados (principalmente da Síria), a chanceler Angela Merkel abriu as fronteiras e declarou: “Wir schaffen das” (“Nós vamos conseguir” – integrar todas essas pessoas). Cerca de um milhão de requerentes de asilo foram registrados na Alemanha ao longo do ano de 2015. Essa decisão divide profundamente a sociedade e serve de catalisador: todos aqueles que são , xenófobos ou racistas, é claro; mas também os desempregados, as pessoas que temem perder seus empregos etc., se opõem à decisão de Merkel e passam a engrossar as sucessivas ondas de filiados e eleitores da AfD. Em seu congresso em Essen, em junho do mesmo ano, o partido se divide: Bernd Lucke, o fundador considerado moderado demais, é afastado, e muitos se retiram, de acordo com a vontade de figuras claramente situadas na extrema direita, a começar por Björn Höcke. A ala nacionalista e identitária assume as rédeas do partido. Mas é incorreto afirmar que todos os membros fundadores se retiraram. O cofundador Alexander Gauland, por exemplo, permanece e se destaca em 2018 ao qualificar o “passado nazista da Alemanha como ‘apenas uma mancha de fezes de pássaro’ na história do país”. Minimizar dessa forma as atrocidades do regime hitlerista é repugnante e causa grande comoção no país[iii] .

A nova liderança percebe que tem um papel importante a desempenhar e dá uma guinada histórica, transformando a AfD em uma força populista e nacionalista em processo de radicalização. Os movimentos antimigrantes se multiplicam, enquanto a AfD instrumentaliza os medos, desenvolvendo uma ideologia e posições identitárias. Sob a liderança dos extremistas, o partido instrumentaliza três sentimentos que conhecemos bem e que geralmente nos são apresentados como intimamente ligados: a inquietação coletiva (especialmente diante do futuro econômico), a rejeição ao islamismo (desconhecido pela imensa maioria da população) e o sentimento de insegurança (que nos fazem perceber como ligado à imigração e ao islamismo). A AfD concebe e repete seu grito de guerra: “Merkel muss weg” (“Merkel tem que sair”).

Infelizmente, as posições da AfD vão agradar a uma parte — cada vez maior — da população alemã que se opõe à política de asilo de Merkel, especialmente na antiga RDA. Isso terá dois tipos de consequências a longo prazo: a AfD, que já vem se radicalizando desde 2015, torna-se o principal componente da extrema direita alemã; aproveitando-se da rejeição à política migratória, ela consegue um avanço eleitoral e se estabelece de forma duradoura no cenário político. Mas, então, surgem três perguntas: 1) A AfD é (apenas) um aglomerado de fascistas e nostálgicos do Terceiro Reich? 2) Quais são os principais elementos de seu programa? 3) Quais são suas principais correntes e quem ocupa a direção? Depois disso, poderemos observar melhor a espetacular evolução eleitoral desse partido e tentar compreender o que leva amplos setores das massas populares a votar nele.

AfD e neonazistas

Os laços entre a AfD e o movimento neonazista se multiplicaram logo após 2013. A AfD rejeita o rótulo de “neonazista” para si mesma. Não é de se admirar, já que aceitá-lo levaria a uma decisão de proibição por parte do Tribunal Constitucional. No entanto, a AfD é, de fato, um partido de extrema direita e, aliás, mais à direita do que a maioria dos partidos de extrema direita europeus (incluindo o RN). Suas numerosas relações com o movimento neonazista são de diversos tipos.

Primeiro tipo de laços: por meio dos dirigentes da AfD. No aparato interno do partido e entre os candidatos às eleições, encontram-se pessoas provenientes diretamente da extrema direita radical. Limitando-nos à eleição de Saxônia-Anhalt de 6 de setembro de 2026, a AfD elegeu, entre seus deputados regionais[iv] , Laurens Nothdurft, ex-dirigente da HDJ (Heimattreue Deutsche Jugend, ou Juventude Alemã Fiel à Pátria), uma organização juvenil neonazista proibida pelo Ministério do Interior em 2009. Nothdurft se reintegrou nas estruturas regionais da AfD antes de ser eleito “prefeito voluntário” de um bairro da cidade de Dessau-Rosslau. Dois outros eleitos em 6 de setembro, Simon Lansmann e Sebastian Koch, foram alvo de investigações e buscas no final de agosto de 2026, um processo conduzido pelo Ministério Público de Halle, que suspeita da continuidade das atividades do grupo extremista Artgemeinschaft (neonazista, antissemita, anticristão, neopagão e nacionalista étnico), proibido desde setembro de 2023. Foram encontradas armas na residência de Sebastian Koch, mas os eleitos rejeitaram as acusações e se distanciaram da ideologia da Artgemeinschaft.

Segundo tipo de ligações: esse partido está se radicalizando ideologicamente e conta com líderes que fazem “alusões” ao nacional-socialismo. Observou-se com frequência o recurso da ala mais radical do partido — conhecida como Der Flügel (“A Ala”) — à retórica e aos códigos do nacional-socialismo. Um dos indivíduos mais extremistas do partido, Björn Höcke, é nada menos que um dos dois presidentes da AfD na Turíngia e presidente de seu grupo parlamentar regional desde 2014. Ele é uma figura de proa. Esse indivíduo sinistro, que gosta de fazer uso de elementos de linguagem próprios do nacional-socialismo, foi condenado pela justiça após ter empregado deliberadamente um slogan da SA (as seções de assalto nazistas): “Tudo pela Alemanha”. Höcke também não hesita em qualificar o memorial do Holocausto em Berlim de “memorial da vergonha” e exigir uma “mudança de 180 graus” na cultura da memória do país diante das monstruosidades do Terceiro Reich. Ou seja, caminhar rumo à reabilitação do nazismo!

Terceiro tipo de vínculos: uma colaboração ativa com movimentos identitários e extraparlamentares radicais. Isso vale, em especial, para o PEGIDA, movimento de rua populista, racista e islamofóbico nascido em Dresden em 2014, cujo nome, Patriotische Europäer Gegen die Islamisierung Des Abendlandes, traduz-se como “Patriotas europeus contra a islamização do Ocidente”. A AfD também coopera com os teóricos da Neue Rechte (“Nova Direita”). Por fim, o veículo de mídia investigativa Correctiv revelou discussões secretas em Potsdam entre membros da AfD, neonazistas e líderes do Movimento Identitário Alemão: o objetivo era planejar a “remigração” (expulsando não apenas estrangeiros, mas também cidadãos alemães de origem estrangeira)[v] .

A AfD, sua natureza e sua liderança

Será que, então, podemos classificar a AfD como neonazista? Oficialmente, ela é catalogada como uma formação de extrema direita e nacional-populista. Mas o partido está sob vigilância do Escritório Federal de Proteção da Constituição (o BfV). Este órgão classificou oficialmente várias seções regionais do partido, notadamente na Turíngia (o estado de Björn Höcke) e na Saxônia-Anhalt (o estado conquistado pela AfD em 6 de setembro), como “extremistas de direita comprovados”. E a AfD está sob vigilância como “caso suspeito” em nível nacional. O que é certo é seu processo de guinada à direita, ocorrido logo após sua fundação e que se prolongou posteriormente, e o fato de que uma ala do partido e alguns de seus dirigentes não escondem suas simpatias neonazistas. E, dentro do partido, os membros mais radicais da AfD tornaram-se absolutamente dominantes. É isso que faz dela o partido de extrema direita mais próximo do fascismo na Europa, um partido particularmente perigoso, portanto.

A AfD é inaceitável, e na Alemanha quase nenhum partido aceita colaborar com ela – voltaremos a essa exceção no próximo artigo. Em outros lugares, os diversos partidos de esquerda, é claro, mas também políticos de direita, como na França, declaram se afastar totalmente dela. Bruno Le Maire, por exemplo, vê nela “um partido objetivamente, autenticamente e abertamente neonazista”; até mesmo o RN não é mais seu aliado no Parlamento Europeu e a rejeita, devido às suas posições sobre o passado nazista alemão e às suas ligações com grupos neonazistas assumidos.

O último congresso da AfD e sua atual liderança

Ainda se percebem correntes na AfD, que nada mais são do que agrupamentos em torno de diversas figuras. Mas, ao contrário do período de 2013 a 2015, o domínio da ala nacional-populista radical é hoje quase total.  

Nos dias 4 e 5 de julho passado, em Erfurt (Turíngia), o congresso do partido reelegeu por ampla maioria a dupla Alice Weidel – Tino Chrupalla (com 81% e 70% dos votos, respectivamente), que lideram a AfD há quatro anos como copresidentes. O local do congresso, aliás, gerou polêmica, pois coincidiu com o centésimo aniversário de uma manifestação do partido nazista realizada nas proximidades, que havia reforçado o domínio de Hitler sobre o NSDAP. Enquanto historiadores e antifascistas não têm dificuldade em reconhecer nisso um forte significado simbólico – o que contribuiu para levar dezenas de milhares de manifestantes às ruas de Erfurt –, a AfD nega isso[vi] . Essa dupla de liderança visa, na verdade, conciliar duas correntes do partido.

Alice Weidel tem um perfil enraizado no oeste da Alemanha; ela representa uma corrente tecnocrática e gerencial que aspira a exibir uma aparência de respeitabilidade burguesa para atrair as classes médias e os setores empresariais. Weidel e sua corrente atacam duramente os migrantes, ao mesmo tempo em que buscam apoio ocidental e se valem do movimento MAGA, no qual Trump se apoia. Parece que ela consolidou seu poder no partido e seu domínio sobre o comitê executivo federal no congresso de Erfurt. Tino Chrupalla encarna a corrente chamada “eurasiática”, também sob a influência de Björn Höcke. Essa corrente, enraizada nos redutos da AfD na antiga RDA, é, na verdade, sua locomotiva ideológica e eleitoral, e defende uma postura mais dura, falsamente anticapitalista em certos pontos, como os fascistas convictos sabem tão bem fazer.

FN/RN e AfD: duas dinâmicas opostas

Talvez valha a pena traçar um paralelo o mais completo possível entre a trajetória do RN francês e a da AfD. Aqui, limitemo-nos a duas observações. Em primeiro lugar, observemos o crescimento muito mais rápido da AfD em comparação com o do RN. Este último surgiu em 1972 sob o nome de Frente Nacional (FN) e começou a ganhar destaque na mídia em 1983; já a AfD tem apenas 13 anos de existência.

Além disso, em seus primórdios e por muito tempo, o FN não tinha medo de exibir seus fundadores, ex-membros da Waffen SS, ou mesmo o torturador da Argélia francesa, o próprio Jean-Marie Le Pen. As horríveis declarações proferidas por este último não impediram o FN de avançar eleitoralmente, mas sua filha, Marine, compreendeu que havia um teto de vidro e que o partido nunca governaria enquanto seu pai continuasse a divagar contra os judeus ou a fazer piadas sobre os campos de extermínio nazistas. Assim, em 2015, ela o expulsou do partido, que logo passou a se chamar RN. E a estratégia de banalização funcionou bem: hoje o RN parece “menos extremista” e “menos perigoso” que a LFI (da esquerda reformista); o partido foi normalizado e parece respeitável; além disso, é cortejado pelo Medef (a organização dos grandes empresários), que espera vê-lo chegar ao poder, como indicam todas as pesquisas atuais.

Na Alemanha, a AfD começou como um partido com futuro incerto; soberanista, mas não extremista. Após os eventos de 2015, ele se radicalizou e passou a adotar um número crescente de atributos ideológicos, simbólicos e políticos da extrema direita. E na Alemanha, como se vê, é isso que funciona! Mais precisamente, é isso que agrada a uma parcela muito ampla (e crescente) do eleitorado na Alemanha Oriental e a uma parcela menor, mas também em rápido crescimento, no Ocidente.

Programa e “valores” do partido

Racismo, xenofobia e islamofobia

O racismo, a xenofobia e a islamofobia, abjeções intimamente ligadas entre si, são onipresentes na AfD. A xenofobia e a rejeição à imigração chegam, por vezes, ao extremo da ignomínia. Assim, Christian Lüth, que foi porta-voz no Bundestag – portanto, também não um militante de base –, foi expulso da AfD em 2020 após ter sido filmado às escondidas por uma equipe de televisão. Ele sugeria, entre outras coisas, “gaseificar” ou “abater” os migrantes![vii] Lüth foi demitido pela direção do partido. Mas estávamos em 2020, e naquela época a direção, menos forte do que hoje, talvez ainda quisesse esconder os piores aspectos dessa miscelânea política; e talvez isso a obrigasse a evitar causar muito alvoroço. Mas ainda ouvimos declarações do mesmo tipo na AfD…

No que diz respeito especificamente à islamofobia, lemos no manifesto político da AfD que “o Islã não pertence à Alemanha”. Considerando que os preceitos do Islã são incompatíveis com a Constituição alemã e os valores ocidentais, o partido quer tornar a vida impossível para os muçulmanos e humilhá-los por meio de diversas medidas: proibição do uso do véu (por menores de idade e no serviço público); proibição da chamada para a oração; proibição da construção de minaretes; proibição do abate halal… A AfD instrumentaliza as lutas contra as opressões para desviar a raiva para o Islã. Fala-se, aliás, de “islamofobia de gênero” em relação à AfD, que tende a destacar a defesa dos direitos das mulheres ou das minorias sexuais para atacar o Islã… que, por si só, oprimiria as mulheres e as pessoas LGBTQI+, como é bem sabido!!! Observa-se também que membros da AfD proferem verdadeiras declarações antissemitas, mas isso não impede o partido de denunciar o “antissemitismo importado” (pelos muçulmanos, é claro).

Ultranacionalismo

Racismo, xenofobia e islamofobia se articulam e se encaixam perfeitamente, e andam de mãos dadas com o ultranacionalismo da AfD, que  se baseia, em particular, em delírios semelhantes aos do “grande substituto”, representados na França por Éric Zemmour — ou seja, a ideia de que os franceses e francesas de origem estão sendo substituídos no país por migrantes do Norte da África e da África Subsaariana e que isso constitui uma ameaça existencial para a população francesa. Na Alemanha, a AfD promove teses do mesmo tipo, abertamente etnocêntricas. Assim, Maximilian Krah, cabeça de chapa nas eleições europeias de 2024, utilizou o termo “Umvolkung” (a ideia de assimilação forçada ou de uma substituição étnica), um conceito próximo da terminologia nazista. Diante disso, a AfD elaborou sua solução ignóbil da “remigração”, com projetos para expulsar do país milhões de pessoas com histórico migratório, sejam estrangeiras ou alemãs naturalizadas. A AfD combina, no que diz respeito à “remigração”, reuniões clandestinas e menções a ela em documentos oficiais do partido.

Mas, é claro, a AfD tem uma definição puramente étnica da nação e do povo alemão (o “Völkisch”). É com base nessa visão limitada que a AfD não considera os cidadãos e cidadãs alemães descendentes de imigrantes (milhões de pessoas) como “verdadeiros” alemães. O sacrossanto povo alemão-verdadeiro-de-verdadeiro, por outro lado, precisa ser “mimado”, principalmente reservando-lhe os subsídios para ter filhos e repovoar a Alemanha com verdadeiros alemães.

Conservadorismo moral

Comecemos pela questão LGBTQIA+. É importante saber que Alice Weidel, copresidente federal da AfD e presidente de seu grupo parlamentar no Bundestag (sem dúvida a principal figura pública do partido), é uma lésbica assumida. Ela mora com sua companheira, uma mulher do Sri Lanka, com quem cria dois filhos. Uma mulher do Sri Lanka… ela não estaria ameaçada pela “remigração” defendida pelo partido “ ”? Na verdade, não: ela mora na Suíça, onde Alice Weidel passa grande parte do tempo na companhia dela! Mas o contraste entre a vida da líder e as posições defendidas por seu partido é impressionante! Defendendo a família tradicional, o partido se opõe ao casamento homossexual e à adoção por casais do mesmo sexo. A AfD combate a “ideologia de gênero”, rejeita as teorias queer e exige a proibição da bandeira arco-íris nas instituições de ensino. Muitos deduzem dessa discrepância que o perfil pessoal de Alice Weidel serve como álibi, ou como “escudo”, para o partido se livrar das acusações de homofobia, transfobia etc. Isso parece altamente provável.

No que diz respeito à questão das mulheres, o antifeminismo da AfD é assumido, e o partido também promove o modelo familiar heteronormativo e tradicionalista[viii] . O programa rejeita as políticas de igualdade: oposição à paridade, às cotas para mulheres na política ou nas empresas; oposição à integração das questões de gênero nas políticas públicas; exigência da substituição das delegadas de igualdade por delegadas da família… A AfD também defende uma política natalista e quer implementar incentivos financeiros reservados às famílias “de origem” para combater a queda da natalidade; ela também reivindica empréstimos para casamento ou moradias subsidiadas. Para a AfD, o papel da mulher é explicitamente o lar e a maternidade… e que se dane a vida profissional! O partido é hostil ao aborto e defende uma restrição ao direito à interrupção voluntária da gravidez, em nome da “proteção da vida”. Também na questão dos direitos das mulheres, nota-se um abismo em relação ao que são as dirigentes de alto escalão do partido. Alice Weidel reúne as características mencionadas acima, mas também teve seus filhos por inseminação artificial; é uma ex-executiva de um banco internacional; e fala mandarim… Não é exatamente uma dona de casa! Já Beatrix von Storch, deputada e figura influente da ala cristã de direita da AfD, uma jurista de origem nobre, defende a linha antiaborto e anti-LGBTQIA+ e critica o feminismo no Bundestag.

Eurofobia

Com a AfD, falou-se frequentemente de euroceticismo. Esse termo podia ser adequado no início. Mas, como suas posições se baseiam no soberanismo e no nacionalismo, hoje é mais correto falar de eurofobia. A oposição ao euro e a rejeição aos planos de “resgate financeiro” da Grécia serviram de impulso para a criação da AfD. Mas, após 2015 e a radicalização do partido, a rejeição ao euro transformou-se em uma rejeição a toda a UE e às instituições de Bruxelas, vistas como uma ameaça à soberania e à identidade da Alemanha. Hoje, a AfD busca uma ruptura com a UE: ela ameaça com o “dexit” (saída da Alemanha da UE), enquanto outros dirigentes propõem ora a dissolução, ora uma reformulação radical da UE. No âmbito monetário, pelo menos, a AfD defende o retorno ao marco alemão ou a moedas nacionais regionais, convencida de que o euro é prejudicial para a economia alemã. Por fim, a AfD sempre rejeita os orçamentos plurianuais da UE, seus planos de recuperação econômica comuns, suas políticas ambientais e, é claro, suas políticas migratórias. Tudo isso é, naturalmente, ditado pela natureza soberanista e nacionalista desse partido, que quer afastar a Alemanha de seus vizinhos e parceiros europeus… mas para se voltar para o leste!

“Putinofilia”

Pois, embora a AfD seja eurofóbica, ela também é “putinófila”! Esse partido e Putin são ideologicamente próximos, mas suas visões também coincidem em questões econômicas e geopolíticas. A AfD gosta de Putin, e isso não é novidade! A cumplicidade entre eles se baseia em vários pilares. A oposição comum à ajuda militar e financeira concedida à Ucrânia. Tanto Putin quanto a AfD são antiliberais, e o ambiente conservador, tradicionalista e autoritário da Rússia de Putin encontra ressonância no nacionalismo identitário da AfD. É preciso acrescentar que a maior parte da base eleitoral da AfD está localizada na Alemanha Oriental e mantém, ao mesmo tempo, uma simpatia histórica por Moscou e uma rejeição aos Estados Unidos. Isso sem dúvida teve peso na época de Biden; com Trump, ainda é preciso ver.

No último dia 18 de setembro, revelações confiáveis indicam que a AfD se prepara para negociar diretamente com um colaborador próximo a Putin para restabelecer o abastecimento alemão de gás russo[ix] . A AfD apresenta isso como uma medida pragmática para restaurar a prosperidade alemã graças ao gás russo barato, ao mesmo tempo em que critica a inércia do governo diante do aumento dos preços. Em troca, antes de iniciar as discussões, Putin exige a paz entre a Ucrânia e a Rússia – uma Ucrânia que Putin não para de bombardear! –, enquanto a AfD também pede a reabertura do gasoduto Nord Stream.

Negação das mudanças climáticas antropogênicas

A extrema direita nega em toda parte a ciência climática e/ou trata mal o clima com suas ações. A AfD também: ela não nega que o clima esteja se aquecendo, mas rejeita a natureza antropogênica do fenômeno. Retomemos o que escrevemos no início do ano[x] . A contestação da crise climática e de sua origem humana, pouco divulgada pela mídia, tem pouco eco além do Reno… Mas grande parte da turma climato-tóxica, reunida na AfD, nega alegremente os fatos comprovados. Em sua plataforma para as eleições europeias de 2024, a AfD ousa alegar que nenhuma evidência científica comprova a existência de um risco de mudança climática. Já em 2020, lia-se no site “Klimafragen.org”, ligado à AfD, esta passagem: “Sob o pretexto de uma suposta crise climática, querem aprovar novas leis que nos ditam como devemos viver, que terão consequências negativas para o meio ambiente e que poderiam levar à desindustrialização da Alemanha”. O Instituto Eike, apoiado nos Estados Unidos pelo poderoso Heartland Institute, tem como vice-presidente um membro da AfD que defende a saída da Alemanha do Acordo de Paris. A AfD alega defender a indústria alemã, opondo-se à eficiência energética da indústria e alegando que as preocupações ecológicas e climáticas a enfraquecem. Os extremistas do partido insultam os ambientalistas, e Greta Thunberg tem sido alvo de grande parte desse ódio. A AfD defende o uso do diesel e acusa de “delírio ambientalista” aqueles que se opõem a essa ideia. A política climática é vista como “histeria”.


[i] O NPD – Nationaldemokratische Partei Deutschlands (ou Partido Nacional-Democrático da Alemanha), que hoje se chama Die Heimat (A Pátria), é um partido neonazista e ultranacionalista, com ideias racistas, antissemitas e revisionistas, fundado em 1964 por diversos nostálgicos do TerceiroReich. Depois de ter se beneficiado — assim como toda a extrema direita — dos efeitos da Reunificação, o NPD desenvolveu laços com os skinheads neonazistas mais violentos, o que não o impediu de entrar no Parlamento Europeu em 2014.

[ii] https://www.24heures.ch/allemagne-lafd-radicalisee-depuis-la-crise-migratoire-de-2015-585116675162

[iii] https://revue.alarmer.org/extreme-droite-et-democratie-2-afd-droite-radicale-en-allemagne/

[iv] Veja, em particular, https://www.humanite.fr/monde/afd/neonazis-acteur-porno-ancien-de-la-stasi-apres-sa-victoire-lafd-devoile-ses-nouveaux-deputes

[v] https://shs.cairn.info/revue-allemagne-d-aujourd-hui-2024-1-page-25?lang=fr

[vi] https://lactualite.com/actualites/le-parti-dextreme-droite-alternative-pour-lallemagne-reelit-ses-dirigeants/

[vii] https://www.dw.com/fr/racisme-un-cadre-de-lafd-exclu-du-parti/a-55095349

[viii] https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/02633957261462043

[ix] https://www.boursorama.com/bourse/actualites-amp/selon-certaines-sources-l-emissaire-de-poutine-et-le-parti-d-extreme-droite-afd-preparent-des-negociations-visant-a-retablir-l-approvisionnement-de-l-allemagne-en-gaz-russe-b032bb56ce4612d967099acd18b82b31

[x] https://enlutte.com/2025/12/12/les-domaines-de-consensus-a-lextreme-droite/

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